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Livros & Outras Manias

Livros & Outras Manias

17
Jan17

O tesouro que escondemos dos espanhóis

Marco

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Caiu-me no colo uma história que está mesmo a pedir para ser transformada numa daquelas séries exageradas e tremendas, com tesouros, espadachins e gente escondida numa esquina. É uma autêntica tentação e calhou-me na rifa logo a mim, que sempre quis escrever um folhetim — não um romance, uma novela ou um conto, mas precisamente um folhetim, com mortos, pancada, segredos e amores delirantes. Nunca tive tempo ou desculpa — ou assunto, para dizer a verdade. Até hoje.

 

Pois é: não consigo resistir em transformar num folhetim aquilo que a Sara me contou este fim-de-semana. Um telefonema fora de horas mudou-lhe a vida toda e acabou à procura duma arca numa ilha perdida na fronteira entre Portugal e Espanha.

 

[Continua aqui]

19
Mar14

Ai, Barcelona

Marco

Já vos comecei a contar antes a minha estranha relação com a Catalunha e com Barcelona.

 

Ora, há uns dois anos fui a Barcelona participar num congresso da minha área e decidi armar-me em turista à séria: a minha mulher e eu pegámos em nós e toca de comprar um bilhete daqueles autocarros turísticos. 

 

Pode parecer coisa parva, mas deu para conhecer partes da cidade onde nunca tinha ido. E acabou de forma surreal: o motorista foi-se embora e deixou-nos a todos, baralhados, à espera, até que decidimos, nós e os restantes estrangeiros, ir embora também. O que vale é que faltavam uns metros para acabar a volta.

 

Para dar um ar mais literário à coisa, comprei este livrinho em La Pedrera e passei muito do tempo a lê-lo. 

 

 

Estas misturas (um português a ler um livro dum irlandês sobre uma cidade catalã) são mais do que deliciosas: são a alma das grandes cidades, como Barcelona, uma cidade que parece estar a gozar connosco, enquanto nos diverte.

 

 

19
Fev14

¶ De Espanha, bons ventos e bons livros

Marco

Os portugueses lêem poucos livros espanhóis. Pronto, dizem-me já os pessimistas do costume: os portugueses não lêem, ponto final. Refaço a frase: os portugueses que lêem lêem poucos livros espanhóis. Ficou uma frase abstrusa, mas pelo menos mais verdadeira.

 

Ficam já a saber que nisto de os portugueses lerem poucos livros espanhóis, quem fica a perder são os portugueses...

 

Querem um exemplo? O livro Anatomía de un instante, de Javier Cercas (em português: Anatomia de um Instante, editado pela Dom Quixote).

 

O livro, como explica o autor, apareceu-lhe como única opção depois de investigar os eventos de 23 de Fevereiro de 1981 com o objectivo de escrever um romance. Essa foi a data do último golpe de Estado da Europa Ocidental, felizmente abortado. O autor investigou os eventos e chegou a esta conclusão: só um livro de história poderia fazer juz a uma história que é ela própria um romance.

 

A narrativa centra-se no instante em que Tejero entra pelo Congresso dos Deputados de arma na mão e os deputados, compreensivelmente, baixam-se todos. Todos, excepto dois: Adolfo Suárez e Santiago Castillo, sentados nos extremos opostos do hemiciclo, o primeiro o representante final do franquismo, e o segundo o líder do Partido Comunista Espanhol. Vejam bem a capa da edição espanhola, abaixo. Aí têm Suárez impávido, perante um golpe de Estado. Isto tudo gravado pelas câmaras da TVE!

 

A partir dessa coragem exemplar dos dois políticos de extremos opostos, segue-se uma viagem apaixonante pela vida dos dois homens e pela vida de Espanha das décadas que antecederam a Transição e de tudo o que aconteceu nesse período apaixonante. 

 

Vemos como ambos tiveram de abdicar de muito do que eram para conseguir esse prodígio: uma Espanha que se tornou uma democracia desenvolvida sem sobressaltos de maior, poucas décadas depois duma Guerra Civil que pôs os avós desta geração de políticos uns contra os outros — até à morte. Já estes abdicaram das ideias franquistas, no caso de Suárez, e abdicaram da nostalgia pela República perdedora da Guerra Civil, no caso de Carrillo.

 

As cedências são mútuas, o resultado inesperado. Suárez legaliza o Partido Comunista. Carrillo aceita a bandeira franquista como bandeira nacional. E estes são apenas dois exemplos. O resultado? Os partidos de ambos tornam-se irrelevantes em poucos anos — mas Espanha ficou, sem dúvida, a ganhar. Se querem lições de como pôr o país à frente do partido, aqui têm uma bem concreta.

 

O livro é daqueles que não se consegue deixar de lado. E ninguém sai indiferente ao que lê aqui — muito menos os portugueses, que têm em Espanha uma caixinha de surpresas que poucos acabam por descobrir, iludidos que estão pela imagem simplista do são os nossos vizinhos.

