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Livros & Outras Manias

Livros & Outras Manias

16
Abr14

As eleições europeias

Marco

Um post político, para variar um pouco. Sabiam que estas eleições europeias servem para eleger os deputados ao Parlamento Europeu e, pela primeira vez, os candidatos a presidente da Comissão Europeia estão definidos previamente?

 

Ou seja, estas eleições vão servir para eleger o Parlamento e, de acordo com os resultados, será escolhido o sucessor de Durão Barroso — é o que acontece a nível nacional, em Portugal: elegemos os deputados e, de acordo com os resultados das eleições para a Assembleia, o Presidente da República escolhe o primeiro-ministro, seguindo o princípio de respeitar os candidatos declarados pelos partidos previamente.

 

No caso da União Europeia, os candidatos são Jean-Claude Juncker (PPE, ou seja, o PSD europeu) e Martin Schulz (PSE, ou seja, o PS europeu).

 

Ninguém pode hoje dizer que a Comissão Europeia não faz nada ou não tem impacto na nossa vida. Estas eleições são, assim, muito mais importantes do as pintam pelas conversas desse país fora.

 

No entanto, quem ler os jornais portugueses nem se apercebe disto. Quem ler os jornais portugueses acha que estamos a falar duma eleição nacional. Ora, os cabeças de lista portugueses só poderão ser uma coisa: deputados. É quase como se os jornais se concentrassem nos candidatos dum só distrito durante as Eleições Legislativas. 

 

Estas eleições são importantíssimas: mas convém percebermos que são europeias. Até podemos não concordar com a existência da União Europeia, mas que ela existe, existe, e convém votar em consciência, sabendo que estamos a votar, no fundo, em partidos europeus, que irão definir a próxima Comissão Europeia, que nos governa (e, em Portugal, governa ainda mais do que noutros países, como todos sabemos).

21
Mar14

O Mal Deste País: falta Prática ou falta Teoria?

Marco

Há bocado, no sítio onde vou cortar o cabelo (barbeiro? cabeleireiro? — não tenho tempo para essas discussões terminológicas) o senhor que estava a cortar o cabelo ao cliente do lado perorava alegremente sobre o Mal Deste País. E, para ele, o Mal Deste País é só um: temos muita teoria e pouca prática.

 

Estava entretido no meu mundo onírico a pensar se seria mesmo assim (os cabelereiros devem achar-me muito mal-educado, pois sem óculos não vejo nada — e não digo quase nada). Talvez sim, talvez não.

 

Vamos então teorizar um pouco (ou seja, na lógica do senhor, vamos enterrar mais este país). 

 

A verdade é que os portugueses são muito bons na prática. A encontrar soluções para urgências desatadas, somos os melhores. A fazer coisas à última hora, ninguém nos bate (talvez os nossos filhos predilectos que vivem lá no Brasil). A desenrascar soluções para problemas bastante intrincados, também somos extremamente bons. A tratar de pôr as coisas a funcionar quando é mesmo preciso, ninguém nos leva a melhor.

 

O Mal Deste País (na minha humildade opinião) é que não teorizamos sobre nada disto, perdemos o que aprendemos na prática — e, pior, somos nós, as mais das vezes, que criamos as urgências desatadas, os prazos a aproximarem-se que nem camiões desgovernados, os problemas bastante intrincados, as avarias no sistema... Ou seja, nós somos mesmo muito bons a resolver os problemas que nós próprios criamos. Porquê? Porque não planeamos, não pensamos antes de agir, gostamos mesmo é de meter as mãos na massa, primeiro para criar problemas onde não existiam e, depois, para os resolver com uma pinta do caraças. É que, nisso, somos mesmo bons!

 

Um amigo meu que trabalhou na Siemens diz que os engenheiros alemães costumam gostar muito dos engenheiros portugueses. Dirão as más línguas que é porque aceitam ganhar menos do que os alemães. Talvez. Mas também somos bons a resolver problemas. Eles planeiam e inovam. Quando as coisas correm bem, maravilhoso. Quando correm mal, chamem lá o português, se faz favor, que o plano já foi ao ar e agora estamos a navegar em águas desconhecidas e nisso os portugas são muito bons.

