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Livros & Outras Manias

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27
Abr16

O italiano não vem do latim, sabiam?

Marco

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Limitei-me a dizer isto: no Brasil, o nome correcto do planeta que vem logo a seguir a Urano é «Netuno». Sim, em Portugal é «Neptuno», mas no Brasil é «Netuno». A palavra «Netuno» é usada por professores universitários, por linguistas, por astrónomos, por todos os brasileiros; está nos dicionários, é ensinada pelos professores de português e de ciências. Não está errada. Não há qualquer argumento cientificamente válido que leve a considerar que, no Brasil, «Netuno» é um erro. Vou ser explícito: em Portugal, seria um grande erro escrever «Netuno». No Brasil, é a forma correcta.

 

Sim, o português de Portugal e o português do Brasil são diferentes. Mas alguém tinha dúvidas?

 

Desta minha afirmação, surgiu o mais surreal diálogo que alguma vez teve lugar no blogue. Por favor, leiam o diálogo todo, para perceberem os argumentos dos dois lados.

 

Nesse diálogo, alguém me tentou convencer do seguinte (preparem-se):

  • «Netuno» é um erro, fruto da ignorância dos brasileiros.
  • As palavras, em Portugal, ao longo dos séculos, mudam «cientificamente». No Brasil, mudam porque os brasileiros são ignorantes.
  • «Netuno» não quer dizer nada e é uma palavra desenraizada porque, como o português vem do latim, temos mesmo de usar o «p», sob pena de a palavra perder o sentido. Se os romanos usavam «p», a palavra tem de ter um «p» para toda a eternidade.
  • Sim, «luna» também perdeu uma letra ao longo da evolução da língua, ficando «lua», mas essa perda é científica, porque portuguesa. As perdas de letras brasileiras são só burrice.
  • Sim, os italianos dizem «Nettuno» sem «p», mas isso é porque o italiano não vem do latim. (Sim, depois deste argumento, caí no erro de continuar a conversa. Mas é essa a minha forma de respeitar o outro lado, mesmo quando está profundamente errado.)
  • «Fato» vem do gótico e por isso é erro. Que os brasileiros usem essa palavra em vez de «facto» só mostra que os brasileiros são burros.
  • Se os brasileiros usam «Netuno», se calhar estão a italianizar a sua língua. Grande erro, claro está.
  • Os brasileiros, depois de destruírem a língua, querem agora impô-la assim, estragada, aos portugueses, exigindo que passemos a usar «Netuno».
  • Se eu digo que «Netuno» está correcto no Brasil, não posso ser um verdadeiro português.

 

Perante estes argumentos, fico pasmado e chego à conclusão que não devia ter levado a conversa tão longe. É como estar a bater com a cabeça numa parede: não serve para nada a não ser aleijar a cabeça. A parede fica igual.

 

Mas, enfim, são daquelas experiências que ajudam a perceber que, nas discussões sobre a língua, há também muito de irracional e há quem, infelizmente, esteja refém duma nuvem de ideias erradas, mas muito elaboradas, um pouco à semelhança dos teóricos da conspiração noutros âmbitos. O mecanismo mental deve ser o mesmo.

 

Teria ficado tudo por ali, naquele diálogo, não fora dar-se o caso de receber um comentário em que alguém dava força aos argumentos absurdos. Ou seja, isto não é um caso isolado e talvez seja boa ideia abrir as janelas e deixar entrar um pouco de ar fresco na tal discussão absurda:

  • Em português do Brasil, a palavra «Netuno» está correcta. Sim, é uma das muitas diferenças entre o português de Portugal e o português do Brasil, que se foram acumulando nos últimos séculos, como acontece sempre que uma língua se divide em dois âmbitos sociais distintos. A razão deste afastamento é a mesma que levou ao afastamento das várias línguas latinas depois da fase comum a que chamamos «latim». (Já agora, que os brasileiros chamem à sua língua «português» e não «brasileiro» é irrelevante para determinar se uma palavra ou construção está certa ou errada no Brasil; o que conta para saber o que está correcto no Brasil é o funcionamento real da língua no Brasil, não uma qualquer elucubração sobre o que devia ser — mas não é — a língua dos brasileiros só porque tem o nome de «português».)
  • Sim, o italiano vem do latim, tendo sofrido algumas influências externas, como acontece em todas as línguas (o português, por exemplo). Teve fases intermédias (a que podemos chamar «toscano», por exemplo, já que foi a zona cujo falar serviu de base ao italiano literário), tal como acontece com o português (que teve séculos imensos entre o latim e a língua tal como falada no Portugal independente, séculos que podemos chamar os séculos galegos da língua). Não há uma única língua latina que tenha nascido inteira e pura do latim, sem qualquer fase intermédia. (Aliás, todas as línguas estão, ainda hoje, numa fase intermédia entre o que vinha antes e o que virá depois…)
  • As palavras, ao longo dos séculos, vão sofrendo alterações com o seu uso diário pela população. O mecanismo que levou à queda do «p» de «Neptuno» no Brasil é exactamente o mesmo que levou à queda de muitos outros sons em várias palavras, desde o latim popular (a origem remota da língua portuguesa) até à sua forma actual. Dizemos «cor» e não «color», «lua» e não «luna», «vitória» e não «victória», etc. O que leva à diferenciação entre línguas é o facto de estes mecanismos actuarem sobre palavras diferentes em locais diferentes. Sim, o «p» de «Neptuno» caiu no Brasil e não em Portugal. Houve outras palavras em que o «p» (falado) caiu em Portugal, mas não caiu no Brasil. A língua, nos dois países, está a afastar-se. Não há nada a fazer quanto a isso.
  • Por fim, nada justifica trazer para estas discussões argumentos como «quem não pensa como eu não é português» ou algo do género. É essa visão da língua misturada de tribalismo que leva a visões tão distorcidas do que é a linguagem humana e tão perniciosas para os falantes do português.

Sim, a visão que andei a combater naquele diálogo de surdos é esta: as línguas verdadeiras são imutáveis e o português tem uma versão perfeita, descoberta pelos portugueses a certa altura e que tem de ser preservada a todo o custo. Errado. As línguas mudam constantemente, ao longo dos séculos, e não há forma de dizer o que está certo e o que está errado sem olhar com atenção para a língua tal como ela existe, na realidade, em cada sociedade. É difícil, mas não há outra opção.

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