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Livros & Outras Manias

Livros & Outras Manias

20
Abr17

Línguas e portugueses à solta em Inglaterra

Marco Neves

Hoje falo de comboios, livros galegos, conversas saborosas, números em romeno e beijos à francesa. Tudo por causa duma viagem a Inglaterra e do que por lá ouvimos.

 

 

Estávamos nós numa velha estação de comboios, ao final sereno duma tarde inglesa, cansados de tantas aventuras…

 

Alto e pára o baile! Esta frase engana o leitor e não é pouco. A estação era inglesa, sim senhora, a tarde era serena… Mas este texto não é um conto. É antes uma pequena conversa sobre línguas latinas.

 

Pois é: a estação era um apeadeiro pequenino e a tarde não tivera mais aventuras do que aquelas que nos esperam quando levamos os filhos a um pequeno jardim zoológico numa terreola inglesa. (O meu filho fez a mais feliz das caras ao ver um tigre a sério. Ele já tinha visto, mas aos quatro anos conseguimos ver tudo pela primeira vez — várias vezes.)

 

Já o comboio, o mais romântico dos meios de transporte, longe de ter uma chaminé a fumegar românticos vapores, era eléctrico e a dar para o suburbano, propriedade duma empresa de nome aparvalhado: «Great Northern». Quem terá tido a ideia de chamar a uma empresa de comboios O Grande Nortenho?

 

(Confesso: torci um pouco a tradução em nome dum vago efeito humorístico. Peço desculpa. Na verdade, aquilo será mais uma abreviatura de A Grande Linha do Norte. Não percebo a mania inglesa de pôr Great em tantos nomes, mas avancemos.)

 

Pois foi à espera do comboio das 6 da tarde da Grande Linha do Norte,  no apeadeiro de Shepreth, que a minha cunhada me fez uma estranha pergunta.

 

O que se passava era isto: eu estava a ler um livro. A Zélia e o Simão brincavam na plataforma, a ver se viam o comboio lá ao fundo. O meu irmão lia qualquer coisa no telemóvel. E a minha cunhada embalava a Lilah ao meu lado. Quando passou os olhos pelo livro que eu estava a ler, exclamou: «Mas estás a ler um livro em português?»

 

Bem, antes de continuar, convém explicar por que razão a minha cunhada achou espantoso eu estar a ler um livro na minha própria língua. A explicação é fácil: ela sabe que, quando vou a Inglaterra, aproveito para ir de malas vazias de livros para ter espaço para o carregamento anual de livros ingleses, que nas livrarias portuguesas os livros ingleses não saem baratos e mandar vir livros também tem o seu quê de caro. Assim, ela está habituada a ver-me por lá a ler os livros que encontro e estranhou ver-me, em Inglaterra, a ler na minha própria língua.

 

E agora vem a outra surpresa: ela ficou admirada de ler, assim de repente, português — mas, na verdade, eu estava a ler um livro em galego: Papaventos, de Xavier Queipo.

 

Quando lhe disse que aquilo era galego, a minha cunhada quis olhar com mais atenção. Afinal, nunca tinha visto um livro em galego. Passámos alguns minutos a olhar para a língua.

 

A ortografia é a oficial, ou seja, não está tão próxima do português como a ortografia reintegracionista. Mas, enquanto na fala, por falta de treino ou desatenção, os portugueses enfiam rapidamente o galego no campo do espanhol (excepto o meu sogro), na escrita, a coisa é diferente: vemos rapidamente como os textos galegos são muito nossos. São tremendamente fáceis de ler. Não há que enganar: mesmo aos olhos de alguém que não se interessa por questões de linguística ibérica, há qualquer coisa de surpreendentemente próxima no galego.

 

Comecei a ler o livro porque ando com vontade de conhecer mais literatura galega — o título foi-me sugerido por Fernando Venâncio. E que grande sugestão! Depressa estava a ler não por ser literatura galega, mas por ser um bom livro.

