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Livros, livros e mais livros! Vou tentar deixar neste meu canto virtual um livro interessante todos os dias.

 

Pronto: todos os dias é capaz de ser difícil. Mas tentarei sempre que possível.

 

Ora, hoje levanto-me, aproximo-me das estantes e encontro The Looming Tower: Al-Qaeda’s Road to 9/11, de Lawrence Wright (2006).

 

Em português, A Torre do Desassossego.

 

Confesso: ainda não acabei de ler esta obra gigantesca (desarrumo tantos os livros, que às vezes perco de vista obras que estou a ler…). Mas li o suficiente para saber que Wright nos explica a história dum certo tipo de fundamentalismo islâmico, aquele que nos deu a Al-Qaeda — e viria a dar origem ao Daesh, embora isso já seja história mais recente.

 

É interessante saber que a Al-Qaeda teve o seu início numa pacata cidade universitária norte-americana.

 

Não, não estou a defender uma das muitas e absurdas teorias da conspiração, que põem nas mãos do governo dos EUA a invenção dos seus inimigos.

 

O que se passa é que alguns dos intelectuais do wahhabismo (a corrente fundamentalista que deu origem ao terrorismo que nos anda a atacar) estudaram na América. No entanto, longe de estarem ao serviço dessa América, esses intelectuais aprenderam a desprezá-la por verem nela um ninho de decadência, perversão e mistura pouco saudável entre homens e mulheres.

 

Pelo que já li, o livro é um feito incomum de investigação profunda e narração inspirada. O autor explica o percurso intelectual e político da Al-Qaeda de forma detalhada, iluminando certos aspectos do nosso mundo muito para lá da história duma organização terrorista específica. Os bons livros são assim: vão além do tema principal; ou melhor, usam esse tema para mostrar o mundo doutra maneira.

 

Um pormenor: a certa altura, percebemos como muito do desprezo dos radicais islâmicos pelo Ocidente (e também pelos sectores menos radicais das suas próprias sociedades) se liga à sua aversão ao sexo fora das rigorosas margens religiosas. O Ocidente seria, na mente deles, obcecado pelo sexo, e por isso decadente e por isso desprezível. Curiosamente, também percebemos como há muito de tensão interior nesse desprezo pelos prazeres da carne. A obsessão também está no coração de muitos deles, mas reprimida até se transformar em pureza.

 

Esta obsessão pela pureza (sexual e não só) é sintoma de muito totalitarismo e muito fanatismo. Diria mesmo que «pureza» é das palavras mais perigosas do mundo. Olhem para as fotos de Osama bin Laden: o seu ar é, muitas vezes, beatífico. A sua fama era de pureza e santidade. E aí reside, muitas vezes, o mal do mundo: na necessidade de limpeza (sexual, étnica, religiosa…), na necessidade de purificação da alma, nem que seja com sangue. Muito sangue.

 

Livro do dia: The Looming Tower. Lawrence Wright (2006) [Amazon].

publicado às 11:20

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A violência é horrível: ouvir as histórias de quem recebeu chamadas do filho de dentro da discoteca de Orlando — antes mesmo de morrer… Ouvir as histórias de quem entrou na discoteca cheia de mortos e ouviu os telemóveis a tocar, em desespero, à espera que aquela pessoa particular atendesse — enquanto esse seu filho ou amigo estava ali morto, no meio da pista…

 

Tudo por causa do ódio a pessoas que beijam quem não devem.

 

Reparem no tipo de vítimas destes energúmenos:

  • Meninas que vão à escola para aprender (Nigéria).
  • Humoristas a fazer piadas que irritam gente séria (Paris).
  • Gente a trabalhar para o bronze na praia (Tunísia).
  • Pessoal a ouvir um concerto ou a rir numa esplanada do café (Paris).
  • Famílias na fila do check-in para ir de férias (Bruxelas).
  • Gays a divertirem-se numa discoteca (Orlando).

 

Estão a ver o padrão? Gente que aprende, que ri, que ouve música, que vai de férias, que ama — e tenta ser um pouco feliz no dia-a-dia. Nós todos, no fundo.

 

Esses tarados miseráveis invejam a felicidade alheia, odeiam a liberdade e não podem com o prazer dos outros. E acham-nos a todos uns depravados, que pomos meninas na escola, dançamos na discoteca, aceitamos que cada um ame quem quiser, despimo-nos na praia, ouvimos música em Paris…

 

Isto é um ataque a todos nós. Todos nós, que amamos a liberdade simples de fazer o que entendemos sem prejudicar os outros, todos nós somos inimigos, infiéis, depravados.

