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Livros & Outras Manias

Livros & Outras Manias

08
Jun16

A linguagem do Estado e a democracia

Marco

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Sim, é verdade, gostemos ou não da resposta, os ingleses têm direito a escolher: e temos alguma coisa a aprender, aqui pelas ibérias, no que toca à democracia dos seus referendos. Por exemplo, não será melhor, quando há um conflito de nacionalismos, deixar a população decidir, como aconteceu na Escócia?

 

Agora, há um aspecto interessante: também temos algo a aprender sobre a maneira como o uso da língua está intimamente ligado à democracia.

 

Começo pelos referendos.

 

Reparem: a maneira como fazemos uma pergunta pode ter um impacto profundo na resposta.

 

O Reino Unido tem uma comissão eleitoral independente que analisa as perguntas e recomenda novas formulações, que permitam uma escolha menos enviesada.

 

Por exemplo, a pergunta do referendo para ficar ou sair da União que foi proposta pelo governo inglês era: «Should the United Kingdom remain a member of the European Union?»

 

A resposta seria «sim» ou «não».

 

Pois a comissão, depois de testá-la junto dos eleitores, de consultar especialistas em linguagem acessível e pedir a opinião aos partidos e aos movimentos interessados,  aconselhou o governo a alterar a pergunta. Porquê? Para que as duas hipóteses fossem apresentadas em pé de igualdade, sem enviesamentos.

 

A pergunta e respostas finais são:

 

«Should the United Kingdom remain a member of the European Union or leave the European Union?

  • Remain a member of the European Union
  • Leave the European Union»

 

Está tudo descrito nesta página.

 

É por isso que fico muito baralhado quando os jornais portugueses dizem que o «sim» (ou o «não») está à frente. Não há, neste caso, «sim» ou «não». Há isto: ficar ou sair. Se um jornal diz que o «sim» está à frente, quer isso dizer que os ingleses querem sair da União? Não faço ideia.

 

A resposta é clara e inequívoca.

 

O mesmo aconteceu no caso da pergunta escocesa. Neste caso, a pergunta que tinha sido proposta pelo governo escocês era «Do you agree that Scotland should be an independent country?» A comissão eleitoral testou-a, em conjunto com alternativas, tendo percebido que o «do you agree» podia ser entendido como uma forma de pressão subtil no sentido do «sim».

 

Será verdade? Reparem que foi tudo testado de forma independente e está tudo bem explicado nas páginas da comissão eleitoral.

 

A pergunta final foi: «Should Scotland be an independent country?»

 

Simples, imediato, fácil de entender.

 

As várias partes em confronto aceitaram sem hesitações estas determinações da comissão independente.

 

(Podia agora ir buscar as perguntas dos nossos referendos para comparar, mas seria penoso. Mais penoso ainda é olhar para este referendo grego.)

 

Isto é mais importante do que pensamos: é importante dar atenção à forma como os textos são entendidos por quem os vai usar: para lá das nossas noções pessoais de correcção, há que testar, há que respeitar as pessoas (não apenas aquelas que falam exactamente como nós), há que olhar para a língua como ela existe e é usada e entendida pelos cérebros dos falantes.

 

Não estou a falar de literatura ou de ensaios nem das fronteiras do pensamento, mas antes de textos oficiais, de formulários, de impressos e, neste caso, de referendos, que devem ser entendidos por todos.

 

Até mesmo as páginas de Internet oficiais devem ser testadas e pensadas para uma utilização fácil e intuitiva, porque no que toca à comunicação entre o Estado e a população, há que pensar de duas maneiras: é preciso investir na educação dos cidadãos (poucos dirão o contrário), mas também melhorar os textos para que sejam entendidos por todos (e não apenas por quem está habituado ao estilo e ao vocabulário da administração pública).

 

Também isto é democracia.

(Publicado também no blogue Certas Palavras.)

14
Mar14

Oxford contaminada

Marco

Este post vai ser um pouco armado ao intelectual. Mas, cá vai disto: a cultura é a capacidade de ver mais coisas no mundo. Agora, explico com exemplos concretos. (Continuem, porque, na minha imparcial opinião, vale a pena.)

