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Ao contrário do que diz Fernando Lopes, o «cristianismo cultural» não tem nada de mal. O cristianismo vivido como verdade absoluta, esse sim, como todas as religiões, pode descambar em extremismos.

 

Os meros ritos são parte de todas as sociedades, podendo estar mais ou menos vazios sem que mal venha ao mundo. O baptismo, o casamento, a morte: todos estes passos são acompanhados de cerimónias com mais ou menos conteúdo ideológico, com mais ou menos flores e embrulho religioso, mas é quando as pessoas acreditam de forma fervorosa em tudo que as coisas descambam (ou podem descambar).

 

Por isso, não, não tenho medo de quem baptiza porque é tradição e há festa. Tenho muito mais medo de quem baptiza porque tem a certeza absoluta de todos os dogmas e quer um filho tão aceso como ele.

 

Felizmente, as nossas sociedades passaram por esses processos de separação da Igreja do Estado e ainda de esvaziamento da religião, o que só posso encarar como saudável.

 

Aliás, esse esvaziamente da religião é o que falta ainda em grandes partes do mundo islâmico: precisam de relativizar as coisas, manter a tradição cultural (que promove a coesão social, sem que nos sintamos invadidos por outras culturas) sem aquela certeza aguda que impele muitos a matar os infiéis.

 

(Só uma nota literária: uma óptima descrição da religião vazia será os ritos romanos descritos por Mário de Carvalho em Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde. O livro mostra, entre muitas outras coisas, o confronto entre a religião que é já só ritos e uma religião, naquele caso o cristianismo, ainda tão viva que estraga muitas vidas. Mesmo que não concordem com este post, aproveitem para ler esse livro. Vale a pena.)

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publicado às 12:22

Quando chegou a casa viu que faltavam as últimas vinte páginas ao livro que comprara. Mas a história era tão boa que não teve paciência para esperar que a livraria abrisse na manhã seguinte. Escreveu ele próprio o final. Depois, embebedou-se, leu-o de uma assentada e conseguiu ficar admirado com a reviravolta no final.

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Lembram-se dos homenzinhos que invadiram a Ucrânia? Todos sabemos que eram russos, mas a Rússia, com um sorriso nos lábios, dizia que não.

 

No caso dos terroristas que nos andam a dar cabo da tranquilidade, muitos de nós acham mesmo que são agentes que matam apenas porque sim, sem qualquer base ideológica.

 

Percebo porque caímos neste erro: não queremos acusar toda uma religião de ser a base deste terror.

 

E, de facto, o inimigo não é o Islão — mas tem um nome e é real.

 

Lembram-se do fascismo? Daquela ideologia assassina que invadiu muitas mentes europeias, muitas delas bem inteligentes e informadas, na primeira metade do século XX. Podemos mesmo dizer que ainda não desapareceu completamente.

 

Ora, o fascismo ligou-se, em muitos países, à religião cristã. E, no entanto, parece-me claro que não podemos acusar os cristãos, em conjunto, de serem fascistas. 

 

O mesmo se passa no Islão: há uma corrente política que se afirma muito religiosa que tem um cariz fascista e que nos anda a aterrorizar.

 

Essa corrente não é o Islão. É uma corrente minoritária dentro desse Islão que se afirma como a mais pura das interpretações dessa religião. 

 

O nome é wahhbismo e teve origem na Arábia Saudita. Se quiserem saber mais sobre o movimento, podem começar pela Wikipédia. Leiam ainda este post de Nassim Nicholas Taleb

 

Sim, o wahhabismo é fascismo puro e duro. Confundir este movimento com o Islão é o mesmo que confundir os movimentos religiosos de cariz fundamentalista (como o K.K.K.) com o Cristianismo no seu conjunto. 

 

Agora, as más notícias: este movimento tem o apoio explícito de países que são, por motivos circunstanciais, aliados da Europa e dos E.U.A. Este movimento tem também muito dinheiro e tem espalhado esta ideologia pelas escolas religiosas do Paquistão e de muitos outros países, incluindo o Reino Unido e a França.

 

Esta ideologia ganha cada vez que a confundimos com o Islão. As primeiras vítimas são os muçulmanos moderados (a larga maioria). É ainda uma ideologia muito atractiva para os homens novos, aborrecidos do mundo, que gostam de radicalismo e odeiam o mundo brando da vida adulta. 