 

Por isso, sim, também precisamos de mostrar que gostamos de viver numa sociedade onde todos vivem como bem entendem e com quem entendem. Não é tão fácil como parece, mas lá vamos conseguindo. Temos de mostrar que é possível viver assim, em sociedades abertas — e isto é possível no mundo inteiro, não é exclusivo nosso. Isso é o que irrita mais os fanáticos: perceber que é possível viver assim, sem medo das suas ideias tremendas. Custa-lhes perceber que em todo o mundo há esta vontade de ser simplesmente livre e não andar a toque dos tarados.

 

E temos de ficar um pouco felizes e comovidos que, mesmo assim, ainda haja tanta gente que se une quando alguém é atacado só porque está a viver a sua vida — hoje somos todos como eles. Sim, somos todos Charlie, estamos todos no Bataclan, somos todos gays de Orlando e somos todos meninas da Nigéria — todos vítimas desses cabrões de brilhantes ideias.

 

O que vale é que somos muitos e ninguém vai parar de dançar, de rir, de ir ao café, de se despir na praia, de ouvir música alta e amar sempre que quisermos, com quem quisermos, como quisermos — só porque isso irrita um qualquer beato incapaz de lidar com o facto de ter visto dois homens aos beijos.

 

Habituem-se, que o mundo nunca será como vocês querem.

 

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  1. Incerteza. Os terroristas odeiam as dúvidas. Quem duvida é já um inimigo. Não há lugar para hesitações, para discussões, para conversas. O que importa é acreditar, sem desvios e acima de tudo sem dúvidas. Odeiam ainda mais a incerteza: às vezes, não sabemos o que fazer, o que dizer, como viver. A incerteza é própria das sociedades que eles consideram decadentes, inundadas de pecado, de ideias diferentes, de vidas diferentes, de discussão daquilo que não deve ser discutido. Quem está com um refém de joelhos à frente, pronto a decapitá-lo, não tem dúvidas e odeia a incerteza que o impediria de fazer aquilo que vai fazer.
  2. Ambiguidade. Sim, às vezes, nas nossas sociedades complexas, deixamos coisas por dizer, ou somos amigos de pessoas com as quais não podíamos concordar menos, ou aceitamos entrar em templos de outras religões ou discutir certos assuntos com quem não tem nada a ver connosco. Às vezes, acreditamos de forma ambígua ou vamos mudando de opinião ao longo da vida. Por vezes, usamos histórias de forma metafórica, outras vezes não temos a certeza do que dizemos — e por aí fora. Não vem mal ao mundo por isso: aliás, se excluirmos a ambiguidade do mundo, ficamos com pessoas de mente formatada, prontas a matar para acabar com com a ambiguidade do mundo. Os terroristas odeiam quem aceita esta ambiguidade.
  3. Liberdade. Qual liberdade, qual carapuça: para um terrorista religioso, o que importa é a submissão a limitadas regras, que definem para sempre como há-de ser a vida de todos nós. Sim, temos uma vaga liberdade filosófica, em que podemos escolher seguir Deus ou arriscar a perdição. Tudo o resto é libertinagem. Para a mente  extremista, o valor que algumas sociedades dão à liberdade é prova do desconcerto do mundo. Mais do que liberdade, o que importa é submeter-nos ao exacto Deus em que os terroristas acreditam. Sem ambiguidades e sem dúvidas.
  4. Modernidade. As ideias dos terroristas são, por vezes, muito recentes. O actual terrorismo islâmico está muito relacionado com a força económica dos uaabistas, uma minoria religiosa da Arábia Saudita com uma interpretação do Islão muito radical e violenta, alimentada pela sede de petróleo do mundo. São, por isso, modernos, no sentido cronológico. Mas como todos os extremistas de todas as religiões, a sua ideologia implica umregresso às origens (muitas vezes a um mundo mitificado, que nunca existiu) e uma recusa quase total do mundo moderno. Para os terroristas, o mundo moderno (que eles chamam ocidental para melhor o poderem atacar e denegrir dentro das suas próprias sociedades) está irremediavelmente perdido, com as suas ideias de democracia, respeito por todos os seres humanos, liberdade, igualdade e outros valores que fazem tanto sentido na cabeça dum terrorista como a nós a ideia de matar para impor uma determinada crença.
  5. Humanidade. Sim, para os terroristas a humanidade é um valor secundário. Para os terroristas, o importante é Deus, a sua comunidade estrita dos seguidores de Deus e a sua tribo — nunca a humanidade inteira e muito menos cada um dos seres humanos. Os terroristas são literalmentebárbaros: sabem, racionalmente, que as suas vítimas são seres humanos, mas tratam-nos como animais, como se não sentissem, não tivessem direitos, não fossem, no fundo, iguais a eles. Nós próprios temos tendência para jogar o mesmo jogo: a partir do momento em que uma pessoa se torna terrorista, deixa de ser (na nossa cabeça) um ser humano — e tornamo-nos todos um pouco mais bárbaros. No entanto, o terrorista é também humano. Esta tendência para o tribalismo, para o simplismo bruto que nos faz matar (com alegria) quem não acredita no mesmo Deus — tudo isto faz parte da história da nossa espécie desde sempre. Por isso, convém proteger esta modernidade de tão má fama, que nos vai ajudando a controlar os nossos instintos, enfeitados de pura ideologia radical, tornando-nos um pouco mais humanos, mais tolerantes para com a ambiguidade, mais preparados para viver na incerteza e com menos medo da liberdade dos outros.

