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Os anti-vacinas

13.04.14

Na sequência do tema levantado pelo Daniel de Oliveira e, aqui no Sapo, pelo João Miguel Tavares, tenho uma coisa a dizer-vos:

 

Aqueles de nós que são contra as vacinas por alguma razão que me escapa (parece que ficam arrepiados com os efeitos secundários, como se não conhecessem os efeitos primários: a erradicação de muitas doenças mortais) — dizia eu: aqueles de nós que são contra as vacinas acham que este é um debate entre médicos e cientistas. 

 

Não é. É um debate entre pessoas que não percebem nada de medicina e que acham que não devemos vacinar as crianças e pessoas que não percebem nada de medicina mas confiam nos médicos e nos cientistas no que toca à medicina.

 

Os médicos e os cientistas são, numa larguíssima maioria, a favor das vacinas.

 

Acham que estão sob o efeito de alguma droga? Estão a ser vítimas de ilusão? Não sabem o que estão a dizer?

 

Alguns dizem: "eles querem é vender medicamentos!" Ora, acham mesmo que os cientistas estão sob a alçada das farmacêuticas? Leiam o Ben Goldacre, um dos maiores inimigos das farmacêuticas e um defensor acérrimo da ciência (incluindo, claro, das vacinas). 

 

Mas se acham que os cientistas estão a trabalhar para uma conspiração internacional (uma teoria extraordinária), têm de apresentar provas extraordinárias. Que não existem.

 

Os cientistas estão a fazer o seu trabalho. Nós é que andamos a confundir tudo. 

 

Vamos mas é lá continuar a vacinar as crianças, por favor.

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Aqui.

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publicado às 12:11

... e está aqui.

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publicado às 17:11

Bolas, não é coisa que levante problemas em Portugal, onde todos parecem estar confirmados com o facto de descendermos doutros símios (não dos macacos, que não são nossos avós, antes primos...). Mas há muitos locais no mundo onde as pessoas acreditam que os mitos da Idade do Bronze relativos à criação do mundo são verdade. Por isso é tão importante ler este livro, que comprei a semana passada em Londres...

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publicado às 20:05

Claro que não! 

 

Aliás, se puserem as coisas nestes termos, de facto dá cabo de alguns mistérios. Mas não dá cabo do nosso espanto perante o mundo. Antes pelo contrário.

 

Se querem perceber o que estou a dizer, leiam este livro, uma das minhas aquisições nesta última fornada comprada em Cambridge:

 

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publicado às 10:46

"A realidade tal como ela é."

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publicado às 10:16

Peço desculpa, mas vai mais um post que não tem, directamente, a ver com livros. Mas, no fundo, no fundo, até tem.

 

Lembram-se das Eleições Autárquicas?

 

Já foi há uma catrefada de meses, mas acho que todos nos lembramos bem dos Tesourinhos das Autárquicas. 

 

Confesso que fiquei ligeiramente incomodado. Senti tudo aquilo a balançar entre a brincadeira inocente e um certo complexo de superioridade de alguma nata em relação ao leite.

 

Afinal, amigos, as autárquicas são as eleições mais democráticas de todas: é o povo que ali está a ser eleito, ou seja, as pessoas reais, que fazem o nosso país, e que se metem nestas coisas por vários motivos, nem todos tão baixos como o comentariat nacional acredita logo à partida, com o seu pensamento simplista e supostamente muito lúcido. 

 

Enfim, adiante. Não vale a pensa pensar muito no caso. Alguns cartazes eram, de facto, muitíssimo engraçados, e gosto de imaginar que os próprios retratados se conseguem rir daquilo. Por mim, apesar da ligeira incomodidade, não deixei de rir. É preciso é descontrair, ó gentes do meu país.

 

Agora, o caso da Picha. Este cartaz andou a circular pela net, partilhado por toda a gente:

 

 

O que tem de mal este cartaz? Aparentemente, nada. É magnífico enquanto "tesourinho das autárquicas".

 

Só que...

 

O cartaz é falso. Alguém achou que não bastavam os verdadeiros cartazes risíveis por esse país fora: teve de inventar uma freguesia que não existe.

 

Sim, porque a Picha não é freguesia.

 

Quando disse isto a alguns amigos, ficaram a coçar a cabeça: "desculpa, mas esta localidade existe, até está no Google Maps".

 

Pois claro que existe e até fica perto da Venda da Gaita. O mapa de Portugal é um caldeirão de humor.

 

A questão é a seguinte: nas eleições, andámos a eleger assembleias de freguesia, assembleias municipais e câmaras municipais. Ora, se a Picha não é freguesia (e muito menos concelho), não houve qualquer movimento candidato a uma freguesia da Picha, que não existe. 

