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Livros & Outras Manias

Livros & Outras Manias

12
Mai15

O Acordo está aí: estará Camões a dar voltas no caixão?

A Baleia Que Engoliu Um Espanhol

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Ora, parece que o Acordo Ortográfico entra em pleno vigor daqui a poucas horas.

 

Enfim, como em tudo, há quem diga que é mesmo assim e quem diga que nem pensar! Que é tudo uma grande patranha!

 

Por mim, fico a olhar e a pensar: o Acordo foi um grande disparate — mas foi assinado e, acima de tudo, foi implementado, bem ou mal, no sistema de ensino e no Estado.

 

Ora, sendo a ortografia desgraçadamente regulada por lei (não devia!) — a verdade é que a nossa ortografia passa a ser, oficialmente, a do Acordo. Neste momento, não me parece possível voltar atrás.

 

Mas, reparem: estamos a falar do que é oficial. Ou seja, estamos a falar do Estado e das relações com o Estado. 

 

No sector privado, não há obrigatoriedade de usar o Acordo — embora haja um grande incentivo a partir do momento em que o Estado deixa de aceitar a ortografia de 1945.

 

Já na nossa vida pessoal, é como sempre foi: podemos usar a ortografia que quisermos. 

 

O que irá acontecer? 

 

Provavelmente, nós — que aprendemos a ortografia de 1945 — continuaremos a usar as duas ortografias, uns caindo inevitavelmente perante a força da nova ortografia, outros ficando teimosamente a usar a antiga. 

 

Os mais novos irão usar a nova ortografia com tanta naturalidade como nós usamos a antiga — e verão "acção" e "actor" como algo tão diferente como "pharmacia".

 

E não há muito mais a fazer ou a dizer.

 

Talvez possa ainda fazer uma previsão: os nossos filhos, daqui a umas décadas, quando lerem algumas reacções à nova ortografia, ficarão surpreendidos com a violência da linguagem.

 

Afinal, parece que o Acordo põe em causa qualquer coisa como a "alma" da língua — e é uma Barbárie, uma Mentira, um Engodo, uma Perversidade (tudo assim, em maiúscula, claro). Os insultos abundam. Há quem não queira ler nada que esteja escrito com a nova ortografia, com medo de ser infectado. Há quem defenda que a única ortografia que aceita é a de Camões — esquecendo-se que Camões escrevia com uma ortografia muito diferente...

 

Respiro fundo. É complicado olhar para aqueles que defendem algo parecido com aquilo que defendo (o Acordo não serviu e não serve para nada) e ficar tão triste com os argumentos. 

 

Adiante. Lembremo-nos apenas que Fernando Pessoa usou a ortografia anterior a 1911 até aos Anos 30 e não consta que tenha sido preso. Por isso, descontraiam-se e, sempre que puderem, usem a ortografia que preferirem — mas usem-na bem, já agora.

05
Mar14

Uma solução para o Acordo Ortográfico

A Baleia Que Engoliu Um Espanhol

Se ninguém se entende sobre as vantagens e desvantagens do Acordo Ortográfico de 1990 — e não vamos falar de quais são as tais vantagens e as tais desvantagens — todos podemos concordar que não há acordo ou consenso em relação a esta matéria. O que fazer a partir daqui? 

 

Há quem defenda que devemos voltar atrás e recuperar a ortografia de 1945. Outros defendem a manutenção da ortografia de 1990, ou porque concordam com o Acordo ou porque acham que o esforço de voltar atrás já não vale a pena. 

 

Há, no entanto, outra solução: revogar, pura e simplesmente, toda a regulamentação legal relativa à ortografia.

 

Reparem: a lei não define a pronúncia das palavras, não define a sintaxe das frases, não define o vocabulário. Não é necessário que defina a ortografia oficial — aliás, muitas línguas há em que a lei nada diz sobre as características da língua (basta pensar no inglês). 

 

Alguns ficarão com medo: então, e depois? Deixamos de saber escrever?

 

Claro que não! Não aconteceria nada de dramático. A comunidade linguística tem mecanismos para chegar a convenções ortográficas, que iriam evoluindo naturalmente, como acontece com a sintaxe, o vocabulário e a pronúncia.

 

Neste caso, teríamos uma dificuldade não habitual: partiríamos para a "selva ortográfica" (estou a ser irónico...) com duas ortografias que, libertas da discussão jurídica, estariam em luta permanente pela preponderância na sociedade em geral. O Estado também teria de decidir que ortografia usar no sistema de ensino — ou deixaria a decisão para as escolas (como já faz, de facto, no caso das universidades). Não viria daí nenhum drama — rapidamente chegaríamos a conclusões e, mesmo que não chegássemos, cada um usaria a ortografia preferida.

