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Sim, ia eu no carro, a ler António Lobo Antunes, com o meu avô ao lado.
O meu avô é uma pessoa muito curiosa. Julgo mesmo que muita da minha curiosidade insaciável vem dele (não sei se somos montagens dos nossos avós, mas às vezes parece).
Ora, diga-se o que se disser de António Lobo Antunes, do que não podemos acusá-lo é de inventar títulos que não chamam a atenção.
Assim, logo que parei de ler por momentos, o meu avô pega no livro e abre numa página qualquer.
Deve ter encontrado algo assim:

Ora, para quem foi educado pelo sólido ensino primário do Estado Novo, isto só podia ser coisa esquisita
(que nem português parece!)
Mas o meu avô não disse nada, porque respeita os gostos dos netos, mesmo quando são gostos tão degenerados que confundem esta pasta estranha com literatura.
Hoje fui à Bertrand dum centro comercial qualquer. A Bertrand é uma rede de livrarias simpática, mas, enfim, para mim tem um defeito grande: a secção de livros estrangeiros parece uma daquelas estantes nos hotéis com livros muito usados e muito maus para os clientes estrangeiros poderem pegar, ler à beira da piscina e voltar a pôr no sítio (e os estrangeiros, claro, fazem isso mesmo).
Ia com o meu filho e, curiosamente, foi a mesma Bertrand onde há uns meses encontrei uma galdéria que me deu uns bons meses de diversão e um livro num passatempo do Sapo (quem só agora encontrou este blog, peço encarecidamente que siga o link, para não ficar a achar o pior aqui do vosso blogueiro).
Desta vez, ia com o carrinho de bebé à frente e acabei por não conseguir ver nada, porque o S., normalmente muito bem comportado, decidiu começar num berreiro, que talvez tivesse a ver com o facto de não lhe ter dado um livro para a mão. Mas não podia... Só faria uma coisa dessas se fosse comprar o livro, e hoje não queria comprar nada.
Portanto, entrei e sai com o miúdo aos berros. Mas, como era a mesma loja da tal galdéria, pus-me a matutar no blog. É coisa que, agora que ando nestas más vidas, me acontece às vezes. Resultado, lembrei-me dum episódio de há alguns anos, na Bertrand do Vasco da Gama, quando ainda não havia Fnac e a Bertrand ficava onde é hoje o Gato Preto. Fui a essa Bertrand tantas vezes que me lembro da disposição da loja como se ainda existisse...
Pois, estava eu a folhear livros quando entra uma rapariga com um rapaz atrás, que diz alto e bom som: "não me faças vir aqui, que eu nem com o cheiro posso!"
Que cheiro era esse? O dos livros, claro. O rapaz não podia nem com o cheiro desses objectos maléficos.
Olhei para cima por reflexo para ver o casal. Ela gostaria alguma coisa de livros, para arrastar o namorado até ali, e tinha aquele ar paciente de quem não era a primeira vez que passava por aquela vergonha. O rapaz parecia perfeitamente normal, mas bastante divertido em ser um blasfemo naquele tempo da livralhada. Sorri. Ali estavam duas personagens dum romance qualquer: "O Rapaz que não gostava de livros" ou algo assim... Seria uma vingança simpática: "Ai não gostas do cheiro? Então vou-te enfiar num livro que até andas de roda." Claro que não tinha nem tempo nem talento para tal empreendimento, mas a ideia fez-me, de facto sorrir.
Imaginei as cenas complicadas com inúmeros professores de português a tentarem enfiar literatura naquela cabeça. Imaginei discussões com a namorada, a tentar chantangeá-lo para que ele lesse o que é bom. Imaginei enredos de comédia romântica, com encantos e desencantos, tudo regado com boa literatura. Enfim, estive ali a delirar um bocado.
Olhei em redor. Não tinha sido o único a ouvir o dislate. Algumas pessoas folheavam livros, passavam os dedos pelas lombadas, estavam com aquela cara série de devotos, e viam-se os lábios mordidos, os olhos com um brilho de horror, uma tremideira nos dedos, como se estivessem a conter um gesto obsceno.