 

Mais: tudo o que fizermos para a combater é usado para justificar o radicalismo. Há ainda todo um processo de vitimização que lembra a forma como Hitler aproveitou a sensação de humilhação dos alemães depois da I Guerra Mundial. Este fascismo — como os outros — aproveita o pior da natureza humana, mas é profundamente eficaz a arrebanhar as mentes de quem cai na armadilha. Reparem no Estado Islâmico: promete salvação eterna no futuro, escravas sexuais agora mesmo, a excitação da guerra e a recusa do mundo aborrecido do dia-a-dia. São ideias potentes.

 

É um problema. São, literalmente, inimigos. Esta ideologia acha que todos os infiéis (grupo em que incluem grande parte dos muçulmanos) são sub-humanos, sem qualquer possibilidade de redenção ou de compaixão. Para eles, matar 200 crianças infiéis é tão inócuo como jogar um jogo de computador.

 

Daqui nasceu a Al-Qaeda e o Daesh (ou Estado Islâmico).

 

O que podemos fazer? Não tenho grandes respostas. Mas julgo que não devemos confundir esta ideologia radicalíssima e profundamente errada com a tradição religiosa de milhares de milhões de pessoas, com a qual podemos concordar ou não, mas devemos respeitar. Podemos discutir abertamente com crentes de todas as religiões. Não precisamos de dizer que têm razão em tudo, mas podemos propor um quadro de abertura, onde todos possamos discutir e viver em conjunto.

 

No fundo, temos de nos aliar aos moderados. Temos de defender o humanismo, tenha ele a cor nacional e religiosa que tiver. 

 

Podemos ainda pensar em depender menos dos países que propõem este fascismo radical. Estou a falar da Arábia Saudita, claro.

 

Podemos também tentar dar mais força aos muçulmanos moderados, para contrabalançar a terrível força do dinheiro do petróleo por trás da divulgação das ideias wahhbistas (com a noção que tudo o que fizermos será usado contra nós pelos wahhbistas, que pintarão os moderados como «vendidos ao Ocidente»).

 

Podemos ainda continuar a defender valores humanistas, que, embora não excitem as almas jovens, são a única possibilidade de vivermos em conjunto. Esses valores incluem ajudar quem precisa (incluindo refugiados muçulmanos), defender o direito a discutir ideias diferentes, aceitar a provocação do humor, deixar viver à vontade quem não prejudica os outros, criar instituições comuns que não imponham valores religiosos de qualquer tipo e por aí fora.

 

Sim, são valores que nem todos gostam (entre eles, muitos religiosos moderados). Mas são estes valores que nos salvam dos fascismos de todos os tipos. 

Acreditem — o mundo é feito duma imensidade de gente decente que, em muitos sítios diferentes, de todas as religiões ou sem nenhuma, tenta viver o melhor que sabe e pode. E, depois, há estes iluminados que acham que o mundo só se endireita em direcção ao caminho que eles acham correcto se derem um empurrão à bomba e ao tiro. Por isso, não digam que o mundo está louco. Loucos são eles.

 

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Hoje estamos naqueles dias de sorte, uma sexta-feira que calha num belo dia 13. Chove e tudo!

 

Há uns anos, estava eu a chegar perto da meia-noite entre a quinta-feira 12 e a sexta-feira 13 à casa onde morava durante os anos da faculdade e passou-me um gato preto à frente do carro. Sorri.

 

Um minuto depois, passa um novo gato preto à frente do carro. O relógio marcava 00:00. 

 

Arrepiei-me um pouco. Sorri, mas com um pouco de amarelo nos lábios.

 

Estacionei e lá fui para casa, com os meus passos a soar na rua deserta, um pouco assustado.

 

Nada aconteceu, o que até foi sorte. Afinal, a casa era num local onde o azar bate à porta várias vezes, bastando para isso andar na rua em momentos de noite escura.

 

Aqueles gatos não me trouxeram qualquer azar. Mas, se os gatos pretos dão tanto azar como os gatos à pintinhas amarelas, a verdade é que parecem ter mais azar do que os outros.

 

Porquê?

 

Porque estas nossas parvas superstições acabam por levar a que seja mais difícil arranjar donos para gatos pretos. Uma pena.