 

Reparem em Adolfo Suárez sentado (Carrillo, nesta foto, não se vê) e nas costas dos outros deputados, agachados nas bancadas:

 

 

17
Fev14

¶ Um livro em catalão e uma lata de chupa-chupas

Marco

Ora, enquanto a série de posts sobre a viagem a Andorra continua parada, vou-vos contar como encontrei um amigo que nunca vira, no meio de Barcelona, através dum balde de Chupa-Chups.

 

Por causa da maluqueira pela Catalunha que apanhei nessa viagem em 1993, acabei por conhecer um pouco mais a fundo a cultura catalã e aproveitei a moda dos IRCs e outras formas de conversa internética para falar com catalães — acabei por ficar amigo de alguns, incluindo o Ricard, um barcelonês que achava muito estranho o interesse dum adolescente pela sua cultura, e ainda uma polaca, a Joanna (não imaginem histórias mais interessantes do que geeks a falar de cultura catalã — era só isso, lamento).

 

Pois bem, em 2001, alguns anos depois de todas estas conversas, fui a Barcelona com os meus pais (uma história que merecerá só por si outros posts) e combinei com o Ricard para, finalmente, nos encontrarmos.

 

Como combinámos? Ora bem, ele iria estar à porta dum dos vários El Corte Inglés com um balde enorme de Chupa Chups. Exacto, um balde de chupa-chupas! Se não sabem, ficam a saber que a empresa foi fundada por um catalão, o logo foi desenhado pelo Dalí (um catalão) e o seu primeiro slogan foi uma frase muito catalã: És rodó i dura molt, Chupa Chups (vejam aqui o artigo wikipédico sobre a marca, na versão catalã).

 

Porquê esta forma estranha de nos encontrarmos? Porque ele trabalhava na empresa e podia, assim, oferecer-nos chupa-chupas para dar e vender. A minha irmã, que tinha 8 anos na altura, adorou a ideia e ainda hoje fala desse meu amigo que lhe ofereceu tantos chupas que duraram meses, dentro dum balde de metal que não sei por onde anda, mas era linda (os catalães não fazem mesmo por menos e até um balde de chupas é digno de admiração).

 

Lá nos encontrámos todos. Os meus pais ficaram maravilhados com o facto de as pessoas por trás das conversas na Internet serem reais (estávamos em 2001 e os meus pais não tinham email — hoje têm tudo, até conta de Facebook, claro). Conversámos um pouco, numa estranha cena em que portugueses e um catalão comunicam numa mistura estranha de línguas.

 

Depois, sentámo-nos num café e estivemos a conversar um pouco ao vivo, depois de anos de conversa online. Tentei usar o meu melhor catalão, e não correu muito mal. Hoje, julgo que não conseguiria, a não ser que tivesse bebido alguma coisa antes (há muitos anos, os meus amigos perceberam que, quando bebo um ou dois copos, começo a falar línguas estrangeiras muito melhor — mas essa história fica para depois).

 

Antes de nos despedirmos, o Ricard decidiu oferecer-me um livro. O livro que escolheu, na livraria do El Corte Inglés, foi este:

 

 

Tive direito a dedicatória e tudo:

 

 

Entretanto, o Ricard foi viver para a China, para Xangai (esteve anos a aprender chinês, o que é mais inteligente da parte dele do que, para um português, aprender catalão...). 

 

*

 

Já agora, não sei se conhecem o poeta. É um dos grandes poetas catalães (e, por curiosidade, avô de Pasqual Maragall, presidente de Barcelona durante os Jogos Olímpicos de 1992 e presidente do governo catalão anos mais tarde entre 2003 e 2006). 

 

O poema mais conhecido do poeta é este: 

 

Oda a Espanya (1898)

 

Escolta, Espanya, — la veu d’un fill
que et parla en llengua — no castellana:
parlo en la llengua — que m’ha donat
la terra aspra;
en ‘questa llengua — pocs t’han parlat;
en l’altra, massa.

 

T’han parlat massa — dels saguntins
i dels qui per la pàtria moren;
les teves glòries — i els teus records,
records i glòries — només de morts:
has viscut trista.

 

Jo vull parlar-te — molt altrament.
Per què vessar la sang inútil?
Dins de les venes — vida és la sang,
vida pels d’ara — i pels que vindran;
vessada, és morta.

 

Massa pensaves — en ton honor
i massa poc en el teu viure:
tràgica duies — a mort els fills,
te satisfeies — d’honres mortals
i eren tes festes — els funerals,
oh trista Espanya!

 

Jo he vist els barcos — marxar replens
dels fills que duies — a que morissin:
somrients marxaven — cap a l’atzar;
i tu cantaves — vora del mar
com una folla.

 

On són els barcos? — On són els fills?
Pregunta-ho al Ponent i a l’ona brava:
tot ho perderes, — no tens ningú.
Espanya, Espanya, — retorna en tu,
arrenca el plor de mare!

 

Salva’t, oh!, salva’t — de tant de mal;
que el plor et torni feconda, alegre i viva;
pensa en la vida que tens entorn:
aixeca el front,
somriu als set colors que hi ha en els núvols.

 

On ets, Espanya? — No et veig enlloc.
No sents la meva veu atronadora?
No entens aquesta llengua — que et parla entre perills?
Has desaprès d’entendre an els teus fills?
Adéu, Espanya!

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