 


 

Deixo-vos três razões para ler este livro — há outras, claro:

  1. O livro conta a história dum tradutor que vai ficando cego enquanto escreve a tradução inglesa dum livro português.
  2. O livro que o tradutor tem de traduzir é o Ensaio sobre a Cegueira.
  3. Num livro sobre a cegueira, todos os nossos sentidos ficam bem acordados: cheiramos as refeições que o protagonista cozinha, sentimos nos pés a areia das praias da Califórnia, sentimos nos dedos a beleza de Rose, a mulher luminosa que ele encontra numa escura sala de cinema, com os ouvidos aterrados dos sons do Apocalypse Now — vemos a luz a desaparecer ao longo dos meses em que a tradução e a cegueira avançam.

Existe uma tradução portuguesa deste livro galego sobre a tradução para inglês dum livro português: Bebendo o Mar. Como é mais do que óbvio, nada tenho contra a leitura de traduções. Mas aconselho a leitura da versão original deste livro. Afinal, com um pequeno esforço, sentimos as cócegas das diferenças e surpreendemo-nos com a nossa extraordinária capacidade de ler aquilo que alguns dizem ser outra língua. No fundo, quando lemos em galego sentimos a nossa própria língua a galgar fronteiras. Nas próximas semanas, hei-de deixar aqui mais sugestões de livros galegos, nas várias ortografias que por lá se usam.)

 

Catalães na paragem do autocarro (e «16» em basco)

Embalado por estas conversas sobre línguas ibéricas, no dia seguinte, numa paragem de autocarro, chamei a atenção da Zélia, do Diogo e da Sofia para a conversa de três pessoas que ali estavam ao nosso lado. Não porque tivesse tido um assomo de bisbilhotice, mas porque estavam a falar numa língua de que gosto muito. Disse-lhes, baixinho:

 

— Estão a falar em catalão!

 

A minha mulher sorriu, como quem desculpa ao marido um vício privado. A minha cunhada disse-me que nunca tinha ouvido tal língua. Lá lhes fui apontando algumas expressões que estávamos a ouvir: «aquesta nit» («esta noite»), «sisplau» («por favor»), etc.

 

As línguas são como as cerejas e depressa estávamos a falar do basco, a mais distante das línguas. Contei-lhes como uma vez tinha ido a Donostia-San Sebastián (uso o nome oficial da terra) e, numa estação de serviço, reparei numa frase que dizia em espanhol qualquer coisa como «Nesta estação de serviço é proibido por lei vender bebidas alcoólicas a menores de 16 anos.» Pois, na versão basca, em baixo, a frase começava pelo número: «16». Já agora (fui ver agora), o número 16, em basco, diz-se «hamasei».

 

Sim, a nossa península é assim: temos o galego e o português que se confundem e depois temos o basco que soa vagamente a japonês (com a diferença de que o japonês parece mais fácil).

 


 

Não fique o leitor preocupado: não ando a visitar família em Inglaterra para passar os dias a falar de línguas. Conversámos sobre tudo e nada e é assim que é bom. As conversas são como os livros: ficamos embriagados, fora do mundo, mas ao mesmo tempo lembramo-nos muito bem dos sítios onde estávamos quando tivemos aquela conversa ou quando lemos aquele livro. E há ruas de Cambridge que, para mim, guardam recordações de boas conversas em português.

 

Primos entre línguas

No meio desta viagem, entre algumas leituras, algum trabalho, muitas conversas, fui reparando na maneira como o meu filho e a prima conversavam. O Simão ia aprendendo umas palavras em inglês, ela insistia em falar em português com ele.

 

O Simão aproveitou também para ensinar à prima palavras engraçadas como «chichi» e «cocó». São crianças, pois então. E ainda lhe disse que já sabia contar em espanhol, desatando a dizer os números com a voz muito alta e as vogais abertas. Se há coisa que um português aprende depressa é o portunhol.

