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Por estes dias, tenho tido menos tempo para blogues. Ah, os dias são sempre curtos, mas costumo arranjar tempo para umas escapadelas.
Ora, o problema é que, para escrever, é preciso tempo, mas também cabeça, e a minha cabeça, nesta última semana, tem andado mais virada para o papel, muito por causa do livro que escrevi sobre a nossa língua, que me tem feito dar umas quantas voltas.
Mas não pensem que não ando com ideias: tenho deixado muitos rascunhos na caixa do blogue. Quando a cabeça assentar, lá voltarei à rotina de vos deixar por aqui uns textos sobre línguas, livros e outras manias.
Deixem-me só contar-vos algumas das voltas do livro. Hoje de manhã, passei por uma experiência nova: fui à TVI falar sobre os segredos da língua. Na semana passada, andei pela Bertrand do Picoas Plaza, onde a editora organizou o lançamento, que me deixou muito feliz. Quanto aos agradecimentos, fi-los ao vivo — e tenho a sorte de os poder mostrar aqui, neste vídeo, que inclui a generosa apresentação de Fernando Venâncio. Agradeço agora a todos os leitores do blogue, que foram muitíssimo importantes neste projecto.
Não querendo abusar da vossa paciência, deixem-me só dizer-vos mais umas palavras sobre o livro (convém fazer alguma divulgação…):
Há ainda segredos sobre palavrões, sobre linguistas, sobre a Internet — e mais umas quantas coisas.
Diga-se que muitos textos incluídos no livro começaram aqui, neste blogue, e no blogue Certas Palavras. Todos foram revistos e alterados e há umas quantas novidades: só como exemplo, incluí um texto em que falo de erros verdadeiros — sim, porque existem mesmo erros de português, claro está… (O texto está na página 163: «E agora, algo completamente diferente: erros verdadeiros!»)
A língua é uma paixão que partilho com muitas outras pessoas. Espero ter criado um livro que sirva para aprender, mas também para passar umas boas horas de leitura, com alguns sorrisos.
Com este livro, quis celebrar a nossa língua, as línguas de todo o mundo e ainda as nossas vidas, as vidas dos falantes da língua, que — como muito bem diz Fernando Venâncio no prefácio — merecem sempre o nosso respeito. O livro é uma homenagem a esses mesmos falantes.
Espero que gostem — e espero que se divirtam, que também para isso escrevi o livro.
Doze Segredos da Língua Portuguesa. Edição da Guerra & Paz. Já nas livrarias. Encomendas: Guerra & Paz | Wook |Bertrand | Fnac

Limitei-me a dizer isto: no Brasil, o nome correcto do planeta que vem logo a seguir a Urano é «Netuno». Sim, em Portugal é «Neptuno», mas no Brasil é «Netuno». A palavra «Netuno» é usada por professores universitários, por linguistas, por astrónomos, por todos os brasileiros; está nos dicionários, é ensinada pelos professores de português e de ciências. Não está errada. Não há qualquer argumento cientificamente válido que leve a considerar que, no Brasil, «Netuno» é um erro. Vou ser explícito: em Portugal, seria um grande erro escrever «Netuno». No Brasil, é a forma correcta.
Sim, o português de Portugal e o português do Brasil são diferentes. Mas alguém tinha dúvidas?
Desta minha afirmação, surgiu o mais surreal diálogo que alguma vez teve lugar no blogue. Por favor, leiam o diálogo todo, para perceberem os argumentos dos dois lados.
Nesse diálogo, alguém me tentou convencer do seguinte (preparem-se):
Perante estes argumentos, fico pasmado e chego à conclusão que não devia ter levado a conversa tão longe. É como estar a bater com a cabeça numa parede: não serve para nada a não ser aleijar a cabeça. A parede fica igual.
Mas, enfim, são daquelas experiências que ajudam a perceber que, nas discussões sobre a língua, há também muito de irracional e há quem, infelizmente, esteja refém duma nuvem de ideias erradas, mas muito elaboradas, um pouco à semelhança dos teóricos da conspiração noutros âmbitos. O mecanismo mental deve ser o mesmo.
Teria ficado tudo por ali, naquele diálogo, não fora dar-se o caso de receber um comentário em que alguém dava força aos argumentos absurdos. Ou seja, isto não é um caso isolado e talvez seja boa ideia abrir as janelas e deixar entrar um pouco de ar fresco na tal discussão absurda:
Sim, a visão que andei a combater naquele diálogo de surdos é esta: as línguas verdadeiras são imutáveis e o português tem uma versão perfeita, descoberta pelos portugueses a certa altura e que tem de ser preservada a todo o custo. Errado. As línguas mudam constantemente, ao longo dos séculos, e não há forma de dizer o que está certo e o que está errado sem olhar com atenção para a língua tal como ela existe, na realidade, em cada sociedade. É difícil, mas não há outra opção.
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