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Livros & Outras Manias

Livros & Outras Manias

26
Mar17

Aventuras de portugueses na Galiza

Marco

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Começo pela multa que apanhei? Ou pelo homem que acha que o desenrascanço é espanhol? Talvez pelas conversas à mesa? Ou pelo velho galego que tinha Lisboa na cabeça?

 

A semana passada, andei uns dias a falar d’A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa em várias cidades da Galiza: Pontevedra, Lugo, Ferrol e Santiago.

 

Bem, não será bem «andei»: será mais propriamente «andámos»! Sim, porque fui com a minha mulher e o meu filho (que no final da semana já não estranhava nada conversas entre portugueses e galegos) — e estivemos sempre rodeados de boa gente. (Ah, não me posso esquecer que, no primeiro dia, os meus pais deram um saltinho a Pontevedra — que a Galiza é já ali.)

 

Foram dias muito intensos, com muita conversa e muitos quilómetros. Aprendi muito, claro está. Aprendi, por exemplo, o que são as Escolas Oficiais de Idiomas, escolas públicas onde adultos aprendem línguas estrangeiras — algo que não existe em Portugal. Foi em três dessas escolas que falei — e terminei a tour na livraria Ciranda, em Santiago de Compostela. As conversas duraram todas por volta de duas horas, mas passaram num instante — e continuaram à mesa. Foi um prazer.

 

Pergunto agora: quantos portugueses saberão que há milhares de galegos a aprender português à noite? E quantos adivinhariam que tantos galegos iriam querer falar da língua portuguesa pela noite fora?

 

Foi muito bom.

 

Que língua é esta?

 

Um dos temas de que falámos nas sessões foi a dificuldade que muitos portugueses sentem em distinguir o espanhol do galego. Muitos alunos, que estão a aprender português durante anos, queixam-se disto: chegam a Portugal e, falando galego ou mesmo o português aprendido nas tais Escolas Oficiais de Idiomas, recebem respostas em espanhol.

 

Em Ferrol, por exemplo, ouvi a incrível história do galego que foi a Portugal e esteve 10 minutos à conversa com um português — com o português a falar espanhol e o galego a falar português.

 

Mas, enfim, é verdade que um galego a falar galego sem tentar imitar o nosso sotaque vai encontrar uma imensa maioria de portugueses que ouve a língua e a enfia no saco do espanhol. Nós conhecemos bem os vários sotaques da nossa língua, conhecemos o português do Brasil, sabemos até ao que soa um estrangeiro a falar português — mas o galego, por mais próximo que esteja (e está!), não o conhecemos desde crianças. Não estamos habituados. A distância que sentimos tem mais a ver com essa barreira do desconhecimento do que com a distância real entre galego e português.

 

O sotaque é o suficiente para nos marcar a língua como espanhol, apesar de, se ouvirmos com atenção, repararmos nos artigos tão nossos («o», «a», «os», «as»), nas palavras que nos soam tão próximas, as frases que, na escrita, são percebidas como português ou, pelo menos, português escrito à espanhola.

 

Sim, eu que tenho esta pancada das línguas, acho que consigo distinguir bem as línguas latinas próximas. Cada um tem as suas manias, não é verdade? Mas também eu me confundo. Não sei se hei-de contar o que se passou… Afinal, portei-me mal.

 

Será que conto? Será que não conto?

 

Conto, sim.

 

Um guarda civil a falar galego

 

Ora, a certa altura, andava eu contente a conduzir e a conversar pelos verdes campos que vão de Compostela a Lugo, quando vejo um carro a atravessar-se à frente do meu e a pedir-me para fazer o favor de parar à força de sinais de luzes e um imponente «PARE!» no vidro de trás.

 

Fiquei imediatamente de boca aberta e mãos suadas. O guarda apareceu, simpático, e informou-me que tinha passado por uma zona de 70 km/h à louca velocidade de 90 km/h. Assenti com a cabeça, balbuciei qualquer coisa, fiquei a saber que, «por ser português», teria de pagar ali mesmo 50 euros.

 

O guarda afastou-se para preencher os documentos e, ao meu lado, o José Ramom Pichel vociferava contra a sorte que nos calhara, secundado pela Zélia.

 

Eu encolhi os ombros, mas perguntei ao José que história era aquela do «por ser português». Ele também não sabia.

 

Percebi depois — enquanto os dois guardas, simpáticos, me mostravam a foto do crime — que, por ser estrangeiro, tinha de pagar 50 euros de imediato. A diferença não era o valor, mas o facto de não poder sair dali sem pagar. Respirei fundo: por momentos pensei que Espanha tivesse multas só para portugueses.

 

Mas porque conto isto aqui? Só por isto: o José Ramom Pichel disse-me, depois, que tinha sido a primeira vez que tinha visto um guarda civil, em serviço, a falar galego. Aliás, o carro que foi multado à nossa frente era de galegos e tudo se passou em espanhol. Pois eu fui multado em galego, «por ser português».

 

A confissão: eu, nervoso e atrapalhado, não percebi em que língua fui multado. Até eu, louco por estas questões, troco-me todo nisto das línguas próximas se estiver ao lado dum guarda civil.

