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Livros & Outras Manias

Livros & Outras Manias

04
Jan17

Três razões para ler O Que Fazem Mulheres

A Baleia Que Engoliu Um Espanhol

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1. Em primeiro lugar, tem uma descrição dum homem feio de ler e chorar por mais. E não é chorar por o homem ser tão feio (é mesmo feio!), mas porque nas mãos de Camilo, até uma cara horrorosa se transforma em parágrafos deliciosos.

 

2. Palavras, tantas palavras: populares, eruditas, assim-assim... Camilo não se põe a seleccionar palavras: pega em tudo e tudo serve para nos fazer rir a bom rir. Às vezes sentimo-nos longe daquele português? Ora, amigos, nem por isso. É avançar sem medo, que estas palavras todas só fazem é bem.

 

3. É divertido. Até na forma como Camilo inventa um capítulo que podemos pôr em qualquer lugar — e afirma haver cinco páginas que não se podem ler. E elas lá estão, nesta edição, fechadas como que num envelope — e temos de as abrir se as queremos mesmo ler. Um mimo. Quanto ao parágrafo solto? Conta a história dum charuto dum mau escritor que veio a ter uma importância fenomenal no enredo desta história de choro, baba, ranho e bacamartes... Mas para saber mais, convém ler. 

 

O Que Fazem Mulheres, de Camilo Castelo Branco, Guerra e Paz, 2006. Publicado originalmente em 1858.

31
Dez16

A felicidade nos pés do Éder (e na cama numa manhã de domingo)

A Baleia Que Engoliu Um Espanhol

 

Esqueçam as previsões: tanto quanto sei, 2017 pode correr de tantas formas que nem vale a pena andar por aí a sofrer. Há-de morrer gente famosa, vão acontecer mais coisas do que imagina a mente humana e o mundo, quanto sei, até pode acabar. Bem, pelo menos que dure mais um dia para não estragar a festa de mais logo à noite.

 

E 2016? Há duas narrativas: correu mal ao mundo, mas correu bem a cada um de nós (é o que mais oico por aí). Não me vou pôr a fazer esse tipo de avaliações. Não sei se o ano me correu bem: houve coisas muito boas e coisas muito más e, no meio, o assim-assim em que passamos os dias.


Quanto ao mundo… Bem, se olharmos para os títulos das notícias o mundo já devia ter acabado. Mas só os ingénuos acham que o estado do mundo se vê nas notícias. Os títulos dos jornais dizem pouco sobre o estado do mundo e muito sobre o estado das nossas excitações. O mundo está mal? Com certeza que está. Pior do que em 2015? Tenho dúvidas.

Bem, deixemos isso. Pensemos antes nos momentos de felicidade, que é coisa mais concreta e definida. Há muita coisa que nos traz felicidade: as horas com um livro na mão, uma canção ouvida ao adormecer, um bom filme. E a felicidade complicada e difícil que as outras pessoas nos trazem. Lembro-me de ter lido numa tarde de Agosto, enquanto o meu filho brincava com os primos e eu estava deitado com a Zélia num relvado no Parque da Serafina e encontrei um parágrafo do livro Soldados de Salamina, de Javier Cercas, que não posso citar por não o ter comigo, mas em que Miralles recordava os amigos mortos na II Guerra dizendo que nunca saberão a felicidade que é ter o filho de três anos a chegar ao quarto de manhã e dormir mais um pouco ao pé dos pais. Naquela tarde de sol, enquanto o meu filho brincava ali, aquele livro triste deu-me uma felicidade imensa. E pronto, depois há a felicidade dos beijos e do calor do corpo e da alegria matreira daquilo que se faz e não se diz. Misturo muito as coisas? A nossa vida é uma grande salganhada.

(Lembrei-me agora: de certeza que a citação dos Soldados de Salamina está por aí. Fui ao Google e lá está este arremedo quase lamechas num livro muito pouco sentimental e muito bom:

«Desde que terminó la guerra no ha pasado un solo día sin que piense en ellos. Eran tan jóvenes… Murieron todos. Todos muertos. Muertos. Muertos. Todos. Ninguno probó las cosas buenas de la vida: ninguno tuvo una mujer para él solo, ninguno conoció la maravilla de tener un hijo y de que su hijo, con tres o cuatro años, se metiera en su cama, entre su mujer y él, un domingo por la mañana, en una habitación con mucho sol…»)

A felicidade nos livros, na música, nas pessoas… — e nos pés do Éder. Sim, tudo isto foi desculpa para chegar àquele momento de felicidade inesperada, aleatória, inútil e saborosa que 2016 nos deu: o golo do Éder e, mais ainda, o apito final do árbitro nessa final.

