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Vou-vos confessar uma coisa. Espero que não me levem a mal. 

 

O que tenho a confessar é isto: houve um dia em que cheguei à conclusão que não devia continuar a fazer downloads ilegais de música e filmes pela Internet. 

 

Como cheguei a essa conclusão (pessoal!), não vale agora vir para aqui descrever. O que posso dizer é que isso me trouxe alguns dissabores. Tentei explicar junto de amigos o porquê dessa decisão, tentei argumentar, mas aquilo que encontrava era apenas irritação perante a minha impertinência.

 

Afinal, o download ilegal é uma prática tão comum na minha geração que alguém vir argumentar que pode não ser a melhor coisa do mundo só pode ser coisa de lunático ou armado em santinho.

 

Não estou, garanto, armado em santinho. Nem sequer me ponho com grandes moralismos perante quem faz o que eu já fiz. Simplesmente, discuto e argumento — e julgo que ninguém pode recusar-se a um bom debate, mesmo que (ou principalmente se) a conclusão do debate nos possa levar a mudar algum comportamento.

 

Ora, isso sim critico: não o descarregamento ilegal, em relação ao qual continuo com dúvidas, mas sim ao facto de haver pessoas que recusam alterar qualquer tipo de comportamento depois de reflectir. Primeiro faz-se, depois arranja-se os argumentos necessários para justificar o que se fez — e nunca por nunca se considera a vaga hipótese de podermos estar errados.

 

Se pensarem bem, isso é receita para o desastre... Mas o que posso fazer? Não só muita gente se recusa a alterar comportamentos, como se recusam a alterar uma mera opinião. As opiniões, para muitos, são como as jóias: arranjam-se e penduram-se ao pescoço — e nada mais há a dizer.

 

Adiante. Estou a arriscar muito com este post, parece-me. Espero que me perdoem esta impertinência toda.

 

Outra coisa que, nesses (poucos) debates que tive sobre os tais downloads, reparei na argumentação contrária foi o seguinte: como eu já tinha feito downloads ilegais, não podia argumentar contra os mesmos. Mais: certamente continuaria a fazê-los. Aliás, tive um colega que ficou radiante quando reparou que eu usava o YouTube: "isso também é ilegal! Estás a ver? Não tens razão!"

 

Bem. Quanto ao YouTube, a conversa é mais complicada. Mas não é essa a questão. A questão é esta: eu descarregar ou não seja o que for terá pouca relevância para a razão (ou falta dela) dos meus argumentos. Não sei se estão a perceber... Eu podia continuar a descarregar e não deixar de ter razão nos argumentos. Se o fizesse conscientemente, seria certamente hipócrita, mas tal defeito meu não tiraria razão aos argumentos, que são independentes aqui da minha pessoa...

 

Esta questão é subtil, mas enfim... É meia-noite e meia, a cabeça já não pensa como deve ser. O que gostava de vos deixar para este início de semana é isto: 

 

 

 

E é assim que introduzo Séneca aqui no blog. A Vida Feliz, traduzido por João Forte, editado num livrinho cinzento, que veio publicado num jornal há alguns anos, e que me parece ser uma preciosidade que foi quase gratuita. 

 

Quer isto dizer que me julgo virtuoso? Que defendo a virtude, essa coisa tão outré? Nem por isso. Afinal, acabei de copiar um pedaço dum livro para colar aqui no blog. Onde está a virtude disso?

 

No que toca aos downloads, o que me faz impressão é o facto de estarmos a prejudicar quem cria aquilo que queremos: a música, neste caso. É como se estivéssemos a matar a galinha dos ovos de ouro. (E se no caso dos músicos poderíamos sempre argumentar que eles ganham é com os concertos, o argumento já não se pode aplicar no caso dos ebooks, por isso não é mesmo nada bom andarmos a roubar os nossos queridos escritores...)

 

Já agora, aqui está esse livrinho de Séneca ao lado de outro, que comprei numa saborosa livraria londrina, em 2011:

 

 

Quem é este Michael J. Sandel? Podem ouvi-lo no YouTube. É uma celebridade, como poucas haverá no mundo da filosofia:

 

 

O que está a fazer aqui? Bem, tem tudo a ver com o que está escrito acima (mas o homem nem sequer fala de downloads). Leiam e oiçam e vejam, que mal não faz, e só as pessoas aborrecidas acham isto tudo muito aborrecido...

 

Perdoam-me? Perdoam-me toda esta filosofia numa segunda-feira? Espero que sim...

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publicado às 00:18


3 comentários

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De Patrícia a 21.01.2014 às 14:25

Olá,
Não sou muito de downloads ilegais (e nem vou entrar na discussão que quem faz o download nada faz de ilegal, que só é ilegal fazer o upload) e compreendo perfeitamente os argumentos contra tal prática.

Só há uma coisa que me deixa de pé atrás em relação aos downloads (ilegais) de livros: quando eu compro um livro posso lê-lo, emprestá-lo, oferecê-lo ou vendê-lo. Mas quando compro um ebook não posso fazer nada disto.
Paguei os direitos de autor, paguei tudo o que envolve “compra de algo” mas na verdade não tenho em meu poder nada. Os ebooks (que custam em Portugal quase tanto quanto a sua versão física) são pessoais e intransmissíveis. Pior: mantê-los não depende apenas de mim mas também da loja (e respetivos servidores) que mo vendeu (a não ser que tenha um cartão de memória com capacidade infinita e que o meu ereader nunca avarie), da sua boa vontade (não se será mito urbano mas consta por aí que já houve contas da amazon fechadas à revelia dos utilizadores). É certo que ainda sou nova nisto dos ebooks e posso estar enganada em relação aos factos que aqui apresento mas a verdade é que fico a pensar nos direitos e deveres enquanto utilizadora.

(poderia usar uma argumentação similar para com a música mas a verdade é que essa parte me é um bocadinho indiferente)

Boas leituras
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De Marco Neves a 21.01.2014 às 14:32

Olá!

Obrigado pelo comentário.

Também concordo que as práticas relativas aos ebooks são um pouco estranhas. Devia ser mais fácil emprestar ou até dar um ebook.

Tanto é assim que eu já enviei um ebook oferecido ao meu irmão que está em Inglaterra, mas como a conta da Amazon dele é inglesa e a minha é americana (como tem de ser para um português), até hoje ainda não consegui que ele descarregasse o livro que já paguei (o que é desesperante).

Seja como for, prefiro pagar pelos livros, mesmo muito pouco, do que andar a arranjar formas de os descarregar ilegalmente. Se forem gratuitos, maravilhoso. Quem sou eu para recusar um presente? :)

Em caso de dúvida, compro o livro físico, que (não digam a ninguém) ainda são o meu bicho de estimação preferido, mesmo com todas as desvantagens em termos de pó, espaço e dores nas costas.

Obrigado pela visita e espero que possamos ir falando por aqui mais vezes!
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De Patrícia a 22.01.2014 às 11:40

Olá,
Um dos problemas é o preço excessivo dos ebooks. É uma parvoíce e um "tiro no pé".
Acho que podia, depois de um período de tempo razoável, pôr os ebooks bem baratinhos. Evitavam-se cópias ilegais e ainda ganhavam muito dinheiro.
Essa história da amazon é mesmo uma parvoíce.
Boas leituras

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