 

Fui a Oxford pela primeira vez enquanto estava a ler Todas las Almas, de Javier Marías. (Isto não serviu apenas para dizer “olhem só, até leio autores espanhóis que ninguém conhece”, até porque muita gente conhece o senhor — e, depois, todos nós desconhecemos coisas que os outros acham essenciais, por isso, quem sou eu…)

 

Seja como for, a questão é que o romance se passa em Oxford. Enquanto andava pelas ruas, fui encontrando lugares do livro que estava a ler — e, confesso, vi muito mais coisas do que veria se não estivesse a ler aquele livro. Depois de sair de Oxford, acabei o livro e as últimas páginas passavam-se numa cidade que eu já conhecia. Esta mistura entre ficção e realidade foi um prazer muito particular. Imaginem o que é sair dum café museu e ver, do outro lado da rua, a montra à frente da qual, na noite anterior, o narrador do livro que tinha na mão encontrara uma das raparigas da história. O livro ficou mais real e Oxford ainda mais interessante. A coisa também funciona com filmes, teatro, música — e até quadros, esculturas e outros que tais. A variedade é grande, mas cada um tem as suas preferências.

 

Continuando: esta contaminação foi um exemplo extremo daquilo que acontece muitas vezes. Quando vamos pela primeira vez a uma cidade sobre a qual já lemos muito e na qual se passam muitos filmes que vimos, é um pouco como se voltássemos a ler e a ver esses filmes — e é também uma forma de vermos a cidade com mais atenção. Por outro lado, ler sobre cidades que conhecemos é continuar lá e aumentá-las — parece que nunca de lá saímos. (Podemos ainda ter memórias de sítios onde nunca fomos — tenho saudades de Tóquio.)

 

Ou seja, a cultura é uma forma de viver mais (não necessariamente de viver melhor — isso é outra história). Quem acha que a cultura é uma forma de fugir da vida não percebeu nada.

 

Imaginem uma pessoa que não gosta de ler, não gosta de cinema, não gosta de música — ou então gosta de tudo isto, mas nada que seja inglês. Agora imaginem que essa pessoa vai pela primeira vez a Londres. Aparentemente, encontra a mesma cidade que uma pessoa interessada, mas, no fundo, não vê quase nada. Acha tudo muito «chato», porque Londres não passa duma cidade, com mais ou menos edifícios, mais ou menos história, mais ou menos museus, mais ou menos pessoas. O mundo parece chato àqueles que são chatos — e as pessoas interessantes parecem aborrecidas aos verdadeiramente desinteressantes. (Escusado será dizer que a divisão entre uns e outros está nos olhos de quem divide, mas isso agora não vem ao caso.)

 

28
Fev14

Uma livraria numa tarde de chuva em Cambridge

Marco

Já agora, vou explicar-vos como conheci Steven Pinker, de quem vos falei há bocado. Não no sentido de já ter falado com ele, mas no sentido de ter encontrado o primeiro livro dele.

Ora bem, tudo começou quando o meu irmão foi convidado para uma entrevista de emprego em Inglaterra. Isto em 2008… 

Antes disso, tinha ido à Inglaterra uma única vez, no ano anterior, na lua-de-mel. Antes que ponham as mãos na cabeça (“mas quem é que vai de lua de mel para a Inglaterra, por amor dos santinhos e da minha rica praia?”), digo-vos já que antes disso fomos de lua-de-mel para outro lado, mais quentinho. Mas disso falo depois. Antes disso, Inglaterra...

Portanto, só lá tinha ido uma vez, o que era estranho, porque sempre fora um apaixonado pelo país (ou países, aliás). Aliás, estudei a cultura e a língua na faculdade — mas ir lá, mesmo, só aos 27 anos (se descontarmos duas idas a Gibraltar, que é uma espécie de Reino Unido concentrado, empacotado e enviado para o sul de Espanha). 

Nesse tal ano de 2008 o meu irmão é convidado a ir a uma entrevista numa grande empresa e fica contentíssimo — e algo nervoso. Acabei por ir com ele, não só para ele não ir sozinho, como para servir de treino para uma entrevista em inglês.

