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Livros & Outras Manias

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23
Fev14

A astrologia é um disparate (mas é tão fácil acreditar nela)

Marco Neves

Há uns anos, um grande amigo meu, com quem tinha discutido o meu cepticismo em relação à astrologia, veio ter comigo atrapalhado. Uma amiga dele tinha feito uma "análise astrológica" mais séria e a coisa tinha batido extraordinariamente certo! Ele não sabia o que dizer. 

 

Todos sabemos isto: a astrologia, às vezes, parece funcionar. Lemos uma descrição do nosso signo, e a coisa parece bater mesmo certo. Os amigos de determinado signo percebem rapidamente que têm características em comum — e que são obviamente desse signo!

 

Quem tem uma tendência emocional para acreditar na dita astrologia, não tem como combater esta crença: claro que sim! Claro que estamos em harmonia com o universo e este tem uma influência directa nas nossas vidas! Não é lindo? 

 

É lindo, mas é falso. A astrologia já foi testada milhentas vezes (ao contrário do que se pensa, os cientistas não se coibem de testar de forma objectiva estas coisas — estas coisas é que tendem a falhar nos testes) — e as conclusões são estas: os astrólogos não sabem descrever as características pessoais das pessoas mais do que qualquer pessoa minimamente atenta.

 

Afinal, acreditam mesmo que astros que estão tão longe de nós que a sua luz leva milhões de anos a chegar à Terra têm uma influência na nossa vida só porque estavam em certo ponto do céu quando nós nascemos? Porque carga de água isso aconteceria? Que mecanismo imprimiria no nosso corpo seja lá o que for que influenciaria o decurso das nossas vidas no momento em que nascemos?

 

Dizem-me os astrólogos: ora, não compreendemos, mas o efeito está lá! Nós conseguimos perceber esse efeito, porque seguimos esta velha ciência, depurada ao longo de séculos, com uma sabedora que tu, ó céptico incréu, nunca compreenderás!

 

Exacto: podia dar-se o caso de não percebermos o mecanismo, mas podermos detectar uma certa regularidade que corresponderia às previsões astrológicas: há ainda tanta coisa que não percebemos, mas cujos efeitos sentimos...

 

Lamento desiludir-vos, amigos cósmicos, mas quando testamos a coisa mais a fundo, vemos que o efeito não está lá. Quando tentamos perceber se o signo, de facto, influencia a personalidade, os testes feitos de forma minimamente científica mostram que a coisa é falsa. 

 

Por exemplo (e é só um exemplo!), Shawn Carlson realizou um estudo cujo protocolo foi considerado adequado pelos astrólogos participantes, em que os astrólogos deveriam, de forma "duplamente cega", ligar perfis psicológicos a signos.

 

Não conseguiram mais do que qualquer um de nós conseguiria através da mera escolha aleatória dos perfis. Ou seja, os astrólogos, perante perfis psicológicos detalhados, não conseguiram adivinhar o signo dessas pessoas! Ora, se conseguem perceber o perfil psicológico duma pessoa através do signo, também deveriam conseguir obter o signo através do perfil psicológico. Pois é... Não é isso que acontece.

 

Leiam o artigo da Wikipédia sobre a dita "ciência que desconhece". Vão aprender muito.

 

Seja como for, a pergunta que hoje me interessa é: se a astrologia é falsa, porque é tão fácil acreditar? Porque parece bater certo em tantos casos?

 

A astrologia parece funcionar por vários motivos, entre eles estes dois: a tendência para a confirmação ("confirmation bias"), tendência essa inscrita no nosso cérebro e que nos leva a reparar de forma muito marcada em tudo o que confirma aquilo que esperamos e que nos leva, simultaneamente, a ignorar, de forma inconsciente, tudo o que não confirma o que esperamos. Quando alguém faz uma descrição da nossa personalidade, reparamos naquilo que bate certo e ignoramos, sem querer, todos os pontos em que a coisa não é assim tão certa. 

 

Depois, temos outro "bias": a validação subjectiva, explicada no capítulo 21 do livro cuja capa vai abaixo. Já falei aqui deste autor, quando vos propus o Brain Pickings. Como explica David McRaney, isto da validação subjectiva quer dizer apenas isto: tendemos a acreditar em qualquer disparate se o objecto da conversa formos nós. 

 

O autor dá um exemplo. Pega no seguinte texto e pergunta se é uma descrição fidedigna do leitor:

 

Tens a necessidade que as pessoas gostem de ti e que te admirem, mas tens tendência para ser crítico em relação a ti próprio. Embora tenhas alguns defeitos de personalidade, consegues compensar com outras características. Tens capacidades que ainda não usaste em teu proveito. Pareces disciplinado e controlado por fora, mas estás preocupado e inseguro por dentro. Por vezes, tens dúvidas se tomaste a decisão certa ou fizeste o que era correcto. Gostas de alguma mudança e variedade e não gostas quando te controlam ou limitam. Também tens orgulho em teres uma mente livre e não aceitas o que os outros te dizem sem veres as provas. Chegaste à conclusão que não é prudente revelares-te demasiado aos outros. Por vezes, és extrovertido, sociável e afável, mas outras vezes és introvertido, cauteloso e reservado. Alguns dos teus sonhos tendem a ser pouco realistas.

 

Reconhecem-se neste texto?...

 

Ora, meus amigos, este texto foi usado por Bertram R. Forer para uma experiência. Deu aos alunos um teste de personalidade, que supostamente foi usado para criar uma avaliação de personalidade individual. No entanto, quando chegou a hora de distribuir essa avaliação de personalidade individual, deu a todos os participantes o texto acima. Malandro!

 

Em seguida, pediu aos participantes para avaliarem, numa escala de 0 a 100, a adequação do texto à personalidade de cada um.

 

O resultado? Uma média de 85%.

 

Ou seja, os alunos consideraram o texto uma análise muito fidedigna da sua personalidade individual — e o texto era igual para todos!

 

Como é que Forer criou o texto acima? Juntou frases soltas de vários horóscopos...

 

A experiência tornou-se famosa e, hoje, a tendência que todos temos para acreditar em declarações vagas sobre nós próprios é chamada Efeito Forer. Como podem ler no artigo wikipédico sobre este assunto, este é o efeito que explica porque é tão fácil acreditar em pseudo-ciências como bio-ritmos, frenologia, astrologia, numerologia e cartas de tarot.

 

Acreditar em tudo isto é algo muito humano — mas a capacidade de estas "ciências" nos descreverem individualmente é nula. 

 

 

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