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Quantos livros não há por aí em que o nome do tradutor não aparece senão na ficha técnica? Conheço também livros (normalmente traduzidos para o inglês) onde nem na ficha técnica põem o nome de quem os traduziu. Agora, nós por cá temos esta originalidade: um livro em que, na capa, aparece apenas o nome do tradutor, relegando o autor para a ficha técnica.

 

E esta, hein?

 

eça.jpg

 

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publicado às 11:22

No meu post de ontem disse que, a certa altura, deixei de perceber como alguém pode considerar Os Maias um livro secante. E, no entanto, ele é secante para um adolescente que tem um calhamaço daqueles à frente, com uma casa oitocentista logo à partida, de fachada imponente.

 

É secante para muitos alunos que não vêem o interesse ou utilidade de tudo isto.

 

É secante para um primo meu, que escreveu no exemplar dele — que folheei descontraidamente um dia, em casa da mãe dele, “coitado de quem tiver de ler isto!”

O que fazer com esta sensação inabalável que este grande clássico é uma seca — sensação partilhada com tantos? 

Podemos desistir, podemos armar-nos em missionários duma religião literária, podemos desprezar quem pensa assim — e estaremos a errar profundamente. 

Por hoje fico por aqui, mas este tema é importante...

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Ora, vou contar-vos o que se passou comigo e com Os Maias. Tudo começou no ano anterior ao ano em que tinha mesmo de os ler na escola. Precavido, achei que era melhor ler antes que me obrigassem a fazê-lo, porque podia dar-se o caso de nunca vir a gostar da obra só porque era obrigatória. Sim, exacto, eu era um bocado esquisito (acho que já vos tinha dito, mas é melhor continuar a avisar, porque pode haver novos leitores deste blog que devem ser avisados enquanto é tempo).

 

Pois, li. E confesso que li sem dificuldades, maravilhado com aquele século XIX, com aquelas conversas entre amigos, com toda aquela história que me parecia muito concreta e palpável. Isto ou outra coisa qualquer, porque entretanto já li o livro mais umas quantas vezes e não sei o que li dessa primeira vez.

 

Mas lembro-me disto: o final d’Os Maias foi uma chapada na cara. Aquilo era lindo! O que li foi uma declaração optimista: aqueles gajos acham-se muito blasé, dizem que não vale a pena correr por nada — e, no entanto, correm!

 

Nas aulas em que, por fim, dei Os Maias descobri aquilo que se descobre quando se analisa uma obra depois de a ter lido: que havia para ali muito que não tinha visto, simbolismos e pormenores de linguagem que me tinham escapado — e percebi que isso se calhar era natural em qualquer leitura.

 

Anos depois, voltei a ler a obra e ri-me muito, coisa que não tinha acontecido da primeira vez. O final já me pareceu menos assombroso — também, já estava à espera — e fiquei horrorizado com certas passagens machistas e racistas por que tinha passado sem pestanejar anos antes.

 

Ainda mais anos depois, li, num Kindle, só para experimentar os e-readers. Ri-me ainda mais e li ainda mais depressa. De repente, era difícil perceber como aquele livro podia ser considerado secante. E, de repente, percebi que estava a ler um livro diferente: de cada vez que reli Os Maias, o romance era outro. Ou se calhar era eu que tinha mudado. Uma coisa ou outra.

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¶ Tormes+Eça

19.02.14

 

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publicado às 21:29

¶ Paris+Eça

19.02.14

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publicado às 20:40

"visinhança", "theoria", "Janellas Verdes", "á beira", "Collegio", "emfim", etc.

 

Já alguém se deu ao trabalho de ir ver a primeira edição d'Os Maias? Podem encontrá-la aqui.

 

Só para aguçar a curiosidade, vejam o início e o fim da obra que atormenta os alunos portugueses há tantos anos (é pena tantos caírem na esparrela de pensar que um livro é mau só por ser obrigatório, grande e não começar da forma mais excitante possível). 