 

Haveria desvantagens? Só para quem tem aquela mentalidade uniformizadora que não admite variações ou não compreende como a linguagem humana funciona, de facto. Para estas pessoas, a língua é sempre imposta de cima para baixo. De resto, não me ocorrem desvantagens de maior.

 

Revogue-se a ortografia de 1990. E a de 1945. E a de 1911. Que a ortografia fique entregue às universidades, às escolas, às academias, às editoras, às empresas — e a quem escreve, em geral.

25
Fev14

Acordos e desacordos sobre o Acordo

A Baleia Que Engoliu Um Espanhol

Meus amigos, não sei se já vos tinha dito, mas não gosto muito do acordo ortográfico. Porquê? Porque foi imposto numa altura em que praticamente toda a população sabe ler e escrever e, por isso, é muito mais "violento" do que a reforma de 1911 (embora imponha muito menos alterações), porque não serve para nada — e porque tem alguns defeitos científicos. Depois, na realidade, defendo que a ortografia não deve ser regulada por lei, à semelhança do que acontece em línguas como o inglês. Deverá ser regulada de forma convencional, como o foi até ao século XIX. Regular a ortografia por lei só serve para nos chatear a cabeça, sem qualquer vantagem.

 

Mas, atenção: o acordo é apenas uma reforma entre muitas que se fizeram no português e nas outras línguas vizinhas. Não é o bicho-papão que muitos querem fazer crer e, acima de tudo, não é uma imposição do Brasil a Portugal (a ortografia brasileira também muda: perde um acento, por exemplo — o trema). Por isso, custa-me que as pessoas que são "do meu campo" (contra o acordo) caiam em exageros, como dizer que o acordo leva a "corte de raciocínio", que "ficámos aleijados", que leva a uma "descida do nosso nível cultural", que vamos ficar "deficientes linguísticos" (tudo incluído no artigo do Público de Maria Alzira Seixo). Tudo isto é um exagero, porque não ficamos mancos de raciocínio (profissionalmente, tenho de escrever de acordo com o AO e não sinto qualquer dificuldade acrescida de raciocínio), não ficamos deficientes linguísticos, não descemos o nosso nível cultural ao escrever de acordo com o Acordo. Simplesmente, mudamos de ortografia sem razão e sem grande sentido, o que não é coisa pouca.

 

Não gosto do Acordo Ortográfico, mas também não acho que tudo valha na corrida retórica para dizer mal do dito.

 

Adenda: Não sei se sabem, mas a ortografia imposta por lei nunca impõe nada em relação a blogs e quejandos. Na nossa vida privada, podemos escrever como quisermos. Até podemos escrever com erros, vejam lá! Ou na orthographia mais antiga...

22
Jan14

¶ Isto não é sobre o acordo ortográfico

A Baleia Que Engoliu Um Espanhol

Há uns tempos largos, noutro poiso internético, em que se falava de português e outras coisas desusadas dessas, atrevi-me a deixar algumas notas para ajudar a corrigir alguns erros ortográficos comuns (também caio nessas tentações). Uma dessas notas era a seguinte: os dias da semana escrevem-se com minúscula. Assim: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sábado, domingo. Só no caso de dias específicos, como o Domingo de Páscoa ou a Sexta-feira Santa, usamos maiúsculas.

 

Isto é coisa fácil, de prontuário, e nem é um erro grave por aí além.

 

O giro foi a reacção de um comentador, que começou aos gritos (ou seja, COMEÇOU A ESCREVER ASSIM) a dizer que não aceitava o novo acordo ortográfico, que era contra, que era isto e aquilo — continuando com um arrazoado sem fim.

 

Expliquei calmamente que a regra exposta não tem nada a ver com acordo ortográfico, pois os dias da semana já se escreviam em minúsculas antes do dito acordo.

 

Nada feito. A partir do momento em que se falou do assunto, a questão das minúsculas passou a ser secundária. Começou a corrida a ver quem chega primeiro ao insulto mais extremado ou ao argumento mais radical contra a tal coisa cujo nome nem vou repetir. 

 

Como o título indica (e não gosto de enganar), este post não é sobre o acordo ortográfico. É sobre esta surdez estranha de que algumas pessoas sofrem: no meio de qualquer discussão, não ouvimos os outros, não tentamos perceber os outros, tentamos apenas martelar a nossa opinião, da forma mais radical possível, usando de toda a retórica possível e de muito pouca racionalidade, que é palavra feia para muitos dos acesos comentadores da nossa internet lusitana.

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