 

Não é difícil compreender. Tal como não é difícil compreender que dificilmente alguém no seu perfeito juízo iria inventar este slogan para umas eleições. 

 

Dizem-me: "mas há gente tão parva"... Pois há, mas neste caso, os patos somos todos os que comemos este cartaz à primeira. A lógica é: "Essa gentinha que anda pelo país fora a candidatar-se a freguesias (que nojo...) só pode ser estúpida. Por isso, claro que fariam um cartaz assim estúpido. E eu, inteligente, farto-me de rir com eles."

 

É esta ideia de que toda a gente é estúpida tirando uns quantos iluminados que me faz um pouco de espécie. Mas pronto, isso sou eu, que sou um bocado ingénio. Não acho que toda a gente seja parva e, perante uma coisa destas, desconfio um pouco. Com tanta ingenuidade, engano-me várias vezes, mas desta não me enganei: confirmaram-se as fortes probabilidades de ninguém no seu perfeito juízo criar o slogan "Picha para a Frente".

 

(Já no caso do candidato ninja de Gaia, pelos vistos, era pouco provável, mas é mesmo verdade.)

 

Dizem-me também: mas o cartaz da Picha é engraçado na mesma!

 

Não, não é. Seria engraçado se fosse verdadeiro. Assim, é só uma brincadeira sem muita graça. 

 

(Um cartaz falso que teria muita graça seria o cartaz do Movimento de Elevação da Picha (a freguesia). Isso, sim.)

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publicado às 19:15

Há uns anos, um grande amigo meu, com quem tinha discutido o meu cepticismo em relação à astrologia, veio ter comigo atrapalhado. Uma amiga dele tinha feito uma "análise astrológica" mais séria e a coisa tinha batido extraordinariamente certo! Ele não sabia o que dizer. 

 

Todos sabemos isto: a astrologia, às vezes, parece funcionar. Lemos uma descrição do nosso signo, e a coisa parece bater mesmo certo. Os amigos de determinado signo percebem rapidamente que têm características em comum — e que são obviamente desse signo!

 

Quem tem uma tendência emocional para acreditar na dita astrologia, não tem como combater esta crença: claro que sim! Claro que estamos em harmonia com o universo e este tem uma influência directa nas nossas vidas! Não é lindo? 

 

É lindo, mas é falso. A astrologia já foi testada milhentas vezes (ao contrário do que se pensa, os cientistas não se coibem de testar de forma objectiva estas coisas — estas coisas é que tendem a falhar nos testes) — e as conclusões são estas: os astrólogos não sabem descrever as características pessoais das pessoas mais do que qualquer pessoa minimamente atenta.

 

Afinal, acreditam mesmo que astros que estão tão longe de nós que a sua luz leva milhões de anos a chegar à Terra têm uma influência na nossa vida só porque estavam em certo ponto do céu quando nós nascemos? Porque carga de água isso aconteceria? Que mecanismo imprimiria no nosso corpo seja lá o que for que influenciaria o decurso das nossas vidas no momento em que nascemos?

 

Dizem-me os astrólogos: ora, não compreendemos, mas o efeito está lá! Nós conseguimos perceber esse efeito, porque seguimos esta velha ciência, depurada ao longo de séculos, com uma sabedora que tu, ó céptico incréu, nunca compreenderás!

 

Exacto: podia dar-se o caso de não percebermos o mecanismo, mas podermos detectar uma certa regularidade que corresponderia às previsões astrológicas: há ainda tanta coisa que não percebemos, mas cujos efeitos sentimos...

 

Lamento desiludir-vos, amigos cósmicos, mas quando testamos a coisa mais a fundo, vemos que o efeito não está lá. Quando tentamos perceber se o signo, de facto, influencia a personalidade, os testes feitos de forma minimamente científica mostram que a coisa é falsa. 

 

Por exemplo (e é só um exemplo!), Shawn Carlson realizou um estudo cujo protocolo foi considerado adequado pelos astrólogos participantes, em que os astrólogos deveriam, de forma "duplamente cega", ligar perfis psicológicos a signos.

 

Não conseguiram mais do que qualquer um de nós conseguiria através da mera escolha aleatória dos perfis. Ou seja, os astrólogos, perante perfis psicológicos detalhados, não conseguiram adivinhar o signo dessas pessoas! Ora, se conseguem perceber o perfil psicológico duma pessoa através do signo, também deveriam conseguir obter o signo através do perfil psicológico. Pois é... Não é isso que acontece.

 

Leiam o artigo da Wikipédia sobre a dita "ciência que desconhece". Vão aprender muito.