 

(O Simão dormia mas, quando soube que tinha sido multado, ralhou comigo.)

 

A aluna que não sabia o que estava a ouvir

 

Em Ferrol, tive uma surpresa: apareceram-me lá dois antigos professores de galego da minha faculdade, o Emilio Cambeiro e o Isaac Lourido. O Emilio, no fim, contou-me como uma aluna da FCSH, há uns anos, bateu à porta do gabinete e pediu a medo para falar com ele, mas avisando que não percebia espanhol.

 

Ele lá lhe explicou que podia falar em galego… E ela assustada, dizia que não, que não percebia nada disso. Ele lá lhe disse que também podia falar em português. Ela sorriu e disse que sim. E lá conversaram durante meia-hora, sem problema nenhum, até ele lhe dizer que tinha estado a falar galego. Ela, peremptória, disse que não, que aquilo era português. Ele insistiu: não! Era mesmo galego…

 

Também me lembrei do pai da Zélia que, há uns anos, nos disse que, na Televisão da Galiza (que ele vê com gosto), apareciam uns velhotes a falar português. Já contei essa história — mas trago-a de novo para este texto só para vos dizer que, por mais diferenças que se tenham acumulado por várias razões, ainda há gente a falar galego que os portugueses reconhecem como estando a falar a sua língua. E isto é tanto mais espantoso quanto é verdade que desde sempre aprendemos que os espanhóis falam espanhol e ponto final. Nós, portugueses, povo monolingue (dizem), não vemos essas complicações. E mesmo assim o som dum velhote galego a falar ou dum professor que nos tenha dito antes que ia falar português e depois desata a falar galego confunde-nos. Sim, o galego deixa-nos zonzos, porque é tão próximo e, mesmo assim, estranho. Mas depois, claro, entranha-se, como dizia o outro.

 

(Esta ideia do estranhamento e do entranhamento fui buscar ao texto que Maurício Castro escreveu sobre a sessão em Ferrol.)

 

A fronteira e o conforto

 

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Bem, indo para lá da língua. Todos sabemos que a fronteira tem a sua importância. A raia divide-nos e já divide há muito tempo. A nossa identidade é portuguesa e não se dilui nem se confunde com as múltiplas identidades galegas. Temos etiquetas diferentes. E há também isto: quando passamos uma fronteira, começamos de imediato a ter atenção às diferenças. A fronteira muda-nos o chip e o que vemos passa a ser espanhol no nosso cérebro. Logo, passa a ser diferente. Reparem: um português que fosse teletransportado num segundo de Santiago para Toledo (por exemplo) veria as diferenças óbvias entre a Galiza e o centro de Espanha e reconheceria que muitas dessas diferenças não existem entre a Galiza e o Minho. Mas um português que vá de carro de Santiago a Toledo nunca passa uma fronteira que saiba reconhecer — logo, não nota as diferenças. Quando passa de Valença para Tui, tem ali as placas a gritar: agora, isto é Espanha. E o nosso cérebro está bem treinado nisto das fronteiras.

 

Mas a verdade é que uma coisa é a identidade política ou nacional, outra é o conforto cultural que sentimos em certos locais. Como vários galegos me disseram, os galegos podem assumir a sua identidade espanhola (há excepções, claro), mas quase todos se sentem muito confortáveis em Portugal, esse país estrangeiro que está tão próximo — sentem-se bem mais confortáveis do que em certas regiões de Espanha. Esta sensação de conforto não põe em causa a identidade nacional que aprenderam desde crianças: é apenas a realidade das coisas e a realidade dos hábitos e da paisagem que sentimos à nossa volta.

 

Dizem-me também, claro, que esse conforto é especialmente forte quando estão no Norte. O Sul, com as suas planícies e as suas vogais desaparecidas, é um pouco mais agreste para um galego viajante.

 

Isto dizem-me os galegos. Já nós, portugueses, reconheçamos ou não as línguas que por lá se falam (e a mistura é tanta que é de facto difícil), também nos sentimos confortáveis na Galiza. Pronto, sei que é exagerado falar nos portugueses em geral. Atrevo-me então a dizer apenas isto: estes três portugueses que por lá andaram sentiram-se confortáveis e muito bem recebidos.

 

A Galiza tem isto: é tão próxima, mas não deixa de ter as suas diferenças, as suas surpresas. Os telhados negros de Ferrol, por exemplo, ou os nomes dos pratos… Estas diferenças misturadas com uma proximidade estranha provocam-nos e fazem-nos sair do que nos é habitual para depois reencontrar, a cada esquina, qualquer coisa que sentimos como nossa. Ora, sair do nosso país para saber mais sobre nós — haverá melhor definição de «viagem»? Conto dois episódios: o velho que sabia Lisboa de cor — e o famoso desenrascanço… espanhol!