 

Percebi ainda, desta vez, que agora eles já os nomes das línguas: os dois acabaram os dias em que estiveram juntos a saber dizer «inglês» e «português» para identificar as duas línguas. Sim, é verdade: em crianças, nós aprendemos a falar uma língua antes de lhe saber o nome.

 

Uma laranja romena e um beijo francês

Nem só de línguas ibéricas se faz o mundo das línguas latinas, pois claro. Não podemos esquecer o inglês, por exemplo.

 

Calma, calma: eu sei que é uma língua germânica. Mas é uma língua germânica arraçada de latina. Mas, pronto, deixemo-nos de declarações bombásticas.

 

Depois de falar do galego, pensemos agora na língua latina mais distante do português.

 

Numa das noites em que lá estivemos, apareceu para jantar uma amiga deles que é romena.

 

A certa altura, conversámos sobre algumas palavras que são parecidas entre o romeno e o português. Apesar de serem as duas línguas latinas que estão mais distantes uma da outra, ainda vemos muita coisa de comum se olharmos com atenção.

 

Basta olhar para os números: «unu, doi, trei, patru, cinci, șase, șapte, opt, nouă, zece». Sim, isto está bem distante do português, principalmente se compararmos com o galego (vou usar a ortografia oficial: «un, dous, tres, catro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez»), mas há ainda muita coisa que nos aproxima, mesmo à distância dum continente.

 

Há ainda outra coincidência curiosa entre o português e o romeno, não tanto no som ou aspecto das palavras, mas no significado de uma certa palavra muito especial. Dizem-me muitos romenos que a palavra «dor» é uma tradução quase perfeita (ou tão perfeita como pode ser qualquer tradução) da palavra «saudade». Sim, essa mesmo, tão nossa — e tão romena. [Já tinha falado disso.]

 

Foi então que me lembrei de qualquer coisa que aprendi há uns tempos e pedi à amiga romena do meu irmão e da minha cunhada que dissesse «laranja» em romeno.

 

E ela disse, um pouco admirada pela pergunta:

 

— Portucale!

 

Não é a única língua daquelas paragens onde o nome da fruta lembra aos falantes o nome do nosso país. Assim, a um romeno ou um grego, quando alguém refere Portugal, é bem possível que lhes apareçam laranjas na cabeça. (Lá está: a tradução é sempre possível, mas nunca sabemos aquilo que uma palavra faz a cada leitor.)

 

Sem suspeitarmos, somos o país das laranjas para muitos europeus mais a leste. Mas esta associação entre um país e alguma coisa à revelia dos próprios habitantes desse país não é caso único: sem terem pedido autorização aos castos franceses, os ingleses associam a França aos beijos mais profundos, chamando-lhes «French kissing». E pronto: haverá melhor maneira de acabar este texto do que a falar de línguas entrelaçadas?

08
Jun16

A linguagem do Estado e a democracia

Marco Neves

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Sim, é verdade, gostemos ou não da resposta, os ingleses têm direito a escolher: e temos alguma coisa a aprender, aqui pelas ibérias, no que toca à democracia dos seus referendos. Por exemplo, não será melhor, quando há um conflito de nacionalismos, deixar a população decidir, como aconteceu na Escócia?

 

Agora, há um aspecto interessante: também temos algo a aprender sobre a maneira como o uso da língua está intimamente ligado à democracia.

 

Começo pelos referendos.

 

Reparem: a maneira como fazemos uma pergunta pode ter um impacto profundo na resposta.

 

O Reino Unido tem uma comissão eleitoral independente que analisa as perguntas e recomenda novas formulações, que permitam uma escolha menos enviesada.

 

Por exemplo, a pergunta do referendo para ficar ou sair da União que foi proposta pelo governo inglês era: «Should the United Kingdom remain a member of the European Union?»

 

A resposta seria «sim» ou «não».

