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Comentário no Corta Fitas a alguém que defende a "teoria das vidas passadas" (há pessoas que gostam de acreditar nestas coisas, o que é que se há-de fazer):

 

"O significado das palavras "teoria" e "facto" não é o mesmo no dia-a-dia e no âmbito da discussão científica. Uma teoria científica é um sistema de ideias que explica uma série de fenómenos ("factos") e não foi, ainda, invalidada. No fundo, uma teoria científica partilhada pela comunidade científica é o nosso melhor conhecimento sobre determinado fenómeno. "Teoria científica" é quase sinónimo de "facto". Quando falamos de "teorias científicas" falamos daquilo que de mais parecido temos com a certeza de que algo é verdadeiro (os cientistas só não apresentam certezas porque esse conceito não existem em ciência). A Teoria da Relatividade, a Teoria da Evolução das Espécies por Selecção Natural, a Teoria Heliocêntrica — tudo são teorias, ou seja, são conhecimento científico sólido e validado por imensas observações e experiências.

No que toca à "teoria das vidas passadas", estamos a falar duma hipótese sem qualquer base científica: a palavra teoria, neste caso, quer dizer apenas "ideia" ou "hipótese". Não é uma teoria científica, pois nunca foi testada ou integrada com o conhecimento científico. A ciência, aliás, explica a existência destas ideias através de fenómenos psicológicos. Para que as "vidas passadas" fossem verdadeiras, era preciso que uma série de teorias na área da biologia fossem falsas e não há qualquer indício que o sejam. Para que as "vidas passadas" fossem verdadeiras, era preciso encontrar a "alma" ou "essência" ou "espírito" que passaria de um corpo para outro, e nada disso foi encontrado ou detectado de forma científica.

Sim, os cientistas não podem provar a não existência deste fenómeno, tal como não podem provar a inexistência das fadas, do Pai Natal ou do Loch Ness. Mas não poder provar seja o que for não quer dizer que devamos aceitar a sua existência sem qualquer prova ou que possamos andar a estudar essa ideia indefinidamente sem encontrar qualquer indício que seja verdadeira. A Ciência funciona procurando teorias que expliquem de forma cada vez mais profunda um cada vez maior número de fenómenos naturais. As memórias de "vidas passadas" já foram explicadas pela Ciência como fenómeno natural: o nosso cérebro consegue criar e imaginar memórias de coisas que nunca aconteceram. Por outro, lado, a existência real de "vidas passadas" não foi detectada e implicaria a falsidade de inúmeras teorias científicas que foram já testadas e comprovadas ao longo de décadas. 

Haver académicos que estudam estas questões não prova nada. Só os resultados que pudessem apresentar, que resultassem de experiências cientificamente sólidas e que fossem testadas e reproduzidas por outras equipas em todo o mundo poderiam dar-nos confiança na hipótese apresentada e transformá-la em teoria científica (ou seja, factos científicos). Nesse caso, essa teoria iria invalidar teorias anteriores, mas é isso mesmo que acontece em muitos casos. Foi o que aconteceu com a Relatividade, com a Evolução, etc., que se tornaram teorias (=factos), desalojando do conhecimento científico outras teorias, que passaram a ser apenas e só ideias erradas. Nada disso aconteceu com esta hipótese das "vidas passadas".

Por fim, Platão acreditava em muita coisa que, depois, se veio a comprovar ser um disparate. Na altura em que viveu, tais ideias não eram um disparate, porque o conhecimento científico não estava tão avançado como hoje. Se Platão renascesse hoje e lhe fossem explicadas todas as experiências e tudo o que se descobriu até hoje, também ele chegaria, racionalmente, às conclusões a que chegaram os cientistas. Se, mesmo assim, Platão fosse a uma conferência científica apresentar esta ideia sem qualquer base científica, essa ideia seria recusada. Se uma qualquer pessoa desconhecida chegasse a uma conferência científica com resultados sólidos, esses resultados seriam analisados. O que interessa não são as pessoas particulares que apresentam os resultados, mas a força desses mesmos resultados e a sua capacidade para serem reproduzidos por terceiros e, assim, integrados no conhecimento científico."

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publicado às 12:52

A morte e o sexo são aquilo que não conseguimos agarrar com as palavras e aquilo que nos arrelia a mente quase todos os dias. Somos animais, já todos sabemos. Mas somos animais que, de repente, há uns milhões de anos, descobriram qualquer coisa de diferente.

 

O quê? Não consigo explicar muito bem. Talvez seja aquilo a que chamamos, hoje, de "consciência", outros chamaram durante muito tempo "alma", ou talvez até seja algo tão mais simples como a capacidade de falar. Porque se calhar foi nesse momento em que alguém disse alguma coisa também percebemos (nós, a humanidade) que éramos conscientes. 

 

Porque somos conscientes e bastante inteligentes, começámos a sonhar com mais qualquer coisa; começámos a imaginar que não éramos apenas animais, mas outra espécie de seres — seres com consciência (ou alma, se quiserem). Conscientes de existirmos, não aceitámos e recusámos e ignorámos durante milénios que fôssemos apenas animais como os outros. Só muito depois, no final do século XIX, redescobrimos essa verdade primordial: somos animais — mas entretanto o estrago estava feito: já tínhamos inventado uma humanidade para lá da nossa animalidade.

