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Livros & Outras Manias

Livros & Outras Manias

06
Mar14

Ferramentas para o amante das línguas

Marco

A revista The Economist tem um gosto especial por línguas, que só pode surpreender quem se deixa enganar pelo título sóbrio da dita publicação. Afinal, esta é uma revista que finge ser aborrecida, para depois andar a brincar com as legendas (onde aparecem piadas quase como quem não quer a coisa) e com o estilo da linguagem (muito directo e, até, divertido). 

 

Para além dos artigos sobre línguas que aparecem com alguma frequência na edição impressa, um dos blogs que a revista aloja no seu site é Johnson — um blog dedicado às línguas e à linguagem. Por lá, podemos ler um post sobre as ferramentas que os amantes das línguas podem usar para descobrir mais sobre o seu amor ou outro post sobre a diferença entre "dialecto" e "língua".

 

Para quem quer saber mais sobre línguas e linguagem e não acha que já sabe tudo (um problema muito comum nesta área), é um blog interessantíssimo.

06
Mar14

O estudo científico da linguagem: o Sol parece girar à volta da Terra

Marco

Vamos imaginar o tempo de Galileu. Como sabem, Galileu defendia que a Terra girava à volta do Sol e, por causa de tal heresia, sofreu o que todos sabemos. Todos sabemos, hoje, que a Terra gira, de facto, à volta do Sol — e sabemos também que o Sol também não está parado, andando a percorrer uma órbita em redor da nossa galáxia, que por sua vez também não está propriamente parada.

 

Continuemos a imaginar que aterrámos no tempo de Galileu: perguntem a qualquer pessoa da rua e essa pessoa irá dizer, certamente, que a Terra está parada. Então não se vê? Olhamos em volta e reparamos: o mundo está parado, bem fixo no mesmo lugar. Os astro, lá em cima, é que andam à volta da Terra. Hoje já será mais difícil encontrar quem diga isso porque, ao fim de muitos séculos, o conhecimento científico lá conseguiu "infectar" o conhecimento comum.

 

Vamos continuar por esse tempo: se perguntarem a alguma pessoa da rua o que acha dessa história dum tal de Galileu defender que a Terra anda a girar em torno do Sol, o nosso entrevistado talvez dissesse que Galileu é um desses cientistas que se acha muito esperto, mas que não vê o que está à frente dos olhos de qualquer um: a Terra está bem parada, ponto final. Terá algumas ideias sobre esses cientistas: dirá, talvez, que andam a gastar dinheiro dos contribuintes, que andam ao serviço do demónio, que não sabem o que fazem, que andam a tentar desviar as crianças para o caminho do Mal (ou outra coisa qualquer). 

 

Perguntem agora a um sacerdote: ele até poderá conhecer de forma mais profunda as ideias de Galileu e até perceber a sua coerência interna, mas também sabe das implicações de aceitar tais ideias. A sua recusa será mais intelectual, mas mais aguerrida: Galileu põe em causa tudo o que há de mais sagrado. Investigar o que ele diz não interessa e a própria investigação tem de ser considerada uma heresia.

 

Ora, o que temos aqui é o seguinte:

 

a) As ideias comuns sobre determinado fenómeno.

b) As ideias científicas (sempre em evolução e não necessariamente conformes às ideias comuns).

c) As ideias comuns sobre o que fazem os cientistas.

d) As ideias dos sacerdotes (aqueles a quem interessa defender as ideias comuns por terem algum interesse ou algum investimento emocional nessas ideias).

 

Quando falamos de línguas e linguagem, temos, muitas vezes, todos estes elementos de forma igualmente clara.

 

a) As línguas são objecto de muita curiosidade e muitas ideias — "há línguas melhores do que outras", "os brasileiros falam um português imperfeito", "os lisboetas não têm sotaque", "os jovens falam cada vez pior", etc.

 

b) Existem uns cientistas que estudam as línguas e a linguagem humana chamados "linguistas". Estes cientistas têm ideias que vão evoluindo, através do confronto entre teoria e realidade, confronto esse que permite refinar essas mesmas teorias. As ideias dos cientistas e a sua terminologia nem sempre estão de acordo com as ideias comuns sobres as línguas e linguagem. Como em todas as disciplinas científicas, há vários pontos de discórdia entre cientistas, mas todos acreditam que podem aproximar-se da realidade através do estudo científico das questões (sem nunca acreditarem que estão na posse de conclusões definitivas). Por outro lado, há um grande consenso sobre alguns pontos básicos relacionados com as línguas — pontos básicos esses que nem sempre estão de acordo com as ideias comuns sobre as línguas — ou seja, em muitos pontos os linguistas, no seu conjunto, sabem coisas que as pessoas em geral desconhecem (e isto por vários motivos).

