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"Como os astrólogos conseguem enxergar tão longe?"

 

Já agora, aproveito para responder: não conseguem.

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(Quanto ao 2., é fácil: porque a astrologia não funciona.)

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publicado às 11:29

Há uns anos, um grande amigo meu, com quem tinha discutido o meu cepticismo em relação à astrologia, veio ter comigo atrapalhado. Uma amiga dele tinha feito uma "análise astrológica" mais séria e a coisa tinha batido extraordinariamente certo! Ele não sabia o que dizer. 

 

Todos sabemos isto: a astrologia, às vezes, parece funcionar. Lemos uma descrição do nosso signo, e a coisa parece bater mesmo certo. Os amigos de determinado signo percebem rapidamente que têm características em comum — e que são obviamente desse signo!

 

Quem tem uma tendência emocional para acreditar na dita astrologia, não tem como combater esta crença: claro que sim! Claro que estamos em harmonia com o universo e este tem uma influência directa nas nossas vidas! Não é lindo? 

 

É lindo, mas é falso. A astrologia já foi testada milhentas vezes (ao contrário do que se pensa, os cientistas não se coibem de testar de forma objectiva estas coisas — estas coisas é que tendem a falhar nos testes) — e as conclusões são estas: os astrólogos não sabem descrever as características pessoais das pessoas mais do que qualquer pessoa minimamente atenta.

 

Afinal, acreditam mesmo que astros que estão tão longe de nós que a sua luz leva milhões de anos a chegar à Terra têm uma influência na nossa vida só porque estavam em certo ponto do céu quando nós nascemos? Porque carga de água isso aconteceria? Que mecanismo imprimiria no nosso corpo seja lá o que for que influenciaria o decurso das nossas vidas no momento em que nascemos?

 

Dizem-me os astrólogos: ora, não compreendemos, mas o efeito está lá! Nós conseguimos perceber esse efeito, porque seguimos esta velha ciência, depurada ao longo de séculos, com uma sabedora que tu, ó céptico incréu, nunca compreenderás!

 

Exacto: podia dar-se o caso de não percebermos o mecanismo, mas podermos detectar uma certa regularidade que corresponderia às previsões astrológicas: há ainda tanta coisa que não percebemos, mas cujos efeitos sentimos...

 

Lamento desiludir-vos, amigos cósmicos, mas quando testamos a coisa mais a fundo, vemos que o efeito não está lá. Quando tentamos perceber se o signo, de facto, influencia a personalidade, os testes feitos de forma minimamente científica mostram que a coisa é falsa. 

 

Por exemplo (e é só um exemplo!), Shawn Carlson realizou um estudo cujo protocolo foi considerado adequado pelos astrólogos participantes, em que os astrólogos deveriam, de forma "duplamente cega", ligar perfis psicológicos a signos.

 

Não conseguiram mais do que qualquer um de nós conseguiria através da mera escolha aleatória dos perfis. Ou seja, os astrólogos, perante perfis psicológicos detalhados, não conseguiram adivinhar o signo dessas pessoas! Ora, se conseguem perceber o perfil psicológico duma pessoa através do signo, também deveriam conseguir obter o signo através do perfil psicológico. Pois é... Não é isso que acontece.

 

Leiam o artigo da Wikipédia sobre a dita "ciência que desconhece". Vão aprender muito.

 

Seja como for, a pergunta que hoje me interessa é: se a astrologia é falsa, porque é tão fácil acreditar? Porque parece bater certo em tantos casos?

 

A astrologia parece funcionar por vários motivos, entre eles estes dois: a tendência para a confirmação ("confirmation bias"), tendência essa inscrita no nosso cérebro e que nos leva a reparar de forma muito marcada em tudo o que confirma aquilo que esperamos e que nos leva, simultaneamente, a ignorar, de forma inconsciente, tudo o que não confirma o que esperamos. Quando alguém faz uma descrição da nossa personalidade, reparamos naquilo que bate certo e ignoramos, sem querer, todos os pontos em que a coisa não é assim tão certa. 

 

Depois, temos outro "bias": a validação subjectiva, explicada no capítulo 21 do livro cuja capa vai abaixo. Já falei aqui deste autor, quando vos propus o Brain Pickings. Como explica David McRaney, isto da validação subjectiva quer dizer apenas isto: tendemos a acreditar em qualquer disparate se o objecto da conversa formos nós. 

