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Livros & Outras Manias

Livros & Outras Manias

23
Abr14

Ah, pois é! Hoje é o Dia do Livro

Marco Neves

Este blog não podia deixar passar em branco este dia. 

 

É o dia do Livro. Porquê? Por várias razões, uma delas a seguinte: comemora-se hoje o dia em que morreram Shakespeare, Cervantes e Josep Pla (se não sabem que é este último, shame on you e toca de ir investigar).

 

Como o mesmo tem origem na minha Catalunha (quem me conhece sabe do que estou a falar), ofereço-vos uma rosa e um livro, que é assim que os catalães celebram este que é um dos mais importantes dias dessa região/nação (riscar o que não interessa):

 

19
Mar14

Ai, Barcelona

Marco Neves

Já vos comecei a contar antes a minha estranha relação com a Catalunha e com Barcelona.

 

Ora, há uns dois anos fui a Barcelona participar num congresso da minha área e decidi armar-me em turista à séria: a minha mulher e eu pegámos em nós e toca de comprar um bilhete daqueles autocarros turísticos. 

 

Pode parecer coisa parva, mas deu para conhecer partes da cidade onde nunca tinha ido. E acabou de forma surreal: o motorista foi-se embora e deixou-nos a todos, baralhados, à espera, até que decidimos, nós e os restantes estrangeiros, ir embora também. O que vale é que faltavam uns metros para acabar a volta.

 

Para dar um ar mais literário à coisa, comprei este livrinho em La Pedrera e passei muito do tempo a lê-lo. 

 

 

Estas misturas (um português a ler um livro dum irlandês sobre uma cidade catalã) são mais do que deliciosas: são a alma das grandes cidades, como Barcelona, uma cidade que parece estar a gozar connosco, enquanto nos diverte.

 

 

17
Fev14

¶ Um livro em catalão e uma lata de chupa-chupas

Marco Neves

Ora, enquanto a série de posts sobre a viagem a Andorra continua parada, vou-vos contar como encontrei um amigo que nunca vira, no meio de Barcelona, através dum balde de Chupa-Chups.

 

Por causa da maluqueira pela Catalunha que apanhei nessa viagem em 1993, acabei por conhecer um pouco mais a fundo a cultura catalã e aproveitei a moda dos IRCs e outras formas de conversa internética para falar com catalães — acabei por ficar amigo de alguns, incluindo o Ricard, um barcelonês que achava muito estranho o interesse dum adolescente pela sua cultura, e ainda uma polaca, a Joanna (não imaginem histórias mais interessantes do que geeks a falar de cultura catalã — era só isso, lamento).

 

Pois bem, em 2001, alguns anos depois de todas estas conversas, fui a Barcelona com os meus pais (uma história que merecerá só por si outros posts) e combinei com o Ricard para, finalmente, nos encontrarmos.

 

Como combinámos? Ora bem, ele iria estar à porta dum dos vários El Corte Inglés com um balde enorme de Chupa Chups. Exacto, um balde de chupa-chupas! Se não sabem, ficam a saber que a empresa foi fundada por um catalão, o logo foi desenhado pelo Dalí (um catalão) e o seu primeiro slogan foi uma frase muito catalã: És rodó i dura molt, Chupa Chups (vejam aqui o artigo wikipédico sobre a marca, na versão catalã).

 

Porquê esta forma estranha de nos encontrarmos? Porque ele trabalhava na empresa e podia, assim, oferecer-nos chupa-chupas para dar e vender. A minha irmã, que tinha 8 anos na altura, adorou a ideia e ainda hoje fala desse meu amigo que lhe ofereceu tantos chupas que duraram meses, dentro dum balde de metal que não sei por onde anda, mas era linda (os catalães não fazem mesmo por menos e até um balde de chupas é digno de admiração).

 

Lá nos encontrámos todos. Os meus pais ficaram maravilhados com o facto de as pessoas por trás das conversas na Internet serem reais (estávamos em 2001 e os meus pais não tinham email — hoje têm tudo, até conta de Facebook, claro). Conversámos um pouco, numa estranha cena em que portugueses e um catalão comunicam numa mistura estranha de línguas.

 

Depois, sentámo-nos num café e estivemos a conversar um pouco ao vivo, depois de anos de conversa online. Tentei usar o meu melhor catalão, e não correu muito mal. Hoje, julgo que não conseguiria, a não ser que tivesse bebido alguma coisa antes (há muitos anos, os meus amigos perceberam que, quando bebo um ou dois copos, começo a falar línguas estrangeiras muito melhor — mas essa história fica para depois).