 

c) A população em geral e os especialistas doutras áreas têm ideias sobre o que os linguistas fazem que nem sempre correspondem ao que os linguistas pensam, dizem ou fazem. Por exemplo, muitos acham que a linguística defende que tudo está certo e podemos falar como quisermos, quando, na realidade, a linguística não tem como objectivo prescrever normas ou a falta de normas. (Dito isto, o conhecimento linguístico leva, normalmente, os linguistas a terem opiniões diferentes em relação a estes pontos em comparação à população em geral — da mesma forma que será mais difícil encontrar um cientista na área da física ou da astronomia que acredite em fantasmas ou na astrologia...).

 

d) Também na área das línguas e da linguagem existem sacerdotes: professores, escritores, jornalistas, tradutores, etc. Todos estes sacerdotes têm um investimento emocional muito forte em certas ideias sobre as línguas e a linguagem e nem sempre gostam das conclusões científicas sobre essa mesma área. 

 

Nesta comparação entre as ideias astronómicas científicas e comuns e as ideias linguísticas científicas e comums há uma diferença: ao contrário do que se passa com a Terra e o Sol e Galileu, os linguistas têm de tomar em consideração as ideias comuns sobre as línguas e a linguagem, porque essas ideias fazem parte do seu objecto de estudo. Ou seja, o que as pessoas acham que sabem sobre a língua que falam tem influência sobre essa mesma língua e é, por isso, objecto de estudo da linguística.

 

Mas, em grande medida, estamos a falar do mesmo fenómeno: a relação difícil entre o conhecimento comum e o conhecimento científico. É uma relação difícil por natureza, porque o conhecimento científico existe para podermos ultrapassar os enviesamentos, as generalizações e os erros do conhecimento comum. O que não quer dizer que o conhecimento comum esteja sempre errado: pode acertar, em alguns pontos (ou até, no limite, em todos) — mas tem de ser testado, integrado num sistema teórico coerente e válido (até mais ver), etc., etc. Não basta acreditar, é preciso testar...

 

Por outro lado, a todos os linguistas que desesperam por verem o conhecimento comum tão distante do conhecimento científico sobre as línguas e a linguagem, é preciso dizer: por vezes é preciso esperar séculos para que o conhecimento comum integre o que a ciência descobriu. 

 

Não deixa de doer aos linguistas, no entanto, ter de levar com a arrogância típica de quem acha que sabe... E todos nós achamos que sabemos tudo e mais alguma coisa sobre línguas e linguagem. No entanto, só quem percebe o que não sabe consegue aprender. E temos tanto a aprender e a descobrir sobre estes assuntos...

05
Mar14

Uma solução para o Acordo Ortográfico

Marco

Se ninguém se entende sobre as vantagens e desvantagens do Acordo Ortográfico de 1990 — e não vamos falar de quais são as tais vantagens e as tais desvantagens — todos podemos concordar que não há acordo ou consenso em relação a esta matéria. O que fazer a partir daqui? 

 

Há quem defenda que devemos voltar atrás e recuperar a ortografia de 1945. Outros defendem a manutenção da ortografia de 1990, ou porque concordam com o Acordo ou porque acham que o esforço de voltar atrás já não vale a pena. 

 

Há, no entanto, outra solução: revogar, pura e simplesmente, toda a regulamentação legal relativa à ortografia.

 

Reparem: a lei não define a pronúncia das palavras, não define a sintaxe das frases, não define o vocabulário. Não é necessário que defina a ortografia oficial — aliás, muitas línguas há em que a lei nada diz sobre as características da língua (basta pensar no inglês). 

 

Alguns ficarão com medo: então, e depois? Deixamos de saber escrever?

 

Claro que não! Não aconteceria nada de dramático. A comunidade linguística tem mecanismos para chegar a convenções ortográficas, que iriam evoluindo naturalmente, como acontece com a sintaxe, o vocabulário e a pronúncia.

 

Neste caso, teríamos uma dificuldade não habitual: partiríamos para a "selva ortográfica" (estou a ser irónico...) com duas ortografias que, libertas da discussão jurídica, estariam em luta permanente pela preponderância na sociedade em geral. O Estado também teria de decidir que ortografia usar no sistema de ensino — ou deixaria a decisão para as escolas (como já faz, de facto, no caso das universidades). Não viria daí nenhum drama — rapidamente chegaríamos a conclusões e, mesmo que não chegássemos, cada um usaria a ortografia preferida.