 

Onde entra neste arrazoado a morte e o sexo? O sexo é uma necessidade animal. A morte é uma consequência da nossa animalidade. Não somos deuses, nem essencialmente diferentes dos animais à nossa volta. Mas inventámos palavras, e inventámos também conceitos e ideias para sublimar, ou transformar, ou amaciar o sexo e a morte: o amor, o casamento, a religião, a imortalidade, Deus e tudo o resto.

 

Começámos a querer ser mais do que animais, e com esse querer transformámo-nos, de facto, em algo mais do que animais.

 

Mas estes seres humanos que são mais do que animais também morrem e também fodem. (Desculpem o palavrão, mas os palavrões são uma tentativa nossa de chegar mais perto dos grunhidos dos animais que éramos e somos. As palavras normais dificilmente conseguem. Por isso, as cenas de sexo na literatura são quase sempre ridículas. Por isso caímos nos mais constrangedores lugares-comuns quando alguém morre.)

 

E já pensaram bem no sexo e na morte? (Eu sei que já, a pergunta é retórica.) Já viram alguém morrer? Já sentiram a dor de ter um familiar ou amigo a morrer ao vosso lado? Por outro lado, conseguem reproduzir por palavras o que é o sexo? O estar na cama (ou em qualquer outro lado) com outra pessoa, conhecida ou amada ou desconhecida, nesses gestos animais e íntimos e ridículos para quem vê de fora e outra coisa qualquer para quem está envolvido na coisa? As palavras não chegam e, no entanto, são o que temos se queremos preservar algo mais do que memórias instáveis, que morrem connosco.

 

Por ser algo a que não conseguimos dar a volta com a nossa mente, que não conseguimos domesticar totalmente, temos curiosidade pelo sexo; por isso, temos curiosidade pela morte. São desejos pornográficos e desejos mórbidos, mas estão lá: queremos ver, sentir, perceber aquilo que temos dentro de nós.

 

Por isso, escrevemos livros, inventamos canções, construímos cidades: para sermos mais qualquer coisa, para podermos viver, amar e foder, e no fim morrer, e não ser tudo apenas uma vida animal, sem sentido. Quase sempre continuamos sem perceber exactamente o sentido, ou embrenhamo-nos em sentidos que mais não são do que ilusões, mas tentamos. Pelo menos tentamos, e nisso já estamos em movimento, mesmo que não acertemos na direcção.

 

Já viram como nada disto parece fazer muito sentido? Como estes textos sobre o sexo e a morte acabam em lugares comuns, caminhos batidos? Parece que não há volta a dar. É mesmo assim. O que vale é que, neste par animalesco, há um que apetece — e outro que tentamos afastar, todos os dias, procurando alguns momentos de alívio, que é como quem diz, de felicidade.

 

 

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Death.jpg

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Desculpem lá, mas isto é sobre livros, mas também é sobre outras manias. E uma das minhas outras manias é a ciência. Não sendo, obviamente, um cientista, tenho uma obsessão pela ciência, que julgo ser muito saudável. Mas lá voltarei. Hoje apetece-me dissertar sobre a diferença entre pensamento científico e pensamento mágico.

 

Pensamento científico: é o pensamento que tenta encontrar um método para ultrapassar as limitações da mente humana e para distinguir a verdade da falsidade, tentando combater as tendências ou enviesamentos do ser humano. Para isso, é preciso disciplina e é preciso contrariar, muitas vezes, a nossa própria natureza. É sempre um pensamento precário e incomodado, porque tem de estar sempre vigilante e a desconfiar de si próprio. Tem de perceber a própria racionalidade do ser humano para conseguir chegar ao conhecimento verdadeiramente científico: aquele que sabe o que é falso, porque já testou hipóteses, mas nunca pode dizer com certeza absoluta qual é a verdade (mas consegue chegar muito mais perto dessa mesma verdade do que qualquer outro tipo de pensamento exactamente por admitir que não é possível chegar lá em termos absolutos).

 

Pensamento mágico: um tipo de pensamento que pega na mais vaga alusão, palavra ou pensamento e cria uma ilusão sobre o real que se confunde com o real em si por ser tão confortável e por não estar sujeita a qualquer tipo de crítica ou tentativa de teste ou experiência. Ou seja, pegamos numa metáfora, numa palavra bonita (por exemplo, "energia") e criamos toda uma fantasia confortável, bonita, que não testamos, não contrariamos e usamos para "explicar" o mundo.

 

Exemplos de pensamento mágico: astrologia, homeopatia, teorias da conspiração, muitas das nossas ideias sobre os outros, etc.

 

Já o pensamento científico é uma ferramenta poderosa para qualquer pessoa: basta para isso compreender os seus fundamentos. Não é fácil, mas também não é algo reservado a génios da ciência....

 

Enfim, voltarei a isto. Desculpem lá, mas não consigo evitar.

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publicado às 00:23


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