 

E, mais... Os meus pais, há uns anos, receberam em casa uma gata grávida. Teve cinco filhos: uma gata cinzenta, outra malhada e três gatos pretos.

 

Pois os três pretos acabaram por desaparecer. Ninguém sabe o que se passou mas disseram-me algumas línguas mais dadas à conspiração que, nas aldeias, os gatos pretos têm muito azar. Muito azar provocado por esse bicho complicado que é o ser humano.

 

Não sei o que se passou com esses três gatinhos bonitos, desaparecidos em combate. Mas não custa pedir para que todos nos deixemos de superstições estúpidas: os gatos pretos fazem tão mal como os gatos brancos, ou não?

publicado às 12:16

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Ontem, vinha a conduzir pelas ruas de Lisboa no fim de tarde que já é noite, quando me apareceu na rádio o Jorge Palma a cantar Rui Veloso.

 

Aquela junção da voz de Palma com uma canção que sempre ouvi na voz de Rui Veloso, com a sua inconfundível voz portuense, fez-me um curto-circuito qualquer.

 

Ali sentado no trânsito, à espera que o semáforo passasse a verde, a voz já quebrada de Jorge Palma, dos muitos anos que leva em cima, soou-me ao perfeito timbre lisboeta. Rui Veloso tem o Porto na voz e Jorge Palma tem Lisboa na voz.

 

Há outra voz que identifico de forma muito particular com Lisboa: Sérgio Godinho. A voz dele tem um outro timbre lisboeta: o da política dos anos 70, dos jovens de vidas a arder na faculdade, com os olhos brilhantes das ideias que mudam o mundo inteiro aqui e agora, entre beijos e cigarros.

 

Jorge Palma é outra coisa: bebedeiras ao fim do dia, entre quem não quer saber e quem já está cansado, festas de amigos num apartamento da Costa da Caparica ali por volta de 1979, todas essas décadas e toda a cidade a aparecer-me em imagens de vidas que não são minhas. 

 

A música é assim: um rapaz nascido em 1980 acaba com memórias dos anos 70 na cabeça. 

 

Estes timbres, estes imaginários urbanos, estas pequenas memórias que todos temos não são só dos lisboetas (ou dos portuenses): são de todos os portugueses e de quem cá cair por acaso. É assim a vida e a música.

 

Fonte da imagem: 

http://www.guiadacidade.pt/pt/art/jorge-palma-sergio-godinho-juntos-284476-03

 

publicado às 10:44

Não sei se já ouviram falar duma pequena vila chamada Atouguia da Baleia. Uma pequena jóia de terra que, se não conhecem, deviam conhecer, nem que seja pelo osso de baleia gigante que se esconde dentro da Igreja Matriz.

 

A minha mãe é de lá e passei muito tempo, em pequeno, na casa dos meus avós. Foi lá que comecei a ler, embrenhado na colecção dos Cinco, da minha mãe, que li de enfiada aos 7 anos, numa pequena sala da casa dos meus avós cujo cheiro ainda hoje me traz recordações de felicidade absoluta e de aventuras com comboios, subterrâneos, ilhas desertas e comboios misteriosos.

 

Até aos meus sete anos, o meu avô era o gerente da loja principal da terra, um daqueles edifícios de fachada verde que aparecem nalgumas ruas de Portugal.

 

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Lembro-me de brincar por lá, no meio de gigantescos armários de madeira, entre tudo o que se vendia na loja: arroz, farinha, cereais, etc. A loja chegou a ser a estação de correios e, a certa altura, tinha o único telefone da terra. As histórias que o meu avô conta davam um livro em que o século XX aparecia ali em pequena escala, entre a chegada da televisão, a chegada do Homem à Lua, emigração clandestina, agentes da PIDE e todos os pequenos e deliciosos enredos de todas as terras e de todos os tempos.

 

O meu avô reformou-se também por volta dos meus 7 anos e os proprietários da loja, uma família de Cascais, decidiram fechá-la.

 

Os meus avós Gisela e Manel que não eram gente de ficar parada (alguém era?), abriram uma pequena papelaria num dos quartos da sua casa, que abriram para a rua.

