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Livros & Outras Manias

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04
Mar14

A situação linguística da Ucrânia

A Baleia Que Engoliu Um Espanhol

Nós, portugueses, habituados a um Estado com uma só língua (com uma excepção, eu sei) ficamos muito baralhados com a situação linguística dos outros países. Por exemplo, na Ucrânia: o que raios se passa num país onde (dizem-nos os jornalistas) uma grande parte da população fala ucraniano, mas há também muita gente a falar russo? Afinal, que línguas se falam na Ucrânia — e porquê?

 

A pergunta assume especial interesse nestes dias em que andamos a ouvir os tambores de guerra.

 

A situação é tão complexa que não chega um pequeno post para o destrinçar, mas algumas notas poderão ajudar a perceber a situação linguística da Ucrânia com mais clareza:

 

a) As fronteiras europeias são muito mais movediças do que a situação particular portuguesa pode fazer crer. Há territórios que pertenceram a muitos países ao longo dos últimos três séculos (para não irmos mais atrás). No caso da Ucrânia, há territórios que foram do Império Austro-Húngaro, outros que sempre estiveram sob o domínio (mais ou menos intenso) da Rússia — e já estamos a simplificar muito. Mas daqui resulta uma situação linguística complexa, em que partes do território sempre falaram ucraniano e outras sempre falaram russo (por "sempre" estou a querer dizer "nos últimos séculos", claro).

 

b) Durante o século XX, a Ucrânia fez parte da URSS, como sabemos. A União Soviética teve, em termos linguísticos, várias fases: houve alturas de intensa “russificação”, ou seja, de política oficial de imposição duma língua única em toda a união (o russo), outras de tolerância e até promoção das línguas “regionais” (como o ucraniano). Ou seja, alturas houve em que famílias que sempre tinham falado ucraniano começaram a incentivar os filhos a falar apenas a língua oficial da grande nação soviética, outras em que famílias que sempre tinham falado russo não se importaram que os filhos aprendessem ucraniano na escola. Estas vagas de imposições ou tolerâncias linguísticas criou situações complexas — e por isso não convém achar que há duas comunidades absolutamente separadas e opostas nesse que é o segundo maior país da Europa.

 

c) Já nos anos 90, a Ucrânia independente começou a tentar impor o ucraniano como língua nacional e oficial — algo que pode parecer natural a qualquer português. No entanto, esta imposição — que poderíamos chamar, à moda catalã, de normalização linguística — implica sempre alguma imposição às minorias, principalmente à minoria que fala russo. Também neste caso a tolerância para com o russo — que tinha sido a língua do Estado até ao momento da independência, para se tornar em língua minoritária na nova Ucrânia independente — teve fluxos e refluxos. O certo é que a língua oficial é hoje, apenas e só, o ucraniano. 

 

Estas são as três fases (em termos muito gerais) que levaram à complexa situação actual. No fundo, cada Estado — primeiro a União Soviética, depois a Ucrânia — sonha com uma situação em que tem nas suas fronteiras uma comunidade nacional e linguística homogénea. Ora tal situação é raríssima — Portugal é dos poucos países em que tal acontece de forma quase perfeita. Este “sonho” leva a a acções de uniformização e imposição intermeada por períodos de tolerância oficial e a situação acaba por ser muito mais complexa do que pensamos — principalmente num território que passou por fases de uniformização com base em duas línguas diferentes, separadas por poucos anos.

 

Dito tudo isto, sabemos que a Ucrânia se divide em duas zonas de limites pouco claros, mas que podemos identificar no seguinte mapa: 

 

http://edition.cnn.com/interactive/2014/02/world/ukraine-divided/ (mesma fonte abaixo)

 

Este mapa tem uma correspondência muito forte com o sentido de voto nas últimas eleições presidenciais: 

 

 

Esta correspondência começa a ser já um cliché quando falamos da Ucrânia.

"Ou seja, quem fala russo na Ucrânia não são apenas imigrantes?"
Exacto. Os falantes de russo na Ucrânia não são estrangeiros. Haverá muitos que imigraram de outras zonas da antiga URSS — mas uma grande parte são parte da população nativa da Ucrânia.

"Os falantes de russo são todos contra o novo governo e a favor do anterior?"
Obviamente que não. A situação não é assim tão clara. Mas há uma tendência bastante acentuada para quem considera o russo como primeira língua apoiar o governo deposto, como podemos ver no mapa acima.

"Quem fala ucraniano compreende russo e vice-versa?"
A questão da inteligibilidade das duas línguas terá de ficar para outro post. Mas independentemente da compreensão mútua, é importante compreender que os ucranianos aprenderam russo na escola durante a União Soviética — e os falantes de russo têm aprendido ucraniano nas últimas décadas. Só por aí há um grau de compreensão mútua muito elevado. Mas, como veremos noutros posts, a simples facilidade de entendimento linguístico não significa que duas comunidades se comecem a dar bem, digamos assim. Por vezes, a coisa passa-se ao contrário: a antipatia ou hostilidade leva a um maior afastamento linguístico. Veremos isso depois.

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