Sim, aquele golo e aquela história que ali encaixava, o país que esperou 12 anos para ganhar aquilo que uns gregos lhe roubaram, foram um momento de felicidade para milhões. Muitos reclamam que não é felicidade como deve ser, que futebol é só futebol, que… mas o que querem? Lembro-me desse momento em que o árbitro apitou para o fim do jogo e eu e a Zélia saltávamos como crianças, com o Simão a perguntar o que foi o que foi e não vou ser capaz de deixar 2016 sem um sorriso. Houve felicidades maiores neste ano de memória incerta?

Claro que sim. Mas daquelas que se partilham e que nos mandam para a rua gritar, esta foi a maior.

O Éder e a felicidade em bruto… Não é a maior felicidade do mundo, mas é uma felicidade despida, sem mas nem meio mas. Sim, não fizemos nada para a merecer, desaparece num instante, mas foi capaz de, ali durante dez minutos, pôr adversários aos saltos juntos, casais desavindos aos beijos, um pedreiro e um ministro a rir felizes e juntos, os portugueses quase todos aos saltos porque um homem feliz marcou um golo ao calhas — e tudo isso ainda nos deixa um sorriso nos lábios quando nos lembramos. Tem lógica? Não. Mas é tão bom!

Bem, desejo-vos muitos pontapés do Éder para 2017. (E se o mundo acabar, paciência.)

28
Dez16

Uma vírgula de Saramago na nossa cama

A Baleia Que Engoliu Um Espanhol

(A fonte da foto é este site.)

 

Já que estou em blogue alheio, convém dizer que me chamo Rita. E fui com o meu novo namorado passar um fim-de-semana de Natal para outras paragens que não a consoada e prendas e putos e outros cansaços.

 

Sim, sou assim, o que querem? Os meus pais não se importam e eu muito menos. Já o Daniel, coitado, teve de suar muito para justificar aos pais a ausência na mesa de Natal, mas também sei que não ia perder a oportunidade de passar três dias comigo numa casa perdida lá no meio da Serra da Estrela. Uma cama, uma banheira no quarto e muita neve a impedir-nos de sair de lá. Namoramos há menos de três meses: não há quem resista.

 

Ora, chegámos, estacionámos, percorremos os poucos metros do carro à casa com as malas na mão, a neve a atrapalhar-nos os movimentos, o cansaço da viagem de cinco horas no corpo. Abrimos a porta, ficámos de boca aberta: era o que queríamos, só que melhor ainda. Nem despimos o casaco e já estávamos embrulhados na cama a rir e depois o que se sabe. Uma bela consoada antecipada — ainda eram seis da tarde.

 

Bem, pouco depois, a lareira acesa, a neve a cair lá fora, dois copos de champanhe na mão, os lençóis espalhados e nós nus a conversar, começou a dar-nos uma moleza natalícia e ele pôs-se a ler o Facebook. Decidi levantar-me para ir buscar qualquer coisa para ler.

 

— Raios, esqueci-me do livro…

 

— Qual livro?

 

— O livro que estou a ler: O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Como é Natal…

 

Ele não se riu e tive aí o primeiro pressentimento de que alguma coisa podia correr mal. O que ele fez foi puxar-me para ele e dizer, bem-disposto, que nunca lera o Saramago e também não era agora que ia começar — porquê? Porque se recusava a ler escritores que não usam bem a pontuação.

 

Eu travei de imediato, a meio caminho do colo dele.

 

— Explica lá isso melhor…

 

Não me digas, pensei eu para comigo, que este mânfio é daqueles que acha que o Saramago não usava pontuação.

 

— Então, é o que todos sabemos: o Saramago não usava vírgulas. E elas estão lá para ser usadas! Nunca gostei dessa ideia de os escritores mandarem às malvas as regras do português…

 

Fiquei em choque e comecei a vestir-me de imediato. Fui dizendo enquanto abotoava a camisa:

 

— Tu achas mesmo que o Saramago não usava vírgulas?