Este texto foi publicado anteriormente aqui.

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Sim, é verdade: somos todos muito impuros. Dizemos o que queremos, zangamo-nos uns com os outros, até nos insultamos. Gostamos de blasfemar (paciência). Vivemos entre gente que faz sexo como não deve, também: antes do casamento (ui), entre gente do mesmo sexo (ui, ui) e tudo isso. Há quem não goste, mas não anda a matar por causa disso. Sim, somos gente que peca a torto e a direito e se arrepende (ou faz pior no dia seguinte). Que horror, não é? Sim, vivemos em decadência, se quiseres. Acreditamos numas coisas num dia, noutras no dia seguinte. É uma tristeza. Misturamo-nos uns com os outros. Viajamos. Ouvimos música. Tentamos divertir-nos e ser um pouco felizes.

 

Agora, a novidade: não somos os Outros. Não se trata duma guerra entre muçulmanos e ocidentais: isso querias tu, mas tu não percebes nada de nada. Na verdade, nós estamos em todo o lado. Somos a gente normal que vive em todo o mundo, na Europa, nos países muçulmanos, nos países de outras religiões, nos países sem religião nenhuma: crianças e adultos que tentam viver o melhor possível.

 

Sim, ouviste bem. Somos os teus inimigos e estamos em todo o lado: seres humanos normais, cheios de defeitos, que duvidam e hesitam e não se explodem entre pessoas que não fizeram mal nenhum.

 

Tu és do restrito clube dos doidos varridos, dos iluminados, dos tarados da pureza, daqueles que dão mais valor a Deus do que à fraca carne humana, que vivem infectados com uma ideia muito pura, muito linda e tão, mas tão errada. Tu queres o mundo perfeito agora e já, nem que seja à força da bomba. Estás cheio de raiva e não tens cabeça para pensar melhor. Estás todo confundido. Infelizmente, a tua doença mata muita gente. Ao contrário de ti, sabemos que, no fundo, és tão humano como nós. Só que és fraco e uma besta, embora não saibas. Paciência. Tudo será perdoado, mas se o teu Deus de facto existir, fica a saber que te vai mandar direitinho para o inferno.

 

Chega-te para lá, se faz favor. Vai-te lá explodir para o meio do campo. Manda cumprimentos lá em baixo.

 

Marco Neves

publicado às 19:22

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Lembram-se dos homenzinhos que invadiram a Ucrânia? Todos sabemos que eram russos, mas a Rússia, com um sorriso nos lábios, dizia que não.

 

No caso dos terroristas que nos andam a dar cabo da tranquilidade, muitos de nós acham mesmo que são agentes que matam apenas porque sim, sem qualquer base ideológica.

 

Percebo porque caímos neste erro: não queremos acusar toda uma religião de ser a base deste terror.

 

E, de facto, o inimigo não é o Islão — mas tem um nome e é real.

 

Lembram-se do fascismo? Daquela ideologia assassina que invadiu muitas mentes europeias, muitas delas bem inteligentes e informadas, na primeira metade do século XX. Podemos mesmo dizer que ainda não desapareceu completamente.

 

Ora, o fascismo ligou-se, em muitos países, à religião cristã. E, no entanto, parece-me claro que não podemos acusar os cristãos, em conjunto, de serem fascistas. 

