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Às vezes (não devia, mas pronto) vou pequeno-almoçar perto do escritório, em vez do saudável pequeno-almoço matinal em casa, antes de sair. Mas não interessa. O problema é quando, por vezes, saio de casa com um livro e levo-o para o tal pequeno-almoço. Estou com a minha mulher à frente, mas todos sabem que um casamento saudável implica alguns momentos de silêncio comum, um folhear de revista ali, uma leitura acolá, um olhar para o telemóvel aqui, sob o olhar muito crítico de senhoras com um balão de pensamento por cima da cabeça onde vemos escrito "ai, estes jovens, sempre a olhar para o telemóvel". Portanto, estou com a minha mulher à frente, mas começo a folhear um livro (isto passou-se ontem).

 

Neste caso, o livro é o que vai abaixo, não nesta edição, mas sim noutra, de papelaria, que li há muitos anos. 

 

Começo a ler vagamente, e de repente, é como se tivesse caído num precipício. Endireito-me na cadeira, atento mais na página, começo a ler com atenção.

 

O raio do livro é mesmo muito bom. De repente, estou a sorrir perante as invectivas contra a "cidade branca" que um distraído cineasta julgou ver em Lisboa, estou a sorrir ainda mais com o tigre inexistência da Mauritânia, estou deliciado a percorrer as apertadas ruas resvés o caminho-de-ferro de Entrecampos, a olhar para um edifício duma fundação habituada a engenharias fiscais, com uma sede pós-modernista que muito deu que falar na Lisboa da altura, tudo salpicado com muita ironia e apartes que não me deixavam largar o livro.

 

Deixo o pequeno-almoço para trás. A minha mulher termina e olha para mim. Eu continuo a ler. Ela levanta-se e paga. Eu continuo a ler. Ela olha para mim com cara de preocupação.

 

Lá tenho de cortar com o vício e levantar-me. Há que trabalhar. E custa tanto, com o livro ali ao lado, a chamar por mim.

 

Por isso, amigos, vão por mim: não levem livros para o trabalho. A bem da produtividade nacional! 

 

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publicado às 09:30


4 comentários

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De Nathy ღ a 07.03.2014 às 09:43

Não levo o livro para o pequeno-almoço mas levo para o almoço. Dou por mim a deixar o almoço de lado e limito-me a ler. Em suma o almoço fica frio e depois tenho que almoçar à pressa.
O pessoal do café deve pensar que sou maluquinha :D

P.S. Gostei do blog :D
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De Marco Neves a 07.03.2014 às 11:09

Muito obrigado :)
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De rmg a 08.03.2014 às 00:41


Participei durante anos numa "espécie de blog" dedicado a livros e leituras .

Saí dele por causa deste livro só porque disse (e mantenho) que eu gostaria de o ter escrito , já o li três vezes nos últimos 15 anos e todas parecem a primeira .
Mas a pessoa que coordenava o blog na altura comentou qualquer coisa sobre a qualidade dos meus neurónios e eu , que até era o maior colaborador do blog , bati com a porta estrondosamente (se fôsse de mansinho não era bater ) .

Este post trouxe-me à memória esse episódio grotesco mas ao mesmo tempo estúpido , lidar com os preconceitos dos pseudo-intelectuais e as suas "capelinhas" é sempre complicado .

A "espécie de blog" acabou por morrer por falta de alimento ...
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De Marco Neves a 08.03.2014 às 14:46

Sim, muito complicado...

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