 

Ele riu-se:

 

— Claro! Toda a gente sabe! Ele é conhecido por isso mesmo! Mas estás a vestir-te porquê?

 

— Não, não é conhecido por isso mesmo. É conhecido por ter sido um dos melhores escritores do século passado. Vou repetir devagarinho… — disse eu enquanto vestia as calças. — O Saramago não usava vírgulas?

 

— Claro que não!

 

— Mas tu já abriste algum livro dele?

 

— Sim, na escola, o Memorial do Convento ou lá o que era… Não havia lá vírgulas, pelo menos na minha edição.

 

— Olha, posso dizer-te que já li os livros todos dele e sempre encontrei muitas vírgulas e muitos pontos…

 

— Não inventes! Queres agora convencer-me que o Saramago usava vírgulas? É que toda a gente sabe…

 

— Lá estás tu e o «toda a gente». Então tu abriste o Memorial durante dois minutos na Secundária e achas que eu, que estou neste momento a ler um livro do homem, não reparei que ele não usa vírgulas? É isso?

 

— Pois não sei, se calhar não viste bem. É que toda a gente sabe que ele não usa vírgulas!

 

— Toda a gente sabe o car****!

 

Ele ficou embatucado. Tentou aproximar-se, amaciar-me com palavras com muitas reticências, mas eu não estava para aí virada. Comecei à procura da chave do carro.

 

— Aonde vais, amor?

 

— Vou a casa buscar o livro para te mostrar as vírgulas do Saramago.

 

— A tua casa? Em Évora?

 

— Sim, claro, é onde está o livro.

 

— E eu?

 

— Podes ficar à espera, se quiseres. Diverte-te muito, tens aí a banheira, a cama, a lareira…

 

— Vais estragar o Natal por causa duma vírgula?

 

— Sim — e abri a porta onde se via muita neve e muito frio.

 

— Ouve, tudo bem, se tu dizes que há vírgulas nos livros de Saramago, eu acredito!

 

Olhei para ele e olhei para a neve. Apetecia-me muito dar-lhe uma lição. Mas também me apetecia muito estar à lareira. Suspirei, virei-me para ele, e disse:

 

— Muito bem, mas então faz o seguinte: compra aí um livro de Saramago para o iPhone para eu te espetar a vírgula na cara, pode ser?

 

— Ficas cá se eu fizer isso?

 

— Sim.

 

O rapaz correu para o telemóvel e desatou à procura. Encontrou e descarregou, enquanto murmurava «só me faltava passar o Natal a comprar livros de Saramago». Eu fiz-lhe olhos maus, peguei no telemóvel, abri na primeira página e enfiei-lhe o ecrã nos olhos:

 

 

— Estás a ver as vírgulas ou não?

 

— Sim, estou. Mas se calhar é desta edição. Puseram as vírgulas depois.

 

— Mau, queres que eu vá mesmo a Évora e ficas a chuchar no dedo?

 

— Não, não… Mas deixa lá ver outro.

 

Descarregou O Ano da Morte de Ricardo Reis, folheou o ecrã e a certa altura encontrou uma coisa que lhe deixou um sorriso na cara:

 

 

— Estás a ver: que história é esta de maiúscula a seguir a uma vírgula?

 

— Ora, meu caro, isso são questões de estilo. É só uma pequena adaptação das convenções ortográficas para sublinhar a oralidade do relato…

 

— Estilo? Estilo? É por estas e por outras que odeio o Saramago…

 

— Odeias o Saramago? Mas porquê? Por causa das maiúsculas a seguir às vírgulas?

 

— Não: por não respeitar as regras do português, por exemplo.

 

Eu abri muito os olhos:

 

— Ora, pedir para os escritores seguirem estas convenções do diálogo é o mesmo que obrigar o Picasso a ir à Câmara Municipal perguntar quais são os tipos de tinta autorizados para os seus quadros…

 

— Mau! Mas então achas que as regras da língua são como as regras camarárias?

 

— E tu achas mesmo que isso são as regras de português que realmente importam? Saramago sabia muito bem as regras da língua e podia dar-lhes a volta exactamente porque as conhecia de trás para a frente.