 

 

 

 

Este fim teve um certo impacto em mim quando o li pela primeira vez. Hei-de voltar a isto.

 

Entretanto, reparem na ortografia. Atrevam-se a escrever como o Eça nos testes sobre Os Maias e vão ver o que vos acontece. 

 

Por outro lado, aqueles que acham que novas ortografias são um desaforo aos grandes autores, que não escreviam assim... Bem, já vieram um pouco tarde, que a ortografia mudou em 1911. (Aviso: isto não é um argumento a favor do Acordo Ortográfico. É apenas e só um argumento contra um argumento parvo em particular.)

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Anda por aí uma corrente facebookiana sobre os 10 livros da vida de cada um. Ora, lembrei-me de falar sobre alguns livros da minha vida, mas não os 10 livros ou sequer os livros. Se os artigos definidos servem para alguma coisa, é para estes casos de ausência: ao não escrever "os" 10 livros da minha vida, estou a explicar que são estes, mas há mais...

 

 

Ora, para começar, temos Lisboa, Livro de Bordo, de José Cardoso Pires.


Este livrinho é lindo. Mas nem é exactamente por isso que o ponho aqui. Fiz, já há uns 11 anos, um trabalho sobre o Incêndio do Chiado e este pequeníssimo livro foi um dos actores principais. Além disso, foi editado por altura da Expo, que marcou a minha ida para Lisboa, e por isso, para mim, é como se fosse uma espécie de baptismo lisboeta em forma de literatura. E acompanhou-me nos meus encantos muito particulares, que incluem as estações de metro, o olhar para o chão, o ouvir a cidade e o adorar estar num sítio destes, que os portugueses (quase) todos adoram detestar, mas que eu não posso viver sem. (Exactamente, assim com o sem no fim, que eu gosto de irritar gramatófilos.)

Ora, o livro também me faz lembrar o estar a ler na Biblioteca Nacional, à espera dos livros que vinham trazidos por senhoras de carrinho desengonçado, de estar a ler jornais na Hemeroteca Municipal, de ler notícias de jornais do século XIX para outro trabalho que fiz na altura…

(O que tem isto a ver com José Cardoso Pires e o seu Livro de Bordo? Pouco, mas isto são livros da minha vida, e a minha vida mistura-se com os livros de formas imprevisíveis.)

Saía da Biblioteca Nacional e estava sol em Lisboa e por essa altura vivia aqueles anos que todos nós temos em que as coisas acontecem em catadupa, em que parece que a nossa vida dava um livro ou um filme ou ambos, no fundo estava a sentir aquilo que o Carlos (o da Maia) sentiu quando disse isto, lá para o fim d’Os Maias:



 

Sim, por esses anos os dias e as noites pareciam mais marcadas, andava por Lisboa, no carro que arranjara pouco tempo antes e que até tinha alcunha, onde aconteceu tanta coisa, por onde discutia tudo e nada com esses amigos que ficam marcados como que a ferro e brasa num livro qualquer que nunca hei-de escrever, mas que me é mais importante do que os outros todos, um livro onde as personagens têm os nomes dos meus amigos e são, no fundo, os meus amigos. Um livro onde nunca poderia haver um narrador omnisciente, porque isso seria o contrário da vida, não é verdade?

 

Não foram os melhores anos da minha vida, que esses estão sempre por vir (e como podem ser, se ainda não havia o Simão?), mas foram os anos mais quentes...


*


Lembro-me ainda de ter encontrado este livrinho, na Fnac, traduzido para… catalão. Por que razão a Fnac vendia em Lisboa a tradução catalão do livro, não faço ideia. Alguém não soube distinguir o catalão do espanhol ao fazer as encomendas do mês.

Comprei-o, porque sempre tive uma pancada pela Catalunha que vos hei-de explicar um dia. Comprei-o e enviei-o ao Ricard, um amigo catalão (internético), com quem conversava sobre muita coisa e a quem gostava de oferecer um guia para a minha cidade, já que a dele já me corria pelo sangue também. Foi assim que enviei pelo correio o Lisboa, llibre de bord: veus, mirades, records.

