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Livros & Outras Manias

Livros & Outras Manias

17
Mai16

Qual é a origem da nossa língua?

Marco

porto.jpg

 

O leitor Paulo Vieira enviou-me esta mensagem:

Ouvi-o na Prova Oral afirmar que a nossa língua vem do galego e estava agora a ler uma notícia do Público sobre os Lusíadas, a que fez referência no artigo da língua bastarda, e nessa notícia é dito que a obra tem uma forte influência do castelhano, língua que aparentemente era muito usada na corte.

Fiquei interessado e gostava de esclarecer quais as origens da nossa língua. Recomenda algum livro sobre o tema?

 

No final deste artigo, deixo algumas sugestões de leitura.

 

Mas antes, porque esta compulsão para escrever parece não ter cura, vou tentar explicar aquilo que sei (ou penso saber). Mas tenho de avisar: não sou linguista histórico. Sou um tradutor e professor que estuda linguística por motivos práticos e junta a isso uma paixão pela disciplina.

 

Pois bem: a verdade é que gosto muito da história da língua — e julgo ser este um tema que nos interessa a todos. Com base no que fui aprendendo ao longo dos anos, mas também com base na leitura dos livros e artigos que refiro no final, aqui fica o meu resumo (os erros, claro, serão meus e não dos livros e artigos — ressalve-se!).

 

O português vem do galego?

 

Enfim: todos nós que dizemos falar português e todos os que dizem falar galego falamos qualquer coisa que teve origem nos falares da Galécia, ali no noroeste da Península. Durante séculos, o latim trazido pelos soldados e colonos romanos e adquirido por toda a população foi sofrendo transformações — não as podemos ver em tempo real, porque ninguém as registava ou escrevia, mas, muitos séculos depois, quando finalmente a língua começou a ser escrita, havia nesse território uma língua já formada, com verbos próprios, com formas próprias, com características que a identificam e a distinguem das outras línguas em redor.

 
Gallaecia

 

A Galécia romana. A nossa língua terá nascido no triângulo que corresponde, de forma muito pouco rigorosa, à metade noroeste do território a verde.

 

O que chamavam as pessoas a essa língua que já era, em muitos aspectos, a nossa? Não lhe chamavam nem galego nem português: chamavam-lhelinguagem, com toda a probabilidade. Era a língua do povo. Nós, agora, olhando para trás, podemos chamar-lhe «português», o que não deixa de ser anacrónico, ou «galego», o que não deixa de assustar algumas almas mais sensíveis, ou «galego-português», para agradar a gregos e a troianos (como se esses fossem para aqui chamados). Na escrita, durante todos esses séculos do primeiro milénio, o latim continuou rei e senhor.

 

Quando Portugal se tornou independente, começámos a usar a língua que existia no território, que era ainda apenas o Norte. Não a escolhemos de imediato, pois nos primeiros tempos o latim ainda foi a língua oficial. Mas, devagar, a língua que era de facto falada começou a infiltrar-se nos textos escritos, às vezes de forma imperceptível, outras vezes de forma mais clara.

 

O país expandiu-se para sul e, com ele, veio a língua, claro. O português nasceu nesse canto noroeste e expandiu-se até ao Algarve (e, mais tarde, até além-mar). Por alturas de D. Dinis era já a língua oficial.

 

Depois, no final do século XIV, temos revoluções, a batalha de Aljubarrota… — a nobreza nortenha perde influência, a burguesia lisboeta alça-se à posição de classe dominante (e tudo o mais que faz parte da História). Lisboa é agora a capital e a nação esquece-se que a língua veio do norte, não foi criada em todo o território nacional. O que se falava em Lisboa seria esse galego-português que viera para sul com a Reconquista. Houve, claro, algumas intrusões do moçárabe, a linguagem latina do sul (com muitos arabismos). Mas, nas suas estruturas e características principais, a língua que Portugal assumiu como sua é a língua criada na Galécia: não houve um ponto em que o galego e o português se tivessem separado claramente.

