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O pessimismo é necessário e tem a sua utilidade (principalmente no que toca à nossa vida pessoal), mas enquanto forma abrangente de ver o mundo é tão enviesado como o optimismo. Por outras palavras, se virmos o mundo, à partida, de forma pessimista arriscamo-nos a errar tanto como se o virmos, à partida, de forma optimista. A solução é um pouco de rigor científico: podemos ter as hipóteses que quisermos, mas convém testá-las, ou seja, tentar ver se afinal estamos errados.

 

Veja-se este post. As preocupações são legítimas e normais. Mas algumas afirmações do texto citado são casos típicos de tremendismo. É saudável perguntarmo-nos se não serão exageradas... (E, coisa que também devia fazer, convém ir atrás de números e estatísticas, para não ficarmos enredados em ideias vagas.)

 

"Há anos que as nossas crianças não são educadas por pessoas. Há anos que as nossas crianças são educadas por ecrãs."

 

Bem, não exageremos. Não quero que os meus filhos passem a vida agarrados ao ecrã, mas o que vejo nos meus sobrinhos, nos meus irmãos e em mim mesmo que não sou tão velho é muita brincadeira, muita escola, muito contacto pessoal. As nossas crianças não estão a ser educadas por ecrãs. Há professores, há pais, há irmãos, há amigos. O contacto humano continua aí, de boa saúde — os pais que andam atrás dos filhos nas milhentas festas de sábado à tarde sabem-no bem.

"E o vidro não cria empatia. A empatia só se cria se, diante dos nossos olhos, tivermos outros olhos, se tivermos um rosto humano. E por isso as nossas crianças crescem sem emoções, crescem frias por dentro, sem um olhar para os outros que as rodeiam."

 

Também não vejo as crianças a crescer frias por dentro. Pelo menos, os meus sobrinhos de 5 e 8 anos, que vêem muita televisão, jogam muito computador e brincam muito um com o outro e com os amigos, não são nem frios e não estão sem olhar para os outros. Das muitas crianças que vejo, vejo pouca frieza...

"A escola, hoje, serve para tudo menos para estudar."

 

Que escolas são essas onde não se estuda? Nas que eu conheci e conheço, estuda-se muito. Sim, já ouvi muitos professores queixarem-se do mau comportamento dos alunos e da violência e de tudo isso. Mas vejo que a maior parte dos professores que conheço não desiste — e muitos alunos continuam a estudar, a trabalhar e a conseguir ultrapassar os problemas que têm. Talvez sejam uma minoria: mas alguma vez não o foram?


"A casa, hoje, serve para tudo menos para dar (as mínimas) noções de comportamento."

 

Depende da casa. Será que os jovens são mais brutos e mal-educados do que os jovens de há 50 anos? Estou só a perguntar. Pensem em termos estatísticos: escolham 50 jovens ao calhas no país de há 50 anos: aldeias, montes, serras e cidades. Depois escolham 50 jovens ao calhas no Portugal de hoje. (Claro que isto é uma experiência mental.) Se calhar, não há assim uma diferença tão grande, excepto na formação: os jovens de hoje estarão bem mais preparados. Afinal, os jovens de há 50 anos emigravam para fazer o que sabemos e os de hoje emigram para fazer outras coisas... (Infelizmente, uns e outros têm de emigrar, mas isso são outras histórias.)


"E eles vão continuando a viver, desumanizados, diante de um ecrã." 

 

Mais uma vez, não acontece isto com as crianças que conheço. Sempre houve tímidos e introvertidos que preferem desolhar os outros. Mas em geral as crianças continuam muito humanas. E a empatia, pelos vistos, até nem está a diminuir...

 

Desculpem, mas estas críticas, por vezes, fazem-me lembrar quem me dizia, há muitos anos, para deixar de ler tanto e brincar mais. Nunca senti que brincasse pouco. Mas, claro, é sacrilégio dizer isto. Não se preocupem: eu sei que ler é muito melhor do que ver televisão. Eu sei, eu sei...

 

*

 

Encarem isto como uma crítica construtiva: sim, há razões para preocupações, mas em vez de tremendismo, convém olharmos para tudo com alguma perspectiva e tentando contrariar, por princípio, as nossas próprias ideias, para não ficarmos enredados em declarações vagas, que não ajudam ninguém em concreto.

 

Afinal, a resposta a muitas das coisas que digo acima será: "mas basta olhar em volta!" — não, não basta. O espírito crítico e científico é isso mesmo: tentar perceber as coisas para lá das aparências do "olhar à nossa volta".

 

E não me interpretem mal: temos de nos preocupar com os nossos filhos, de facto. Não porque estejam desumanizados, mas porque convém incentivar a curiosidade, o espírito crítico, a diversidade de interesses, a empatia, o olhar pelos outros, etc.

 

(E, sim, cinco horas de televisão por dia é um problema concreto e individual...)

 

 

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publicado às 15:34



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