 

A minha adolescência teve esse porto de abrigo (o outro era a mercearia da minha avó Leonor), com cheiro a jornais e livros, onde lia as aventuras do Tio Patinhas, mas também jornais e revistas sem limite, e ainda livros mais adultos. Lembro-me de ter comprado por lá os Contos de Eça de Queirós, que ainda hoje guardo, já meio desfeito, e ainda o meu primeiro livro de António Lobo Antunes: A Morte de Carlos Gardel.

 

Fiz ainda muitas colecções de fascículos, ajudado pelos meus avós: enciclopédias, atlas, discos de música clássica… Um mundo inteiro ali à mão de semear, numa pequena papelaria, numa rua calma duma terra pacata.

 

Conto-vos isto tudo porque faz hoje vinte anos que um homem entrou nessa pequena papelaria, na mais pacífica das vilas portuguesas, e matou a minha avó Gisela com um tiro na cabeça.

 

Não vale a pena entrar em pormenores. Foi um assalto, o homem foi preso e estará ainda a cumprir a pena.

 

Sei que é um lugar-comum dizer que aqueles que morrem não merecem. Pois, claro que a minha avó não merecia. E não merecia, acima de tudo, que fosse daquela forma violenta. A pessoa mais bondosa que conheci não merecia que a violência do mundo lhe entrasse por casa adentro.

 

Vinte anos depois, tento escrever este tempo para pôr algumas ideias em ordem e dizer-vos algumas coisas que aprendi e desaprendi nesse dia de 1995. Aprendi, como compreenderão, que perder alguém desta forma é um choque que não se explica. Mas aprendi mais…

 

O horror do acaso

Normalmente, tentamos integrar o que de mau nos acontece numa qualquer narrativa. Se morrem crianças numa escola dos EUA, a tragédia servirá, pelo menos, para chamar a atenção para a violência das armas de fogo nesse país. Se morre alguém de doença, servirá para incentivar a que se encontre uma cura… É um impulso normal: tentar dar um sentido à morte de alguém de quem gostamos.

 

Neste caso, não consegui encontrar sentido nenhum. Aquela morte serviu apenas para impedir que a minha avó conhecesse todos os netos e os visse crescer. Não foi sequer uma chamada de atenção para qualquer tipo de uma epidemia de violência: nos anos 90, os homicídios não estavam a subir em Portugal.

 

Não: foi um evento saído do caos da realidade, do horrível acaso que, por mais que tentemos negar, governa a nossa vida. Se o assassino não tivesse parado naquele sítio exacto, se não tivesse roubado aquela arma no dia anterior, se tivesse ficado preso como chegou a estar… E, claro, se aquela pessoa particular não fosse fraca ou má, a minha avó não teria morrido com violência. Teriam acontecido muitas outras coisas, boas e más, mas não aquela. Vivemos num mundo que mal compreendemos e é difícil não ter uma narrativa para nos ajudar nestes momentos.

 

Os sonhos são ainda piores do que os pesadelos

Quando a Teresa — que ajudava a tomar conta dos meus irmãos (e de mim, apesar de já ir com 15 anos) — me disse o que aconteceu, o meu corpo reagiu de forma absurda. Caiu-me um sono imenso em cima e tive de me deitar. Será que era uma tentativa de ver aquilo tudo como um pesadelo de que iria acordar?

 

Não só não era um pesadelo, mas sim a realidade bruta das coisas, como, com a morte da minha avó, descobri a maldição dos sonhos: quando adormecemos e de repente sonhamos que ainda vamos a tempo, que conseguimos voltar atrás e mudar o que já não tem solução. Sonhava muitas vezes que conseguia avisar a minha avó ou que alguém entrava e impedia o assassino ou que eu próprio a salvava de alguma maneira. Depois, acordava, e era um novo choque. Um choque repetido todas as manhãs, durante imenso tempo. É por isso que digo que os sonhos ainda conseguem ser piores do que os pesadelos.

 

Chorar não é assim tão fácil

Desses primeiros dias, lembro-me da dificuldade das pessoas em falar comigo e com os meus irmãos. Se com os adultos era difícil, o que dizer às crianças?

 

Lembro-me do abraço do meu avô quando me viu, num choro verdadeiramente desalmado.

 

Chorei muito e, algumas semanas depois, descobri que tinha deixado de conseguir chorar.

 

Fiquei preocupado, mas nada podia fazer. Fiquei sem lágrimas durante alguns anos, de tal forma que nas datas em que devíamos chorar, sentia-me envergonhado.