 

— Conversa da treta. Irrita-me essa mania dos escritores de fazerem o que querem com a língua!

 

— Pois, isso é verdade: os escritores fazem o que querem com a língua. Pelo menos os bons.

 

Calámo-nos então e fizemos, o resto da noite, o que quisemos.

29
Set16

Cinco palavras que fazem falta à língua portuguesa

A Baleia Que Engoliu Um Espanhol

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Ando a ler o livro Lingo, de Gaston Dorren. É um livro ideal para quem gosta de línguas — e também para quem gosta de viajar e quer ver a Europa com outros olhos.

 

No final de cada capítulo, o autor escolhe uma ou duas palavras que faltam na língua inglesa. Vai buscá-las à língua descrita nesse capítulo.

 

Não são palavras intraduzíveis — porque palavras impossível de traduzir, quanto a mim, não existem. (Não me venham com o exemplo batido da «saudade»!) Todas estas palavras podem ser traduzidas — só que temos de usar mais palavras.

 

Mas, sim, há línguas que conseguem explicar um determinado conceito só com uma palavra e outras que gastam linhas e linhas para dizer a mesma coisa. Porquê? Boa pergunta.

 

Pois, hoje, quero mostrar-vos algumas dessas palavras, recolhidas por Gaston Dorren no livro de que vos falei.

 

Escolhi cinco palavras que nos podem ajudar a ter um 2016 melhor do que 2015.

 

Aqui ficam cinco palavras que fazem falta ao português:

 

  1. Gönnen. Uma palavra alemã que é o antónimo de «inveja». A sensação agradável que sentimos quando acontece alguma coisa de bom a outra pessoa. (Em português, talvez a melhor tradução seja «ficar feliz por».)
  2. Tafalle. Uma palavra em frísio (uma língua falada no norte da Holanda) que significa «acabar melhor do que o esperado».
  3. Talaka. Uma palavra bielorrussa que significa «trabalho voluntário em prol do bairro».
  4. Merak. Uma palavra sérvia e croata que significa «o prazer que sentimos quando realizamos actividades simples, como, por exemplo, estar com os amigos».
  5. Sitooterie. Uma palavra em scots, uma língua escocesa, que significa um sítio construído para um casal se sentar sozinho, em saborosa intimidade — por exemplo, num jardim ou ao pé da praia. Pode ainda ser uma sala com um sofá e uma boa paisagem ou um canto um pouco escondido, numa festa. Não é delicioso?

 

Ora, aqui está. Desejo-vos um 2016 cheio desse prazer das coisas simples, que acabe melhor do que o esperado e que tenha um ou outro momento em que possam estar, com a vossa cara-metade, numa bonita sitooterie.

 

 

UMA VERSÃO REVISTA DESTE ARTIGO FOI PUBLICADA NO LIVRO
DOZE SEGREDOS DA LÍNGUA PORTUGUESA.

LIVRO

31
Ago16

O último dia de Agosto e a felicidade (com livros)

A Baleia Que Engoliu Um Espanhol

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Este último dia de Agosto tem sempre um sabor um pouco amargo. É como as tardes de domingo: ainda não é segunda-feira, mas o peso da dita já se sente nos ombros. Pois é: ainda não é Setembro, mas as férias acabam, as praias esvaziam-se, a rotina volta. Pois hoje, para comemorar o fim do mês, deu-me para falar de felicidade. Coisa aborrecida, não?

 

Li há uns tempos no El País que a felicidade são quatro coisas: conversas, música, actividade física — e sexo. Nada contra, mas faltava o óbvio quinto elemento: livros. Enfim, a felicidade é que uma pessoa quiser — mas lá que esses cinco elementos têm a sua importância, têm sim senhor (alguns deles até se podem misturar com muito proveito: a música, então, vai bem com tudo).