 

O galego que sabia Lisboa de cor

 

Numa das manhãs desses dias, fomos os três visitar a Catedral de Santiago. Não há muito a dizer, basta encontrar fotos, não é? Bem, a certa altura um velho galego chega-se ao pé de nós e oferece um pequeno santinho ao Simão — ouvira-nos a falar português e ficou contente. Começou então a dizer, em português, que conhecia bem Lisboa. Começou então a desfiar os vários nomes dos bairros e zonas de Lisboa: «Saldanha», «Cais do Sodré», «Alfama», «Benfica»… Aí, parou e perguntou o clube ao Simão — depois continuou pelo mapa fora… Estávamos já a afastar-nos dele, para não incomodar mais a fila de turistas atrás de nós, e ainda ouvíamos da boca sorridente do velho os nomes (agora já fora de Lisboa): «Carnaxide», «Oeiras», «Cascais»…

 

Ele ficou felicíssimo por falar de Lisboa — e por falar com portugueses. E nós felizes ficámos, depois de passar pela surreal experiência de caminhar pela Catedral de Santiago, por baixo de imponentes órgãos e turíbulos fumegantes, a ouvir alguém a gritar: «Cruz Quebrada!», «Bobadela!», «Picheleira!».

 

O desenrascanço é espanhol? Ou será galego?

 

Nisto das diferenças e semelhanças… Durante aqueles dias, tinha o carro num estacionamento ao pé do sítio onde ficámos. Numa das noites, não consegui entrar com o bilhete de vários dias que tinha comprado. Tive de tirar o ticket habitual e fui à cabine pedir para resolver o problema (não queria ter de pagar duas vezes, já bastavam as multas).

 

O homem riu-se porque, pelos vistos, é habitual — testou o meu bilhete, viu que afinal estava bom. Agora, só era preciso convencer o sistema que eu tinha entrado com o bilhete certo. Ele pega num pedaço de metal, vai à cancela de entrada no estacionamento, põe o meu bilhete, vê a cancela a levantar-se, passa com o pedaço de metal no sensor — e a cancela lá baixa, convencida que eu tinha acabado de passar com o meu carro.

 

O homem riu-se, contente, e disse-me: «Isto é resolver problemas à espanhola!»

 

Eu ri-me também e lá lhe fui dizendo que também era assim que resolvíamos os problemas em Portugal. Até temos uma palavra, não é verdade? O famoso desenrascanço… Imagino que alguns leitores estão já a correr para ir buscar o mosquete que têm debaixo da cama, a pensar que até o desenrascanço os espanhóis nos querem conquistar! Bem, descansem: este é um desenrascanço muito galego…

 

Neve em Santiago

 

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Já contei como nunca vi nevar em Portugal (e não foi por falta de tentar). Neve já vi na Serra da Estrela. Mas nevar, o verbo, só vi na Galiza e em Inglaterra.

 

Pois, mais uma vez o feitiço se confirmou: vi nevar em Santiago e vi nevar na auto-estrada entre Ferrol e Santiago. Foi também ali, na Galiza, que o Simão viu nevar pela primeira vez.

 

Mas, nesse percurso nocturno de auto-estrada debaixo duma espécie de nevão, lembrei-me daquele velho mito de que os esquimós têm não sei quantas palavras para descrever a neve — e que, supostamente, isso tem um impacto profundo na sua visão do mundo. Não é bem assim… Como McWhorter explica bem em The Language Hoax, a verdade é um pouco mais banal e ao contrário: é a visão do mundo que tem um impacto profundo na língua de cada um… Pois não é curioso que sejam os esquimós a ter tantos nomes para a neve?

 

Enfim, a verdade é que essa ideia de que a língua nos limita o olhar é um pouco exagerada. Nós, que certamente não temos muitos nomes para neve, conseguimos ver claramente as diferenças entre os flocos que nos caem no carro. Ou seja, não precisamos de palavras diferentes para perceber as diferentes neves. E, de facto, nessa viagem, vi neve grossa, quase granizo, outra neve mais leve, a cair levemente, como quem chamava por mim, uma neve misturada com chuva que se tornava mais branca ou mais transparente conforme o quilómetro… A natureza parecia querer brindar-me com uma demonstração em cinco minutos de todos os tipos de precipitação. Eu agradeci, mas, a certa altura, a coisa começou a aquecer, que é como quem diz, a arrefecer. Teria de parar o carro? A Zélia, o Simão e eu lá seguíamos calados, cansados e felizes, mas um pouco preocupados. Por fim, chegámos bem, a neve foi meiguinha. (Ah, sim: os esquimós, foi-se a ver, e não tinham assim tantos nomes para a neve.)

 

Tudo isto para vos dizer que continuo convencido que as línguas não representam «a alma dum povo»: sim, conseguimos descrever muitos conceitos que são importantes para nós usando uma só palavra, mas para lá desse facto banal, não somos assim ou assado por causa das regras da nossa língua, que devem muito mais ao acaso dos milhões de conversas ao longo dos séculos do que a qualquer alma nacional depurada em livros de gramática.

 

Mas — e isto é importante — a nossa língua é uma casa onde nos sentimos bem, onde conversamos, onde lemos e escrevemos, onde vivemos com todos os que falam essa mesma língua. E não há dúvida que, na Galiza, nos sentimos em casa quando falamos da nossa língua.

 

Imensos amigos

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Íamos a chegar a Santiago numa destas noites, quando encontro alguém que conheço: o Suso. Cumprimentamo-nos pela janela do carro, alegres pelo encontro imprevisto. Quando fecho o vidro, o Simão está baralhado, pois não está habituado a que encontremos pessoas conhecidas tão longe de casa.