 

Pois a comissão, depois de testá-la junto dos eleitores, de consultar especialistas em linguagem acessível e pedir a opinião aos partidos e aos movimentos interessados,  aconselhou o governo a alterar a pergunta. Porquê? Para que as duas hipóteses fossem apresentadas em pé de igualdade, sem enviesamentos.

 

A pergunta e respostas finais são:

 

«Should the United Kingdom remain a member of the European Union or leave the European Union?

  • Remain a member of the European Union
  • Leave the European Union»

 

Está tudo descrito nesta página.

 

É por isso que fico muito baralhado quando os jornais portugueses dizem que o «sim» (ou o «não») está à frente. Não há, neste caso, «sim» ou «não». Há isto: ficar ou sair. Se um jornal diz que o «sim» está à frente, quer isso dizer que os ingleses querem sair da União? Não faço ideia.

 

A resposta é clara e inequívoca.

 

O mesmo aconteceu no caso da pergunta escocesa. Neste caso, a pergunta que tinha sido proposta pelo governo escocês era «Do you agree that Scotland should be an independent country?» A comissão eleitoral testou-a, em conjunto com alternativas, tendo percebido que o «do you agree» podia ser entendido como uma forma de pressão subtil no sentido do «sim».

 

Será verdade? Reparem que foi tudo testado de forma independente e está tudo bem explicado nas páginas da comissão eleitoral.

 

A pergunta final foi: «Should Scotland be an independent country?»

 

Simples, imediato, fácil de entender.

 

As várias partes em confronto aceitaram sem hesitações estas determinações da comissão independente.

 

(Podia agora ir buscar as perguntas dos nossos referendos para comparar, mas seria penoso. Mais penoso ainda é olhar para este referendo grego.)

 

Isto é mais importante do que pensamos: é importante dar atenção à forma como os textos são entendidos por quem os vai usar: para lá das nossas noções pessoais de correcção, há que testar, há que respeitar as pessoas (não apenas aquelas que falam exactamente como nós), há que olhar para a língua como ela existe e é usada e entendida pelos cérebros dos falantes.

 

Não estou a falar de literatura ou de ensaios nem das fronteiras do pensamento, mas antes de textos oficiais, de formulários, de impressos e, neste caso, de referendos, que devem ser entendidos por todos.

 

Até mesmo as páginas de Internet oficiais devem ser testadas e pensadas para uma utilização fácil e intuitiva, porque no que toca à comunicação entre o Estado e a população, há que pensar de duas maneiras: é preciso investir na educação dos cidadãos (poucos dirão o contrário), mas também melhorar os textos para que sejam entendidos por todos (e não apenas por quem está habituado ao estilo e ao vocabulário da administração pública).

 

Também isto é democracia.

(Publicado também no blogue Certas Palavras.)

14
Mar14

Oxford contaminada

Marco Neves

Este post vai ser um pouco armado ao intelectual. Mas, cá vai disto: a cultura é a capacidade de ver mais coisas no mundo. Agora, explico com exemplos concretos. (Continuem, porque, na minha imparcial opinião, vale a pena.)

 

Fui a Oxford pela primeira vez enquanto estava a ler Todas las Almas, de Javier Marías. (Isto não serviu apenas para dizer “olhem só, até leio autores espanhóis que ninguém conhece”, até porque muita gente conhece o senhor — e, depois, todos nós desconhecemos coisas que os outros acham essenciais, por isso, quem sou eu…)

 

Seja como for, a questão é que o romance se passa em Oxford. Enquanto andava pelas ruas, fui encontrando lugares do livro que estava a ler — e, confesso, vi muito mais coisas do que veria se não estivesse a ler aquele livro. Depois de sair de Oxford, acabei o livro e as últimas páginas passavam-se numa cidade que eu já conhecia. Esta mistura entre ficção e realidade foi um prazer muito particular. Imaginem o que é sair dum café museu e ver, do outro lado da rua, a montra à frente da qual, na noite anterior, o narrador do livro que tinha na mão encontrara uma das raparigas da história. O livro ficou mais real e Oxford ainda mais interessante. A coisa também funciona com filmes, teatro, música — e até quadros, esculturas e outros que tais. A variedade é grande, mas cada um tem as suas preferências.