 

O mesmo se passa no Islão: há uma corrente política que se afirma muito religiosa que tem um cariz fascista e que nos anda a aterrorizar.

 

Essa corrente não é o Islão. É uma corrente minoritária dentro desse Islão que se afirma como a mais pura das interpretações dessa religião. 

 

O nome é wahhbismo e teve origem na Arábia Saudita. Se quiserem saber mais sobre o movimento, podem começar pela Wikipédia. Leiam ainda este post de Nassim Nicholas Taleb

 

Sim, o wahhabismo é fascismo puro e duro. Confundir este movimento com o Islão é o mesmo que confundir os movimentos religiosos de cariz fundamentalista (como o K.K.K.) com o Cristianismo no seu conjunto. 

 

Agora, as más notícias: este movimento tem o apoio explícito de países que são, por motivos circunstanciais, aliados da Europa e dos E.U.A. Este movimento tem também muito dinheiro e tem espalhado esta ideologia pelas escolas religiosas do Paquistão e de muitos outros países, incluindo o Reino Unido e a França.

 

Esta ideologia ganha cada vez que a confundimos com o Islão. As primeiras vítimas são os muçulmanos moderados (a larga maioria). É ainda uma ideologia muito atractiva para os homens novos, aborrecidos do mundo, que gostam de radicalismo e odeiam o mundo brando da vida adulta. 

 

Mais: tudo o que fizermos para a combater é usado para justificar o radicalismo. Há ainda todo um processo de vitimização que lembra a forma como Hitler aproveitou a sensação de humilhação dos alemães depois da I Guerra Mundial. Este fascismo — como os outros — aproveita o pior da natureza humana, mas é profundamente eficaz a arrebanhar as mentes de quem cai na armadilha. Reparem no Estado Islâmico: promete salvação eterna no futuro, escravas sexuais agora mesmo, a excitação da guerra e a recusa do mundo aborrecido do dia-a-dia. São ideias potentes.

 

É um problema. São, literalmente, inimigos. Esta ideologia acha que todos os infiéis (grupo em que incluem grande parte dos muçulmanos) são sub-humanos, sem qualquer possibilidade de redenção ou de compaixão. Para eles, matar 200 crianças infiéis é tão inócuo como jogar um jogo de computador.

 

Daqui nasceu a Al-Qaeda e o Daesh (ou Estado Islâmico).

 

O que podemos fazer? Não tenho grandes respostas. Mas julgo que não devemos confundir esta ideologia radicalíssima e profundamente errada com a tradição religiosa de milhares de milhões de pessoas, com a qual podemos concordar ou não, mas devemos respeitar. Podemos discutir abertamente com crentes de todas as religiões. Não precisamos de dizer que têm razão em tudo, mas podemos propor um quadro de abertura, onde todos possamos discutir e viver em conjunto.

 

No fundo, temos de nos aliar aos moderados. Temos de defender o humanismo, tenha ele a cor nacional e religiosa que tiver. 

 

Podemos ainda pensar em depender menos dos países que propõem este fascismo radical. Estou a falar da Arábia Saudita, claro.

 

Podemos também tentar dar mais força aos muçulmanos moderados, para contrabalançar a terrível força do dinheiro do petróleo por trás da divulgação das ideias wahhbistas (com a noção que tudo o que fizermos será usado contra nós pelos wahhbistas, que pintarão os moderados como «vendidos ao Ocidente»).

 

Podemos ainda continuar a defender valores humanistas, que, embora não excitem as almas jovens, são a única possibilidade de vivermos em conjunto. Esses valores incluem ajudar quem precisa (incluindo refugiados muçulmanos), defender o direito a discutir ideias diferentes, aceitar a provocação do humor, deixar viver à vontade quem não prejudica os outros, criar instituições comuns que não imponham valores religiosos de qualquer tipo e por aí fora.

 

Sim, são valores que nem todos gostam (entre eles, muitos religiosos moderados). Mas são estes valores que nos salvam dos fascismos de todos os tipos. 

Acreditem — o mundo é feito duma imensidade de gente decente que, em muitos sítios diferentes, de todas as religiões ou sem nenhuma, tenta viver o melhor que sabe e pode. E, depois, há estes iluminados que acham que o mundo só se endireita em direcção ao caminho que eles acham correcto se derem um empurrão à bomba e ao tiro. Por isso, não digam que o mundo está louco. Loucos são eles.

 

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