 

Influências castelhanas no português literário

Não houve um ponto em que o galego e o português se separassem claramente. Mas há, isso sim, algum afastamento da língua padrão em relação ao que se fala mais a norte. Muito desse afastamento fez-se também por causa das influências externas. Com a corte em Lisboa, e durante muitos séculos (na época de Camões, por exemplo), o castelhano teve uma influência que hoje poucos imaginam. Os escritores portugueses também escreviam, muitos deles, em castelhano. Liam em castelhano. A igreja usava muito o castelhano. A corte também usava o castelhano. Era a língua de prestígio. As misturas eram inevitáveis…

 

Ora, o português popular de todo o país não sofreu estas influências de forma tão marcada. Assim, arrisco-me a dizer que o português popular manteve durante mais tempo uma maior grau de semelhança com o galego do que o português-padrão — talvez por não ter tanta influência castelhana. Principalmente no Norte, o português e o galego mantiveram-se tão próximos que a fronteira era difícil de traçar. Mais a sul, na Corte, na capital, a língua “desgaleguizava-se” (ver artigos de Fernando Venâncio citados abaixo). Para as elites lisboetas, o galego e o português do Norte começaram a soar a português da província. E, no entanto, era de lá que tinha vindo a língua…

 

Depois, o castelhano deixou de ser uma influência forte no português (aí por volta do século XVIII); vieram então as influências francesas e, já bem entrado o século XX, começamos a olhar para o inglês.

 

Sim, sempre fomos uma língua que sofreu influências fortes de outras culturas. Podemos não gostar do facto, mas é isso mesmo: um facto. Não fiquem horrorizados: o castelhano também teve vagas dessas, o francês idem — então o inglês nem se fala. Não percam muitas horas de sono com isso — e, depois, a língua vai atrás da cultura, neste ponto: se quisermos uma língua pura, temos de fechar a cultura a influências exteriores. As línguas mais puras são as mais isoladas, as menos importantes.

 

Para terminar este resumo muito resumido, diga-se que o português-padrão se expandiu de forma fenomenal durante o século XX, com a escola, a televisão, a rádio, a imprensa. Aí, as formas do sul começaram a suplantar as outras formas, que subsistem, mas com menos força. O português começou a tornar-se mais homogéneo (e menos nortenho/galego) — mas tudo isto já é história das últimas décadas…

 

E o galego?

Bem, quanto ao galego, lá em cima, num país sem corte, uma sociedade rural, não sofreu tanta influência castelhana até muito tarde, embora essa aparente pureza seja apenas reflexo do isolamento da sociedade. Grande parte da população galega, aliás, só terá começado a sentir a invasão da sua língua pelo castelhano quando a escolaridade obrigatória apareceu no horizonte — e a televisão, jornais, etc. Ou seja, para muitos galegos, o castelhano tornou-se influência no século XX (nas elites terá sido antes, claro). Apesar de tardia, a influência do espanhol é avassaladora, claro está. Aliás, chamar-lhe influência será um eufemismo cruel. O espanhol não influenciou o galego: o espanhol começou a substituir o galego. Afinal, o Estado é o espanhol e a escolaridade da população foi em castelhano até muito tarde. Ou seja, nos séculos XIX e XX, o galego levou uma coça de que ainda não se levantou, apesar de, desde os anos 70, o governo autónomo ter, oficialmente, uma política de defesa da língua.

 

Alguns galegos tentam aproximar a sua língua do português para assim melhor se defenderem do peso do castelhano; outros apostam num galego autónomo tanto do castelhano como do português. Mas que o galego e o português ainda estão mais próximos do que imaginamos, isso é indesmentível: então quando começamos a olhar para o vocabulário popular, aquele que muitos desprezam injustamente, começamos a ver como falamos uma língua que não deixa de ser muito galega.

 

Em resumo…

… o português tem origem no latim popular falado no noroeste da Península, na Galécia Magna, língua essa a que podemos chamar galego por ser uma língua da zona do Reino da Galiza, uma língua já com características muito próprias séculos antes da existência de Portugal. Ao tornar-se a língua dum estado independente a sul, chamado Portugal, a língua passou a chamar-se português — e com esse nome foi transplantada para os outros países que a falam. Apesar das mudanças a sul, a língua mantém uma forte proximidade com o que se fala a norte da fronteira. Essa língua portuguesa, como é típico duma língua dum país de cultura aberta a outros povos, sofreu grandes influências exteriores: do castelhano, do francês, do inglês… Até hoje. Também nos dias de hoje as formas mais padronizadas do português começam a suplantar as formas mais populares entre a população em geral — enquanto na Galiza, o castelhano avança.