 

Continuando: esta contaminação foi um exemplo extremo daquilo que acontece muitas vezes. Quando vamos pela primeira vez a uma cidade sobre a qual já lemos muito e na qual se passam muitos filmes que vimos, é um pouco como se voltássemos a ler e a ver esses filmes — e é também uma forma de vermos a cidade com mais atenção. Por outro lado, ler sobre cidades que conhecemos é continuar lá e aumentá-las — parece que nunca de lá saímos. (Podemos ainda ter memórias de sítios onde nunca fomos — tenho saudades de Tóquio.)

 

Ou seja, a cultura é uma forma de viver mais (não necessariamente de viver melhor — isso é outra história). Quem acha que a cultura é uma forma de fugir da vida não percebeu nada.

 

Imaginem uma pessoa que não gosta de ler, não gosta de cinema, não gosta de música — ou então gosta de tudo isto, mas nada que seja inglês. Agora imaginem que essa pessoa vai pela primeira vez a Londres. Aparentemente, encontra a mesma cidade que uma pessoa interessada, mas, no fundo, não vê quase nada. Acha tudo muito «chato», porque Londres não passa duma cidade, com mais ou menos edifícios, mais ou menos história, mais ou menos museus, mais ou menos pessoas. O mundo parece chato àqueles que são chatos — e as pessoas interessantes parecem aborrecidas aos verdadeiramente desinteressantes. (Escusado será dizer que a divisão entre uns e outros está nos olhos de quem divide, mas isso agora não vem ao caso.)

 

28
Fev14

Uma livraria numa tarde de chuva em Cambridge

Marco Neves

Já agora, vou explicar-vos como conheci Steven Pinker, de quem vos falei há bocado. Não no sentido de já ter falado com ele, mas no sentido de ter encontrado o primeiro livro dele.

Ora bem, tudo começou quando o meu irmão foi convidado para uma entrevista de emprego em Inglaterra. Isto em 2008… 

Antes disso, tinha ido à Inglaterra uma única vez, no ano anterior, na lua-de-mel. Antes que ponham as mãos na cabeça (“mas quem é que vai de lua de mel para a Inglaterra, por amor dos santinhos e da minha rica praia?”), digo-vos já que antes disso fomos de lua-de-mel para outro lado, mais quentinho. Mas disso falo depois. Antes disso, Inglaterra...

Portanto, só lá tinha ido uma vez, o que era estranho, porque sempre fora um apaixonado pelo país (ou países, aliás). Aliás, estudei a cultura e a língua na faculdade — mas ir lá, mesmo, só aos 27 anos (se descontarmos duas idas a Gibraltar, que é uma espécie de Reino Unido concentrado, empacotado e enviado para o sul de Espanha). 

Nesse tal ano de 2008 o meu irmão é convidado a ir a uma entrevista numa grande empresa e fica contentíssimo — e algo nervoso. Acabei por ir com ele, não só para ele não ir sozinho, como para servir de treino para uma entrevista em inglês.

A entrevista era em Cambridge. Lá fomos, de avião, campos ingleses a aparecer lá em baixo, aterragem magnífica, comboios para a frente e para trás, telefonemas para a minha mulher, que tinha ficado com o trabalho entre mãos (e, confesso, não estávamos — e não estamos — habituados a estar longe um do outro)——

Espera lá. Eu já vos falei disto. Aqui. Vão lá ler e depois voltem, se faz favor.

Bem, estávamos em Cambridge. A entrevista era à tarde. O meu irmão lá foi, às três da tarde e eu fiquei a vaguear pelas ruas. 