 

Já o pai do meu cunhado, que criou uma fábrica de fazer máquinas (não vale a pena entrar em pormenores) contou-me (é um episódio, e os episódios às vezes são interessantes) que há uns anos esteve numa espécie de workshop com alemães. Todos tinham de resolver uma série de problemas e criar não sei que mecanismos, em várias fases. Pois, quando surgiu o primeiro problema, as várias equipas ficaram baralhadas e os portugueses lá fizeram um brilharete: resolveram o problema rapidamente. A segunda fase consistia em criar um mecanismo que faria algo parecido à máquina do problema inicial. Pois os alemães criaram um sistema que evitava o problema da primeira fase, integrando a solução dos portugueses. Já os portugueses... Não integraram nada. Para quê evitar um belo problema que podemos resolver tão facilmente quando aparecer?

 

Portanto, amigos, não tenham medo da teoria. Prática já temos nós. Falta-nos saber usá-la em nosso próprio proveito e para evitar a nossa propensão para criar problemas que só os portugueses sabem resolver (ou seja, falta-nos a tal teoria).

 

(Uma advertência: este é um post baseado em episódios desconexos e teorias emanadas dum barbeiro barra cabeleireiro. Aconselho-vos a não confiarem muito nas conclusões que aqui se apresentam. É só um aviso!)

 

08
Mar14

Balada do Português

Marco

Se emigro, é porque ando a fugir ou estou descontente com o muito que me deram ou não quero acreditar no meu país.

 

Se fico, é porque não sei lutar por mim, estou contente com a vidinha (sempre inha, sempre inha), não quero acreditar no meu país.

 

Se trabalho no público, sou um sorvedouro de dinheiro e estou só a passar tempo.

 

Se trabalho no privado, ando a ganhar dinheiro a rodos e não quero saber dos outros.

 

Se escolho pôr os filhos numa escola pública, não gosto dos meus filhos.

 

Se escolho pôr os filhos numa escola privada, acho que sou melhor do que os outros.

 

Se tiro férias, não quero trabalhar.

 

Se trabalho muito, ando a roubar trabalho aos outros ou ando a descurar a família.

 

Se vou ao café, sou um tonto que não sabe o que a vida custa.

 

Se não vou ao café, não ando a ajudar a economia nacional.

 

Se peço factura com contribuinte, ando a colaborar com este Estado de coisas.

 

Se não peço factura com contribuinte, ando a colaborar com a fuga ao fisco.

 

Se tenho um blog, devo ter pouco para fazer.

 

Se não tenho um blog, estou demasiado fechado em mim mesmo.

 

Se sou casado, sou demasiado certinho.

 

Se não sou casado, quero é boa vida.

 

Se tenho um blog sobre roupa, sou fútil.

 

Se não tenho um blog sobre roupa, sou chato.

 

Se argumento, tenho a mania.

 

Se não argumento, ando a fugir ao debate.

 

Se gosto de ler, não devo saber o que é a vida.

 

Se não gosto de ler, sou estúpido.

 

 

E continua, continua, continua...

05
Mar14

Não basta escrever em português, é preciso acertar no português!

Marco

Uma empresa que queira chegar aos clientes na língua certa não deve limitar-se a ir à Wikipédia ver qual a língua oficial do país em questão. Não só pode acabar por ferir susceptibilidades regionais (assim de repente, lançar uma campanha de marketing em ucraniano na Crimeia pode não ser a melhor opção, principalmente por estes dias), como podem acertar na língua, mas errar na versão da língua.

 

Assim, uma empresa chinesa que decida entrar no mercado brasileiro e contrate tradutores portugueses vai acabar por ter problemas — as duas normas do português estão mais próximas do que julgamos ao nível da escrita, mas não deixa de ser impossível escrever um texto neutro, ou seja, que possa ser usado dos dois lados do Atlântico sem acabar por ser considerado estranho por um dos lados.

 

Da mesma forma, contratar redactores ou tradutores brasileiros para escrever textos dirigidos aos portugueses é um erro de palmatória. O português é uma só língua — mas quem quer vender produtos num mercado não pode achar que essa língua é igual em todo o lado: nenhuma língua é uniforme, e no caso das línguas internacionais, é costume a própria norma da língua ter variantes marcadas (como é o caso do inglês, do espanhol, do francês...).

 

Isto são conselhos para as empresas. Não desvalorizem a relação emocional não só com a língua, mas também com a forma local de falar a língua: seja no Brasil, em Portugal, em Angola ou até numa parte específica de cada um desses países.

 

 

Para os utilizadores e para os leitores de literatura, o meu conselho é outro: tenham menos medo das outras versões da língua. Leiam mais, de tudo. (Vejam, a esse propósito, o post O português do Brasil aleija os portugueses?)