 

— É nosso amigo?

 

— Sim, é.

 

Fez um grande sorriso e disse:

 

— Nós temos imensos amigos!

 

E, sim, ali na Galiza senti-me entre amigos — e isso foi o maior prazer deste cirandar pela Galiza a falar de livros e línguas. Obrigado a todos os professores e alunos que me receberam e a todos os leitores que foram à Ciranda. E ao José Ramom e à Sabela, que nos receberam tão bem, e ao Valentim, que organizou a loucura que foi esta semana: muito, muito obrigado!

 

 

12
Jan17

Onde nasceu a língua portuguesa?

Marco

Quem foi o primeiro falante de português? Qual era a língua de D. Afonso Henriques? Como seria o sotaque de Luís de Camões? Qual terá sido o primeiro livro impresso em Portugal? Como seria a voz de Eça de Queirós?

 

Algumas destas perguntas não têm resposta, mas foi a partir delas que me pus a escrever a história secreta da nossa língua. O livro é um convite aos leitores para usar a imaginação, numa viagem pelas origens da nossa língua.

 

Pelo caminho, encontramos algumas surpresas e muitas aventuras: um rei aos murros numa estalagem do Porto, Gil Vicente a perseguir um frade pelas ruas de Lisboa, uma lisboeta que colecciona livros perigosos, Camões atrás duma dama da corte, um brasileiro que perde a família e a língua e vagueia pelo mundo...

 


O lançamento d'A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa será na próxima quarta-feira, na Bertrand de Picoas, às 18h30. O evento está no Facebook. A campanha de pré-lançamento acaba esta semana. Assim, se quiser aproveitar o preço especial de 11,55 euros (com portes de envio gratuitos), faça a encomenda no formulário abaixo. Em breve, receberá os dados para pagamento e o livro por correio. Espero que goste!

 

10
Jan17

Camões à bulha nas ruas de Lisboa?

Marco

Não sei se já vos tinha dito, mas escrevi um novo livro...

 

Desta fez, ponho-me a imaginar Camões à bulha nas ruas de Lisboa, a ligação entre Gil Vicente e uma coleccionadora de livros e o que acontece quando uma lisboeta com sal na pele encontra um brasileiro azarado.

 

No fundo, conto a história da nossa língua como se fosse um romance.

 

Acompanhem uma celta e um romano aos beijos, um amigo de Afonso Henriques à procura de mou­ras encantadas, Gil Vicente a perseguir um homem perigoso pelas ruas de Lisboa, uma coleccionadora de livros a fugir numa carroça para Amesterdão, Camões ao murro por causa duma dama da corte e muitas outras aventuras...

 

A editora Guerra e Paz está a fazer uma campanha de pré-lançamento até 16 de Janeiro com 30% de desconto. Aproveitem!

 

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05
Jan17

Ano novo, livro novo: A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa

Marco

Para começar o ano, um novo livro. Desta vez, conto a história da nossa língua como se fosse um romance.

 

Acompanhe uma celta e um romano aos beijos, um amigo de Afonso Henriques à procura de mou­ras encantadas, Gil Vicente a perseguir um homem perigoso pelas ruas de Lisboa, uma coleccionadora de livros a fugir numa carroça para Amesterdão, Camões ao murro por causa duma dama da corte e muitas outras aventuras de que é feita esta história da língua portuguesa, recheada de deliciosas sur­presas e um toque de humor…

 

O livro estará nas livrarias no dia 18 de Janeiro, mas até dia 16 a editora Guerra e Paz tem uma campanha de pré-lançamento, com 30% de desconto.

 

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27
Dez16

Sete animais escondidos na língua portuguesa

Marco

A língua tem destas coisas: muitas surpresas, algumas voltas menos claras — e tem também alguns animais escondidos, que de vez em quando lá arrebitam a cabeça e dão um ar de sua graça nas nossas conversas e nos nossos escritos. Lembrei-me destes sete exemplos, embora saiba que há muitos outros animais escondidos na nossa língua: são os autarcas armados em dinossauros, são os espertos que nem raposas, são os sujos que nem porcos — mas deixemos os insultos para outro dia. Hoje quero animais inocentes. A começar na pulga…

