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Livros & Outras Manias

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06
Mar14

O estudo científico da linguagem: o Sol parece girar à volta da Terra

Marco

Vamos imaginar o tempo de Galileu. Como sabem, Galileu defendia que a Terra girava à volta do Sol e, por causa de tal heresia, sofreu o que todos sabemos. Todos sabemos, hoje, que a Terra gira, de facto, à volta do Sol — e sabemos também que o Sol também não está parado, andando a percorrer uma órbita em redor da nossa galáxia, que por sua vez também não está propriamente parada.

 

Continuemos a imaginar que aterrámos no tempo de Galileu: perguntem a qualquer pessoa da rua e essa pessoa irá dizer, certamente, que a Terra está parada. Então não se vê? Olhamos em volta e reparamos: o mundo está parado, bem fixo no mesmo lugar. Os astro, lá em cima, é que andam à volta da Terra. Hoje já será mais difícil encontrar quem diga isso porque, ao fim de muitos séculos, o conhecimento científico lá conseguiu "infectar" o conhecimento comum.

 

Vamos continuar por esse tempo: se perguntarem a alguma pessoa da rua o que acha dessa história dum tal de Galileu defender que a Terra anda a girar em torno do Sol, o nosso entrevistado talvez dissesse que Galileu é um desses cientistas que se acha muito esperto, mas que não vê o que está à frente dos olhos de qualquer um: a Terra está bem parada, ponto final. Terá algumas ideias sobre esses cientistas: dirá, talvez, que andam a gastar dinheiro dos contribuintes, que andam ao serviço do demónio, que não sabem o que fazem, que andam a tentar desviar as crianças para o caminho do Mal (ou outra coisa qualquer). 

 

Perguntem agora a um sacerdote: ele até poderá conhecer de forma mais profunda as ideias de Galileu e até perceber a sua coerência interna, mas também sabe das implicações de aceitar tais ideias. A sua recusa será mais intelectual, mas mais aguerrida: Galileu põe em causa tudo o que há de mais sagrado. Investigar o que ele diz não interessa e a própria investigação tem de ser considerada uma heresia.

 

Ora, o que temos aqui é o seguinte:

 

a) As ideias comuns sobre determinado fenómeno.

b) As ideias científicas (sempre em evolução e não necessariamente conformes às ideias comuns).

c) As ideias comuns sobre o que fazem os cientistas.

d) As ideias dos sacerdotes (aqueles a quem interessa defender as ideias comuns por terem algum interesse ou algum investimento emocional nessas ideias).

 

Quando falamos de línguas e linguagem, temos, muitas vezes, todos estes elementos de forma igualmente clara.

 

a) As línguas são objecto de muita curiosidade e muitas ideias — "há línguas melhores do que outras", "os brasileiros falam um português imperfeito", "os lisboetas não têm sotaque", "os jovens falam cada vez pior", etc.

 

b) Existem uns cientistas que estudam as línguas e a linguagem humana chamados "linguistas". Estes cientistas têm ideias que vão evoluindo, através do confronto entre teoria e realidade, confronto esse que permite refinar essas mesmas teorias. As ideias dos cientistas e a sua terminologia nem sempre estão de acordo com as ideias comuns sobres as línguas e linguagem. Como em todas as disciplinas científicas, há vários pontos de discórdia entre cientistas, mas todos acreditam que podem aproximar-se da realidade através do estudo científico das questões (sem nunca acreditarem que estão na posse de conclusões definitivas). Por outro lado, há um grande consenso sobre alguns pontos básicos relacionados com as línguas — pontos básicos esses que nem sempre estão de acordo com as ideias comuns sobre as línguas — ou seja, em muitos pontos os linguistas, no seu conjunto, sabem coisas que as pessoas em geral desconhecem (e isto por vários motivos).

 

c) A população em geral e os especialistas doutras áreas têm ideias sobre o que os linguistas fazem que nem sempre correspondem ao que os linguistas pensam, dizem ou fazem. Por exemplo, muitos acham que a linguística defende que tudo está certo e podemos falar como quisermos, quando, na realidade, a linguística não tem como objectivo prescrever normas ou a falta de normas. (Dito isto, o conhecimento linguístico leva, normalmente, os linguistas a terem opiniões diferentes em relação a estes pontos em comparação à população em geral — da mesma forma que será mais difícil encontrar um cientista na área da física ou da astronomia que acredite em fantasmas ou na astrologia...).

 

d) Também na área das línguas e da linguagem existem sacerdotes: professores, escritores, jornalistas, tradutores, etc. Todos estes sacerdotes têm um investimento emocional muito forte em certas ideias sobre as línguas e a linguagem e nem sempre gostam das conclusões científicas sobre essa mesma área. 

 

Nesta comparação entre as ideias astronómicas científicas e comuns e as ideias linguísticas científicas e comums há uma diferença: ao contrário do que se passa com a Terra e o Sol e Galileu, os linguistas têm de tomar em consideração as ideias comuns sobre as línguas e a linguagem, porque essas ideias fazem parte do seu objecto de estudo. Ou seja, o que as pessoas acham que sabem sobre a língua que falam tem influência sobre essa mesma língua e é, por isso, objecto de estudo da linguística.

 

Mas, em grande medida, estamos a falar do mesmo fenómeno: a relação difícil entre o conhecimento comum e o conhecimento científico. É uma relação difícil por natureza, porque o conhecimento científico existe para podermos ultrapassar os enviesamentos, as generalizações e os erros do conhecimento comum. O que não quer dizer que o conhecimento comum esteja sempre errado: pode acertar, em alguns pontos (ou até, no limite, em todos) — mas tem de ser testado, integrado num sistema teórico coerente e válido (até mais ver), etc., etc. Não basta acreditar, é preciso testar...

 

Por outro lado, a todos os linguistas que desesperam por verem o conhecimento comum tão distante do conhecimento científico sobre as línguas e a linguagem, é preciso dizer: por vezes é preciso esperar séculos para que o conhecimento comum integre o que a ciência descobriu. 

 

Não deixa de doer aos linguistas, no entanto, ter de levar com a arrogância típica de quem acha que sabe... E todos nós achamos que sabemos tudo e mais alguma coisa sobre línguas e linguagem. No entanto, só quem percebe o que não sabe consegue aprender. E temos tanto a aprender e a descobrir sobre estes assuntos...

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