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Livros & Outras Manias

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19
Out16

Cinco palavras catalãs que me fazem cócegas

Marco

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Já vos disse aqui que as outras línguas ibéricas são, para mim, um estranho prazer — uma espécie de línguas secretas que nem todos vêem. Ora, os prazeres são para partilhar e, depois de alguns dias em terras catalãs, lembrei-me de vos trazer cinco palavras que me fazem cócegas nessa língua do outro lado da península.

Nit

Dizer «bona nit!» é simpático, mas para um português o estranho é ouvir um «bon dia» assim de chofre, sem nada que desmanche a ilusão que estamos a ouvir a nossa língua. Não estamos. Mas, durante aqueles segundos, parece.

Bem, avancemos então no dia. «Boa tarde» é «bona tarda». E, depois, a noite… A palavra «nit» é intrigante. Sim, estamos a caminhar até à «nuit» francesa, mas não temos nenhum «u» e estamos longe da «noite» portuguesa ou da «noche» castelhana, sempre com o «O» a lembrar-nos uma certa escuridão.

Sim, isto sou eu a delirar. A escuridão da noite não está nas palavras e sim no céu, mas o que querem? Quando oiço «nit» lembro-me de duas coisas: dum qualquer grito de alegria nocturna e ainda duns certos cavaleiros ingleses que gritavam «NIIII!».

Tardor

Não sei se me soa a Terra Média («e os cavaleiros puseram-se a caminho em direção às negras terras de Tardor») ou a qualquer coisa de tardio, ainda um pouco quente —  ou talvez me soe ao aspecto ardido das folhas castanhas no chão. Não faço ideia, mas sei que soa bem. É «outono» em catalão, mas lembra-me também o entardecer e uma certa mansidão. As outras línguas são assim: às vezes põem-nos a ver as coisas pela primeira vez.

Cap

Esta é uma estranha palavra que tanto quer dizer «cabeça», como «chefe» e ainda «cabo», «nenhum» — ou «em direcção a». E olhem que não fica por aqui.

Ou seja, «cap al cap» será «em direcção ao cabo». «No tinc cap pressa» é «não tenho nenhuma pressa». «El cap del meu cap» — «a cabeça do meu chefe».  Uma palavra bem cheia… (E espero não ter metido os pés pelas mãos com o atrevimento de escrever umas frases em catalão.)

Seny

Como nós, que temos sempre a saudade na boca quando nos falam do que é ser português, também os catalães tentam definir o seu carácter com uma ou duas palavras. Neste caso, duas: «seny» (bom senso) e «rauxa» (loucura) — uma estranha mistura que há uns anos li descrita (não sei bem onde) como alguém a tratar de negócios à varanda do hotel, mas todo nu. E se calhar com um bigode à Dali. Como sempre, estas caracterizações nacionais são perigosas, redutoras, ilusórias — o que quiserem. Mas aqui fica a tal «seny» nem que seja para vos dizer que o «ny» se lê «nh». Sim, em catalão, Catalunha escreve-se «Catalunya».

Una mica més: dona, germà, manjar, parlar, diner, sopar, esmorzar, novel·la…

Não me consegui ficar pelas cinco… Não sei porquê, mas acho a expressão «una mica» muito engraçada (quer dizer «um pouco»). Também acho curiosa a palavra «dona» (mulher) ou «germà» (irmão) ou «manjar» (comer) ou «parlar» (falar). E estranho, estranho é dizer «diner» para o «almoço». Já o jantar é «sopar». E o pequeno-almoço? «Esmorzar». Depois, temos ainda isto: «dona» no plural dá «dones» (mas o «e» lê-se quase como o nosso «a»). «Irmã» é «germana» e, assim, irmãs são «germanes». Ah, e «primo» é «cosí».

Para terminar, fiquem com a palavra «novel·la» (romance). Tem aquele símbolo estranho, exclusivamente catalão: assinala que os dois LL não se devem ler como o nosso «lh», mas antes como dois LL separados, um em cada sílaba. «Una novel·la excel·lent» é, por exemplo, La plaça del diamant, de Mercè Rodoreda (notem o «ç», que também existem em catalão).

Experimentem lê-la. Devagar, com a língua entre os dentes e o dedo a acompanhar as palavras, podemos ir aprendendo esta outra língua que nos faz cócegas, ao mesmo tempo tão próxima e tão distante.

Fins demà!

12
Jun16

Tenho de respeitar todas as opiniões?

Marco
DICIONÁRIO DE PALAVRAS PERIGOSAS: RESPEITO, OPINIÃO.

woodtype-846089_640Bem, não. Acho que tenho de respeitar o direito que todos temos de ter opinião. E ainda respeitar as pessoas, o que implica demonstrar a nossa discordância sem ataques pessoais. Mais ainda: podemos respeitar-nos a nós próprios pondo em cima da mesa a hipótese de estarmos errados. Ah, o franco debate de ideias, sem picanços nem insultos. Será possível? Não sei. É difícil. Custa muito. Mas não me parece impossível. Reparem agora nisto (é um exemplo extremo): seja lá qual for a opinião que leva um tarado a matar 50 pessoas por serem gays, será bem pior do que a ideia simples de que devemos respeitar a vida dos outros. As pessoas, meus amigos, as pessoas concretas valem muito mais do que uma qualquer opinião. E as opiniões contrárias a esse valor de cada um não me merecem respeito algum.