  1. A pulga atrás da orelha. Haverá pulga mais simpática do que aquela que se esconde por trás da nossa orelha? Sim, é simpática, mas também perigosa. Às vezes, uma frase dita assim de passagem, uma palavra com uma certa entoação, uma alusão muito vaga, muito disfarçada, uma conversa que deixamos passar por distracção — e ficamos com a tal pulga a picar-nos a pele por trás da orelha. E a partir daí, começamos a puxar o fio à meada e às vezes a coisa começa a transformar-se numa bola de neve. Bem, chega de lugares-comuns. Qual é o próximo animal?
  2. Cobras e lagartos. Dizemos dos outros cobras e lagartos — que, coitados, nem sabem o uso que têm na nossa língua. Eles que até são tão pachorrentos, apesar dos medos que temos na cabeça. Quer lá a cobra saber do que andamos a maldizer. O que elas querem é paz e sossego (e um ou outro animal para matar a fome).
  3. Lágrimas de crocodilo. Não deixando o mundo dos répteis, temos ainda os crocodilos que choram a fingir. Quer dizer, na verdade somos nós, animais matreiros como poucos, que andamos a inventar essas calúnias sobre os bichos.
  4. Cães e gatos a caçar. Por cá, não dizemos que os cães e os gatos chovem, como em inglês. Mas dizemos que quem não tem cão, caça com gato. E olhem que se calhar até ficamos bem servidos, se o objectivo for caçar moscas ou ratos (ou coelhos). Ou qualquer coisa pequena que se mexa muito.
  5. Nem que a vaca tussa. Não sei muito bem porque não há-de tossir a vaca, mas pronto, a língua é assim (ou se calhar a língua até acertou e a vaca não tosse mesmo). Mas diga-se que o pacato animal, nesta expressão, até tem sorte. Quando chegamos ao mundo dos insultos, a coitada da vaca está bem servida, está.
  6. Bicho-carpinteiro. Aquilo que se mete nos móveis — mas também nas crianças e aí é que (7) a porca torce o rabo. Só o sono ou às vezes os desenhos animados aliviam essa comichão que deixa os putos aos saltos, às vezes sem saber o que fazer. Há dias em que o único antídoto é uma boa história contada no sofá, de preferência com animais que falam.

São vacas a tossir, porcas a torcer o rabo, crocodilos a chorar… Já sabemos que isto, no fundo, são tudo bichos na nossa cabeça. Será que algum destes animais, ao falar com um amigo, encolhe os ombros e diz «não sejas complicado como um humano»?

29
Set16

Cinco palavras que fazem falta à língua portuguesa

Marco

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Ando a ler o livro Lingo, de Gaston Dorren. É um livro ideal para quem gosta de línguas — e também para quem gosta de viajar e quer ver a Europa com outros olhos.

 

No final de cada capítulo, o autor escolhe uma ou duas palavras que faltam na língua inglesa. Vai buscá-las à língua descrita nesse capítulo.

 

Não são palavras intraduzíveis — porque palavras impossível de traduzir, quanto a mim, não existem. (Não me venham com o exemplo batido da «saudade»!) Todas estas palavras podem ser traduzidas — só que temos de usar mais palavras.

 

Mas, sim, há línguas que conseguem explicar um determinado conceito só com uma palavra e outras que gastam linhas e linhas para dizer a mesma coisa. Porquê? Boa pergunta.

 

Pois, hoje, quero mostrar-vos algumas dessas palavras, recolhidas por Gaston Dorren no livro de que vos falei.

 

Escolhi cinco palavras que nos podem ajudar a ter um 2016 melhor do que 2015.

 

Aqui ficam cinco palavras que fazem falta ao português:

 

  1. Gönnen. Uma palavra alemã que é o antónimo de «inveja». A sensação agradável que sentimos quando acontece alguma coisa de bom a outra pessoa. (Em português, talvez a melhor tradução seja «ficar feliz por».)
  2. Tafalle. Uma palavra em frísio (uma língua falada no norte da Holanda) que significa «acabar melhor do que o esperado».
  3. Talaka. Uma palavra bielorrussa que significa «trabalho voluntário em prol do bairro».
  4. Merak. Uma palavra sérvia e croata que significa «o prazer que sentimos quando realizamos actividades simples, como, por exemplo, estar com os amigos».
  5. Sitooterie. Uma palavra em scots, uma língua escocesa, que significa um sítio construído para um casal se sentar sozinho, em saborosa intimidade — por exemplo, num jardim ou ao pé da praia. Pode ainda ser uma sala com um sofá e uma boa paisagem ou um canto um pouco escondido, numa festa. Não é delicioso?

 

Ora, aqui está. Desejo-vos um 2016 cheio desse prazer das coisas simples, que acabe melhor do que o esperado e que tenha um ou outro momento em que possam estar, com a vossa cara-metade, numa bonita sitooterie.

 

 

UMA VERSÃO REVISTA DESTE ARTIGO FOI PUBLICADA NO LIVRO
DOZE SEGREDOS DA LÍNGUA PORTUGUESA.

LIVRO

08
Jun16

A linguagem do Estado e a democracia

Marco

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Sim, é verdade, gostemos ou não da resposta, os ingleses têm direito a escolher: e temos alguma coisa a aprender, aqui pelas ibérias, no que toca à democracia dos seus referendos. Por exemplo, não será melhor, quando há um conflito de nacionalismos, deixar a população decidir, como aconteceu na Escócia?

 

Agora, há um aspecto interessante: também temos algo a aprender sobre a maneira como o uso da língua está intimamente ligado à democracia.

 

Começo pelos referendos.

 

Reparem: a maneira como fazemos uma pergunta pode ter um impacto profundo na resposta.

 

O Reino Unido tem uma comissão eleitoral independente que analisa as perguntas e recomenda novas formulações, que permitam uma escolha menos enviesada.

 

Por exemplo, a pergunta do referendo para ficar ou sair da União que foi proposta pelo governo inglês era: «Should the United Kingdom remain a member of the European Union?»

 

A resposta seria «sim» ou «não».