25
Fev14

O português do Brasil aleija os portugueses?

Marco

Tenho pena de não ler mais livros brasileiros. O pouco que li da literatura desse monstro além-Atlântico foi maravilhoso. Hei-de vos falar disso.

 

Agora, o que não percebo é o horror de alguns portugueses a ler em português do Brasil — ou sequer a aceder a sites em "brasileiro". 

 

Ainda agora, li uma queixa duma gentil utilizadora facebookiana porque tinha acedido a um site norte-americano, que a tinha redireccionado para uma versão em português — ou melhor, em português do Brasil. 

 

Sim, o site norte-americano devia ter, num mundo ideal, as duas versões: português europeu e português brasileiro. Mas, não tendo, decidiu que devia orientar os portugueses para a versão em português. Ai, o horror!

 

A portuguesa queixosa escreveu uma carta à dita empresa, alegando que:

 

a) É ofensivo para um português ser redireccionado para um site em português do Brasil.

 

b) O português do Brasil e o português de Portugal são muito mais diferentes do que o inglês americano vs. inglês britânico.

 

c) Tendo de escolher, o site devia ser sempre em português europeu, porque é a "raiz" e a "fonte" do outro português.

 

Compreendo a dor, mas deixem-se de lamúrias que, aos olhos dos estrangeiros, só mostram pequenez. Pois:

 

a) Percebo que queiramos uma versão na nossa própria variante e, se a empresa estivesse a agir directamente em Portugal, seria um erro crasso publicar textos em "brasileiro" (até porque os portugueses são, de facto, ultra-sensíveis a esta questão). Mas achar ofensivo (!) que uma empresa norte-americana nos redireccione para um site em português (mas não no exacto português que preferimos) é um pouco exagerado.

 

b) Em termos linguísticos, o português de Portugal e o português do Brasil são duas variantes da mesma língua, com diferenças que não são assim tão incomparáveis às diferenças entre o inglês britânico e o inglês americano. A grande diferença é que há muito mais contacto entre os dois ingleses. Aliás, as duas normas cultas (portuguesa e brasileira) estão muito mais próximas, na escrita, do que poderíamos pensar, como é fácil perceber lendo um livro de ciências sociais em português do Brasil, por exemplo (vejam o exemplo abaixo, dum livro brasileiro sobre, exactamente, as diferenças entre as duas variantes — se ignorarem os tremas, o blurb passaria por texto português de Portugal...). 

 

c) Ora, nisto da raiz e da fonte... Tanto nós como os brasileiros partimos duma base comum, e ambos os lados mudaram a língua — há quem diga que nós até fomos mais longe nas mudanças: por exemplo, no som "chchch" na leitura do "s" final das sílabas, que Camões dizia "ssss". Andarmos a discutir onde está a fonte rapidamente descamba em discussões sobre a pureza e a propriedade da língua, e acabamos todos a ter de dizer que falamos galego.

 

Nós somos portugueses, falamos português — e a nossa língua é muito mais do que a nossa variante europeia. É tudo o que está dentro dessa grande língua, de que devemos estar orgulhosos. Não se ofendam tanto — e leiam mais, em português dum e doutro lado. Só temos a ganhar — e nada a perder.

 

 

 

25
Fev14

Acordos e desacordos sobre o Acordo

Marco

Meus amigos, não sei se já vos tinha dito, mas não gosto muito do acordo ortográfico. Porquê? Porque foi imposto numa altura em que praticamente toda a população sabe ler e escrever e, por isso, é muito mais "violento" do que a reforma de 1911 (embora imponha muito menos alterações), porque não serve para nada — e porque tem alguns defeitos científicos. Depois, na realidade, defendo que a ortografia não deve ser regulada por lei, à semelhança do que acontece em línguas como o inglês. Deverá ser regulada de forma convencional, como o foi até ao século XIX. Regular a ortografia por lei só serve para nos chatear a cabeça, sem qualquer vantagem.

