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É uma reacção possível ao filme Spotlight: vemos aqueles jornalistas e ficamos admirados como gente comum consegue viver uma profissão de forma tão apaixonada, rigorosa e dedicada. Eles sabem o valor da sua profissão para a sociedade e não se deixam esmorecer pelos problemas circunstanciais que todos temos. São uma espécie de ideal realista para qualquer jornalista. Nem todos podem ser assim, mas todos podem tentar ser assim. Assim, como? Vejam o filme.

 

Pois, por estes dias em que estou quase a estrear-me numa outra profissão (bem, não é bem uma profissão — depois conto), penso nisto: como tentar ser melhor todos os dias? Como descobrir o valor do que fazemos para os outros?

 

Isto aplica-se a todos nós. E todos sentimos, mais tarde ou mais cedo, a tentação de não pensar nisso. De fazer porque sim. Porque tem de ser. Porque sempre fizemos assim.

 

Ora, penso: trabalho como gestor numa empresa de tradução. O que faz a empresa? Resolve problemas linguísticos dos clientes. Prosaico? Talvez. Mas muito útil. Sou tradutor. O que faço? Crio textos na minha língua que são importantes para alguém. Sou também professor. O que faço? Ensino e tento ajudar os alunos para que estejam preparados para o que vem aí.

 

Também escrevo neste blogue. Não é uma profissão, mas tenho quem me leia, o que é suficiente para sentir algum peso. O que tento fazer? Tento que os leitores pensem um pouco e, se possível, se divirtam.

 

Enfim, podia continuar. Todos nós somos várias coisas e todos nos cansamos, mais cedo ou mais tarde. É, por isso, muito bom haver quem faça um bom filme, que nos ajuda a trabalhar melhor, mesmo quando aquilo que fazemos nada tem a ver com a história desse filme. Um filme verdadeiramente inspirador.

 

As comerciantes, os editores, as médicas, os secretários, as advogadas, os pilotos, as empregadas de balcão, os jardineiros: todos podemos sempre fazer melhor e, embora seja mais fácil encontrar o valor da profissão nuns casos do que noutros, todos conseguimos dizer porque é importante haver quem faça o que fazemos — até mesmo nos casos em que não gostamos da nossa própria profissão. Acho mais fácil aguentar uma profissão de que não gostamos mas que é útil para alguém do que uma profissão na qual não acreditamos. (É verdade: não consigo, por mais voltas que o mundo dê, imaginar-me a ser astrólogo, tarólogo, e outros que tais…)

 

E é tudo. Este post saiu fraquinho: uma recomendação para verem um filme, uma vaga reflexão sobre profissões, um desafio… Amanhã farei melhor.

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Sim, os outros povos também sabem o que é saudade e, com mais ou menos palavras, conseguem traduzi-la. 

 

Os italianos, por exemplo, têm este filme, que traduz a nossa palavra na perfeição:

 

 

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Pronto, não é bem umas Levis dentro dum livro.

 

O que se passa é que ando, às vezes, a folhear os livros aqui de casa, à procura de tema para este blog, e no outro dia encontrei uma factura dumas Levis de há 11 anos. Dentro de Mrs. Dalloway, que andava a ler por esse Abril antigo. Foi mais ou menos pela altura que relatei neste outro post.

 

Ora, uma factura dumas Levis. Que interesse poderá ter isto? 

 

Para vocês, provavelmente, nenhum. Mas para mim, tem muito.

 

Foi a minha compra maluca dessa altura. Umas Levis por 18 contos! (A factura já vem em euros, mas na altura em não pensava em euros e registei o valor em contos; hoje já não sei bem quanto é 18 contos.)

 

Nunca mais fiz tal maluqueira com uma peça de roupa.

 

Ainda por cima, umas Levis meio rasgadas, e sujas de propósito (ai, maluco), que levaram a minha avó a declarar que me podia lavar as calças se eu precisasse (ai, rebelde). 

 

Fui comprá-las com amigas minhas, que queriam empinocar-me para ver se convenciam uma outra amiga que eu era um bom partido, apesar do ar de caladinho caixadóculos enfiado em livros — e convenceram-me que as calças eram um bom investimento, pois ficam-me especialmente bem. 