 

Pois a comissão, depois de testá-la junto dos eleitores, de consultar especialistas em linguagem acessível e pedir a opinião aos partidos e aos movimentos interessados,  aconselhou o governo a alterar a pergunta. Porquê? Para que as duas hipóteses fossem apresentadas em pé de igualdade, sem enviesamentos.

 

A pergunta e respostas finais são:

 

«Should the United Kingdom remain a member of the European Union or leave the European Union?

  • Remain a member of the European Union
  • Leave the European Union»

 

Está tudo descrito nesta página.

 

É por isso que fico muito baralhado quando os jornais portugueses dizem que o «sim» (ou o «não») está à frente. Não há, neste caso, «sim» ou «não». Há isto: ficar ou sair. Se um jornal diz que o «sim» está à frente, quer isso dizer que os ingleses querem sair da União? Não faço ideia.

 

A resposta é clara e inequívoca.

 

O mesmo aconteceu no caso da pergunta escocesa. Neste caso, a pergunta que tinha sido proposta pelo governo escocês era «Do you agree that Scotland should be an independent country?» A comissão eleitoral testou-a, em conjunto com alternativas, tendo percebido que o «do you agree» podia ser entendido como uma forma de pressão subtil no sentido do «sim».

 

Será verdade? Reparem que foi tudo testado de forma independente e está tudo bem explicado nas páginas da comissão eleitoral.

 

A pergunta final foi: «Should Scotland be an independent country?»

 

Simples, imediato, fácil de entender.

 

As várias partes em confronto aceitaram sem hesitações estas determinações da comissão independente.

 

(Podia agora ir buscar as perguntas dos nossos referendos para comparar, mas seria penoso. Mais penoso ainda é olhar para este referendo grego.)

 

Isto é mais importante do que pensamos: é importante dar atenção à forma como os textos são entendidos por quem os vai usar: para lá das nossas noções pessoais de correcção, há que testar, há que respeitar as pessoas (não apenas aquelas que falam exactamente como nós), há que olhar para a língua como ela existe e é usada e entendida pelos cérebros dos falantes.

 

Não estou a falar de literatura ou de ensaios nem das fronteiras do pensamento, mas antes de textos oficiais, de formulários, de impressos e, neste caso, de referendos, que devem ser entendidos por todos.

 

Até mesmo as páginas de Internet oficiais devem ser testadas e pensadas para uma utilização fácil e intuitiva, porque no que toca à comunicação entre o Estado e a população, há que pensar de duas maneiras: é preciso investir na educação dos cidadãos (poucos dirão o contrário), mas também melhorar os textos para que sejam entendidos por todos (e não apenas por quem está habituado ao estilo e ao vocabulário da administração pública).

 

Também isto é democracia.

(Publicado também no blogue Certas Palavras.)

07
Jun16

Os segredos da língua na Feira do Livro

Marco

Como será ver a feira do outro lado?

 

Ora, é já esta sexta-feira: num dia muito apropriado, estarei na Feira do Livro, às 15h, a assinar o livro Doze Segredos da Língua PortuguesaSerá no Pavilhão B29 (Guerra & Paz).

 

Também lá estarão Helder Guégués (autor do livro Em Português, Se Faz Favor) e Manuel da Fonseca (editor da Guerra & Paz e autor do Pequeno Dicionário Caluanda).

 

O evento também está no Facebook.

 

Terei todo o gosto em conversar um pouco com os leitores do livro que por lá queiram aparecer.

 

Até sexta!

Sessoes para os autores9

 

(Já agora, mais um segredo: quem quiser receber o livro autografado em casa pode encomendá-lo através deste formulário. Mas que isto não sirva de desculpa para não aparecer na Feira…)

 

31
Mai16

«Queria — ou quer?» A lógica da batata dos polícias da língua

Marco

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Já todos conhecemos esta mania de algumas pessoas. 

 

Dizemos, delicadamente: «Queria um café, se faz favor.»

 

Resposta: «Queria — ou quer?» — acompanhada de sorriso satisfeito, de quem apanhou o outro numa falta qualquer, não se sabe bem qual.

 

A lógica por trás da piada sem graça é esta: não podemos usar o imperfeito quando estamos a falar de alguma coisa que queremos, agora, no presente. Não é que os cultores da piada pensem nisto tudo assim tão explicadinho. Mas, na cabeça deles, «queria» só pode estar mal: é no passado, já passou. Se quer agora, diga «quero».

 

Pois, está bem.

 

Então, cá vai a novidade: as línguas são mais complicadas que as nossas lógicas da batata. As línguas são um conjunto de hábitos pouco arrumados e, neste caso, a forma como a língua portuguesa, sempre matreira, encontrou para expressar a delicadeza de um pedido foi usar o imperfeito em vez do arrogante presente do indicativo. Os linguistas até encontraram um nome para o fenómeno: «imperfeito de cortesia».

 

A língua é ilógica? Sim, mas, neste caso, ainda bem. Sempre é mais simpático assim.

 

Agora, vejam lá isto: muitos dos erros inventados de que tenho falado por aqui vão no mesmo sentido — alguém encontra uma irregularidade qualquer e apressa-se a corrigi-la, armado em mecânico da língua. Depois, sorri, com gosto, do erro que vê nos burros falantes de português.