 

Mas, atenção: o acordo é apenas uma reforma entre muitas que se fizeram no português e nas outras línguas vizinhas. Não é o bicho-papão que muitos querem fazer crer e, acima de tudo, não é uma imposição do Brasil a Portugal (a ortografia brasileira também muda: perde um acento, por exemplo — o trema). Por isso, custa-me que as pessoas que são "do meu campo" (contra o acordo) caiam em exageros, como dizer que o acordo leva a "corte de raciocínio", que "ficámos aleijados", que leva a uma "descida do nosso nível cultural", que vamos ficar "deficientes linguísticos" (tudo incluído no artigo do Público de Maria Alzira Seixo). Tudo isto é um exagero, porque não ficamos mancos de raciocínio (profissionalmente, tenho de escrever de acordo com o AO e não sinto qualquer dificuldade acrescida de raciocínio), não ficamos deficientes linguísticos, não descemos o nosso nível cultural ao escrever de acordo com o Acordo. Simplesmente, mudamos de ortografia sem razão e sem grande sentido, o que não é coisa pouca.

 

Não gosto do Acordo Ortográfico, mas também não acho que tudo valha na corrida retórica para dizer mal do dito.

 

Adenda: Não sei se sabem, mas a ortografia imposta por lei nunca impõe nada em relação a blogs e quejandos. Na nossa vida privada, podemos escrever como quisermos. Até podemos escrever com erros, vejam lá! Ou na orthographia mais antiga...

24
Fev14

Freguesia da Picha

Marco

Peço desculpa, mas vai mais um post que não tem, directamente, a ver com livros. Mas, no fundo, no fundo, até tem.

 

Lembram-se das Eleições Autárquicas?

 

Já foi há uma catrefada de meses, mas acho que todos nos lembramos bem dos Tesourinhos das Autárquicas. 

 

Confesso que fiquei ligeiramente incomodado. Senti tudo aquilo a balançar entre a brincadeira inocente e um certo complexo de superioridade de alguma nata em relação ao leite.

 

Afinal, amigos, as autárquicas são as eleições mais democráticas de todas: é o povo que ali está a ser eleito, ou seja, as pessoas reais, que fazem o nosso país, e que se metem nestas coisas por vários motivos, nem todos tão baixos como o comentariat nacional acredita logo à partida, com o seu pensamento simplista e supostamente muito lúcido. 

 

Enfim, adiante. Não vale a pensa pensar muito no caso. Alguns cartazes eram, de facto, muitíssimo engraçados, e gosto de imaginar que os próprios retratados se conseguem rir daquilo. Por mim, apesar da ligeira incomodidade, não deixei de rir. É preciso é descontrair, ó gentes do meu país.

 

Agora, o caso da Picha. Este cartaz andou a circular pela net, partilhado por toda a gente:

 

 

O que tem de mal este cartaz? Aparentemente, nada. É magnífico enquanto "tesourinho das autárquicas".

 

Só que...

 

O cartaz é falso. Alguém achou que não bastavam os verdadeiros cartazes risíveis por esse país fora: teve de inventar uma freguesia que não existe.

 

Sim, porque a Picha não é freguesia.

 

Quando disse isto a alguns amigos, ficaram a coçar a cabeça: "desculpa, mas esta localidade existe, até está no Google Maps".

 

Pois claro que existe e até fica perto da Venda da Gaita. O mapa de Portugal é um caldeirão de humor.

 

A questão é a seguinte: nas eleições, andámos a eleger assembleias de freguesia, assembleias municipais e câmaras municipais. Ora, se a Picha não é freguesia (e muito menos concelho), não houve qualquer movimento candidato a uma freguesia da Picha, que não existe. 

 

Não é difícil compreender. Tal como não é difícil compreender que dificilmente alguém no seu perfeito juízo iria inventar este slogan para umas eleições. 

 

Dizem-me: "mas há gente tão parva"... Pois há, mas neste caso, os patos somos todos os que comemos este cartaz à primeira. A lógica é: "Essa gentinha que anda pelo país fora a candidatar-se a freguesias (que nojo...) só pode ser estúpida. Por isso, claro que fariam um cartaz assim estúpido. E eu, inteligente, farto-me de rir com eles."

 

É esta ideia de que toda a gente é estúpida tirando uns quantos iluminados que me faz um pouco de espécie. Mas pronto, isso sou eu, que sou um bocado ingénio. Não acho que toda a gente seja parva e, perante uma coisa destas, desconfio um pouco. Com tanta ingenuidade, engano-me várias vezes, mas desta não me enganei: confirmaram-se as fortes probabilidades de ninguém no seu perfeito juízo criar o slogan "Picha para a Frente".

 

(Já no caso do candidato ninja de Gaia, pelos vistos, era pouco provável, mas é mesmo verdade.)

 

Dizem-me também: mas o cartaz da Picha é engraçado na mesma!

 

Não, não é. Seria engraçado se fosse verdadeiro. Assim, é só uma brincadeira sem muita graça. 