 

Ora, essa outra amiga, quando me viu armado com essas roupas novas, incluindo as tais Levis, fez a maior cara de WTF que já vi na vida. Não foi por aí. 

 

Mas não deitei as calças fora, claro. Foi o momento em que comecei a perceber que vestir-me sem ser apenas para tapar as partes pudendas poderia ter algum interesse. Foi um grande ano, esse, em que houve muito disparate e muita infantilidade, mas que ainda hoje me parecem dias tirados dum livro ou dum filme qualquer.

 

É muito estranho isto: quando queremos dizer que houve uma altura da vida em que nos sentimos especialmente vivos, dizemos "parece um livro" ou "parece um filme". O que será que isto diz dos livros e dos filmes?

 

Fico-me por aqui. As Levis aqui continuam, impecáveis, 11 anos depois. Sempre foi um bom investimento.

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Bem, vamos ao segundo episódio do folhetim sobre a França e os EUA. A primeira parte tinha o título um pouco a dar para o grande de "Sobre livros na mala da minha mulher, policiais em francês, filósofos à solta nos EUA e um quarto dum primo que não conheço". Vamos continuar a falar de França e dos EUA.

 

Pensar nesses dois países transporta-me, nesse labirinto que são as memórias de cada um de nós (estas coisas serão o quê, no cérebro? neurónios todos enrolados uns nos outros?), para uma viagem que fiz, com 16 anos, a Paris, com os meus pais e irmãos. Fomos de carro, por aí fora, quais emigrantes que não emigram. 

 

1. A casa dos primos da França

 

Foi uma viagem diferente, porque não fomos para um hotel: fomos para casa duns primos afastados que estavam em Portugal nessas semanas. Estranhamente, não os conheço pessoalmente (até hoje). Ou seja, vivi numa casa de pessoas que para mim são perfeitos desconhecidos. 

Deu jeito. Assim ficámos num apartamento parisiense, perto da Place de la Nation. Fomos à mercearia do bairro, andámos de transportes, falámos com as pessoas da zona e, claro, usámos a casa: a cozinha, os quartos e as casas de banho — o que teve consequências curiosas mas que direi apenas no final do post para criar algum suspense. 

Fiquei no quarto do filho mais velho dessa família, que tinha mais ou menos a mesma idade que eu. Fiquei fascinado com aquilo. É como se, durante uns dias, estivesse a viver uma outra vida, a viver em Paris, a ser estudante numa escola francesa. Abri os livros da escola, que cheiravam a novos, esse cheiro magnífico e viciante, com as cores brilhantes. 

Lembro-me de ter aberto o manual de filosofia e de folhear, tentando perceber o que era parecido e o que era diferente com a filosofia que tinha na escola secundária em Portugal (tinha uma especial predilecção por essa disciplina, uma tendência muito minha para adorar as disciplinas que os meus colegas detestavam; na faculdade foi linguística…). 

 

2. Entre livros de filosofia franceses e o filme Aeroplano 

 

[Aviso: parágrafos extremamente aborrecidos para quem não gosta destas coisas. Podem saltar para o ponto 3.]


A certa altura, o livro escolar francês de filosofia tratava dessa paranóia francesa que é… a América. Explicava que a religiosidade americana não se cristaliza numa religião particular (como acontece com Portugal, França, etc.). É uma religiosidade mais difusa, ligada ao próprio conceito de Nação. Os americanos têm muitas denominações, mas acima de tudo são americanos e in God they trust. Sim, são também o país que inventou a separação entre a Igreja e o Estado, mas para eles a Igreja em si não é assim tão importante, o que interessa é a América, essa Nação escolhida por Deus (e tanto assim é que muitos radicais de extrema-direita norte-americana desconfiam dos católicos, esses perversos cristãos amarrados a um poder estrangeiro… Para eles, mais vale um judeu que um papista.)

