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publicado às 20:40

Há muitos anos, ia para o Algarve com os meus pais de vez em quando. Talvez a partir do início dos anos 90 — estradas um pouco melhores, a vida a correr razoavelmente, dava para ir de férias uma ou duas vezes por ano. Antes disso, tinha tido umas férias aí com uns três anos, para um apartamento emprestado, de que recordo algumas imagens muito antigas e uma viagem de barco a Ayamonte, onde comprei uma grua de brincar... Lembrar-me como era ter três anos sabe a viagem no tempo...

 

Mas isso agora não interessa nada. Interessa, sim, que lá para os meus 14 ou 15 anos, estávamos nós no Algarve e os meus pais decidem ir dar uma volta a Espanha. As fronteiras estavam abertas, já havia ponte sobre o Guadiana, e lá fomos até Huelva. Por lá passeámos, até que tivemos de ir comprar alguma coisa para comer e fomos a um supermercado qualquer. 

 

Havia lá alguns livros ingleses. Estava na idade em que me achava capaz de ler um livro desses. Comprei este...

 

 

... e foi um prazer olhar para as palavras inglesas, ainda com sabor exótico para a minha mente adolescente, e ir entrando pelo texto dentro, calmamente, com o dedo indicador, como se estivesse a aprender a ler (o que para mim era um prazer) — é um pouco como conduzir em Inglaterra: voltamos a sentir o entusiasmo de aprender.

 

Várias vezes li aquele primeiro parágrafo, e fui investigar o que era o Michaelmas Term, o que era o Lincoln's Inn Hall, e por aí fora. Aprendi muito inglês só com estas primeiras linhas.

 

Aqui têm, em todo em esplendor da Londres de Dickens, com nevoeiro a perpassar pelas palavras e pelas ruas...  Um nevoeiro que imaginei enquanto voltava de carro para o apartamento de férias, no esplendor do sol andaluz.

 

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publicado às 14:47

Não sei se repararam, mas este blog levou com um tufão em cima em termos de visitantes e comentários há duas semanas, por causa do destaque na página principal do Sapo dum post sobre o português do Brasil

Um blog tão quietinho, enfiado nos seus livros, de repente vê-se no meio duma tempestade blogueira mais forte que a nossa Stephanie de há umas semanas atrás.

Pronto, não vamos exagerar. Viu-se no meio dum vento moderado em termos de blogs. Mesmo assim, houve de tudo, pessoas ofendidas, pessoas que argumentaram (felizmente), quem tivesse concordado, quem começasse a insultar porque não gostou do que outros disseram. O blog sentiu-se, de repente, um exemplo do que é a internet polémica que anda por aí fora...

Mas não interessa. O que me interessa agora chamar para aqui é um comentário dum leitor que se sentiu a pergunta do título como sendo "discriminatória". O título era: “O português do Brasil aleija os portugueses?"

Tudo começou quando fiz o disparate de reagir a um comentário que me parecia preconceituoso e redutor em relação aos portugueses denominando tal comentário de “tacanho” — e ainda expressei a minha estranheza por ver um comentário “anti-português” escrito com todos os “c” e “p” da ortografia portuguesa. Parecia uma trollada dum português a tentar fingir-se brasileiro a atacar os portugueses (sim, há malucos para tudo por essa internet fora). 

Bem, disse, então, o tal leitor assim atacado: "Tacanho é o título da "matéria". Discriminatório, inclusive. Provocativo, também. O português do Brasil "aleija" os portugueses? Seria qual o sentido da mutilação."

Ora, respondi-lhe que a pergunta era irónica…

Respondeu-me de novo o leitor: "Ironia com brasileiros não são difíceis de distinguir na vida real em Portugal. Inclusive na acadêmica. Mas, quando o público destinatário é mais letrado, os portugueses gostam muito de falsear a discriminação com um tom dissimulado. Talvez resultado do complexo paroquial no cotidiano luso. Antigos cidadãos de primeira classe, não é fácil descer para o segundo andar da pirâmide social."

Ou seja, o leitor achava que eu estava a ser dissimuladamente irónico com os brasileiros. Nada mais longe do post original, como é fácil perceber lendo-o. Disse-lhe: "Chegou a ler o post original? Era dirigido à ultra-sensibilidade dos portugueses e é descabido achar que é um ataque aos brasileiros. Leia o post com atenção e perceberá a ironia do título. Não tente encontrar ofensas onde elas não existem."

