Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




five on a treasure island.jpg

 

Gosto desta maneira de discutir da Gaffe. Sem arremedos de indignação por haver quem não pensa da mesma maneira.

 

Por isso, neste caso, é um prazer discordar.

 

Ao contrário da Gaffe, eu acho que a síndroma de Blyton é algo bom.

 

Se bem percebi, o argumento contra a síndrome de Blyton implica que o gosto pela aventura do género tipificado por Enid Blyton pode fechar o gosto dos leitores para outros prazeres mais subtis e difíceis de aprender, como o prazer da linguagem bem trabalhada.

 

No fundo, este argumento implica que leitores formatados pelas história à la Blyton terão tendência para ter dificuldade em apreciar António Lobo Antunes, um bom exemplo dum autor que não quer saber das histórias para nada — e terão dificuldade porque estarão à procura da excitação das aventuras, da história, do enredo e não encontram lá nada disso: ora, o que lá encontram (mas não conseguem gostar por causa da maldita síndrome) será o que é mais importante na literatura.

 

Espero ter resumido o argumento de forma conveniente.

 

Ora, o que se passa é o seguinte: a literatura faz-se de várias coisas: das expectativas dos leitores, das vontades dos autors, de muito acaso, de linguagem (claro), de aventuras (também) — e da mistura entre tudo isto. Há escritores que apostam tudo na linguagem, outros no enredo — mas a grande maioria mistura o que se conta com a forma como se conta. Aliás, mesmo o António Lobo Antunes não pode deitar fora as personagens e fiapos de histórias com que tece os seus romances: a tentativa desesperada do leitor em encontrar um enredo no meio da agradável bruma daquelas palavras terá muito a ver com o prazer estético que o leitor sente.

 

Portanto, se a linguagem é essencial, a aventura é parte importante da literatura.

 

Este medo da aventura na literatura, como se a aventura fosse má, pode revelar uma recusa do que há de brincadeira e jogo na literatura. Recusar esse jogo e essa aventura é o mais curto caminho para afastar muitas pessoas da literatura, que fica assim como algo que só pode ser sério e assustador.

 

Na literatura, gosto de muita coisa (não de tudo): Enid Blyton e Alice Vieira e Proust e Lobo Antunes e David Lodge e Anthony Burgess e Ian McEwan e Javier Marías (ou qualquer combinação destes e de outros, porque há gostos para muita coisa...) Quer isto dizer que é tudo igual? Não: o gosto refina-se, muda, as idades são muitas, os leitores são ainda mais...

 

Haverá risco de termos leitores presos num mundo que se limita ao que de aventura tem a literatura? Talvez, mas antes haver pessoas a ler livros menos bons do que recusar a aventura que a literatura (também) é.

 

Não se esqueçam das Minas de Salomão, de Júlio Verne, de Alexandre Dumas, das Ilha do Tesouro... Tudo excitações, certamente, mas excitações que são parte do encanto dos livros. A literatura é muita coisa, reflexão, pensamento, prazer com a forma como as palavras se encadeiam umas nas outras e nos despertam a imaginação sem que saibamos bem como — mas é também aventura e esse prazer pela descoberta e essa vontade de saber o que acontece a seguir é parte essencial do amor pelos livros.

 

Cada um de nós verá coisas ligeiramente diferentes na literatura e valoriza elementos diferentes. Muitos acharão aquela literatura infantil demasiado limitada. Mas estou convencido que a "síndroma de Blyton" é uma boa doença de muitos óptimos leitores. E ainda bem.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:


4 comentários

Imagem de perfil

De Gaffe a 27.02.2015 às 21:29

Nenhum argumento que foi até agora apresentado me faz alterar uma vírgula ao que disse.
Repare que nunca digo que ler “Os Cinco” ou a série “Aventura” impede o posterior apego a obras mais adultas e mais complexas.Digo, isso sim, que a leitura exclusiva,, sublinho “exclusiva” destas obras pode dificultar esse passo. A fórmula usada é uma das causas do sucesso deste tipo de colecções e é reproduzida, com o mesmo impacto nas várias versões que se sucederam e sucedem. As obras que refere posteriormente são exemplos claros da união destes dois vectores.
Também não acredito que padecer de Síndrome de Blyton, tendo em consideração oque acabo de dizer, seja benéfico. Será produtivo partir uma perna, porque pelo menos aprendemos a manobrar uma cadeira de rodas ou a andar de muletas?
Não recuso uma boa história, recuso instintivamente uma história que por muito bem contada esteja despojada de qualquer traço que a faça reconhecer como literária. Perdoe chamar agora Margarida Rebelo Pinto, mas a autora não deixa de apresentar na obra que produz uma fiada de histórias “interessantes” e apelativas. Não dixam de ser bem contadas, mas estão isentas de traços literários que se reconhecem por instinto. “As 50 Sombras de Grey” só pode, também, ser uma obra com uma história bem contada. Falou em Proust. A minha absoluta paixão por Proust, a minha incondicional fidelidade, existe pela maravilha da história, das histórias, do seu inacreditável “Em Busca do Tempo Perdido”, mas também pela mestria literária genial, indiscutível e reconhecível mesmo de venda. Eça é um fabuloso contador de histórias e repare no génio literário com que as conta.
Não acredito que um jovem aldolescente viciado na leitura de “Marias” atravesse posteriormente o abismo que o separa da obra literária. Torna-se cansativo repetir o que ainda não me foi contradito com a devida eficácia.
Lobo Antunes é um caso demasiado específico para ser debatido em tão pouco espaço.
Penso também que toda esta discussão não tem fim à vista. Lidamos, creio eu, com conceitos diferentes de “leitor”. O meu não lê apenas porque vale mais ler o que quer que seja do que não ler nada. Instintivamente ignora o que não lhe soa no íntimo a qualidade literária.

Ainda não foi desta que me convenceram do contrário.
Imagem de perfil

De Marco Neves a 27.02.2015 às 21:41

O problema, na minha opinião, é ter usado Blyton, que escreve bons livros para crianças. Ela está do lado de Eça, Verne, etc. Quem lê Os Cinco não está a ler a Maria nem a Margarida Rebelo Pinto. Está a ler bons livros, que despertam a curiosidade e o gosto pela aventura que é a leitura.
Imagem de perfil

De Gaffe a 28.02.2015 às 11:47

Concordo consigo. Blyton não foi uma escolha feliz para baptizar o síndrome. Mas é compreensível. Apesar de tudo, inventou a fórmula.
Imagem de perfil

De Sara a 28.02.2015 às 01:22

Bem, eu li quase todos os livros dos cinco além de outras colecções dela e depois passei para uma aventura e li uns quantos...E hoje leio Lobo Antunes, ainda agora acabei um. Ninguém começa a ler Proust e claro que as aventuras são um grande atractivo depois depende da pessoa: há quem passe a vida a ler só policiais, quem evolua para coisas ditas profundas e quem nunca mais pegue num livro...A leitura que tem se ir cultivando e começar por bons autores como Enid pode bem ser uma rampa de lançamento. Não é só a parte da aventura, mas são livros com uma boa mensagem e boas personagens. Também gosto de tanta coisa diferente...Não sei se isso me faz uma leitora "menos a sério", mas também acho que esse síndrome é algo bom :)

Comentar post



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais sobre mim

foto do autor


Calendário

Fevereiro 2015

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728

Pesquisar

  Pesquisar no Blog