Ora bem, o que acontece por volta das três e meia duma tarde de Novembro, em Inglaterra?

Pois, fica de noite.

Tantos anos a estudar o país, e ninguém me tinha dito que ficava de noite às três da tarde! Isso teria explicado tanta coisa…

Bem, lá vaguei por essa noite profunda, apaixonado pela cidade, que se não conhecem deviam conhecer. 

 


Não conhecia quase nada e hoje, que já conheço bastante melhor, depois de várias oportunidades para vaguear, conduzir, correr e andar por lá, sei que nessa tarde percorri aquela vila toda — e quando digo vila, estou a ser irónico, porque a população é comparável à do Porto.

 

A certa altura vi-me num relvado imenso, à noite, com bicicletas a passar, os edifícios neo-góticos ao fundo, o ar inglês de tudo aquilo a fazer-me crer num livro ou num filme ou na minha imaginação de anos antes. Lembro-me de ter pensado no Clube dos Poetas Mortos — e, sim, eu sei que o filme se passava nos Estados Unidos, mas por algum motivo a região se chama Nova Inglaterra.

 



Foi uma tarde magnífica, de delicioso frio e chuva bem ingleses. Pois, chuva (isto ainda antes da neve que contei no outro post). Começa a chover. E eu sem guarda-chuva. Na zona da Quay, a olhar para os barcos. Estudantes a passar, em animadas conversas. Eu maravilhado — mas à chuva! 

Onde posso abrigar-me?

Obviamente que numa livraria, ou não fosse eu o viciado que sou.

Na Waterstone’s, que para um inglês parecerá tão massificada e pouco tradicional como a nós nos parecem as Fnacs, mas para mim era uma livraria inglesa deliciosa, quentinha e cheia de livros. 

 


Entrei e fiquei maravilhado. Nem vou conseguir explicar bem porquê, mas sair duma rua onde passavam guarda-chuvas e bicicletas e estudantes a caminho dos pubs, tudo encharcado de chuva, para entrar numa luminosa livraria com livros em inglês ficou-me marcado como um especial momento de felicidade.

Ora, o primeiro livro que encontrei e que quis levar de imediato foi este:



Peguei nele, vaguei durante muito tempo, sem pressas nem ninguém à minha espera, pelos quatro ou cinco andares daquele monstro de livraria, fui beber um chocolate quente ao Costa Caffé do último andar...



...e acabei a comprar o livro, numa dessas interacções sem grandes palavras, em que o rapaz da caixa, num inglês muito sumido, me pergunta se quero o cartão de fidelização da Waterstone’s e eu por pouco não digo que sim, só para sentir que iria ali muito mais vezes.

E a verdade é que fui, mas isso são outras histórias.

Lembro-me de estar a ler o livro no resto da viagem, de estar a ler no avião para cá, de estar a ler em casa e de estar a ler em casa dos meus sogros. Não parei até acabar. E o livro é divertidíssimo, principalmente a parte em que Steven Pinker explica porque existem palavrões e quais os mecanismos cerebrais que estão por trás dessas palavras malandras.

 

Já agora, querem saber se o meu irmão ficou por lá? Hei-de vos contar, mas é fácil de adivinhar, se vos disser que hão-de aparecer mais posts sobre Inglaterra, muito em breve.

 

(Continua, portanto...)

 

Fontes das fotos:

http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Magdalene_College_Cambridge_night.JPG

http://www.jesus.cam.ac.uk/about-jesus-college/college-images/

http://www.librarything.com/venue/25853/Waterstones-Cambridge

 

26
Fev14

Qual será a bandeira do Reino Ex-Unido?

Marco Neves

Quando faltam poucos meses para os escoceses decidirem se ficam saem da união, deixando o Reino muito pouco Unido, alguns ingleses divertem-se a imaginar qual seria a bandeira britânica na eventualidade de a Escócia se tornar independente (caso não saibam, o azul da bandeira britânica representa a Escócia). 

