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Livros & Outras Manias

Livros & Outras Manias

20
Ago15

O ABC das minhas férias (com livros)

Marco Neves

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Agosto. Antigamente, gozava com quem optava por ter férias em Agosto. Meu Deus! Que confusão! Que desperdício de descanso (e de dinheiro)! Depois, percebi: as escolas estão, vamos lá ver, fechadas em Agosto. Conciliar tudo (férias dos pais e dos filhos) é difícil. Enfim, Agosto acaba por ser a opção menos má. Agora, também vos digo: parece-me um mês em que o Algarve é de fugir. E digo isto sendo fã do Algarve nos outros meses todos (por exemplo, Setembro...).

 

Bola. A obsessão do meu filho. Adora jogar à bola. Eu, de livro debaixo do braço e óculos a escorregar pelo suor da cara, lá tenho de fingir que até percebo da coisa e tento dar pontapés melhores do que aqueles que quase me valiam negativas na escola secundária. Sim, sou daquelas encarnações do estereótipo do amante de livros: pálido e de óculos. Mas, vá lá, os filhos também ajudam nisso: agora com tanta bola e tanta piscina e tanto correr atrás dum filho a perguntar o que é tudo que o vê, já estou a ficar mais torradinho.

 

Canais de televisão. O meu filho está habituado a poder andar para trás sete dias na televisão lá de casa. Ou seja, está habituado a ver o que quer. Ora, chegamos ao nosso poiso de férias e a televisão é das antigas: só podemos ver o que está a dar e ponto final. Ficou admirado e chegou a ameaçar chorar. Mas acabou por descobrir desenhos animados novos, já que não pode estar a repetir sem parar o Livro da Selva.

 

David Lodge. Não é o melhor escritor desta galáxia, mas é daqueles lugares a que volto quase todas as férias, para descansar um pouco de todas as leituras do resto do ano. Já o li e reli muitas vezes, e lá me encontro um pouco nesse escritor que me lembra tanto da minha própria vida. Depois explico porquê.

 

E-mail. Claro, são férias, não é? Mas o e-mail não desaparece. Ainda por cima, nem sequer temos coragem de desligar o aviso sonoro dos telemóveis a avisar de novas mensagens. Como a minha mulher e eu trabalhamos juntos, são várias as vezes em que os nossos telemóveis apitam ao mesmo tempo, a informar-nos que temos e-mails de trabalho para ler. Lá tentamos resistir, mas lá temos de ler, de vez em quando. Só assim ficamos descansados. Dizem que é uma doença, e eu acredito. Mas trabalho é trabalho, com conhaque ou sem ele.

 

Filho. Sim, as férias acabam por girar à volta dele(s), não é? E no dia em que eles quiserem ir de férias sozinhos, vamos ficar aflitos, não é?

 

Golfe. Aliás, "gofo", na língua do meu filho. Aliás, mini-golfe. Claro que o meu filho não faz ideia de como se joga, mas tenta acertar na bola como se o taco fosse um martelo. Mas divertimo-nos (até porque eu também não acerto). E mais divertido é quando encontramos um enxame de vespas (ver letra V).

 

Horários. Ah, o prazer de não ter horários, não é? Acordamos às horas que queremos e fazemos o que queremos. Ou melhor, acordamos às horas habituais, porque o nosso filho tem o horário da creche no corpo. E depois temos a sesta da tarde e ainda as horas do banho e de adormecer, que mudam muito pouco. Mas sabe bem estar noutro sítio, é o que vale.

 

Imaginação. O sítio onde ficámos tem vista para uma floresta. Pronto, eu sei, cá pelas bandas ibéricas gostamos mais de falar de pinhais e outros nomes menos aventurosos. Mas aquilo são árvores muito compactas e, por mim, até podíamos gravar ali um qualquer filme do Harry Potter. Portanto, chamemos-lhe floresta. O meu filho começou de imediato a apontar e a dizer que havia ali lobos. Ri-me e disse que sim, ali havia lobos. Depois perguntou-me se eram lobos bons ou maus. Por um lado, gostava de lhe dizer que andava por ali o Lobo Mau, à espera da Capuchinho Vermelho. Por outro, quero que ele durma de noite e por isso lá acabei por dizer: "São bons, filho, são lobos dos bons." Ele ficou mais descansado e perguntou-me se os lobos bons matavam os maus. E por aí fora.