Vou ter de fazer uma confissão muito séria para um gajo com pretensões a ter um blog de livros: naquele momento achei o rapaz mais simpático do que aquelas pessoas um pouco atrapalhadas, a murmurarem uns quantos insultos àquela gentinha que não gosta de ler.
Porque, meus amigos, isto dos livros não é para nos andar a separar entre os bons e os maus. É para muita coisa, mas não devia ser para isso. Os rituais próprios da literarice, os lançamentos, a seriedade com que andamos a ouvir os escritores, quais sacerdotes, a forma muito triste como a nossa gente (a dos livros) fala do mundo como se o mundo fosse algo porco de que nos devíamos separar, porque o nosso reino não é, lá está, deste mundo — tudo isso faz muito pior à literatura do que o alegre rapaz que entra por uma livraria a dentro a declarar que nem do cheiro dos livros gosta.
Porque gosto demasiado de livros para andar a venerá-los.
Não sei se fui claro. Seja como for, o rapaz merecia, de facto, o supremo castigo de ser enfiado num livro, como personagem. Tenho dito. Alguém que com engenho e arte faça o favor de me arranjar essa vingança, que agora não tenho tempo.
Um desafio interessante, mas vou ser um pouco careta: não vos vou propor um blog que ninguém conhece, mas um outro que todos conhecem: Origem das Espécies.
É pá, eu sei, eu sei, o espírito da coisa é dar-vos a conhecer um blog não muito conhecido, mas que seja muito bom. Tudo bem, e farei isso na próxima follow friday. Mas não resisto. Nem tanto pelo blog em si, que já conheceu melhores dias, mas pelo autor, pelo escritor, pela personagem que ele entorna nos seus policiais, que fazem sentir que estou na mesma sala (este grande Blogs do Sapo) com quem escreve um Pepe Carvalho portuense, sempre com boa comida e uma escrita que nos dá o desencanto saboroso duma cidade nocturna, numa das duas pontas da península. São policiais em que os cadávares são o que menos importa...
Isto pode dar alguns enjoos ideológicos a algumas almas mais sensíveis, mas pronto, já está. E também fica aqui a sugestão dum dos melhores livros do autor (não este, mas o outro, que em relação a FJV podem bem começar pelo blog que estou a recomendar):
Fonte: www.todocoleccion.net
Ora bem, uma das coisas que gostava de fazer com este blog era navegar pela biblioesfera nacional... Ando a tentar fazer uma lista de blogs livrescos nacionais, mas a coisa é difícil e demora tempo. Mas aqui vai uma primeira lista, de blogs sobre livros ou por onde andam livros muitas vezes e que me parecem activos. Conhecem mais algum que queiram partilhar?
Mais tarde, hei-de completar a lista e criar o meu primeiro blogroll de livros, para pôr aqui ao lado. (Hei-de ter blogrolls sobre as outras manias, claro.)
(Um dos grandes blogs da biblioesfera nacional.)
Anda sempre tudo muito preocupado com o contraste ou confronto ou lá o que é entre ciência e literatura (mais preocupados, claro, os literatos que os cientistas, mas adiante). Eu que sou da área da literatura mas não passo sem ciência (não praticando, porque não me arrogo ao título de cientista, mas lendo e conhecendo e tendo uma curiosidade que não sei bem donde vem) — dizia: eu que sou da literatura, acho que esta luta é estranha. Nem as duas actividades estão próximas, nem estão propriamente em confronto. Não costumo ler romances para saber mais sobre o universo...
Para mim, a ciência serve para saber mais.
Já a literatura. serve para viver mais.
Acho que é simples, embora, claro, seja uma simplicidade enganadora.
Só para dar mais um toque: a ciência serve para conhecer mais sobre o universo e rejeitar o criacionismo (por exemplo). A literatura pode servir, também por exemplo, para saber como é ser um criacionista radical norte-americano, como é viver na pele dele e ver o universo com a mente dele.
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