Já não me lembro bem em que fase estava na montanha russa que era a minha evolução em termos políticos, mas esta explicação, simplista se quiserem, acabou por me fazer sentido na altura e ajudou-me a interpretar os nossos amigos do outro lado do oceano. Para eles, a devoção à América não é uma questão cultural, linguística ou étnica — é uma religião. Uma religião civil. Obviamente que este tipo de mentalidade é mais comum entre os republicanos e, entre estes, os republicanos dos square states, mas é esta mentalidade que muitos europeus vêem quando olham para a América e é esta mentalidade que até os democratas têm de assumir, pelo menos parcialmente, quando se candidatam a algum cargo nos EUA. Por algum motivo Barack Obama, um presidente considerado um perigoso radical de esquerda por muitos americanos, traz a religião para o discurso político de forma que seria considerada totalmente despropositada num contexto europeu (basta pensar na estranheza que foi ouvir Paulo Portas, há uns anos, referir Nossa Senhora num discurso…)


[Aviso: fim de parágrafos extremamente aborrecidos. A partir de agora são apenas aborrecidos.]

 

Mas chega de elucubrações intelectuais. Um americano que lesse este post estaria a rir-se com esta forma de escrever tão pretensiosa. Diria, com as suas botas e chapéu de cowboy:

Cowboy: "Surely, you have better things to do with your life!” 

Eu: “Yes, I have, but don’t call me Shirley”. 

 



Isto foi só para perceberem que posso gostar de folhear livros de filosofia como desporto de adolescente, mas também vi o Aeroplano. Não sou assim tão esquisito.

 

3. O barulho dos carros em Paris

 

O que é certo é que me lembro muito bem dessa viagem em que fomos em família, numa carrinha, para Paris, quais portugueses tontos.

 

Vimos pela primeira vez a reacção que alguém num carro de matrícula portuguesa sente em Paris: os imensos portugueses, com os seus carros franceses e carrinhas de várias pequenas empresas de todos os ramos, começam a apitar e a acenar. Foi estranho, até porque percebemos bem que são portugueses.

 

Vimos também franceses de bicicleta com o pão debaixo do braço e, do alto dos meus 16 anos, declarei aquilo uma barbaridade.

 

Vimos ainda uma bicicleta amarrada a um poste de que sobrava apenas o quadro — e nós, do alto da nossa vida de pacatos portugueses, declarámos Paris uma cidade perigosa. 

E o que se faz numa cidade perigosa? Anda-se de metro à 1 da manhã até que um gajo de mau aspecto se aproxima de nós e pergunta se queremos sair na próxima estação para nos ajudar a chegar a casa. Não, muito obrigado, porque somos portugueses mas não somos burros. 

E que o se faz numa cidade estrangeira? Claro que andamos de metro com meios-bilhetes para todos, porque a vida está cara e este país não é para turistas portugueses, isto tudo perante o meu horror de adolescente armado em moralista que exigiu comprar o bilhete inteiro nas primeiras viagens que fizemos — até que ao fim de vários dias os meus pais me convencem a não ser parvo e compramos meio-bilhete para todos e somos apanhados e, pronto, esquecemos todos a língua francesa num instante. Resultado: fiquei com ar pimpão de “eu não vos disse”, e hoje pergunto-me como é que os meus pais me aturavam. (Mas continuo a achar que devíamos comprar os bilhetes por completo!)


Lembro-me ainda de estar na cozinha muito urbana, com bancos de bar, tudo brilhante e limpo, à noite, com a luz apagada, só as luzes da cidade e o som dos carros a passar na avenida, esse sabor duma cidade à noite, os prédios de Paris pela janela. No ano seguinte, lembro-me de ter dado Bonjour Tristesse de Sagan (ainda se dará em Francês?) e o último parágrafo bateu-me como uma recordação desses nossos dias de Paris: 

 

Seulement quand je suis dans mon lit, à l’aube, avec le seul bruit des voitures dans Paris, ma mémoire parfois me trahit : l’été revient et tous mes souvenirs. Anne, Anne ! Je répète ce nom très bas et très longtemps dans le noir. Quelque chose monte alors en moi que j’accueille par son nom, les yeux fermés : Bonjour Tristesse.

 

Pronto, as minhas memórias não eram dum Verão na Côte d’Azur, mas sim duma viagem de tugas a França, e a viagem não foi triste, mas a literatura e a memória são assim: o bruit des voitures lembrou-me dessa outra vida que vivi durante uns dias, de adolescente francês, que nem por sombras prefiro, mas da qual sentia alguma nostalgia, que é uma coisa muito literária de se sentir. 

