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Uma falência é uma pessoa ter uma empresa — uma loja, um café, um escritório… — e as coisas começarem a correr mal, e a pessoa decidir que vai tentar que tudo funcione. Mas para que tudo funcione, era preciso empenho de toda a gente, mas qualquer pessoa (racionalmente), logo que lhe cheira a esturro, começa a pensar em como saltar do barco. A empresa começa mesmo a afundar, e a forma como uma pessoa pensa leva-a a ignorar que as coisas estão mesmo assim tão mal. A empresa afunda ainda mais. Começa a haver salários em atraso. Começam as recriminações. Em vez do entusiasmo matinal, é um martírio levantar-se para ir trabalhar. A mulher começa a dizer que sempre soube que a pessoa não sabia gerir a coisa. Os amigos começam a sussurrar — ou a pessoa começa a imaginar que sussurram. Há um gosto especial nos olhos de muita gente por ver as coisas a correrem mal, porque no fundo nunca gostaram desta ideia de uma empresa funcionar. Há despedimentos. Vende-se tudo. Há penhoras, a casa da pessoa vai ao ar, logo a seguir temos o inevitável divórcio. A auto-estima da pessoa está pelas ruas da amargura. Como estamos em Portugal, começar de novo é levar todo o estigma todos os dias para o trabalho. Mas, mesmo assim, vai para a loja, onde fica a jogar às cartas com o último empregado, que ficou e que se ri de tudo aquilo, sábio e antigo, enquanto não entram os gajos que vão fechar aquela merda toda. Foram vinte anos de sucesso, que em Portugal quer dizer vinte anos com uma empresa aberta, com pessoas empregadas, com problemas diários, com impostos a pagar, com muito trabalho. No final, fica tudo em ruínas, não há subsídio de desemprego, não há indemnização, não há nem o respeito nem a camaradagem que, mesmo assim, os trabalhadores sentem uns pelos outros no final duma desgraça destas. E a pessoa chora, muito, porque teve de despedir aquelas pessoas todas, com quem trabalhava e brincava todos os dias. Na televisão, o país está mal, mas a crise é uma palavra com cinco letras. Na vida desta pessoa, a crise é o vazio no esófago e a falta de vontade de recomeçar. E o vazio de saber que o vazio no esófago daquelas outras pessoas, se calhar, foi culpa dele. Não há noite que aguente, não há sono que venha, não há nada que alivie.

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2 comentários

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De bolaseletras a 05.12.2013 às 17:13

Grande e terrível post. A realidade é uma bela merda, mas quando escrita de forma tão crua e bela quase que desculpamos a merda que é.

Um abraço,
António
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De Marco Neves a 29.12.2013 às 20:18

Obrigado!
Um abraço e bom 2014

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