 

(Um cartaz falso que teria muita graça seria o cartaz do Movimento de Elevação da Picha (a freguesia). Isso, sim.)

19
Fev14

¶ Este é o pior país do mundo?

Marco

No livro de que vos falei há pouco, há esta nota de rodapé magnífica:

 

 

[...] A esos dos hechos un filósofo podría añadir otro, menos circunstancial y quizá más profundo: la creciente capacidad de insatisfacción de los seres humanos, fruto paradójico de la creciente capacidad de las sociedades occidentales para satisfacer nuestras necesidades. “Cuando los progresos culturales son realmente un éxito y eliminan el mal, raramente despiertan entusiasmo —escribe Odo Marquard—. Más bien se dan por supuestos, y la atención se centra en los males que continúan existiendo. Así actúa la ley de la importancia creciente de las sobras: cuanta más negatividad desaparece de la realidad, más irrita la negatividad que queda, justamente porque disminuye.” — Javier Cercas, Anatomía de un instante (2009), p. 432. (negrito meu)

 

Ora, pensem lá: não será isso mesmo que leva a que o mundo tenha melhorado de forma inacreditável nos últimos 200 anos, mas a indignação pelo estado do mundo seja cada vez maior? O paradoxo, de que pouca gente se dá conta, também se verifica quando alguém diz: “isto não devia acontecer em pleno século XXI” como prova de que as coisas estão cada vez piores. Ora bem, esta frase implica que o século XXI é, de alguma forma, melhor do que os anteriores (se não o fosse, não teria lógica indignarmo-nos por “isto” acontecer neste século em particular). E, no entanto, a pessoa está a tentar provar que estamos cada vez pior…

Seja como for, concentrarmo-nos no que é negativo não deixa de ser uma boa forma de irmos acabando com o que é, de facto, negativo. O problema surge quando nos concentramos tanto no negativo que esquecemos o que já temos e acabamos por ficar desesperados, sem forças para continuar — o que leva ao risco de aceitarmos soluções tão fortes ou radicais que pomos em causa o muito de bom que se conseguiu.

Em Portugal o problema nem é que nos concentremos demasiado no que há de negativo (que pode ser muito, não é esse o caso), mas que achemos tudo, à partida, mau, perdendo a capacidade de discernimento. Achar que tudo é mau acaba por ser o mesmo de achar que tudo é bom. Não saímos do mesmo lugar nem fazemos o esforço de perceber as coisas. Ou andamos desesperados “no pior país do mundo” ou encantados com “o melhor país do mundo”. Como está tudo no mesmo saco, ninguém repara quando alguém faz alguma coisa de realmente bom.

 

Depois, basta alguém não concordar com o nosso critério sobre o que está bem e mal para termos mais uma prova de que tudo está mal…

18
Fev14

¶ Mirandês e outras manias

Marco

Ora, esta língua é, claro, o mirandês.

 

 

Esta é a edição em mirandês da Mensagem de Fernando Pessoa.

 

Não comprei isto só para encher as estantes... Tinha um interesse científico na questão, se quiserem, pois na altura estava à procura de tema para uma tese na área da tradução. Acabei por ir para direcções mais distantes, digo-vos já.

 

Agora, perguntam algumas pessoas, por que raio alguém traduziu para mirandês um livro que todos os falantes de mirandês podem ler no original?

 

A questão é complexa...

 

Primeiro, presumo que tenha sido por prazer. O tradutor, Fracisco Niebro (também conhecido por Amadeu Ferreira) fala mirandês e é um dos seus grandes defensores. Traduzir é também um prazer, principalmente quando não temos prazos para cumprir, gostamos da obra que estamos a traduzir — e queremos defender a língua para a qual estamos a traduzir.

 

Segundo, é uma forma de tornar mais literária a língua em questão (o mirandês). A tradução sempre serviu para isso — e não imaginam os doutoramentos que já se fizeram com base neste facto.

 

Terceiro, a tradução de obras marcantes da literatura e cultura portuguesas marca uma característica específica da promoção do mirandês: é feita como forma de promoção da cultura portuguesa e não como qualquer tipo de nacionalismo, regionalismo, etc. Os defensores do mirandês dizem que é a segunda língua nacional. Não dizem que a língua duma região (embora também o seja, claro).

 

Há quem diga que este tipo de defesa duma língua mais do que minoritária é absurda. Compreendo o argumento, mas não concordo. Hei-de voltar ao assunto, mas não para já...

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