 

«Saudades tuas — ou saudades de ti?» (Imaginem o sorriso de piada fácil.)

«Terramoto — ou terremoto

«À deriva — ou ao sabor da corrente

«Pelos vistos — ou pelo visto

. . .

 

E assim ficam, satisfeitos, com a lógica intacta e a língua em fanicos.

 

Se continuarem por aí fora a tentar arrumar a língua ainda acabam com o verbo «ser», que é tão irregular e tão ilógico, coitadinho. Boa sorte com isso e com essas batalhas muito úteis, não haja dúvida.

 

Sim, eu queria muito que parassem com a tal piada de café e também com essas ideias simplistas sobre o funcionamento da língua. Queria e quero. Obrigado!

 

(Uma versão desenvolvida e revista deste texto foi publicada há tempos no livro Doze Segredos da Língua Portuguesa.)

17
Mai16

Qual é a origem da nossa língua?

Marco

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O leitor Paulo Vieira enviou-me esta mensagem:

Ouvi-o na Prova Oral afirmar que a nossa língua vem do galego e estava agora a ler uma notícia do Público sobre os Lusíadas, a que fez referência no artigo da língua bastarda, e nessa notícia é dito que a obra tem uma forte influência do castelhano, língua que aparentemente era muito usada na corte.

Fiquei interessado e gostava de esclarecer quais as origens da nossa língua. Recomenda algum livro sobre o tema?

 

No final deste artigo, deixo algumas sugestões de leitura.

 

Mas antes, porque esta compulsão para escrever parece não ter cura, vou tentar explicar aquilo que sei (ou penso saber). Mas tenho de avisar: não sou linguista histórico. Sou um tradutor e professor que estuda linguística por motivos práticos e junta a isso uma paixão pela disciplina.

 

Pois bem: a verdade é que gosto muito da história da língua — e julgo ser este um tema que nos interessa a todos. Com base no que fui aprendendo ao longo dos anos, mas também com base na leitura dos livros e artigos que refiro no final, aqui fica o meu resumo (os erros, claro, serão meus e não dos livros e artigos — ressalve-se!).

 

O português vem do galego?

 

Enfim: todos nós que dizemos falar português e todos os que dizem falar galego falamos qualquer coisa que teve origem nos falares da Galécia, ali no noroeste da Península. Durante séculos, o latim trazido pelos soldados e colonos romanos e adquirido por toda a população foi sofrendo transformações — não as podemos ver em tempo real, porque ninguém as registava ou escrevia, mas, muitos séculos depois, quando finalmente a língua começou a ser escrita, havia nesse território uma língua já formada, com verbos próprios, com formas próprias, com características que a identificam e a distinguem das outras línguas em redor.

 
Gallaecia

 

A Galécia romana. A nossa língua terá nascido no triângulo que corresponde, de forma muito pouco rigorosa, à metade noroeste do território a verde.

 

O que chamavam as pessoas a essa língua que já era, em muitos aspectos, a nossa? Não lhe chamavam nem galego nem português: chamavam-lhelinguagem, com toda a probabilidade. Era a língua do povo. Nós, agora, olhando para trás, podemos chamar-lhe «português», o que não deixa de ser anacrónico, ou «galego», o que não deixa de assustar algumas almas mais sensíveis, ou «galego-português», para agradar a gregos e a troianos (como se esses fossem para aqui chamados). Na escrita, durante todos esses séculos do primeiro milénio, o latim continuou rei e senhor.

 

Quando Portugal se tornou independente, começámos a usar a língua que existia no território, que era ainda apenas o Norte. Não a escolhemos de imediato, pois nos primeiros tempos o latim ainda foi a língua oficial. Mas, devagar, a língua que era de facto falada começou a infiltrar-se nos textos escritos, às vezes de forma imperceptível, outras vezes de forma mais clara.

 

O país expandiu-se para sul e, com ele, veio a língua, claro. O português nasceu nesse canto noroeste e expandiu-se até ao Algarve (e, mais tarde, até além-mar). Por alturas de D. Dinis era já a língua oficial.

 

Depois, no final do século XIV, temos revoluções, a batalha de Aljubarrota… — a nobreza nortenha perde influência, a burguesia lisboeta alça-se à posição de classe dominante (e tudo o mais que faz parte da História). Lisboa é agora a capital e a nação esquece-se que a língua veio do norte, não foi criada em todo o território nacional. O que se falava em Lisboa seria esse galego-português que viera para sul com a Reconquista. Houve, claro, algumas intrusões do moçárabe, a linguagem latina do sul (com muitos arabismos). Mas, nas suas estruturas e características principais, a língua que Portugal assumiu como sua é a língua criada na Galécia: não houve um ponto em que o galego e o português se tivessem separado claramente.

