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Livros & Outras Manias

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13
Jun16

Sim, vamos continuar a dançar. Habituem-se.

Marco Neves

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A violência é horrível: ouvir as histórias de quem recebeu chamadas do filho de dentro da discoteca de Orlando — antes mesmo de morrer… Ouvir as histórias de quem entrou na discoteca cheia de mortos e ouviu os telemóveis a tocar, em desespero, à espera que aquela pessoa particular atendesse — enquanto esse seu filho ou amigo estava ali morto, no meio da pista…

 

Tudo por causa do ódio a pessoas que beijam quem não devem.

 

Reparem no tipo de vítimas destes energúmenos:

  • Meninas que vão à escola para aprender (Nigéria).
  • Humoristas a fazer piadas que irritam gente séria (Paris).
  • Gente a trabalhar para o bronze na praia (Tunísia).
  • Pessoal a ouvir um concerto ou a rir numa esplanada do café (Paris).
  • Famílias na fila do check-in para ir de férias (Bruxelas).
  • Gays a divertirem-se numa discoteca (Orlando).

 

Estão a ver o padrão? Gente que aprende, que ri, que ouve música, que vai de férias, que ama — e tenta ser um pouco feliz no dia-a-dia. Nós todos, no fundo.

 

Esses tarados miseráveis invejam a felicidade alheia, odeiam a liberdade e não podem com o prazer dos outros. E acham-nos a todos uns depravados, que pomos meninas na escola, dançamos na discoteca, aceitamos que cada um ame quem quiser, despimo-nos na praia, ouvimos música em Paris…

 

Isto é um ataque a todos nós. Todos nós, que amamos a liberdade simples de fazer o que entendemos sem prejudicar os outros, todos nós somos inimigos, infiéis, depravados.

 

Por isso, sim, também precisamos de mostrar que gostamos de viver numa sociedade onde todos vivem como bem entendem e com quem entendem. Não é tão fácil como parece, mas lá vamos conseguindo. Temos de mostrar que é possível viver assim, em sociedades abertas — e isto é possível no mundo inteiro, não é exclusivo nosso. Isso é o que irrita mais os fanáticos: perceber que é possível viver assim, sem medo das suas ideias tremendas. Custa-lhes perceber que em todo o mundo há esta vontade de ser simplesmente livre e não andar a toque dos tarados.

 

E temos de ficar um pouco felizes e comovidos que, mesmo assim, ainda haja tanta gente que se une quando alguém é atacado só porque está a viver a sua vida — hoje somos todos como eles. Sim, somos todos Charlie, estamos todos no Bataclan, somos todos gays de Orlando e somos todos meninas da Nigéria — todos vítimas desses cabrões de brilhantes ideias.

 

O que vale é que somos muitos e ninguém vai parar de dançar, de rir, de ir ao café, de se despir na praia, de ouvir música alta e amar sempre que quisermos, com quem quisermos, como quisermos — só porque isso irrita um qualquer beato incapaz de lidar com o facto de ter visto dois homens aos beijos.

 

Habituem-se, que o mundo nunca será como vocês querem.

 

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