O leitor talvez tenha ido então ler o texto e respondeu: "Finalizo: não há ofensa, de fato. Nem tampouco ironia. Deboche? Estaria eu, erroneamente, a exagerar. Deve conhecer o sentido de "reversibilidade em psicologia". Se não. Pergunte. Ou aceite a minha sumária explicação: pôr-se no lugar do outro. Last, but not least: Quem escreve e publica deve ter em conta que o destinatário é que é o juiz do texto. Conforme-se, ou escreva e guarde. Mostre aos amigos. Não se exponha à crítica.”

Ou seja, se eu quero escrever para o público, tenho de comer e calar no que toca aos comentários dos leitores. E, sim, se calhar eu não tinha ofendido ninguém, mas ironia é que não estava lá, porque ele não tinha visto, o leitor é ele, o leitor é que manda, ponto final.

Bem, comi, mas não calei. Respondi:  “Sim, o destinatário é o juiz do texto — e por vezes o juiz não percebe o que tem à frente. Os comentários também são passíveis de julgamento... Neste caso, num texto dirigido contra os portugueses que se sentem ofendidos com textos noutra variante do português, achar que há aqui sobranceria anti-brasileira é um erro de interpretação. Ao leitor não basta dizer "eu acho que é assim". Convém ler com atenção e tentar não assumir o que no texto não está. A pergunta do título tem de ser vista no contexto do texto do post — e não é, de todo, sobranceira ou ofensiva ou o que for: é uma pergunta irónica, no sentido: "porque se chateia tanto em ler em português do Brasil? Será que aleija?" E a resposta é óbvia: claro que não aleija. Por isso, a ofensa retratada no texto não tem sentido. Achar-se ofendido com o título é cair em erro semelhante ao do episódio retratado no post…"

(Depois ainda houve mais umas respostas, mas já em tom cordial.)

A questão é esta: será que, uma vez publicado um texto, temos de aceitar todas e quaisquer interpretações?

Bem, quem escreve, em geral quer ser compreendido (nem sempre, mas faz de conta), e deve ficar preocupado se os leitores interpretarem tudo ao contrário. A culpa será, provavelmente, do texto e do seu autor. Não vamos entrar na atitude de quem anda ao contrário na auto-estrada e diz: “estes gajos estão todos em contra-mão!”

Mas, por outro lado, não podemos achar que um leitor pode interpretar o que bem entender dum texto. O leitor deve tentar perceber o texto — digamos que o texto tem dois lados e há um esforço a fazer de ambos os lados. Há que ter um mínimo de boa-fé ao ler os outros.

Ora, por essa internet fora, a tendência é, muitas vezes, interpretar os textos da forma mais insultuosa possível. Se vemos um post que não reflecte a nossa exacta opinião, partimos logo para a indignação, para as respostas inflamadas, para o dedo em riste, sem fazer o mínimo esforço para compreender os argumentos do texto. Não damos uma segunda ou terceira oportunidade — para dizer a verdade, por vezes nem a primeira oportunidade é oferecida ao texto. Basta ver quem escrever, ler o título ou uma linha e meia, e tiramos logo as conclusões necessárias para ficarmos indignados.

Acho mesmo que andamos viciados em indignação — o que só pode ser negativo, porque precisamos da indignação bem forte para aquilo que, de facto, a merece.

O leitor acima referido, quando viu o título acima, supôs logo que seria um insulto aos brasileiros — porque acha que é isso que vai encontrar num blog português. Interpretou o post da pior forma possível — e quando lhe disse isso, afirmou que o leitor é soberano, e pronto.

O leitor é soberano, sim senhor, mas convém ser um soberano esclarecido e, quiçá, democrático — deve dar oportunidade à leal oposição de se exprimir.

Se não quiser chegar a algum ponto de encontro entre a sua leitura e o texto real, vai acabar por ver coisas onde elas não estão, vai sentir-se insultado quase sempre, vai inventar um mundo bem diferente da realidade.

O que proponho é que demos oportunidade aos outros: ou seja, que partamos para a leitura de textos na internet com menos pedras na mão e considerando a vaga hipótese de os outros não terem escrito seja o que for para nos insultar a nós pessoalmente.

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