 

Seja como for, a pergunta que hoje me interessa é: se a astrologia é falsa, porque é tão fácil acreditar? Porque parece bater certo em tantos casos?

 

A astrologia parece funcionar por vários motivos, entre eles estes dois: a tendência para a confirmação ("confirmation bias"), tendência essa inscrita no nosso cérebro e que nos leva a reparar de forma muito marcada em tudo o que confirma aquilo que esperamos e que nos leva, simultaneamente, a ignorar, de forma inconsciente, tudo o que não confirma o que esperamos. Quando alguém faz uma descrição da nossa personalidade, reparamos naquilo que bate certo e ignoramos, sem querer, todos os pontos em que a coisa não é assim tão certa. 

 

Depois, temos outro "bias": a validação subjectiva, explicada no capítulo 21 do livro cuja capa vai abaixo. Já falei aqui deste autor, quando vos propus o Brain Pickings. Como explica David McRaney, isto da validação subjectiva quer dizer apenas isto: tendemos a acreditar em qualquer disparate se o objecto da conversa formos nós. 

 

O autor dá um exemplo. Pega no seguinte texto e pergunta se é uma descrição fidedigna do leitor:

 

Tens a necessidade que as pessoas gostem de ti e que te admirem, mas tens tendência para ser crítico em relação a ti próprio. Embora tenhas alguns defeitos de personalidade, consegues compensar com outras características. Tens capacidades que ainda não usaste em teu proveito. Pareces disciplinado e controlado por fora, mas estás preocupado e inseguro por dentro. Por vezes, tens dúvidas se tomaste a decisão certa ou fizeste o que era correcto. Gostas de alguma mudança e variedade e não gostas quando te controlam ou limitam. Também tens orgulho em teres uma mente livre e não aceitas o que os outros te dizem sem veres as provas. Chegaste à conclusão que não é prudente revelares-te demasiado aos outros. Por vezes, és extrovertido, sociável e afável, mas outras vezes és introvertido, cauteloso e reservado. Alguns dos teus sonhos tendem a ser pouco realistas.

 

Reconhecem-se neste texto?...

 

Ora, meus amigos, este texto foi usado por Bertram R. Forer para uma experiência. Deu aos alunos um teste de personalidade, que supostamente foi usado para criar uma avaliação de personalidade individual. No entanto, quando chegou a hora de distribuir essa avaliação de personalidade individual, deu a todos os participantes o texto acima. Malandro!

 

Em seguida, pediu aos participantes para avaliarem, numa escala de 0 a 100, a adequação do texto à personalidade de cada um.

 

O resultado? Uma média de 85%.

 

Ou seja, os alunos consideraram o texto uma análise muito fidedigna da sua personalidade individual — e o texto era igual para todos!

 

Como é que Forer criou o texto acima? Juntou frases soltas de vários horóscopos...

 

A experiência tornou-se famosa e, hoje, a tendência que todos temos para acreditar em declarações vagas sobre nós próprios é chamada Efeito Forer. Como podem ler no artigo wikipédico sobre este assunto, este é o efeito que explica porque é tão fácil acreditar em pseudo-ciências como bio-ritmos, frenologia, astrologia, numerologia e cartas de tarot.

 

Acreditar em tudo isto é algo muito humano — mas a capacidade de estas "ciências" nos descreverem individualmente é nula. 

 

 

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Jerry Coyne tem um óptimo site sobre ciência (às vezes ele é um bocado bruto, mas não faz mal) e um óptimo livro sobre a evolução das espécies: Why Evolution is True. Encontrei-o numa estante na Fnac e fiquei radiante. (Já agora, leiam o relato do autor sobre o lançamento do livro em Portugal. Até ele reparou que as capas da Tinta da China são lindas.)

 

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publicado às 15:07

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Como Criar um Novo Eu: Descubra o Método Quântico para controlar a sua Mente e Mudar a sua Vida.

[Este livro não é recomendado por este blog...]


Ah, às vezes há prazeres destes: entregar um trabalho a um cliente cujo escritório é mesmo ao lado do Vasco da Gama... E poder assim a meio do dia dar uma rápida espreitadela à Fnac. E passar os dedos pelas secções do costume. E encontrar isto na secção de ciência e ficar completamente banzado.

 

Acham mesmo que isto é um livro de ciência?...

 

Amigos, quando vos aparecer um livro "quântico", verifiquem com mil cuidados. Muitas vezes têm de ir correr pôr o dito na secção de "espiritualidades".

 

(Outro "bullshit alert" é o Dr. antes do nome. Mesmo os maiores professores doutores não põem os títulos nas capas dos livros — a não ser que estejam a vender BS.)

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publicado às 14:39


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