 

Influências castelhanas no português literário

Não houve um ponto em que o galego e o português se separassem claramente. Mas há, isso sim, algum afastamento da língua padrão em relação ao que se fala mais a norte. Muito desse afastamento fez-se também por causa das influências externas. Com a corte em Lisboa, e durante muitos séculos (na época de Camões, por exemplo), o castelhano teve uma influência que hoje poucos imaginam. Os escritores portugueses também escreviam, muitos deles, em castelhano. Liam em castelhano. A igreja usava muito o castelhano. A corte também usava o castelhano. Era a língua de prestígio. As misturas eram inevitáveis…

 

Ora, o português popular de todo o país não sofreu estas influências de forma tão marcada. Assim, arrisco-me a dizer que o português popular manteve durante mais tempo uma maior grau de semelhança com o galego do que o português-padrão — talvez por não ter tanta influência castelhana. Principalmente no Norte, o português e o galego mantiveram-se tão próximos que a fronteira era difícil de traçar. Mais a sul, na Corte, na capital, a língua “desgaleguizava-se” (ver artigos de Fernando Venâncio citados abaixo). Para as elites lisboetas, o galego e o português do Norte começaram a soar a português da província. E, no entanto, era de lá que tinha vindo a língua…

 

Depois, o castelhano deixou de ser uma influência forte no português (aí por volta do século XVIII); vieram então as influências francesas e, já bem entrado o século XX, começamos a olhar para o inglês.

 

Sim, sempre fomos uma língua que sofreu influências fortes de outras culturas. Podemos não gostar do facto, mas é isso mesmo: um facto. Não fiquem horrorizados: o castelhano também teve vagas dessas, o francês idem — então o inglês nem se fala. Não percam muitas horas de sono com isso — e, depois, a língua vai atrás da cultura, neste ponto: se quisermos uma língua pura, temos de fechar a cultura a influências exteriores. As línguas mais puras são as mais isoladas, as menos importantes.

 

Para terminar este resumo muito resumido, diga-se que o português-padrão se expandiu de forma fenomenal durante o século XX, com a escola, a televisão, a rádio, a imprensa. Aí, as formas do sul começaram a suplantar as outras formas, que subsistem, mas com menos força. O português começou a tornar-se mais homogéneo (e menos nortenho/galego) — mas tudo isto já é história das últimas décadas…

 

E o galego?

Bem, quanto ao galego, lá em cima, num país sem corte, uma sociedade rural, não sofreu tanta influência castelhana até muito tarde, embora essa aparente pureza seja apenas reflexo do isolamento da sociedade. Grande parte da população galega, aliás, só terá começado a sentir a invasão da sua língua pelo castelhano quando a escolaridade obrigatória apareceu no horizonte — e a televisão, jornais, etc. Ou seja, para muitos galegos, o castelhano tornou-se influência no século XX (nas elites terá sido antes, claro). Apesar de tardia, a influência do espanhol é avassaladora, claro está. Aliás, chamar-lhe influência será um eufemismo cruel. O espanhol não influenciou o galego: o espanhol começou a substituir o galego. Afinal, o Estado é o espanhol e a escolaridade da população foi em castelhano até muito tarde. Ou seja, nos séculos XIX e XX, o galego levou uma coça de que ainda não se levantou, apesar de, desde os anos 70, o governo autónomo ter, oficialmente, uma política de defesa da língua.

 

Alguns galegos tentam aproximar a sua língua do português para assim melhor se defenderem do peso do castelhano; outros apostam num galego autónomo tanto do castelhano como do português. Mas que o galego e o português ainda estão mais próximos do que imaginamos, isso é indesmentível: então quando começamos a olhar para o vocabulário popular, aquele que muitos desprezam injustamente, começamos a ver como falamos uma língua que não deixa de ser muito galega.

 

Em resumo…

… o português tem origem no latim popular falado no noroeste da Península, na Galécia Magna, língua essa a que podemos chamar galego por ser uma língua da zona do Reino da Galiza, uma língua já com características muito próprias séculos antes da existência de Portugal. Ao tornar-se a língua dum estado independente a sul, chamado Portugal, a língua passou a chamar-se português — e com esse nome foi transplantada para os outros países que a falam. Apesar das mudanças a sul, a língua mantém uma forte proximidade com o que se fala a norte da fronteira. Essa língua portuguesa, como é típico duma língua dum país de cultura aberta a outros povos, sofreu grandes influências exteriores: do castelhano, do francês, do inglês… Até hoje. Também nos dias de hoje as formas mais padronizadas do português começam a suplantar as formas mais populares entre a população em geral — enquanto na Galiza, o castelhano avança.

 

Isto é uma explicação simplificada, claro está. É ainda a minha forma de o explicar: outros dariam ênfases a outras partes ou acrescentariam pontos talvez importantes… Se alguém quiser corrigir, matizar, completar, os comentários estão abertos!

 

(Proponho ainda que dê uma vista de olhos pelas histórias romanceadas que escrevi e que tentam dar uma ideia do que foi o percurso do idioma nesses primeiros séculos: «História Secreta da Língua Portuguesa».)

 

Bem, mas a pergunta era outra: que livros de especialistas podemos ler sobre o assunto?

 

Proponho dois livros breves, recentes, sobre a História da língua:

  • Introdução à História do Português, de Ivo Castro (um livro académico e actualizado, com fartos exemplos concretos).
  • História do Português, de Esperança Cardeira (um livro brevíssimo, editado numa colecção da Caminho sobre temas de linguística).

 

Proponho também três artigos de Fernando Venâncio sobre o assunto (convém dizer que as aulas que o autor deu na FCSH, este ano, permitiram-me aprender muito sobre as origens da língua):

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