 

Isto é uma explicação simplificada, claro está. É ainda a minha forma de o explicar: outros dariam ênfases a outras partes ou acrescentariam pontos talvez importantes… Se alguém quiser corrigir, matizar, completar, os comentários estão abertos!

 

(Proponho ainda que dê uma vista de olhos pelas histórias romanceadas que escrevi e que tentam dar uma ideia do que foi o percurso do idioma nesses primeiros séculos: «História Secreta da Língua Portuguesa».)

 

Bem, mas a pergunta era outra: que livros de especialistas podemos ler sobre o assunto?

 

Proponho dois livros breves, recentes, sobre a História da língua:

  • Introdução à História do Português, de Ivo Castro (um livro académico e actualizado, com fartos exemplos concretos).
  • História do Português, de Esperança Cardeira (um livro brevíssimo, editado numa colecção da Caminho sobre temas de linguística).

 

Proponho também três artigos de Fernando Venâncio sobre o assunto (convém dizer que as aulas que o autor deu na FCSH, este ano, permitiram-me aprender muito sobre as origens da língua):

17
Jan14

¶ Ver nevar no meu país é que está quieto...

Marco

Bolas, tenho vários posts começados e várias ideias que quero trazer para aqui, mas os dias são todos diferentes, e os assuntos aparecem e passam para a frente da fila, deixando os outros posts em estado de rascunho e a murmurarem "isto só neste país!", enquanto o post novinho em folha faz de conta que não é nada com ele e chega-se à frente para ser publicado.

 

Pois, o certo é que hoje não posso deixar de falar de neve. Não porque tenha visto neve a cair, porque não vi (aliás, como vou explicar, nunca vi tal coisa em Portugal). Hoje foi dia de granizo, que deixou Lisboa com uma cobertura branca que parece fazer mal aos dentes. 

 

A coisa é estranha: chove, e todos resmungam. Cai qualquer coisa que parece neve, e até os jornalistas começam a brincar. (Ainda há pouco, na SIC, um jornalista perguntava a um trabalhador da Câmara se não achava isto giro, e o trabalhador, que tinha de ir limpar este granizo todo, fez aquele ar "este gajo é maluco" e disse: "sim, as pessoas acham giro"... "Pessoas", entenda-se, significa "esses gajos que não têm de limpar esta porcaria toda".)

 

Digamos que o granizo é a neve que temos, e este é o país que temos, e por isso vamos falar de neve que um post sobre granizo é bem menos interessante.

 

 

A minha relação com a neve é curiosa: quando era novo vi neve muitas vezes, mas neve caída, não propriamente neve a cair. Ou seja, fui muitas vezes com os meus pais à Serra da Estrela, essa montanha privativa dos portugueses, fiz muito sku, que ski não era para nós, mas ver a coisa em si a cair não vi. A neve, na minha cabeça, foi ficando coisa de filmes, de outros países, de fantasia — cai neve em Nova Iorque, talvez Londres, nos Natais dos filmes, com lareiras, um manto branco lá fora, e nós aqui a contar histórias, a ler um livro, abraçados debaixo das cobertas. Algo assim. Neve em Portugal, só a neve que alguém põe lá na Serra da Estrela.


Ora, quando tinha aí uns dez anos, fiz uma coisa rara: fui passear sem os meus pais — só para poder ver nevar. A minha avó paterna ia à Serra da Estrela (já não me lembro porquê), os meus pais tinham de ir passar o fim-de-semana a Leiria (também já não me lembro porquê) e como se avizinhavam dias de neve (segundo os senhores do tempo), pedi a todos (pais e avós) para ir à Serra, que Leiria já eu conhecia e bem — e lá nunca neva.

Lá fomos. Ficámos numa hospedaria de freiras, na Covilhã, se bem me lembro — e não me lembro de mais nada. A Covilhã é muito bonita, mas fui lá tantas vezes que não sei se alguma das memórias é dessa viagem específica.

Do que me lembro bem foi do que não aconteceu. E o que não aconteceu foi nevar...

Minto. Também me lembro muito bem dum telefonema dos meus pais.