 

Uma cidade como Lisboa é assim: existe em várias línguas, e é feita de pessoas e de pedras, mas também de livros e literatura.

 

 

 

[]

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Ora, vamos então ver que livros ganhei neste sortido que comprei, por tuta e meia, há muitos muitos anos, na papelaria dos meus avós:

 

A Morte de Carlos Gardel, de António Lobo Antunes. Lembro-me de ter registado o gnomo e o Belenenses, nesses primeiros parágrafos que começava a ler e por ali ficava. Parecia-me uma linguagem um pouco misteriosa, mas já me vibrava ali Lisboa, uma cidade onde queria viver, e uma realidade muito nítida. Sempre achei estranho, por outro lado, aquela forma de começar os parágrafos, a meio da página. Na altura lembro-me de julgar que aquilo devia ser erro de impressão e por isso a D. Quixote quisera despachar aqueles exemplares... Depois percebi que, com António Lobo Antunes, o que parece erro de impressão, nem sempre é... Acabou por ser o primeiro livro que li do autor e ainda hoje é o meu preferido (talvez por isso mesmo).

 

Contos, de Eça de Queirós. O livrinho preto (um pouco frágil, já que se partiu todo pouco tempo depois) foi a minha introdução às maravilhas queirosianas. Foi uma boa introdução, porque Luiz Fagundes Duarte (que viria a ser, alguns anos depois, meu professor!) criou ali uma edição mais completa e bem pensada que os habituais Contos de Eça de Queirós. Ali começou um certo gosto por olhar para os textos de forma mais crítica. Também desse livro me vem o gosto por ler as introduções em que os organizadores das edições contam algumas aventuras que poucos acham interessantes, mas que eu adoro.

 

Revista Inglesa, de Jaime Batalha Reis. Um livro na área muito específica onde acabei por ir parar, durante uns anos: os estudos anglo-portugueses. Mal sabia eu...

 

A Lição de Alemão, de Siegfried Lenz. Este tentei ler ao longo dos anos, mas nunca consegui chegar ao fim. Se calhar, aos 33 anos, está na altura de tentar outra vez.

 

Uma Mulher Interroga a Europa, de Maria Antonietta Macciochi. Neste livro, que nunca teria comprado se não viesse no sortido, li entrevistas com Felipe González, João Paulo II, e muitas outras personages europeias. Comecei a gostar dos ensaios políticos e históricos e dei, mesmo, uma volta pela Europa das ideias.

 

Tenho a impressão que o pacote tinha mais um livro, mas não consigo lembrar-me de qual seria.

 

Hoje, andam espalhados pelas estantes, e juntei-os só para a fotografia. Foi como que um reencontro de velhos amigos, que ali ficaram a conversar durantes uns momentos e, depois, lá voltaram às suas vidinhas, separados por muitos outros livros. 

 

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publicado às 16:00

 

 

Há muitos, muitos anos, não me lembro bem quantos, encontrei na tal papelaria dos meus avós maternos (de que já vos falei — e hei-de voltar a falar, até por razões bem menos alegres do que os livros) um pacote de livros a um preço espectacular, que me parece ter sido uma forma de a D. Quixote dessa altura (muito muito longe de ser parte da tão badalada Leya) despachar alguns livros que tinha para lá encafuados nos armazéns.

 

Os livros estavam um pouco acima dos interesses da minha idade (devia ter uns 14 anos), mas foram uma das primeiras pedras da minha biblioteca, que hoje está já relativamente composta, para horror das estantes da sala...

 

Este pacote tinha um verdadeiro sortido de livros. A lógica da selecção é a chamada lógica inexistente. Parece que alguém pegou em si e andou a pescar livros num amontoado de títulos avulsos. E isso, estranhamente, deixou-me encantado. É como receber um pacote de gomas diferentes umas das outras: prazeres todos diferentes, mas prazeres nonetheless.

 

Num post já a seguir, irei falar um pouco de cada um destes livros...

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publicado às 14:15


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