A entrevista era em Cambridge. Lá fomos, de avião, campos ingleses a aparecer lá em baixo, aterragem magnífica, comboios para a frente e para trás, telefonemas para a minha mulher, que tinha ficado com o trabalho entre mãos (e, confesso, não estávamos — e não estamos — habituados a estar longe um do outro)——

Espera lá. Eu já vos falei disto. Aqui. Vão lá ler e depois voltem, se faz favor.

Bem, estávamos em Cambridge. A entrevista era à tarde. O meu irmão lá foi, às três da tarde e eu fiquei a vaguear pelas ruas. 

Ora bem, o que acontece por volta das três e meia duma tarde de Novembro, em Inglaterra?

Pois, fica de noite.

Tantos anos a estudar o país, e ninguém me tinha dito que ficava de noite às três da tarde! Isso teria explicado tanta coisa…

Bem, lá vaguei por essa noite profunda, apaixonado pela cidade, que se não conhecem deviam conhecer. 

 


Não conhecia quase nada e hoje, que já conheço bastante melhor, depois de várias oportunidades para vaguear, conduzir, correr e andar por lá, sei que nessa tarde percorri aquela vila toda — e quando digo vila, estou a ser irónico, porque a população é comparável à do Porto.

 

A certa altura vi-me num relvado imenso, à noite, com bicicletas a passar, os edifícios neo-góticos ao fundo, o ar inglês de tudo aquilo a fazer-me crer num livro ou num filme ou na minha imaginação de anos antes. Lembro-me de ter pensado no Clube dos Poetas Mortos — e, sim, eu sei que o filme se passava nos Estados Unidos, mas por algum motivo a região se chama Nova Inglaterra.

 



Foi uma tarde magnífica, de delicioso frio e chuva bem ingleses. Pois, chuva (isto ainda antes da neve que contei no outro post). Começa a chover. E eu sem guarda-chuva. Na zona da Quay, a olhar para os barcos. Estudantes a passar, em animadas conversas. Eu maravilhado — mas à chuva! 

Onde posso abrigar-me?

Obviamente que numa livraria, ou não fosse eu o viciado que sou.

Na Waterstone’s, que para um inglês parecerá tão massificada e pouco tradicional como a nós nos parecem as Fnacs, mas para mim era uma livraria inglesa deliciosa, quentinha e cheia de livros. 

 


Entrei e fiquei maravilhado. Nem vou conseguir explicar bem porquê, mas sair duma rua onde passavam guarda-chuvas e bicicletas e estudantes a caminho dos pubs, tudo encharcado de chuva, para entrar numa luminosa livraria com livros em inglês ficou-me marcado como um especial momento de felicidade.

Ora, o primeiro livro que encontrei e que quis levar de imediato foi este:



Peguei nele, vaguei durante muito tempo, sem pressas nem ninguém à minha espera, pelos quatro ou cinco andares daquele monstro de livraria, fui beber um chocolate quente ao Costa Caffé do último andar...



...e acabei a comprar o livro, numa dessas interacções sem grandes palavras, em que o rapaz da caixa, num inglês muito sumido, me pergunta se quero o cartão de fidelização da Waterstone’s e eu por pouco não digo que sim, só para sentir que iria ali muito mais vezes.

E a verdade é que fui, mas isso são outras histórias.

Lembro-me de estar a ler o livro no resto da viagem, de estar a ler no avião para cá, de estar a ler em casa e de estar a ler em casa dos meus sogros. Não parei até acabar. E o livro é divertidíssimo, principalmente a parte em que Steven Pinker explica porque existem palavrões e quais os mecanismos cerebrais que estão por trás dessas palavras malandras.

 

Já agora, querem saber se o meu irmão ficou por lá? Hei-de vos contar, mas é fácil de adivinhar, se vos disser que hão-de aparecer mais posts sobre Inglaterra, muito em breve.

 

(Continua, portanto...)

 

Fontes das fotos:

http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Magdalene_College_Cambridge_night.JPG

http://www.jesus.cam.ac.uk/about-jesus-college/college-images/

http://www.librarything.com/venue/25853/Waterstones-Cambridge

 

26
Fev14

Qual será a bandeira do Reino Ex-Unido?

