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Livros & Outras Manias

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06
Fev14

¶ A poesia dos autocarros de Lisboa

Marco

Os manuais escolares têm má fama entre aqueles que dizem defender a verdadeira literatura. Afinal, que raio de literatura é essa que é partida aos bocados e entregue aos alunos em pedaços mastigáveis? Quem poderia alguma vez perceber o valor e o sabor da literatura lendo bocados de livros? 

 

Até concordo. Mas a coisa é, claro, mais complexa. E, na verdade, temos sempre os poemas, que são obras completas ali na página.

 

Há poemas que nos atingem sem percebermos bem como. No meu 10.º ano, tinha um manual cinzento (mesmo cinzento, em termos de cor, não em termos de conteúdo). Encontrei este poema, que acho que nunca cheguei a dar na aula, e não faço ideia porquê, fiquei agarrado:

 

Um Amor

 

Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão, 
puxaste-me para os teus olhos 
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua, 
ainda apanhámos o crepúsculo. 
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar 
diferente inundava a cidade. Sentei-me 
nos degraus do cais, em silêncio. 
Lembro-me do som dos teus passos, 
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas, 
e a tua figura luminosa atravessando a praça 
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é, 
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali, 
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha 
essa doente sensação que 
me deixaste como amada 
recordação. 

Nuno Júdice, in "A Partilha dos Mitos"

 

Fosga-se, que ainda hoje fico afectado por este poema. Por algum motivo, isto batia certo com uma imagem qualquer que tinha do que era viver numa cidade e ter um grande amor numa cidade — e perder esse grande amor. Era como se eu já tivesse vivido aquilo, o que seria impossível.

 

Essas luzes dos autocarros no crespúsculo, os passos numa praça ou num cais — bolas, parece que até consigo ouvir os exactos autocarros da Carris a passar com as luzes a acenderem-se e achar isso bonito.

 

Enfim, anos depois, vim a ser aluno de Nuno Júdice, mas parece que as pessoas conseguem desdobrar-se e ali tinha um professor e não o poeta do poema que mais me tinha alterado. Nunca lhe cheguei a dizer.

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