 

Haveria desvantagens? Só para quem tem aquela mentalidade uniformizadora que não admite variações ou não compreende como a linguagem humana funciona, de facto. Para estas pessoas, a língua é sempre imposta de cima para baixo. De resto, não me ocorrem desvantagens de maior.

 

Revogue-se a ortografia de 1990. E a de 1945. E a de 1911. Que a ortografia fique entregue às universidades, às escolas, às academias, às editoras, às empresas — e a quem escreve, em geral.

05
Mar14

Porque escrevemos "nh" e os espanhóis "ñ"?

Marco

Os falantes de determinada língua estabelecem uma relação tão forte entre os sons e os símbolos que são usados para os representar na escrita que se torna, por vezes, difícil perceber como podia ser doutra maneira.

 

Por exemplo, há portugueses que julgam ver no som "nh" uma qualquer característica que obriga a que o som seja representado por duas letras (um dígrafo). Ora, mesmo aqui ao lado, temos os espanhóis a escrever "ñ" e a considerar este "eñe" como uma letra autónoma.

 

Já os catalães usam "ny" para o mesmo som. Os galegos usam "ñ" na ortografia oficial, havendo uma ortografia diferente, apoiada por alguns movimentos e universidades, que usa o português "nh". 

 

Quanto ao mirandês, quem tratou de estabelecer uma ortografia única optou por "nh", à portuguesa.

 

O som "nh" tem tantas variantes porque não existia em latim. As línguas latinas acabaram por ter de se desenvencilhar sozinhas para inventar uma forma de o escrever.

 

Não só neste caso, mas em tudo o que toca à ortografia, estamos a falar de escolhas: por vezes, são escolhas que se vão acumulando ao longo de séculos, muitas vezes feitas pelos tipógrafos que pela primeira vez tiveram de passar a escrito manuscritos de autores que usavam opções diferentes conforme a página, outras vezes são opções conscientes e feitas de forma sistemática por uma pessoa ou por um grupo de pessoas encarregues de estabelecer um ortografia para uma língua. Casos há ainda que estas escolhas se tornam letra de lei, como acontece com o português, que é regulado por leis e tratados internacionais (um dos quais tem criado a polémica que todos conhecemos).

 

No entanto, mesmo quando inscrita na lei, a ortografia é sempre uma convenção. Teoricamente, uma língua (que é um fenómeno, à partida, oral) poderia adaptar-se a qualquer sistema de escrita. É possível escrever português em cirílico, por exemplo: bastaria estabelecer um conjunto de regras que fizessem a correspondência entre sons e letras (estas regras podem ser mais ou menos complexas; línguas há em que a relação é quase unívoca, como o espanhol, enquanto outras têm uma relação que, à primeira vista, é anárquica, como o inglês).  

 

Seja como for, a ortografia e em especial os símbolos que distinguem cada língua acabam por ganhar tal força na mente e no coração dos falantes que, só por si, representam e simbolizam toda uma cultura. 

 

O "ñ" é um símbolo do espanhol e da cultura espanhola, os catalães sentem o "ç" como algo que os distingue dos restantes espanhóis (o Barça é Barça e não Barza, se repararem bem) e nós, portugueses, andamos às voltas com a perda ou salvamento de algumas consoantes. 

 

Estes símbolos especiais permitem ainda distinguir línguas, mesmo quando não conseguimos lê-las. O português, por exemplo, é inconfundível com o seus conjuntos de cedilha e til:

 

 

Já o catalão, para além da cedilha e do "ny", tem este símbolo estranho entre os dois "ll":

 

http://ca.wikipedia.org/wiki/L%C2%B7L

 

 

05
Mar14

Não basta escrever em português, é preciso acertar no português!

Marco

Uma empresa que queira chegar aos clientes na língua certa não deve limitar-se a ir à Wikipédia ver qual a língua oficial do país em questão. Não só pode acabar por ferir susceptibilidades regionais (assim de repente, lançar uma campanha de marketing em ucraniano na Crimeia pode não ser a melhor opção, principalmente por estes dias), como podem acertar na língua, mas errar na versão da língua.

 

Assim, uma empresa chinesa que decida entrar no mercado brasileiro e contrate tradutores portugueses vai acabar por ter problemas — as duas normas do português estão mais próximas do que julgamos ao nível da escrita, mas não deixa de ser impossível escrever um texto neutro, ou seja, que possa ser usado dos dois lados do Atlântico sem acabar por ser considerado estranho por um dos lados.

