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Maria do Rosário Pedreira, no seu extraordinário blogue Horas Extraordinárias, avisa-nos para a falta de «qualidade» das leituras de hoje em dia.

 

A verdade é que, ainda que, em virtude da democratização do ensino, haja mais gente a ler, isso não significa que leia com o mesmo «grau qualitativo», nem com a mesma necessidade quotidiana que tinham os leitores antigos, que podiam gastar duas horas por dia a ler, sentados na sala, autores como Faulkner ou Balzac, enquanto os actuais, nessas duas horas de leitura, estarão simultaneamente a ver os e-mails que recebem, a ouvir música, a consultar o YouTube, a mandar mensagens (e por isso não estarão a ler com a mesma atenção dos pais e avós, ou seja, não estarão a reter do livro o que aqueles retiveram).

 

 

Aceito esta perspectiva, mas gostava de matizá-la:

  • Não me considero um leitor extraordinário, mas consigo ler com atenção muitos livros. Isto, com uma vida bastante ocupada e ainda telemóveis,tablets e outros que tais. Às vezes, até dou um salto ao YouTube e chego a abrir o Facebook. Feita a confissão, sim, é verdade: ainda há quem consiga ler um livro com muita atenção.
  • Às vezes, a leitura de blogues ou notícias é também interessante e importante. Estará a milhas de um romance ou um bom livro de ciência, mas não é necessariamente perda de tempo. O blogue de Maria do Rosário Pedreira é disso exemplo.
  • Tenho uma biblioteca bem viva, com livros novos todos os meses, que tento arrumar o melhor possível no pouco espaço que tenho. Olhando para a casa dos meus pais, vejo que têm muitos livros, mas menos. Se olhar para os meus avós (gente inteligente e interessada, mas com muito menos oportunidades do que aquelas que deram aos meus pais e estes a mim), vejo ainda menos livros. E isto repete-se nas famílias de muitos colegas meus de faculdade e em imensas famílias por esse país fora: em muitos casos, a minha geração tem mais livros em casa do que os pais e os avós.

 

Ou seja, tento fugir de comparar o que não é comparável: famílias que tinham biblioteca há algumas dezenas de anos (pouquíssimas, à escala do país) com todas as famílias de classe média de hoje em dia, muito mais numerosas. Para pensarmos com clareza, imaginemos o país de há 50 anos (todo ele) e o país de hoje. E imaginemos ainda, se conseguirmos, a atenção que muitos avós iletrados davam aos livros com a atenção que os seus netos lhes dão. (Que esses avós tenham percebido o valor daquilo que não tinham é prova da sabedoria dessas gerações.)

 

Sim: às vezes, lemos a correr e estou certo que a tecnologia pode ser uma grande distracção. Mas não é impossível ler muito e bem nos tempos que correm — e não me parece tão óbvio assim que as gerações «de antigamente» lessem melhor, no seu conjunto, do que as gerações mais novas.

 

(Se bem que me apetecia ter mais tempo para ler, é bem verdade.)

 

Artigo publicado anteriormente em www.certaspalavras.net.

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3 comentários

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De A rapariga do autocarro a 08.02.2016 às 18:08

Não há tecnologia que me distraia dum livro! Pelo menos ainda...
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De Milheiras a 09.02.2016 às 21:11

É verdade que na minha casa há muito mais, mas muito mais livros do que alguma vez houve na casa dos meus pais e acredite que os meus pais têm muito mais, mas muitos mais livros que os meus avós tiveram em casa. Mas na nossa família os livros sempre foram pequenos tesouros. O meu filho com 5 anos já tem mais livros do que eu tive na minha infância e adolescência juntas. Mas eu, os meus pais e até os meus avós íamos à biblioteca ou melhor todos os meses, ou de 2 em 2 meses a biblioteca vinha até nós, a saudosa carrinha da Gulbenkian, por isso não precisávamos de tantos livros. Agora nem uma vez por ano vou à biblioteca.
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De Milheiras a 09.02.2016 às 21:13

Respondendo agora à pergunta lemos mais, mas pior? É bem provável!

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