 

Bem, concorde ou não com o psicólogo citado pelo El País, a verdade é que as férias sabem tão bem porque podemos fazer tudo aquilo de que gostamos sem grandes interrupções (sim, eu sei bem, quem tem filhos deixa de poder fazertudo o que quer a todo o momento — mas os filhos trazem um outro tipo de felicidade que não é chamada para este post)

 

Durante as férias, podemos aproveitar os dias à procura dessa felicidade concreta — nadar, correr, conversar, ouvir, amar. E ler, ler mesmo muito, sem intervalos. Pronto: convém comer. E dormir. Mas o tempo é imenso e as páginas dos livros passam quase sem darmos por elas, enquanto o nosso filho descobre como é bom nadar e estar ao sol.

 

Custa quando chega ao fim? Claro que sim. Mas reparem numa coisa: tudo o que disse acima não precisa de acabar no dia 31 de Agosto. Sim, teremos menos tempo. Mas a felicidade do quotidiano também implica arranjar tempo para ouvir música, beijar, correr ao fim da tarde, conversar com aqueles de quem gostamos. E ler.

 

Nesta guerra, o tempo será sempre uma espécie de inimigo — e é desesperante quando temos dias em que quase não conseguimos respirar, quanto mais ler & amar & conversar & correr. Mas desistir não vale a pena: com alguma sorte e muita arte, lá encontramos pequenas ilhas nos nossos dias para estas felicidades bem concretas.

 

É isso que vos desejo no regresso ao dia-a-dia. E, confessem lá, Setembro também tem os seus encantos. Lembro-me bem, quando era mais novo, de sentir o cheiro dos livros novos da escola e sorrir (os meus pais, a olhar para a conta, é que sorriam menos). Em Setembro, era o tempo de me reencontrar com os amigos. E continua a ser bom voltar com força e recomeçar. Pois, assim seja: um bom regresso a casa, ao trabalho e, se for o caso, às aulas — com boas conversas, uma corrida à beira-rio, algum amor, muita música e muitos livros.

 

Amanhã vou-vos contar um segredo das minhas férias: confundi a Grécia com Portugal! Amanhã, quer dizer: se tiver tempo. Bom fim de Agosto!

17
Jul16

Livro do dia | Como surgiu a Al-Qaeda?

A Baleia Que Engoliu Um Espanhol

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Livros, livros e mais livros! Vou tentar deixar neste meu canto virtual um livro interessante todos os dias.

 

Pronto: todos os dias é capaz de ser difícil. Mas tentarei sempre que possível.

 

Ora, hoje levanto-me, aproximo-me das estantes e encontro The Looming Tower: Al-Qaeda’s Road to 9/11, de Lawrence Wright (2006).

 

Em português, A Torre do Desassossego.

 

Confesso: ainda não acabei de ler esta obra gigantesca (desarrumo tantos os livros, que às vezes perco de vista obras que estou a ler…). Mas li o suficiente para saber que Wright nos explica a história dum certo tipo de fundamentalismo islâmico, aquele que nos deu a Al-Qaeda — e viria a dar origem ao Daesh, embora isso já seja história mais recente.

 

É interessante saber que a Al-Qaeda teve o seu início numa pacata cidade universitária norte-americana.

 

Não, não estou a defender uma das muitas e absurdas teorias da conspiração, que põem nas mãos do governo dos EUA a invenção dos seus inimigos.

 

O que se passa é que alguns dos intelectuais do wahhabismo (a corrente fundamentalista que deu origem ao terrorismo que nos anda a atacar) estudaram na América. No entanto, longe de estarem ao serviço dessa América, esses intelectuais aprenderam a desprezá-la por verem nela um ninho de decadência, perversão e mistura pouco saudável entre homens e mulheres.

 

Pelo que já li, o livro é um feito incomum de investigação profunda e narração inspirada. O autor explica o percurso intelectual e político da Al-Qaeda de forma detalhada, iluminando certos aspectos do nosso mundo muito para lá da história duma organização terrorista específica. Os bons livros são assim: vão além do tema principal; ou melhor, usam esse tema para mostrar o mundo doutra maneira.

 

Um pormenor: a certa altura, percebemos como muito do desprezo dos radicais islâmicos pelo Ocidente (e também pelos sectores menos radicais das suas próprias sociedades) se liga à sua aversão ao sexo fora das rigorosas margens religiosas. O Ocidente seria, na mente deles, obcecado pelo sexo, e por isso decadente e por isso desprezível. Curiosamente, também percebemos como há muito de tensão interior nesse desprezo pelos prazeres da carne. A obsessão também está no coração de muitos deles, mas reprimida até se transformar em pureza.

