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Livros & Outras Manias

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27
Fev15

Quem tem medo das aventuras de Os Cinco?

Marco

five on a treasure island.jpg

 

Gosto desta maneira de discutir da Gaffe. Sem arremedos de indignação por haver quem não pensa da mesma maneira.

 

Por isso, neste caso, é um prazer discordar.

 

Ao contrário da Gaffe, eu acho que a síndroma de Blyton é algo bom.

 

Se bem percebi, o argumento contra a síndrome de Blyton implica que o gosto pela aventura do género tipificado por Enid Blyton pode fechar o gosto dos leitores para outros prazeres mais subtis e difíceis de aprender, como o prazer da linguagem bem trabalhada.

 

No fundo, este argumento implica que leitores formatados pelas história à la Blyton terão tendência para ter dificuldade em apreciar António Lobo Antunes, um bom exemplo dum autor que não quer saber das histórias para nada — e terão dificuldade porque estarão à procura da excitação das aventuras, da história, do enredo e não encontram lá nada disso: ora, o que lá encontram (mas não conseguem gostar por causa da maldita síndrome) será o que é mais importante na literatura.

 

Espero ter resumido o argumento de forma conveniente.

 

Ora, o que se passa é o seguinte: a literatura faz-se de várias coisas: das expectativas dos leitores, das vontades dos autors, de muito acaso, de linguagem (claro), de aventuras (também) — e da mistura entre tudo isto. Há escritores que apostam tudo na linguagem, outros no enredo — mas a grande maioria mistura o que se conta com a forma como se conta. Aliás, mesmo o António Lobo Antunes não pode deitar fora as personagens e fiapos de histórias com que tece os seus romances: a tentativa desesperada do leitor em encontrar um enredo no meio da agradável bruma daquelas palavras terá muito a ver com o prazer estético que o leitor sente.

 

Portanto, se a linguagem é essencial, a aventura é parte importante da literatura.

 

Este medo da aventura na literatura, como se a aventura fosse má, pode revelar uma recusa do que há de brincadeira e jogo na literatura. Recusar esse jogo e essa aventura é o mais curto caminho para afastar muitas pessoas da literatura, que fica assim como algo que só pode ser sério e assustador.

 

Na literatura, gosto de muita coisa (não de tudo): Enid Blyton e Alice Vieira e Proust e Lobo Antunes e David Lodge e Anthony Burgess e Ian McEwan e Javier Marías (ou qualquer combinação destes e de outros, porque há gostos para muita coisa...) Quer isto dizer que é tudo igual? Não: o gosto refina-se, muda, as idades são muitas, os leitores são ainda mais...

 

Haverá risco de termos leitores presos num mundo que se limita ao que de aventura tem a literatura? Talvez, mas antes haver pessoas a ler livros menos bons do que recusar a aventura que a literatura (também) é.

 

Não se esqueçam das Minas de Salomão, de Júlio Verne, de Alexandre Dumas, das Ilha do Tesouro... Tudo excitações, certamente, mas excitações que são parte do encanto dos livros. A literatura é muita coisa, reflexão, pensamento, prazer com a forma como as palavras se encadeiam umas nas outras e nos despertam a imaginação sem que saibamos bem como — mas é também aventura e esse prazer pela descoberta e essa vontade de saber o que acontece a seguir é parte essencial do amor pelos livros.

 

Cada um de nós verá coisas ligeiramente diferentes na literatura e valoriza elementos diferentes. Muitos acharão aquela literatura infantil demasiado limitada. Mas estou convencido que a "síndroma de Blyton" é uma boa doença de muitos óptimos leitores. E ainda bem.

 

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