 

Alguns ingleses decidiram armar barracada e propuseram isto (como que a dizer, "vocês vão-se embora e nós vai ser sempre a bombar"):

 

 


 

 

Mas não julguem que são os únicos brincalhões. Afinal, a bandeira do País Basco é, há muitos anos, esta:

 

 

 


 

 

Agora mais a sério, encontrei este título, na Amazon, sobre a história da bela Bandeira da União (tremida):

 

 

 (Nick Groom, The Union Jack: A Biography)

25
Fev14

Emma Thompson, essa desilusão

Marco Neves

Já aqui falei de Stephen Fry, esse génio do humor inglês. Há uns tempos, li esta autobiografia magnífica, que nos transporta pelos bastidores de alguns programas que todos nós adoramos — e de repente também nós nos sentimos a estudar em Cambridge, a humorar em Edimburgo, a falar descontraidamente com Emma Thompson, a participar nas gravações de Chariots of Fire.

 

 

Por falar em Emma Thompson, e já que estamos quase nos óscares, fiquem com este episódio, em que um jornalista pergunta a Kim, um amigo comum, o que acha do óscar de Emma (em 1992):

 

 

29
Jan14

¶ Duas personagens visitam o nosso blog (aliás, blogue)

Marco Neves

 

Stuart   Bolas, já não bastava tudo o resto, ainda tínhamos de ser chamados a participar nesta coisa dum blog? 

 

Oliver   Já agora, escreve-se blogue, não blog, mas tudo bem. Já percebi que a culpa é aqui do autor deste blogue!...

 

Stuart   Já vi que és um pedantinho de primeira tanto em inglês como em português.

 

Oliver   Ó, meu caro, sempre às suas ordens, em qualquer língua. Mas, já agora, fazes ideia do que estamos os dois aqui a fazer?

 

Stuart   Nem por isso...

 

Oliver   Este é um blog sobre livros (não sei se estás recordado desses objectos)...

 

Stuart   Não sejas estúpido.

 

Oliver   E o autor, cujo nome não me quero lembrar, convidou-nos para este post para apresentarmos o livro que está ali em cima, porque, enfim, somos as personagens principais.

 

Stuart   Falta ela...

 

Oliver   Sim, falta, mas depois do que lhe fizeste na sequela (Love, etc.), achas que ela queria vir a Portugal?

 

Stuart   Mas que fiz eu?

 

Oliver   O que fizeste tu?... Por amor de Deus, meu querido, o menino ou é parvo ou faz-se.

 

Stuart   Bem, mas vamos ficar aqui o dia todo a falar?

 

Oliver   Não, o dito cujo (o autor) encarregou-me de explicar o livro. E o que posso dizer é que o nosso autorizinho, o Julinho Barnes, é um génio.

 

Stuart   Por acaso não gosto muito dele. Um bocado afrancesado.

 

Oliver   E tu que gostasses. Não te esqueças que ele me fez à sua imagem e semelhança. Não é suposto gostares dele.

 

Stuart   "É suposto" é um anglicismo, é toino.

 

Oliver   Olha, olha... Mas nós até somos ingleses, meu caro.

 

Stuart   Mas, continua. Tu e os teu deus Barnes, que te criou à imagem e semelhança.

 

Oliver   Sim, pois. Bem, então o autor deste blogue (blogue! blogue!) pede-me para explicar por que razão este livro é simplesmente genial. E não consigo. Porque é impossível. Só lendo. E como não consigo ler, porque estou lá enfiado dentro, o que posso fazer é aconselhar os nossos caros amigos portugueses a lerem. No fundo, o livro é um diálogo entre as personagens e o leitor. É aparentemente simples, mas de repente o leitor já não está onde pensava que estava.

 

Stuart   É isso que tens para dizer?

 

Oliver   Sim.

