De Paulo Rato a 10.03.2016 às 04:42
Procuro sempre encontrar um equilíbrio - por vezes difícil e incerto - entre o que é aceitável e o que não é. Mas a minha falta de tolerância, no que se refere a quem intervém no "espaço público" com alguma responsabilidade (não me refiro à generalidade dos navegadores internéticos e seria longo expor o que penso sobre este tema, embora, numa aproximação simples, esteja totalmente de acordo com Umberto Eco).
É aceitável, para mim, que alguém com pouca instrução fale e escreva com desvios de uma "norma" que não é, nem pode ser, imutável ou inflexível. São aceitáveis certos desvios dessa norma, de limites inevitavelmente imprecisos, que não passam de deturpações localizadas e construções frásicas regionais. Em ambos os casos, dentro destes parâmetros, a criatividade é, não raro, admirável. E nunca, por essa causa, desvalorizei ou menosprezei alguém.
Não é, porém, aceitável que pessoas "instruídas", com licenciaturas, mestrados e doutoramentos, cometam erros resultantes do seu afastamento em relação à própria língua, enquanto se exprimem fluentemente numa algaraviada que parece inglês, mas não passa da aproximação a uma amálgama globalizada, onde tudo mistura, sem razão nem coerência.
Não é aceitável que as mesmas pessoas utilizem ortografias e pronúncias, em geral importadas, denunciadoras de ignorância e incapacidade de compreensão dos termos usados e da gramática mais básica, arremedando ou copiando o "facilitismo brasileiro". A este nível de instrução, não admito "a mídia", nem os "aitemes" ou os "aicones", em vez de "os media", itens ou ícones. Por exemplo.
Não admito o (ab)uso de palavras inglesas que têm tradução, muitas vezes facílima, sintoma de preguiça mental grave: "target", em vez de "alvo" e muitos etc.
Costumo caracterizar estes confusos utentes de um linguajar nebuloso como "iliteratos em duas línguas", o que não deixa de ser uma proeza (na área da imbecilidade... mas proeza).
Como profissional - aposentado - de comunicação social, não admito a quantidade erros diariamente despejados nos mais diversos suportes mediáticos, quer na informação, quer em objectos mais ou menos culturais de consumo generalista. Nem o número elevado de anexações abrasileiradas, que incidem nos termos utilizados e também contaminam a sintaxe, empobrecendo ambas as prosódias e impossibilitando a própria fruição da diversidade das normas da língua: não tenhamos dúvidas de que tais criaturas são incapazes de individualizar essas diferenças e, em consequência, de compreender uma quantidade de escritores, sobretudo brasileiros, mas também dos PALOP e outras paragens onde o português é veículo de comunicação.
Não é admissível que a maioria dos novos profissionais de comunicação social reduzam as preposições, em geral a uma única: "a". E, quando arriscam recorrer a outras - poucas mais - usam-nas mal. Além de profissionais mais experientes se deixarem enredar nesta teia de disparates, fortemente catalisados, é certo, pelo "Aborto Ortofágico". Estou farto de "nomeados ao" e tantas outras calamidades proposicionais cujo enunciado esgotaria os caracteres de que disponho: basta pegar num jornal, qualquer. Estou farto de "poderiam-se" e "farão-se", ou "que pode-se", em vez de "que se pode". E de mais "eteceteras".
Finalmente, para não me alargar demais, não é admissível o abandalhamento que ocorre em outros usos da língua, nomeadamente, na legendagem de filmes e séries televisivas. Ainda hoje, picando canais, choquei com uma cena da "Guerra dos Tronos" em que um sujeito vociferava: "violastes-a!"... e outras imprecações terminadas em "s-a"...
Deveria haver legislação que impedisse idiotas notórios de se porem a "traduzir", a "locutar" e, sobretudo, a transmitir ou publicar coisas destas, fosse em que suporte (ou "plataforma", que 'tá mais na moda) fosse. Punindo os prevaricadores com coimas pesadas e interdição do exercício de actividades que, ao contrário do que as entidades supervisoras (existem?) parecem pensar (farão tal?), exigem um grau mínimo de responsabilidade, pois a sua prática deficiente é claramente danosa para os cidadãos.
E, se erros houver nesta prosa, que se emendem.