 

Esta obsessão pela pureza (sexual e não só) é sintoma de muito totalitarismo e muito fanatismo. Diria mesmo que «pureza» é das palavras mais perigosas do mundo. Olhem para as fotos de Osama bin Laden: o seu ar é, muitas vezes, beatífico. A sua fama era de pureza e santidade. E aí reside, muitas vezes, o mal do mundo: na necessidade de limpeza (sexual, étnica, religiosa…), na necessidade de purificação da alma, nem que seja com sangue. Muito sangue.

 

Livro do dia: The Looming Tower. Lawrence Wright (2006) [Amazon].

24
Jun16

Símbolos e sinais vindos da Escócia

A Baleia Que Engoliu Um Espanhol

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Esta é uma foto da primeira-ministra escocesa a falar aos jornalistas, há pouco, anunciando planos para um segundo referendo escocês.

Repare-se nas bandeiras que a rodeiam. A Escócia não é um Estado-membro da UE (é, tecnicamente, uma região dum Estado-membro). E, no entanto, a bandeira está lá. De propósito. Tal como a bandeira escocesa. Apenas essas. Mais nenhuma.

Agora, proponho que procurem uma foto com uma bandeira europeia numa declaração do primeiro-ministro britânico em Londres de há muitos anos para cá: será praticamente impossível. Ao contrário de quase todos os Estados-membros, o Reino Unido raramente usa os símbolos europeus.

As bandeiras são pedaços de pano, dirão alguns. Pois são. Mas são pedaços de pano muito significativos.

A verdade é que Reino Unido sempre foi um membro hesitante da União. Mas a grande ironia é que este referendo aparece numa altura em que as gerações mais novas se sentiam cada vez mais europeias e em que as décadas de convivência nos fazem sentir a todos um pouco europeus. Assim, sentimos a saída britânica como uma perda muito nossa. Mas, enfim, está feito. O Reino Unido sai. Teremos de ser amigos como dantes.

Já a Escócia... Um sinal: uma das grandes defensoras da manutenção da Escócia no Reino Unido, há dois anos, foi J. K. Rowling, que lutou com todas as suas forças contra a independência.

Pois bem. Dois tweets da autora, há poucas horas:

- "Goodbye, UK."
- "Scotland will seek independence now. Cameron's legacy will be breaking up two unions. Neither needed to happen."

Não desejo que o Reino Unido se parta em dois. Mas compreendo que os escoceses queiram ficar na Europa: a opção pela Europa foi, por larga margem, a mais votada em TODAS as regiões escocesas. Sem excepção.

E, mais: há dois anos, uns dos argumentos de quem lutou contra a independência foi este: uma Escócia independente poderia vir a ficar fora da UE. Ora, hoje, estamos ao contrário: só uma Escócia independente pode ficar na União.

Tudo isto é difícil. Raramente vemos a política nacional doutro país entrar-nos pela casa dentro e fazer-nos tanta impressão. É a democracia a funcionar, dizem. Claro que sim. Os ingleses têm todo o direito de sair. Tal como nós temos o direito de ficar tristes, como europeus que também somos. E a maior tristeza de todas é a de alguns ingleses, que percebem o que aconteceu: perderam alguns direitos e liberdades dum dia para o outro.

07
Jun16

Os segredos da língua na Feira do Livro

A Baleia Que Engoliu Um Espanhol

Como será ver a feira do outro lado?

 

Ora, é já esta sexta-feira: num dia muito apropriado, estarei na Feira do Livro, às 15h, a assinar o livro Doze Segredos da Língua PortuguesaSerá no Pavilhão B29 (Guerra & Paz).

 

Também lá estarão Helder Guégués (autor do livro Em Português, Se Faz Favor) e Manuel da Fonseca (editor da Guerra & Paz e autor do Pequeno Dicionário Caluanda).

 

O evento também está no Facebook.

 

Terei todo o gosto em conversar um pouco com os leitores do livro que por lá queiram aparecer.

 

Até sexta!

Sessoes para os autores9

 

(Já agora, mais um segredo: quem quiser receber o livro autografado em casa pode encomendá-lo através deste formulário. Mas que isto não sirva de desculpa para não aparecer na Feira…)

 

01
Mai16

Camões falava como um brasileiro?

