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Ora, hoje aqui vai uma recomendação pura e simples: leiam, depressa e bem, os Doce cuentos peregrinos de Gabriel García Marquez. 

 

Depois não digam que não vos avisei...

 

 

Já agora, um dos doze contos começa no Deserto dos Monegros, um dos desertos por onde passei em 1993, como contei ontem, num dos episódios da saga andorrana...

 

(Ah, sim, o conto é extraordinário: um pouco Kafka meets Gabriel García Marquez).

 

 

Por último, para terminar esta recomendação de forma menos literária, gostava de reclamar à Fnac: porque raios cortam a etiqueta dos preços de forma tão mazinha, que anos depois já não sabemos em que ano comprámos o livro?

 

 

 

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Será que era só eu que adorava o cheiro dos livros da escola, as cores, os gráficos e aquela sensação de antecipação: "então é isto que vou aprender este ano?"

 

Se calhar era só eu... 

 

Duvido. Mas pronto. 


Neste post falei de manuais e literatura nos manuais e por via dum comentário duma ilustre leitora deste blog, lembrei-me que foi com um livro de português do 8.º ano que cheguei a Mário de Carvalho.

O livro tinha o conto integral "A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho”. Como não tenho aqui esse meu livro de Português, fiquem com uma edição mais actual (não a mais recente, que como sabem o mercado de transferências de escritores anda ao rubro):

 



Se já leram, sabem como é deliciosa essa história. Este conto mostrou-me o que pode fazer a literatura — e ainda me deu um gosto especial pelos nomes das avenidas de Lisboa. Afinal, aquela “Avenida Gago Coutinho” tinha todo um sabor de avenida cheia de carros, nos anos 80, onde chefes de polícia atrapalhados combatem tropas mouras. 

 

Desde então, tive uma paixão por esse autor que tenho por quase nenhum outro autor português. Mistura a aparente leveza da linguagem com uma riqueza de vocabulário e um gosto pelas histórias e pela língua que seduz um miúdo no oitavo ano dado a estas coisas. 

 

Algum tempo depois, fui a uma feira do livro na minha escola primária. Foi uma visita engraçada: lembro-me de ter achado que voltava a um sítio onde estivera quando era novo. Ou seja, do alto dos meus 16 anos, sentia-me mais velho, quase adulto, a visitar um local da infância. Que tolo!...

 

Encontrei por lá um livro na altura muito recente: Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde. Não é a obra mais típica do autor, mas é provavelmente a sua obra-prima. Ao lê-lo, esperando uma história ao estilo da Inaudita Guerra, fui ficando com um sabor diferente na boca, um sabor inicialmente metálico, depois calmo, ponderado, até que tudo aquilo começa a picar-me doutra forma e fiquei com o livro no palato durante muito mais tempo do que até então estava habituado nas minhas leituras de puto. 

 

 

Algo curioso: um romance supostamente histórico, passado no Império Romano, fez-me ver o que até então não tinha visto no que toca à questão das seitas, que nessa altura era a mania du jour dos opinadores nacionais (e ainda nem sequer havia blogs!). As seitas (IURD, etc.) eram a praxe da altura, se bem me entendem. 

 

Enfim, com o tempo, tornou-se num autor que quero ler logo que sai um livro. Já no início deste século, quando comecei um mestrado, li este outro livro, que já era uma espécie de Inaudita Guerra em ponto grande. 

 

 

Há um pormenor no livro que me faz abrir todas as edições que encontro, para ver se o editor não se esqueceu de fazer uma alteração ao texto. É este ponto:

 

 

O número de página tem de ser actualizado conforme a edição... E, normalmente, é isso que acontece.

 

É isto que Mário de Carvalho faz: brinca com os textos, as edições e os leitores. Muito pós-modernista, diriam alguns. Muito bom, digo-vos eu.

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(Por amor de Deus, não digam a ninguém, mas voltei ao local do crime e comprei mais livros de contos: a Munro que tinha deixado para trás enquanto o meu filho escolhia o J. Rentes de Carvalho e o Mark Twain.

 

Já agora, o J. Rentes de Carvalho é mesmo muito bom. Era só para avisar.)

 

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publicado às 18:40


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