Marco

Quando faltam poucos meses para os escoceses decidirem se ficam saem da união, deixando o Reino muito pouco Unido, alguns ingleses divertem-se a imaginar qual seria a bandeira britânica na eventualidade de a Escócia se tornar independente (caso não saibam, o azul da bandeira britânica representa a Escócia). 

 

Alguns ingleses decidiram armar barracada e propuseram isto (como que a dizer, "vocês vão-se embora e nós vai ser sempre a bombar"):

 

 


 

 

Mas não julguem que são os únicos brincalhões. Afinal, a bandeira do País Basco é, há muitos anos, esta:

 

 

 


 

 

Agora mais a sério, encontrei este título, na Amazon, sobre a história da bela Bandeira da União (tremida):

 

 

 (Nick Groom, The Union Jack: A Biography)

25
Fev14

Emma Thompson, essa desilusão

Marco

Já aqui falei de Stephen Fry, esse génio do humor inglês. Há uns tempos, li esta autobiografia magnífica, que nos transporta pelos bastidores de alguns programas que todos nós adoramos — e de repente também nós nos sentimos a estudar em Cambridge, a humorar em Edimburgo, a falar descontraidamente com Emma Thompson, a participar nas gravações de Chariots of Fire.

 

 

Por falar em Emma Thompson, e já que estamos quase nos óscares, fiquem com este episódio, em que um jornalista pergunta a Kim, um amigo comum, o que acha do óscar de Emma (em 1992):

 

 

29
Jan14

¶ Duas personagens visitam o nosso blog (aliás, blogue)

Marco

 

Stuart   Bolas, já não bastava tudo o resto, ainda tínhamos de ser chamados a participar nesta coisa dum blog? 

 

Oliver   Já agora, escreve-se blogue, não blog, mas tudo bem. Já percebi que a culpa é aqui do autor deste blogue!...

 

Stuart   Já vi que és um pedantinho de primeira tanto em inglês como em português.

 

Oliver   Ó, meu caro, sempre às suas ordens, em qualquer língua. Mas, já agora, fazes ideia do que estamos os dois aqui a fazer?

 

Stuart   Nem por isso...

 

Oliver   Este é um blog sobre livros (não sei se estás recordado desses objectos)...

 

Stuart   Não sejas estúpido.

 

Oliver   E o autor, cujo nome não me quero lembrar, convidou-nos para este post para apresentarmos o livro que está ali em cima, porque, enfim, somos as personagens principais.

 

Stuart   Falta ela...

 

Oliver   Sim, falta, mas depois do que lhe fizeste na sequela (Love, etc.), achas que ela queria vir a Portugal?

 

Stuart   Mas que fiz eu?

 

Oliver   O que fizeste tu?... Por amor de Deus, meu querido, o menino ou é parvo ou faz-se.

 

Stuart   Bem, mas vamos ficar aqui o dia todo a falar?

 

Oliver   Não, o dito cujo (o autor) encarregou-me de explicar o livro. E o que posso dizer é que o nosso autorizinho, o Julinho Barnes, é um génio.

 

Stuart   Por acaso não gosto muito dele. Um bocado afrancesado.

 

Oliver   E tu que gostasses. Não te esqueças que ele me fez à sua imagem e semelhança. Não é suposto gostares dele.

 

Stuart   "É suposto" é um anglicismo, é toino.

 

Oliver   Olha, olha... Mas nós até somos ingleses, meu caro.

 

Stuart   Mas, continua. Tu e os teu deus Barnes, que te criou à imagem e semelhança.

 

Oliver   Sim, pois. Bem, então o autor deste blogue (blogue! blogue!) pede-me para explicar por que razão este livro é simplesmente genial. E não consigo. Porque é impossível. Só lendo. E como não consigo ler, porque estou lá enfiado dentro, o que posso fazer é aconselhar os nossos caros amigos portugueses a lerem. No fundo, o livro é um diálogo entre as personagens e o leitor. É aparentemente simples, mas de repente o leitor já não está onde pensava que estava.