 

O autor dá um exemplo. Pega no seguinte texto e pergunta se é uma descrição fidedigna do leitor:

 

Tens a necessidade que as pessoas gostem de ti e que te admirem, mas tens tendência para ser crítico em relação a ti próprio. Embora tenhas alguns defeitos de personalidade, consegues compensar com outras características. Tens capacidades que ainda não usaste em teu proveito. Pareces disciplinado e controlado por fora, mas estás preocupado e inseguro por dentro. Por vezes, tens dúvidas se tomaste a decisão certa ou fizeste o que era correcto. Gostas de alguma mudança e variedade e não gostas quando te controlam ou limitam. Também tens orgulho em teres uma mente livre e não aceitas o que os outros te dizem sem veres as provas. Chegaste à conclusão que não é prudente revelares-te demasiado aos outros. Por vezes, és extrovertido, sociável e afável, mas outras vezes és introvertido, cauteloso e reservado. Alguns dos teus sonhos tendem a ser pouco realistas.

 

Reconhecem-se neste texto?...

 

Ora, meus amigos, este texto foi usado por Bertram R. Forer para uma experiência. Deu aos alunos um teste de personalidade, que supostamente foi usado para criar uma avaliação de personalidade individual. No entanto, quando chegou a hora de distribuir essa avaliação de personalidade individual, deu a todos os participantes o texto acima. Malandro!

 

Em seguida, pediu aos participantes para avaliarem, numa escala de 0 a 100, a adequação do texto à personalidade de cada um.

 

O resultado? Uma média de 85%.

 

Ou seja, os alunos consideraram o texto uma análise muito fidedigna da sua personalidade individual — e o texto era igual para todos!

 

Como é que Forer criou o texto acima? Juntou frases soltas de vários horóscopos...

 

A experiência tornou-se famosa e, hoje, a tendência que todos temos para acreditar em declarações vagas sobre nós próprios é chamada Efeito Forer. Como podem ler no artigo wikipédico sobre este assunto, este é o efeito que explica porque é tão fácil acreditar em pseudo-ciências como bio-ritmos, frenologia, astrologia, numerologia e cartas de tarot.

 

Acreditar em tudo isto é algo muito humano — mas a capacidade de estas "ciências" nos descreverem individualmente é nula. 

 

 

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Devemos ser todos muito curiosos e abertos a quase tudo, mas há limites e qualquer um de nós conhece-os bem. Se leitores há que não abririam o Ulysses nem à lei da bola, outros que não leriam ciência nem que o mundo dependesse deles, já eu não consigo abrir livros de anjos e astrologia e tarot e coisas dessas.

 

 

Porquê? É só mania? Não. Tenho muita curiosidade sobre estas coisas, mas curiosidade científica e humana sobre a razão por que as pessoas são levadas a ler tudo isto e a acreditar de forma tão séria naquilo que é, de forma tão transparente... Ora, como posso dizer isto sem ofender ninguém? Enfim, procurem o significado de BS no Urban Dictionary se faz favor.

 

Tive um ou dois livros que li na altura certa que me explicaram claramente o que é isto e o porquê disto, e embora continue com muitas dúvidas e curiosidades, estou relativamente imune a este vírus (julgo eu). Imune totalmente, nunca estamos, porque quem se julga imune à BS, está mais sujeito à mesma doença do que pensa.

 

Sei que alguns vão dizer: "estás a ser muito preconceituoso; devias ter a mente aberta". Eu tenho a mente aberta e já ouvi estes argumentos todos. Mas a mente aberta não é isto que estão a dizer. Leiam o Carl Sagan para perceber o que é, de facto, uma mente aberta. Uma mente aberta não é uma mente vazia cheia de nuvens de palavras vagas.

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Oiço pessoas inteligentes e desempoeiradas a falar de astral limpeza de energias, e coisas dessas, e pergunto-me: será que acreditam mesmo nisto?

 

A cura é, claro, uns bons livros...

 

Por exemplo, este:

 

 

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publicado às 00:01

Uma vez fui visitar Conímbriga com o meu avô e os meus pais. A viagem foi curiosa, mas já sabemos que visitar ruínas romanas exige sempre alguma concentração: é preciso um trabalho de imaginação para reconstruir na nossa cabeça o que ali estava — e o que ali estava era uma civilização de há 2000 anos (ia dizer "atrás", mas ainda levava uma traulitada). Uma viagem em família não é o ambiente ideal para essa reconstrução mental e para chegarmos àquele clique em que pensamos, bolas, havia aqui gente que tinha uma sociedade inteira e sólida e, entretanto, tudo acabou e veio a Idade Média e tudo e tudo...

 

(Isto faz-me lembrar a viagem de finalistas da faculdade, à Tunísia, em que fui com uma turma que não era formalmente a minha, por razões que agora não vêm ao caso, e, na visita a Cartago, ficámos boquiabertos com aquilo — porque aquilo era quase nada... Talvez volte um dia a falar dessa mítica viagem.)

 

Portanto, lá fomos até Conímbriga. Lembro-me de pouco mais, mas lembro-me duma conversa com o meu avô, que devia ter uns 70 anos por essa altura.