10
Jan14

¶ Os filhos vêm nos livros?

Marco

Neste post do blog Pais de Quatro, comentei a agradecer a referência com uma banalidade imperdoável: que isto dos filhos "não vem nos livros".

 

Enfim, depois pus-me a pensar. Será que não vem mesmo? Os livros descrevem tanta história, tanta emoção, tantas horas de vida e tanta coisa diferente, que obviamente os filhos hão-de lá estar.

 

Depois, quem é que pode dizer que alguma coisa não vem nos livros? Já alguém leu os livros todos? Já alguém leu 1% dos livros todos que há para ler? Já alguém leu 0,1% dos livros todos que há para ler?

 

Bem me parecia.

 

Mas, mesmo assim, depois de ter passado pela experiência de ter um filho (não tê-lo fisicamente, que isso ficou para a minha mulher, por imperativo legal que devia ser alterado urgentemente em sede de orçamento rectificativo) — dizia eu, depois de ter tido o primeiro filho, fiquei com a sensação que nunca tinha lido aquilo em lado nenhum, nem sequer de forma vaga.

 

Os livros, muitas vezes, tornam-nos atentos às coisas que não notávamos antes, antecipando aquilo que vivemos e dando-nos um quadro de referências onde inserimos a nossa vida real. Um pouco, por exemplo, como quando vamos a uma cidade que nunca visitámos e de repente sentimo-nos em casa, porque aquela cidade vem nos livros que lemos. Se calhar, até a visitámos bem melhor antes de lá pormos os pés do que depois de a vermos com olhos sem livros, que são olhos menos atentos.

 

Ora, para ter um filho não houve livro que me preparasse. De muitos livros (provavelmente sou eu que não leio o que devia), tiro que os filhos são uma parte dessa nuvem de coisas chatas, a casa, a família, aquilo que não faz parte da vida a sério, a horrorosa rotina (ai, qu'horror!). Os bebés até são muito giros, mas também são muito kitsch, não são? Tanta fraldinha, tanto paninho, tanto beijinhos... Não são material literário, a não ser que seja para fazer sofrer alguém. 

 

Porquê? Talvez porque a felicidade seja desinteressante como tema literário, porque a infelicidade é o que nos distingue uns nos outros, à la Tolstoi? Ou será porque a literatura não deixa de ser actividade das horas infelizes, onde escrever é a forma de sublimar a miséria de certos momentos noutra coisa melhor, que nos "salve"? Quem tem filhos escreve pouca literatura? Bom tema para um estudo estatístico, daqueles que irritam alguns sacerdotes da literatice. 

 

Perdoem-me a imodéstia, mas acho que acabei de dizer uma série de lindos disparates. Mas ficam ditos, pode ser que ajudem alguém a destrinçar isto.

 

O que me apetece dizer é que essas horas em que um filho nasce, em que o vemos ao colo da mãe cansada, mas a sorrir, nessas outras horas em que mudamos fraldas, damos banho, vemos o primeiro sorriso e parece que é a primeira vez no universo em que isso acontece, quando começamos a perceber como ele é, quando percebemos que ele nos reconhece e quando pegamos ao colo, nada disso vem nos livros, porque não tem de vir e não é fácil que venha. As palavras são rombas e não conseguem transmitir as emoções e razões destes dias. Reparem, tudo isto soa a cliché — primeiro, porque não tenho talento para mais; segundo, porque as palavras não são uma matéria que se molde facilmente. Por isso caímos todos tão facilmente no vício da fotografia. Pelo menos, parece fácil agarrar aquele momento. É uma ilusão, claro, porque a própria dificuldade das palavras dá-lhes o sopro, por vezes, para capturar, de facto um certo momento, muito melhor do que qualquer fotografia.

 

Adiante: não sei se os filhos vêm nos livros. O meu, certamente não vem.

 

 

Já agora, quando a literatura tenta falar da felicidade, como em Saturday, de Ian McEwan, os críticos não costumam ser meigos. McEwan tornou-se complacente, instalou-se, aburguesou-se. Mas, não, simplesmente descreveu uma família feliz — e descreveu aquele medo que está por baixo de toda a felicidade.

 

Enfim, é um óptimo romance. Que vai muito além da felicidade familiar do protagonista neurocirurgião: temos a tensão entre ciência e literatura; temos a guerra do Iraque; temos o prazer de fazer um bom trabalho; e temos a gravidez e a poesia e a forma como as palavras nos podem salvar (literalmente).

 

Mas havemos de voltar a este senhor.

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