 

Stuart   É isso que tens para dizer?

 

Oliver   Sim.

 

Stuart   De facto, vocês, intelectuais, falam muito, mas dizer está quieto.

 

Oliver   Mas não concordas?

 

Stuart   Com o quê? 

 

Oliver   Com o facto de ser um livro que todos devem ler?

 

Stuart   Bem, gosto que o leiam, porque gosto que me leiam. Mas é tudo. Agora vamos lá embora.

 

Oliver   Ó homem, descontrai e vamos lá dar uma volta por Lisboa. Ouviste dizer que a CNN considerou a cidade a mais cool da Europa?

 

Stuart   A sério?

 

Oliver   Sim, sim. Embora, enfim, sendo uma cidade cool, não é muito o teu estilo...

 

Stuart   Pronto, tinha de vir...

23
Jan14

¶ Histórias de reis e escritores

Marco

Sei perfeitamente onde foi o nosso primeiro encontro — não estou a falar da minha mulher nem de nenhum antigo amor (foram poucos, mas não me queixo). Estou a falar, isso sim, dum autor muito especial, que poucos conhecem porque tem aquele defeito que poucos leitores portugueses perdoam: é espanhol.

O autor é Javier Marías e a primeira vez que o vi foi na Fnac do Chiado, já lá vão muitos anos, e tinha este aspecto:



Estes anos todos depois, reparem bem nas manchas na pele, que isto a idade não perdoa:



Pois bem, mal sabia eu em que labirinto ia entrar… Este romance (?) não é exactamente um romance, nem uma crónica, ou talvez seja antes um post dum blog sobre livros um pouco sobre-dimensionado. Aliás, um post sobre livros do próprio autor! <pseudo>Ai, a auto-referencialidade dos autores pós-modernistas!</pseudo>

Pois bem (e já vamos no segundo “pois bem”), o que este livro conta são as peripécias do autor na sequência da publicação dum outro livro seu, anos antes, que relata a vida dum professor espanhol em Oxford, com uma série de personagens curiosas e um pouco ridículas a preencherem essas páginas desse outro romance:



Sim, Todas las almas passa-se em All Souls. O professor espanhol é professor de tradução, como se vê. Adiante. O certo é que vários professores e ex-colegas de Javier Marías — que como já devem ter percebido foi professor (e espanhol) em Oxford — e professor de tradução... — acharam que aquelas personagens eram, vejam só a desfaçatez, eles próprios.

 

Vêem-se enfiados num romance — e nada é mais literário do que ter personagens de carne e osso a pedir contas ao autor (e ex-colega). 

E, assim, Javier Marías, quando volta a Oxford, vê-se envolvido num enredo curioso, enredo esse que, to cut a long story short (em português: “para despachar que isto já são horas”)...

(preparem-se, que desta não estão à espera…)

... termina com a sua coroação como Rei de Redonda, uma ilha nas Caraíbas.

Exacto. E não pensem que é mentira (vejam o artigo wikipédico: http://es.wikipedia.org/wiki/Reino_de_Redonda). Pronto, Javier Marías é apenas um dos pretendentes ao trono, mas é um pretendente com pergaminhos literários impecáveis. E é um rei que aproveita para oferecer condados e títulos de nobreza em geral a pessoas insuspeitas como António Lobo Antunes, Ian McEwan… Desta monarquia, todos nós gostamos...

O livro — Negra espalda del tiempo — é muito bom. Não julguem que vão encontrar literatura levezita, que o Javier Marías está ao nível dum Lobo Antunes. Mas dum Lobo Antunes muito brincalhão e com a mania que é rei.

Nesta misturada toda, claro que a ficção e a realidade ficam um pouco confundidas, e por isso não espanta que o início de Negra espalda del tiempo seja este:



Já não leio este livro há muito tempo. Acho que vai já para a fila (que já vai comprida).

Boas leituras!

 

(E, se passarem pelas Caraíbas, mandem cumprimentos ao Marías.)

 

 

(From Wikipedia, as usual.)