 

Jigajogas. As férias também servem para isto. Hoje aprendi a escrever a palavra "jigajoga". Confesso aqui: nunca tinha visto tal palavra escrita. Incrível, não é? E porque tive de a aprender a escrever? Porque estou a aproveitar as férias para voltar a escrever num certo e determinado blogue e a palavra lá apareceu num dos posts (ver letra V).

 

Kiwi. O kiwi aparece nesta lista por uma razão muito importante: é difícil como o raio encontrar palavras portuguesas (ou quase) começadas por K. Mas não julguem que é absolutamente aleatório. Ainda hoje vi kiwis ao pequeno-almoço, ao lado das laranjas, do pão, do leite, das salsichas e dos ovos mexidos. A minha pergunta é: mas alguém come mesmo ovo e salsichas ao pequeno-almoço?

 

Livros. Ah, claro! Sempre com livros atrás. Livros que trago de casa, livros que compro no caminho, livros que compro no regresso... Acho que no cômputo geral, os livros obrigam-nos a mais uma mala. Os livros e as fraldas.

 

Moscas. Nas brochuras dos hotéis e derivados tudo é lindo e muito limpo, mas a vida real tem muitas moscas. Acho que isto é uma metáfora de qualquer coisa, mas agora não me lembro do quê. Lá que custa estar a tentar ler ao sol com moscas a tentar pousar em todos os centímetros da nossa pele, custa...

 

Norte. Se o Algarve (ver letra A) é o que se sabe (apesar do prazer que hão-de ser as festas de Vilamoura ao sol, dizem por aí), acabámos por escolher o Norte, que o calor aperta no país todo e a metade mais verde apetece e é linda. Por isso, lá optámos por umas férias nortenhas. Ou melhor: o algoritmo do Booking optou por umas férias mais a Norte. E fez muito bem. (Até porque moscas há em todo o lado e aqui sempre temos Guimarães para nos deliciar.)

 

Online. Reservas online, claro. Porque agora é assim que se planeiam as viagens. As agências de viagens devem estar a ir pelo caminho dos clubes de vídeo. Mas para nós foi bom: por vários motivos que não são para aqui chamados, não pude planear as férias com mais do que dois ou três dias de antecedência. Assim, é bom chegar à internet e começar à procura de sítios por esse país em que fiquemos bem e não nos tirem demasiado peso da carteira. Nada fácil, mas pelo menos não é impossível.

 

Piscina. Hoje o meu filho quase que aprendeu a nadar. Tem menos de três anos, por isso é normal que a coisa seja vagarosa. Mas é tão bom ver a felicidade de quem está a descobrir a água. Acho que todos temos uma nostalgia dos nossos antepassados aquáticos inscrita nos genes (ou coisa assim). Ou então é apenas porque é diferente e muito engraçado. Tenho de ler o livro da letra S para descobrir.

 

Quelhas de Lisboa. Um outro livro que aqui tenho comigo é A Paixão do Conde de Fróis. E assim descobri esta magnífica palavra: "quelhas". O que são as quelhas de Lisboa? Descubram no dicionário mais próximo. E saibam ainda que podemos ler "quêlhas" ou "quâlhas", tal como "coêlho" ou "coâlho". A cada um a sua pronúncia. Ai, o prazer de ter um livro para ler... e lê-lo!

 

Rádio. Curiosamente, nas férias vejo mais televisão e oiço muito menos rádio. Ou melhor... Estou com a televisão ligada a dar programas infantis enquanto leio. Mas a rádio, essa desaparece do radar. Porquê? Porque a rádio é companhia de rotinas: das horas de levar a criança à creche, de ir para o trabalho, de voltar para casa. Ou seja, a rádio é hoje aquilo que todos ouvimos todos os dias e é por isso que, na minha humilde opinião, as estrelas de rádio são hoje mais conhecidas do que grande parte das estrelas da televisão. Estou em crer que muito mais pessoas ouvem o Nuno Markl do que vêem um qualquer programa de televisão. Mas posso estar enganado. Se calhar os actores das novelas ainda são mais famosos.

 

Sapiens. Uma Breve História da Humanidade. Um calhamaço que trago para férias. O autor irritou-me com o último parágrafo, que li a correr num aeroporto há uns meses. Mas a coisa ficou ali a roer-me e acabei por ter de comprar o livro e agora estou a ganhar coragem para o ler (e enquanto ganho coragem, ando a transportar o peso pelo país). O livro parece querer explicar a Humanidade em poucas páginas (umas 500). Vamos a ver se a espécie cabe nelas.