 

Da mesma forma, contratar redactores ou tradutores brasileiros para escrever textos dirigidos aos portugueses é um erro de palmatória. O português é uma só língua — mas quem quer vender produtos num mercado não pode achar que essa língua é igual em todo o lado: nenhuma língua é uniforme, e no caso das línguas internacionais, é costume a própria norma da língua ter variantes marcadas (como é o caso do inglês, do espanhol, do francês...).

 

Isto são conselhos para as empresas. Não desvalorizem a relação emocional não só com a língua, mas também com a forma local de falar a língua: seja no Brasil, em Portugal, em Angola ou até numa parte específica de cada um desses países.

 

 

Para os utilizadores e para os leitores de literatura, o meu conselho é outro: tenham menos medo das outras versões da língua. Leiam mais, de tudo. (Vejam, a esse propósito, o post O português do Brasil aleija os portugueses?)

05
Mar14

Afinal diz-se "espanhol" ou "castelhano"?

Marco

Já me aconteceu usar o termo "espanhol" e ter alguém a corrigir-me, como se tivesse dito um grande disparate: afinal, devia saber que se diz "castelhano". Também já ouvi um espanhol a declarar alto e bom som que a sua língua é a espanhola e nunca diria que fala "castelhano", espanhol esse que parecia bastante indignado com o uso da palavra "castelhano". 

 

A questão é simples, mas, como em tudo, há quem goste de complicar. A língua oficial em Espanha (e em vários outros países) tem dois nomes: "espanhol" e "castelhano". Ambos se referem à mesma língua e são sinónimos. Ponto final.

 

Enfim, os pontos finais raramente são completamente finais... Afinal, os termos "espanhol" e "castelhano" são usados em situações diferentes, embora nunca percam a sua relação de sinonímia. Assim, Espanha usa preferencialmente o termo "espanhol" nas suas relações com o exterior (por exemplo, através da acção do Instituto Cervantes). No território espanhol, o termo "castelhano" é usado, muitas vezes, como forma de contrapor o espanhol às outras línguas de Espanha. A própria Constituição Espanhola chama "castelhano" à língua que declara oficial em toda a Espanha (co-oficial com outras línguas nalgumas regiões).

 

Nos outros países "hispanohablantes", as várias constituições escolhem, de forma aparentemente aleatória, uma ou outra denominação da língua. O uso real do nome pela população varia de país para país:

 

 

Fonte: http://es.wikipedia.org/wiki/Pol%C3%A9mica_en_torno_a_espa%C3%B1ol_o_castellano

 

Como podemos ver no mapa acima, nas regiões espanholas onde também existe outra língua oficial, usa-se preferencialmente o termo "castelhano" — isto se exceptuarmos os independentistas, que dirão "espanhol" com prazer, pois é a língua duma Espanha com a qual não se identificam. Todos os outros preferem "castelhano" porque sabem que é apenas uma das várias línguas espanholas.

 

Já conheci catalães que nunca diriam "espanhol" para se referirem à língua de Espanha — mas também conheci uma mexicana que nem conhecia o termo "castelhano" para se referir à língua que falava. Também nos E.U.A., onde o espanhol é a segunda língua, com uma tradição de séculos, praticamente ninguém usa o termo "castelhano".

 

Já a Real Academia Espanhola, assumindo que ambos os termos são correctos e sinónimos, recomenda o uso do termo "espanhol".

 

Para resumir: em Portugal, podemos usar ambos os termos. Se querem um conselho, prefiram "espanhol", que sempre é mais comum e mais claro... Mas nem por sombras se lembrem de corrigir alguém porque prefere "castelhano" a "espanhol".

04
Mar14

A situação linguística da Ucrânia

Marco

Nós, portugueses, habituados a um Estado com uma só língua (com uma excepção, eu sei) ficamos muito baralhados com a situação linguística dos outros países. Por exemplo, na Ucrânia: o que raios se passa num país onde (dizem-nos os jornalistas) uma grande parte da população fala ucraniano, mas há também muita gente a falar russo? Afinal, que línguas se falam na Ucrânia — e porquê?

 

A pergunta assume especial interesse nestes dias em que andamos a ouvir os tambores de guerra.

 

A situação é tão complexa que não chega um pequeno post para o destrinçar, mas algumas notas poderão ajudar a perceber a situação linguística da Ucrânia com mais clareza:

 

a) As fronteiras europeias são muito mais movediças do que a situação particular portuguesa pode fazer crer. Há territórios que pertenceram a muitos países ao longo dos últimos três séculos (para não irmos mais atrás). No caso da Ucrânia, há territórios que foram do Império Austro-Húngaro, outros que sempre estiveram sob o domínio (mais ou menos intenso) da Rússia — e já estamos a simplificar muito. Mas daqui resulta uma situação linguística complexa, em que partes do território sempre falaram ucraniano e outras sempre falaram russo (por "sempre" estou a querer dizer "nos últimos séculos", claro).