— Então, filho, estás a gostar?
— Muito...
— Já viste nevar?
— Não.
— Ó... É pena. Olha, aqui em Leiria está a nevar.

Se eu dissesse asneiras aos dez anos ao pé dos meus avós, teria dito coisas muito feias. 

Pois passaram anos e continei sem ver nevar.

Curiosamente, casei-me com uma rapariga que também nunca tinha visto neve a cair. Ora, levei a coisa para o romântico: nunca tínhamos visto nevar porque estava escrito nas estrelas que teríamos de ver nevar, pela primeira vez, os dois, juntinhos. Afinal, se até trabalhamos juntos, passamos férias juntos, vamos para o trabalho juntos, vamos para a Serra da Estrela juntos, etc., nem era preciso estar escrito nas estrelas: a estatística estava a nosso favor. 

Mas as estrelas (e a estatística) são lixadas.

Tivemos um quase-quase quando um dia neva em Lisboa, aí há uns 7 anos (não me lembro bem e não tenho tempo para investigar agora). Pois as televisões diziam "está a nevar em toda a cidade" e só me apetecia telefonar e dizer "ó meus amigos, vejam lá bem o que dizem, porque em toda a cidade não está certamente, que estou a olhar pela janela, e neve é coisa que não está a cair, ok?" (Para ser rigoroso, o sítio onde moro não fazia (ainda) parte do concelho de Lisboa. Mas nunca pensei que a neve ligasse a esses preciosismos das divisões administrativas de Lisboa.)

Portanto, a coisa estava difícil. Tinha, no entanto, uma consolação: iria ver nevar junto da mulher da minha vida.

Eis se não quando tenho de ir com o meu irmão a Inglaterra. Isto em Outubro. Não sei se conhecem bem a meteorologia britânica para lá dos lugares comuns, mas não é habitual nevar em Outubro.

 

Excepto quando eu vou lá.

Fomos a Cambridge, fizemos o que tínhamos a fazer (há-de ser o tema dum próximo post) e estávamos a caminho de Londres, de comboio, à noite, quando começa a nevar. 

Nos únicos dois dias da minha vida (dos últimos 10 anos) em que não estava com a minha mulher, depois de 28 anos sem ver nevar — vejo, por fim, caírem flocos de neve nas minhas mãos.

Saímos do comboio e fiquei que nem uma criança, num qualquer apeadeiro inglês, à noite, perante o olhar intrigado dos ingleses.

Telefonei à minha mulher, que ficou um pouco triste. Mas pronto, a vida é assim, há coisas (bem) piores.

 

 

Algum tempo depois, já com o meu irmão a viver em Inglaterra, fui visitá-lo. Aí, sim, a minha mulher viu nevar pela primeira vez. Sorri complacente, do alto da minha sabedoria de pessoa que já tinha visto nevar.

Nessa viagem acabei por ter de fazer algo que nunca pensei possível: conduzir a nevar ao contrário. Aliás, conduzir ao contrário, a nevar (maldita sintaxe!). Quem diria… Conduzir em Inglaterra é uma experiência e tanto, então com neve, não vos digo nem vos conto. Ou melhor: vou dizer-vos e vou contar-vos, mas não será hoje.

Anos passaram. Continuei sem ver nevar… em Portugal. E bastava passar a fronteira... Por volta de 2009, quando estava a passar umas semanas no Porto, por motivos profissionais, decidimos ir dar uma volta pela Galiza para descomprimir. Pois, estávamos nós na auto-estrada galega quando cai uma tal borrasca de neve e vento que os carros tiveram de parar todos. Voltámos a Portugal e o sol à nossa espera, que ver nevar no meu país é que não pode ser.


Portanto, ainda hei-de ver nevar pela primeira vez de mãos dadas com a minha mulher. Só tenho de especificar "em Portugal". É um romantismo mais patriótico. Enfim, o que tem de ser tem muita força, mesmo que bata leve levemente.

 


 

Fontes:

Foto 1: http://astropt.org/blog/2012/02/14/neve-em-lisboa-vagas-de-frio-o-que-aconteceu-ao-aquecimento-global/

Foto 2: http://www.wallpaperup.com/122085/5_centimeters_per_second_the_train_station_snow_japan.html#maximize

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