 

Antes de nos despedirmos, o Ricard decidiu oferecer-me um livro. O livro que escolheu, na livraria do El Corte Inglés, foi este:

 

 

Tive direito a dedicatória e tudo:

 

 

Entretanto, o Ricard foi viver para a China, para Xangai (esteve anos a aprender chinês, o que é mais inteligente da parte dele do que, para um português, aprender catalão...). 

 

*

 

Já agora, não sei se conhecem o poeta. É um dos grandes poetas catalães (e, por curiosidade, avô de Pasqual Maragall, presidente de Barcelona durante os Jogos Olímpicos de 1992 e presidente do governo catalão anos mais tarde entre 2003 e 2006). 

 

O poema mais conhecido do poeta é este: 

 

Oda a Espanya (1898)

 

Escolta, Espanya, — la veu d’un fill
que et parla en llengua — no castellana:
parlo en la llengua — que m’ha donat
la terra aspra;
en ‘questa llengua — pocs t’han parlat;
en l’altra, massa.

 

T’han parlat massa — dels saguntins
i dels qui per la pàtria moren;
les teves glòries — i els teus records,
records i glòries — només de morts:
has viscut trista.

 

Jo vull parlar-te — molt altrament.
Per què vessar la sang inútil?
Dins de les venes — vida és la sang,
vida pels d’ara — i pels que vindran;
vessada, és morta.

 

Massa pensaves — en ton honor
i massa poc en el teu viure:
tràgica duies — a mort els fills,
te satisfeies — d’honres mortals
i eren tes festes — els funerals,
oh trista Espanya!

 

Jo he vist els barcos — marxar replens
dels fills que duies — a que morissin:
somrients marxaven — cap a l’atzar;
i tu cantaves — vora del mar
com una folla.

 

On són els barcos? — On són els fills?
Pregunta-ho al Ponent i a l’ona brava:
tot ho perderes, — no tens ningú.
Espanya, Espanya, — retorna en tu,
arrenca el plor de mare!

 

Salva’t, oh!, salva’t — de tant de mal;
que el plor et torni feconda, alegre i viva;
pensa en la vida que tens entorn:
aixeca el front,
somriu als set colors que hi ha en els núvols.

 

On ets, Espanya? — No et veig enlloc.
No sents la meva veu atronadora?
No entens aquesta llengua — que et parla entre perills?
Has desaprès d’entendre an els teus fills?
Adéu, Espanya!

10
Fev14

¶ Strip tease literário, parte 2

Marco Neves

Ora, tenho aqui uns quantos posts em gestação, sobre Mário de Carvalho, sobre uma viagem a Andorra, sobre a minha paixão absurda pela Catalunha, sobre um livro que me ofereceram em Barcelona, sobre mais livros da minha vida e ainda sobre outras coisas, mas enquanto não sai nada, continuo a sessão de strip tease literário, com uma segunda foto muito íntima, de mais um pedaço das minhas estantes.

 

 

Como vêem, a coisa é um pouco caótica. Não é que não tenha tentado organizar tudo por autores, ou línguas, ou temas — mas pouco tempo depois, já há muita coisa fora do sítio, livros que vão em fuga para outros lugares, novos livros que chegam e vão para as estantes vazias, mudanças de casa em que a organização se mantém nalgumas zonas, mas perde-se noutras — enfim, as estantes são uma espécie de sedimentos geológicos de tentativas de organização passadas, e lá vou vendo também, nessa forma orgânica de desorganizar as minhas estantes, o meu percurso de leituras e quase leituras e livros por ler.

 

Nesta segunda foto, o que temos? Temos muita Espanha, pelos vistos... Ali o Cervantes (comprado num El Corte Inglés há muitos muitos anos, em Badajoz, se não estou em erro, para não acharem que é tudo caramelos do outro lado da fronteira), com Vásquez Montalbán a encimar a coisa, com a grande escritora catalã Mercé Rodoreda ali no meio, com o seu espelho partido, ou seja, em catalão, Mirall Trencat.

 

A minha biblioteca rebela-se um pouco e põe ali um Camões de Oliveira Martins só para nacionalizar um pouco a coisa, para além de colocar, na base de tudo, um livro de gestão urbana aqui da urbe.

 

Os outros livros que por aqui estão, hei-de chegar a eles. 

 

Vamos em frente, que há muito para escrever por este blog.

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