 

Stuart   De facto, vocês, intelectuais, falam muito, mas dizer está quieto.

 

Oliver   Mas não concordas?

 

Stuart   Com o quê? 

 

Oliver   Com o facto de ser um livro que todos devem ler?

 

Stuart   Bem, gosto que o leiam, porque gosto que me leiam. Mas é tudo. Agora vamos lá embora.

 

Oliver   Ó homem, descontrai e vamos lá dar uma volta por Lisboa. Ouviste dizer que a CNN considerou a cidade a mais cool da Europa?

 

Stuart   A sério?

 

Oliver   Sim, sim. Embora, enfim, sendo uma cidade cool, não é muito o teu estilo...

 

Stuart   Pronto, tinha de vir...

23
Jan14

¶ Histórias de reis e escritores

Marco Neves

Sei perfeitamente onde foi o nosso primeiro encontro — não estou a falar da minha mulher nem de nenhum antigo amor (foram poucos, mas não me queixo). Estou a falar, isso sim, dum autor muito especial, que poucos conhecem porque tem aquele defeito que poucos leitores portugueses perdoam: é espanhol.

O autor é Javier Marías e a primeira vez que o vi foi na Fnac do Chiado, já lá vão muitos anos, e tinha este aspecto:



Estes anos todos depois, reparem bem nas manchas na pele, que isto a idade não perdoa:



Pois bem, mal sabia eu em que labirinto ia entrar… Este romance (?) não é exactamente um romance, nem uma crónica, ou talvez seja antes um post dum blog sobre livros um pouco sobre-dimensionado. Aliás, um post sobre livros do próprio autor! <pseudo>Ai, a auto-referencialidade dos autores pós-modernistas!</pseudo>

Pois bem (e já vamos no segundo “pois bem”), o que este livro conta são as peripécias do autor na sequência da publicação dum outro livro seu, anos antes, que relata a vida dum professor espanhol em Oxford, com uma série de personagens curiosas e um pouco ridículas a preencherem essas páginas desse outro romance:



Sim, Todas las almas passa-se em All Souls. O professor espanhol é professor de tradução, como se vê. Adiante. O certo é que vários professores e ex-colegas de Javier Marías — que como já devem ter percebido foi professor (e espanhol) em Oxford — e professor de tradução... — acharam que aquelas personagens eram, vejam só a desfaçatez, eles próprios.

 

Vêem-se enfiados num romance — e nada é mais literário do que ter personagens de carne e osso a pedir contas ao autor (e ex-colega). 

E, assim, Javier Marías, quando volta a Oxford, vê-se envolvido num enredo curioso, enredo esse que, to cut a long story short (em português: “para despachar que isto já são horas”)...

(preparem-se, que desta não estão à espera…)

... termina com a sua coroação como Rei de Redonda, uma ilha nas Caraíbas.

Exacto. E não pensem que é mentira (vejam o artigo wikipédico: http://es.wikipedia.org/wiki/Reino_de_Redonda). Pronto, Javier Marías é apenas um dos pretendentes ao trono, mas é um pretendente com pergaminhos literários impecáveis. E é um rei que aproveita para oferecer condados e títulos de nobreza em geral a pessoas insuspeitas como António Lobo Antunes, Ian McEwan… Desta monarquia, todos nós gostamos...

O livro — Negra espalda del tiempo — é muito bom. Não julguem que vão encontrar literatura levezita, que o Javier Marías está ao nível dum Lobo Antunes. Mas dum Lobo Antunes muito brincalhão e com a mania que é rei.

Nesta misturada toda, claro que a ficção e a realidade ficam um pouco confundidas, e por isso não espanta que o início de Negra espalda del tiempo seja este:



Já não leio este livro há muito tempo. Acho que vai já para a fila (que já vai comprida).

Boas leituras!

 

(E, se passarem pelas Caraíbas, mandem cumprimentos ao Marías.)

 

 

(From Wikipedia, as usual.)

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