Não sei mesmo porquê, mas essa expressão do “barulho dos carros em Paris" deu-me um murro no estômago, o que prova que as emoções literárias às vezes estão acessíveis até a um pobre rapaz sem grandes enredos amorosos na sua pacata vida de adolescente de pequena cidade portuguesa que foi a Paris numa carrinha com os pais.

 

 (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Paris_Night.jpg)

 

4. Sobre casas de banho à francesa (e Montaigne)

 

E chegamos, obviamente, a Montaigne e à questão das casas de banho que deixei pendurada lá em cima, há muito tempo, no início deste post (que já vai a caminho de ser um postão). Porquê? Por causa das casas de banho da casa dos meus primos. 

Não sei se sabem, mas muitas casas francesas (não sei se a maioria) têm uma divisão muito marcada entre o W.C. (santa e companhia) e a casa de banho propriamente dita (para banhos e outra abluções). Pois a coisa, vista a esta distância temporal depois do primeiro choque com esse hábito estranhíssimo, até parece fazer sentido: há um sítio, digamos, mais porco, e outro onde lavamos os dentes e tomamos banho — e devem estar bem separados. 

Mas, ó bárbaros franceses!, tinham de pôr o WC num lado da casa e a casa de banho no ponto mais distante possível?

Ainda me lembro do meu pai sair do WC: “mas pode saber-se onde é que eu lavo as mãos?” 

 

Todos nós corremos a analisar o WC. Depois fomos todos a correr analisar a casa de banho. Nada de lavatório num dos lados. Nada de sanita no outro. Ou seja, os franceses tinham mesmo de fazer o que há a fazer numa ponta da casa e percorrer toda a santa casa para lavar as mãos, arriscando-se a tocar nalguma coisa antes da sagrada lavagem. Que nojo!

O que tem Montaigne a ver com isto? Tem muito, meus amigos. Pois leiam o último ensaio do dito blogger do século XVI francês. Achamos sempre que os hábitos dos outros são muito estranhos e acabamos por achar os nossos incomparavelmente melhores, porque são nossos e sempre fizemos assim. Se para Montaigne o problema era o sistema de aquecimento usado na Alemanha em comparação com o sistema usado em França, para nós o problema é a colocação do WC. Enfim, cada época, seus problemas.

 

Já agora, para não acharem que me estou a armar (ah, e tal, até leio ensaios de franceses do século XVI), tenho de vos dizer: primeiro, Montaigne é um blogger. Depois, encontrei uma mastigação (muito middle-brow, eu sei) deste ensaio e de outros em The Consolations of Philosophy do inveterado filósofo do homem comum (alguns diriam "das classes médias em ascensão") que é Alain de Botton e foi por aí que cheguei a esta referência. Mas leia lá o Montaigne que é um blogger e tanto. 

 

E para verem como estas coisas são, quando estava a pensar neste post, a minha memória fez-me pensar que a referência a Montaigne estava noutro livro de Alain de Botton, The Art of Travel, que é um livro apetitoso como poucos, porque trata de uma das artes mais saborosas que por aí há, que é a arte de viajar. E é esse que me apetece pôr aqui...

 

 

 

5. É melhor parar por hoje, que se faz tarde  

 

São 23:53, e ainda tenho coisas para dizer. Porque nessa viagem fomos à Eurodisney (estávamos em 1996 e o parque Disney abrira há um ano) — e adorámos. Lembro-me de ter achado os Piratas das Caríbas uma experiência como nunca tinha tido.

 

Depois, repetimos, a família toda, essa visita à Eurodisney 16 anos depois, em 2012, e a coisa só podia ser um bocado diferente. Também aqui falamos de países diferentes: esse presente onde vivemos e esse passado que é um país estrangeiro.

 

Mas como já é tarde, fica para o terceiro episódio — que, prometo, irá trazer-vos um dos livros mais surpreendentes que li nos últimos anos, uma verdadeira pérola escondida nas prateleiras dos livros de viagens...

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publicado às 23:19


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