 

Perguntava-me o meu avô como era possível aos historiadores saberem seja o que for sobre aquela gente que por ali andava — afinal, como ele explicava, na vila dele nem a geração dos avós dele (meus tetravós) tinha registos completos... Perguntava-me a mim, porque, supostamente, eu era um gajo muito sabido de História (o meu sonho entre os 10 e os 17 anos era ser historiador). Lá balbuciei umas explicações, mas era difícil em poucos minutos dizer fosse o que fosse sobre o método da História, sobre o Império Romano, etc. e tal.

 

Agora, não me interpretem mal: o meu avô é uma pessoa inteligentíssima. E com esta pergunta mostra um cepticismo bastante saudável. Mas fez a escola primária nos anos 30, e não me venham com histórias: antigamente é que não era bom.

 

(Não me interpretem mal também noutra coisa: hei-de vos contar várias conversas com o meu avô em que parece que ele pergunta e eu tento responder. Mas, não se esqueçam, a questão é que eu tive a oportunidade de seguir pela escola fora, também por causa do meu avô, e há coisas um pouco mais teóricas em que me sinto mais à vontade. Mas nem por sombras sinto que sei mais do que o meu avô que tem hoje 85 anos. É impossível. Podemos não saber das mesmas coisas, mas 85 anos são melhores do que muitos anos de leituras para se saber coisas que só nessa altura saberemos o quão importantes são.)

 

Ora bem, isto agora enrolei-me um bocadinho, mas vocês percebem. Adiante.

 

Na mesma viagem, mas já de regresso, falamos sobre as idades das pessoas. Digo ao meu avô que hoje vive-se, em média, mais anos do que "antigamente", seja lá isso quando for.

 

O meu avô franze a testa: "Então, mas na Bíblia falam de pessoas com 800 e 900 anos."

 

Ups.

 

Eis-me perante o Grande Choque de Gerações. 

 

Tento dizer que isso seria simbólico, ou algo assim. Quase que me atrevo a dizer que o Adão, se calhar, vamos lá ver, pois bem... Se calhar é uma espécie de história. Resposta do meu avô: ou se acredita ou não se acredita. A Bíblia é para se acreditar, ponto final.

 

Fiquei calado, confesso. Em Portugal, ao contrário dos E.U.A., nunca me pareceu que a religião fosse impeditiva de as pessoas acreditarem nos factos científicos. Afinal, lembro-me de ter Religião e Moral na escola e de ter uma professora que nos explicou a evolução darwiniana não para "dizer mal", mas para provar que o Antigo Testamento só podia ser metafórico, mas nunca literal, porque a ciência já tinha demonstrado que a Bíblia não era uma descrição literalmente verdadeira.

 

Com esses professores assim tão desempoeirados (se calhar fui eu que tive sorte), esqueci-me que, do fundo do sistema de ensino do Estado Novo, foram educadas gerações habituadas a um ambiente em que a Bíblia era uma Verdade absoluta e sagrada. Antigamente não era mesmo nada bom... (Também, há que dizer em abono da verdade, aprenderam outras coisas válidas. Mas isso agora não vem ao caso.)

 

Reparem: o meu avô tem o instinto céptico que o leva a duvidar dos achados arqueológicos de Conímbriga. Mas há ideias que são sagradas, também porque estão envolvidas numa série de recordações (as missas, a catequese, a escola de há muitos anos) que implicam uma ligação emocional forte a essas ideias. 

 

Não pensem, aliás, que esse problema é exclusivo da geração dos nossos avós. É muito fácil todos nós cairmos em certos engodos: a astrologia, a homeopatia e essas interpretações literais de textos religiosos (e um grande et caetera). É tão fácil porque estamos pouco alerta para os erros dessas ideias. São ideias que sabem bem, são confortáveis, parecem fazer sentido e as pessoas que nos explicam estas coisas são muito simpáticas e, por vezes, importantes para a nossa vida. Confiamos nelas. Toda a vida acreditámos e, por vezes, parece que não acreditar é trair não essas ideias mas as pessoas que no-las transmitiram.

 

Já a ciência parece ser uma coisa mais fria e um pouco desmancha-prazeres. (Ah, mas pode não ser...)

 

Enfim, não há muito a dizer nem a fazer quanto a estes desencontros geracionais. O meu avô de 85 anos há-de ter mais sabedoria do que eu para lidar com situações como estas — e o certo é que nunca deixámos de falar, mesmo com esta barreira que outros acham intransponível.

 

(E se estão a rir-se da ingenuidade do meu avô, pensem em quantos amigos vossos acreditam nos horóscopos e parem lá de rir, se faz favor.)

 

E lembrem-se que teremos todos muita sorte se, aos 85 anos, ainda tivermos vontade de aprender.

 

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Conimbriga.jpg

 

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publicado às 15:20


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