 

Não faço ideia do que se passou. Mas o nosso corpo tem razões que a cabeça não percebe, como sabemos.

 

Uma palavra proibida: «Obrigado!»

Agarramo-nos, nestas alturas, a certas ideias obsessivas e superstições absurdas.

 

Lembro-me de muitos pormenores dos dias que antecederam a morte da minha avó, como se tivessem ficado queimados pelo choque na minha memória. Talvez haja quem saiba explicar o fenómeno.

 

Lembro-me, por exemplo, do sítio exacto onde estava quando a rádio anunciou a morte de Yitzhak Rabin, poucos dias antes.

 

Lembro-me do último banho antes de saber o que acontecera.

 

Lembro-me, obviamente, da última vez que vi a minha avó, que nesse dia me deu um abraço muito grande, por uma razão qualquer. Também por uma razão qualquer, nesse dia, despedi-me dela com um obrigado, talvez por causa de alguma coisa que ela me tivesse oferecido da papelaria.

 

Ora, esse «obrigado» acabou por transformar-se, aos 15 anos, numa superstição. Deixei de dizer «obrigado» a pessoas da família, com medo que morressem.

 

Os livros podem agredir-nos sem querer

O acaso, o acaso sempre a torcer-nos o braço até doer. Nesse dia, o meu avô apontou, em choque, para um livro que recebera para vender poucos dias antes:Matai-vos Uns aos Outros, de Jorge Reis, que estava em lugar de destaque na papelaria, como ordem imperiosa a quem ali entrasse.

 

Não sei o que o meu avô pensou disso — nem sei se se lembra desse pormenor horrível. Talvez lhe tivesse parecido mais uma prova de como a violência do mundo nos entra em casa sem pedirmos.

 

***

 

O funeral. Uma terra inteira a caminhar em silêncio, os chapéus na mão, as palavras do padre, a chuva, a minha mãe de rastos, o meu tio como se estivesse noutro mundo, os irmãos da minha avó, o meu avô, todos a começar a lenta caminhada até uma vida normal.

 

Percebi também, por esses dias, como podem ser cruéis os rituais de todos os dias. Aquilo que, antes, fazíamos sem pensar, temos de aguentar agora com o peso do mundo aos ombros. Nem falo de mim, que aos 15 anos mal sabia o que são os dias normais.

 

Falo do meu avô, que logo no dia seguinte teve de voltar ao trabalho, porque a papelaria recebia apostas do Totoloto e não há nenhuma desculpa do mundo, nem a morte da mulher no dia anterior, para não entregar os boletins. Falo da minha mãe, que teve de voltar às aulas. Do meu tio, que teve de voltar ao trabalho.

 

Voltar à escola, o primeiro Natal, o julgamento, os aniversários, os primeiros nascimentos depois do que aconteceu e a vida a fingir-se normal, enquanto todos nós demorávamos tanto tempo, muito mais do que pensávemos, a deixar de pensar no que aconteceu, todas as horas do dia.

 

A morte é terrível para quem fica, claro. Quem vai, não sabe o que se passou. A morte dos nossos faz-nos mal. Aquele assassino não só matou a minha avó, como me ia estragando, de forma retroactiva, certas recordações de infância. Mas, claro, não conseguiu, porque a certa altura as memórias dos abraços ganham mais força do que da falta desses abraços nos anos que vieram depois. Será egoísmo pensar nas minhas memórias de infância neste ponto? Enfim, todo o amor é um pouco egoísta, até o dos netos pelos avós. Talvez principalmente o dos netos pelos avós. Queremos que aquelas pessoas que nos amam sem o ralhar dos pais fiquem connosco para sempre — e intuímos que não será assim. Custa mesmo muito quando descobrimos isso, de forma brutal, cedo demais.

 

Que nos valha a memória, esta capacidade incrível de nos lembrarmos dos abraços que demos — e, hoje, que me valham estas palavras com que lembro e comemoro a minha avó, que alguém matou num dia qualquer de Novembro e de quem tenho tantas saudades.

 

Marco Neves

Ninguém consegue ler tudo o que gostaria. Pelo menos, ninguém que goste de ler muito.

 

Mas a verdade é que, perante a necessidade de escolher, há quem se imponha critérios que podem ser um limite demasiado apertado à sua curiosidade. 