 

Teleférico. Sabiam que Guimarães tem um teleférico? Eu não sabia e fiquei maravilhado. A sério! Só não fiquei tão maravilhado ao descobrir que, uma vez lá em cima, ainda teria de subir não sei quantos degraus para chegar à igreja donde a vista seria magnífica. Um filho, quando está cansado, pesa bastante nos braços ou nos ombros, digo-vos já... Ainda por cima, a minha mulher costuma levar os meus livros da praxe na mala e, em certos momentos mais complicados, os livros têm mesmo de vir para debaixo do meu braço, que ela não tem obrigação de os levar. Assim, tinha de alombar com um filho, livros, telemóvel e sol na nuca. Ficámo-nos pela vista semi-magnífica da subida e da descida, porque afinal numa viagem o que conta é o caminho, não é?

 

Última palavra. Como devem imaginar, não escrevi estas palavras todas de enfiada, do A ao Z. Fiquem a saber que a última palavra que escrevi desta lista toda foi o Y. Aliás, a última palavra que irei escrever vai ser o Y. A verdade é que ainda não faço ideia da palavra que lá vou pôr. Ironias: quem está a ler já sabe mais (basta olhar um pouco mais para baixo) do que eu, que estou a escrever. Curioso, não é? Talvez folheando os livros que tenho aqui ao meu lado encontre inspiração.

 

Vespas. No mini-golfe, o buraco número 17 tinha aviso: "Cuidado." Porque seria? Um dos novos amigos do meu filho (é engraçado como, em férias, as crianças arranjam turmas em três minutos ou menos) decidiu experimentar a jogar na mesma, enquanto olhávamos curiosos. Dá tacada na bola, ela avança decidida, entra naquelas jigajogas típicas do mini-golfe e de lá saem a zumbir dezenas de vespas. Verdade, verdadinha. Desatámos a correr e, pouco depois, lá percebemos que aquelas eram vespas habituadas ao golfe: já se tinham recolhido ao seu convento. Mas nunca mais nos aproximámos do buraco 17. Livra.

 

WiFi. Parece que hoje em dia os hóspedes dos hotéis perguntam primeiro pelo WiFi e depois pela água quente. Cenas da vida moderna. Não há muito a dizer: vi-me a escolher sítio para ficar pela forma como ofereciam (ou não) internet. Certamente, haverá muita gente que vê nisto sintoma de qualquer coisa muito grave que se passa nos tempos de hoje. Eu só vejo uma grande vantagem. Ainda bem!

 

XXX. A minha mulher desatou-se a rir com um dos livros que comprei no caminho para cima: The Poetry of Sex. Não percebi o espanto: ela sabe que eu gosto muito de poesia. Hei-de vos falar mais do livro. É espantosamente bom e nem sequer tem imagens.

 

Yollande. Yollande é o nome da protagonista feminina do livro do David Lodge que estou a ler (Paradise News). Se quiserem conhecê-la, leiam o livro: irão passear pelo Havai, o que sabe sempre bem. Por que razão está nesta lista? Ora, porque, se virem bem, as personagens dos livros que lemos fazem parte das nossas férias (e das nossas vidas). Quando ler de novo este livro, estes sítios por onde agora ando hão-de me aparecer à frente (porque os livros são das melhores esponjas de memórias que há por aí, bem melhores que as fotos do Facebook). E, assim, de certa forma, esta personagem havaiana também andou por aqui, nos arredores de Guimarães. Há também outra razão para ter deixado a personagem nesta lista: é extraordinariamente difícil encontrar palavras começadas por Y.

 

Zebra. E chita. E dinossauros. Tudo miniaturas que temos em cima da mesa enquanto jantamos. Não há volta a dar: os miúdos adoram animais. Mesmo quando é para os pôr a lutar para ver o que é mais forte: o dinossauro ou a zebra. Às vezes, na cabeça do meu filho, a zebra come um tiranossauro. Um dia ele há-de perceber as verdades da vida. No entretanto, entre lobos imaginários, zebras comedoras de dinossauros e as histórias inventadas na cabeça do meu filho, percebo que as férias das crianças são muito mais do que parecem. No fundo, é como eu com os meus livros: para quê limitarmo-nos ao que vemos, se podemos viver muito mais se usarmos a imaginação?

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