22
Jan14

¶ Este livro faz bem à saúde (só não cura a distracção)

Marco

Muitos amigos meus acusam-me de ser distraído. A minha família também acha o mesmo. A minha mulher também achava, mas tem vindo a mudar de opinião. Ou se calhar já está cansada de dizer o mesmo. Uma coisa ou outra.

 

Ora bem, como verão já de seguida, não sou o único distraído da família. 

 

Na Páscoa de 2010, fui com a minha família visitar o meu irmão (não foi a viagem contada anteriormente, em que fomos a Paris

 

Numa das livrarias de Cambridge, comprei este livro:

 

 

 

O livro é magnífico. Ajuda-nos não só a perceber o que é a ciência, como a desmontar a forma absurda como a ciência nos é transmitida, a perceber a forma como a indústria farmacêutica manipula o mercado e ainda a deixar de lado qualquer réstia de confiança que poderíamos ainda ter nalgumas medicinas alternativas como a homeopatia e outros que tais.

 

Só para vos incentivar a ir procurar o livro (há a versão portuguesa), aqui está um extracto da introdução:

 

 

 

Ora, aqui está uma óptima definição de ciência: uma forma de evitar sermos enganados pelas nossas próprias experiências isoladas e preconceitos individuais. Claro que haverá sempre quem goste de ser enganado e, como o autor diz num dos parágrafos que aparece nesta foto acima, mas já meio desfocado (ai o Instagram, o Instagram...), "you can't reason people out of positions they didn't reason into" (que expressão tão britanicamente sucinta). Não podemos usar a razão para convencer alguém a abandonar uma opinião irracional (seria algo assim a tradução desta expressão), mas podemos tentar.

 

Enfim, adiante. Leiam o livro. Vai fazer-vos muito bem à saúde. E à carteira. Porque a ignorância nestas coisas da ciência e da medicina só faz é mal — mesmo muito mal.

 

Mas não foi para isso que vim escrever este post nocturno, enquanto a minha mulher já dorme e o meu sono está quase a chegar.

 

O que acontece é que comprei o livro em Cambridge, como vos disse, ao lado do meu irmão, e andei por lá a passear com o livro na mão, a lê-lo todos os bocadinhos que encontrava. Acontece-me isto: os livros de ciência deixam-me empolgado como se estivesse a ler um policial. Deve ser um problema qualquer nos neurónios.

 

Lia, comentava, discutia o livro com o meu irmão. 

 

O meu irmão via-me, em casa dele, no café ao pé da casa dele, no carro com os meus pais — sempre com este livro na mão.

 

Isto, em Abril (julgo que por essa altura, agora não sei de cor quando foi a Páscoa nesse ano).

 

Passaram-se meses.

 

O meu irmão vem a Portugal, para o Natal.

 

E que prenda me traz ele?

 

Este mesmo livro! Dizendo: "acho que vais gostar!"

 

A minha cara foi: "estás a brincar comigo?"

 

"Porquê?"

 

"Porque, pá, eu não só comprei o livro ao pé de ti, como andei vários dias a lê-lo ao pé de ti."

 

Ele bate com a cabeça na testa, rimo-nos todos e disto tudo surgiu uma coisa boa: ele voltou com o livro para Inglaterra e acabou por lê-lo. 

 

Se bem me lembro, não gostou assim tanto. Achou o autor um pouco arrogante e demasiado irritado com a ignorância dos outros. Mas, enfim, um médico deve sentir-se mal quando todos acreditam em disparates astro-quânticos-homeopáticos e desconfiam dos médicos como se fossem parte duma conspiração qualquer para acabar com a saúde das pessoas. É fácil cair na arrogância e na atitude: "mas está tudo doido ou quê?"

 

Porque, já sabemos, quando alguém sobrevive a uma doença, o responsável por tal milagre é Nossa Senhora, ou os anjinhos, ou as vibrações cósmicas, mesmo que tenha havido um médico (daqueles a sério) a tentar tudo por tudo para salvar a pessoa. Se alguém não sobrevive, a culpa é do médico. Ponto final.

 

Bom, bom era que alguém descobrisse a cura para a distracção. Queria ver se o meu filho não padecia desta doença do pai e tios.

 

(Já agora, um bom dia!)

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