A Baleia Que Engoliu Um Espanhol

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Alguns livros são como barras de chocolate: apetece comê-los duma vez, mas com alguma força de vontade conseguimos ir deixando uns pedaços para depois. Há um livro que é uma tentação para os meus olhos: A Mouthful of Air, de Anthony Burgess.

 

Burgess é um dos meus autores favoritos. O livro é sobre línguas. Junta-se o agradável ao apetitoso, e fico maravilhado a ler sobre línguas, sobre literatura e tudo com aquela voz inconfundível de quem faz o que quer com a coitada da língua inglesa, que no fim nem sabe de que terra é.

 

Assim, com muita força de vontade, vou lendo o livro devagarinho, ao longo de muito tempo. Sim, às vezes consigo fazer isso mesmo. Ora, há pouco apeteceu-me ler mais um pouco. Foi assim que, enquanto ao meu lado o meu filho seguia uma história de lobos e tigres, li sobre aquilo que se sabe da pronúncia de Shakespeare.

 

Burgess lá explicava, divertido, que se os nossos ouvidos de hoje em dia aterrassem na Londres isabelina e ouvissem o próprio do Shakespeare a declamar os seus sonetos ou a representar alguma das suas peças, ficariam admiradíssimos com o sotaque que hoje diríamos bem provinciano. Só como exemplo, «lust» seria lido com um «u» à portuguesa, «shame» seria algo como «shéme», «so» seria «sô», tal como «to go» («to gô»), «to know» («to nô»), etc.

 

Ora, o mesmo aconteceria se nós, portugueses de agora, nos víssemos transportados para a Lisboa quinhentista e encontrássemos Camões na rua. A sua pronúncia estaria cheia de características que hoje diríamos ser nortenhas, ou talvez agalegadas ou — caia então o Carmo e a Trindade — brasileiras!

 

Não estou a dizer que Camões falava como um brasileiro de agora. Estou apenas a dizer que a pronúncia seria tão diferente da nossa que teríamos dificuldade em localizá-la — e algumas das suas características (as vogais bem mais abertas, por exemplo) são hoje típicas do português do Brasil e não do nosso português de Portugal.

 

Para quem tem da língua a visão de qualquer coisa de imutável que alguns safados andam a mutilar, isto fará muita confusão. Mas, não: a língua muda mesmo muito ao longo dos séculos: as vogais mudam, as consoantes também, as palavras perdem e ganham sentidos de forma imprevisível, a sintaxe também tem as suas danças. (A ortografia, se formos a ver bem, até acaba por ser dos aspectos da língua que menos muda…)

 

Algumas das características do português-padrão que damos por adquiridas e que fazem parte integrante do «falar bem» de hoje em dia começaram como modas ou como maneiras de falar que os bem-falantes da época desprezavam activamente. Tudo isto tem muito de aleatório — e pouco de consciente.

 

Podemos analisar as mudanças e até combater algumas delas. Agora, o que não é verdade é que a língua exista imutável e pura, fora da boca dos seus falantes. E, sim, temos mesmo de admitir: a língua portuguesa, como qualquer outra, é um bicho difícil de apanhar e de compreender — mas, como um tigre, é um bicho perigoso, mas muito belo.

 

Sim, Camões falava um português diferente do nosso: e eu, por mim, gostava de poder ouvi-lo — não sendo possível, podemos tentar reconstruir a sua pronúncia através dum estudo aprofundado da sua escrita: olhando, por exemplo, para certas características ortográficas, para os erros que denunciam determinada forma de falar ou para as rimas, que mostram como o final das palavras soava na época (são algumas das técnicas dos linguistas históricos).

 

Enfim, é assim que sabemos que, provavelmente, Camões soaria, aos nossos ouvidos, um pouco a nortenho com travos de brasileiro. Tudo isso faz parte da nossa língua — tal como a estranha pronúncia de Shakespeare também faz parte do inglês.

 

Ora, longe de me horrorizar, pensar nisto põe-me um sorriso na boca…

 

(Para quem gosta destes assuntos da língua, deixem-me lá fazer um pouco de publicidade descarada: já conhecem o livro Doze Segredos da Língua Portuguesa?)

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