 

O que quero dizer com isto?

 

Por exemplo, há pessoas de letras que dizem recusar liminarmente ler ciência. Ora, há tantos livros interessantes na ciência que é uma pena que essas pessoas nunca molhem os pés no mar imenso da literatura científica. Ficam com uma imagem parcial e provavelmente errada do que é a Ciência.

 

(Haverá também gente da Ciência que se recusa a ler literatura? Menos do que pensamos. Recusam, talvez, leituras académicas da área da literatura. Mas a literatura em si, ui, há muitos cientistas que lêem e lêem muito.)

 

Noutros campos, há quem se recuse a ler policiais. Não sabem o que perdem. Uma vez por outra, faz bem à cabeça, digo-vos eu.

 

Há ainda quem se recuse a ler autores mais recentes. Há quem se recuse a ler escritores brasileiros. Há quem se recuse a ler isto ou aquilo. Tudo limitações a mais. 

 

Sim, temos de escolher. Mas dizer «nunca» e matar partes imensas da nossa curiosidade só faz mal. Experimentemos sair das zonas de conforto, de vez em quando. Custa um pouco, mas é um risco que devemos correr para sermos surpreendidos e ter uma visão do mundo um pouco mais completa.

 

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publicado às 17:52

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As desvantagens são muitas e conhecidas. O cheiro do papel é óptimo, é mais agradável aos olhos e tudo o resto. Se me derem a escolher, escolho o livro em papel sem pestanejar.

 

Mas ler no telemóvel também tem as suas vantagens... 

 

Por exemplo:

 

1. Não precisamos de andar com muitos calhamaços atrás e mesmo assim podemos estar a ler cinco livros ao mesmo tempo. O que é bom.

 

2. Podemos ler o primeiro capítulo de algum livro que nos desperta a curiosidade para ver se apetece ou não.

 

3. Podemos ler à noite, sem ter de ter uma luz ligada que pode irritar quem se deita ao nosso lado.

 

4. Não precisamos de comprar novos equipamentos, basta instalar aplicações como o Kindle.

 

5. Podemos fingir que estamos a ser zombies sempre de olhos nos ecrãs, e afinal estarmos a ler o mais interessante livro do mundo. Ou seja, podemos estar a sentir um enorme prazer e a ficar bem mais ricos (por dentro) sem que ninguém perceba. Um segredo só nosso.

O policial é um género que dá para tudo: pode descer aos infernos do cliché e da má literatura, mas nas mãos de um bom escritor, pode dar origem a livros inesquecíveis. E, quase sempre, muito viciantes. (Há ainda os policiais que gozam com o próprio género do policial. Fica para outro dia.)

 

Pois, nem todos concordarão, mas acho a JK Rowling uma boa escritora, muito para lá dos pequenos feiticeiros e feiticeiras com que inundou a imaginação das gerações que vieram a seguir à minha (e que eu acompanhei, já armado em adulto, mas a despachar volumes em noites de directa sempre que saía um novo Harry Potter).

 

A prova está nos três livros sobre os casos de Cormoron Strike, escritos sob o pseudónimo de Robert Galbraith.

 

Mandei vir o último da Amazon ainda não tinha sequer sido publicado e lá chegou, no dia certo.

 

Agora, uma confissão: os livros atropelam-se. Resultado: ainda nem sequer comecei a ler, porque tenho outros a chamar a atenção por motivos de obrigação académica. 

 

Mas ele ali está, à minha espera, um calhamaço de capa dura como são os livros quando acabam de ser editados, a deixar-me água na boca com a sua capa negra e título sugestivo...

 

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Digo-vos: as descrições de Londres são deliciosas, as histórias conseguem mesmo surpreender e as personagens são simpáticas, interessantes e levam-nos a virar página como quem tem um Harry Potter na mão. Quem diria! 

 

(Já agora, ficam a saber que quando digo «ali está» estou a referir-me a uma das estantes, já com muitos livros em segunda fila, com que tenho inundado a minha sala. A minha mulher bem queria mais espaço livre de parede, mas não dá. Idealmente, devia ter um escritório com biblioteca, mas fica como sonho para um futuro longínquo. Também não o posso ter à cabeceira, que já lá estão muitos. Os livros invadem a casa como quem não quer a coisa. Será doença?)

publicado às 17:56

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