 

b) Durante o século XX, a Ucrânia fez parte da URSS, como sabemos. A União Soviética teve, em termos linguísticos, várias fases: houve alturas de intensa “russificação”, ou seja, de política oficial de imposição duma língua única em toda a união (o russo), outras de tolerância e até promoção das línguas “regionais” (como o ucraniano). Ou seja, alturas houve em que famílias que sempre tinham falado ucraniano começaram a incentivar os filhos a falar apenas a língua oficial da grande nação soviética, outras em que famílias que sempre tinham falado russo não se importaram que os filhos aprendessem ucraniano na escola. Estas vagas de imposições ou tolerâncias linguísticas criou situações complexas — e por isso não convém achar que há duas comunidades absolutamente separadas e opostas nesse que é o segundo maior país da Europa.

 

c) Já nos anos 90, a Ucrânia independente começou a tentar impor o ucraniano como língua nacional e oficial — algo que pode parecer natural a qualquer português. No entanto, esta imposição — que poderíamos chamar, à moda catalã, de normalização linguística — implica sempre alguma imposição às minorias, principalmente à minoria que fala russo. Também neste caso a tolerância para com o russo — que tinha sido a língua do Estado até ao momento da independência, para se tornar em língua minoritária na nova Ucrânia independente — teve fluxos e refluxos. O certo é que a língua oficial é hoje, apenas e só, o ucraniano. 

 

Estas são as três fases (em termos muito gerais) que levaram à complexa situação actual. No fundo, cada Estado — primeiro a União Soviética, depois a Ucrânia — sonha com uma situação em que tem nas suas fronteiras uma comunidade nacional e linguística homogénea. Ora tal situação é raríssima — Portugal é dos poucos países em que tal acontece de forma quase perfeita. Este “sonho” leva a a acções de uniformização e imposição intermeada por períodos de tolerância oficial e a situação acaba por ser muito mais complexa do que pensamos — principalmente num território que passou por fases de uniformização com base em duas línguas diferentes, separadas por poucos anos.

 

Dito tudo isto, sabemos que a Ucrânia se divide em duas zonas de limites pouco claros, mas que podemos identificar no seguinte mapa: 

 

http://edition.cnn.com/interactive/2014/02/world/ukraine-divided/ (mesma fonte abaixo)

 

Este mapa tem uma correspondência muito forte com o sentido de voto nas últimas eleições presidenciais: 

 

 

Esta correspondência começa a ser já um cliché quando falamos da Ucrânia.

"Ou seja, quem fala russo na Ucrânia não são apenas imigrantes?"
Exacto. Os falantes de russo na Ucrânia não são estrangeiros. Haverá muitos que imigraram de outras zonas da antiga URSS — mas uma grande parte são parte da população nativa da Ucrânia.

"Os falantes de russo são todos contra o novo governo e a favor do anterior?"
Obviamente que não. A situação não é assim tão clara. Mas há uma tendência bastante acentuada para quem considera o russo como primeira língua apoiar o governo deposto, como podemos ver no mapa acima.

"Quem fala ucraniano compreende russo e vice-versa?"
A questão da inteligibilidade das duas línguas terá de ficar para outro post. Mas independentemente da compreensão mútua, é importante compreender que os ucranianos aprenderam russo na escola durante a União Soviética — e os falantes de russo têm aprendido ucraniano nas últimas décadas. Só por aí há um grau de compreensão mútua muito elevado. Mas, como veremos noutros posts, a simples facilidade de entendimento linguístico não significa que duas comunidades se comecem a dar bem, digamos assim. Por vezes, a coisa passa-se ao contrário: a antipatia ou hostilidade leva a um maior afastamento linguístico. Veremos isso depois.

28
Fev14

O instinto da linguagem

Marco

Bem, já que andamos numa de línguas por este blog, proponho-vos este livro de Steven Pinker. Para quem tem das línguas e da linguagem humana uma visão convencional, este livro dá uma volta à cabeça parecida com a volta à cabeça de quem achava, há uns séculos, que a Terra era o centro do universo e, depois, vai-se a ver e descobre que não é bem assim.

 



A linguística — disciplina de que gosto especialmente, para horror de muitos meus amigos, que acham que mais valia dedicar-me às drogas duras — é encarada por muitos como uma heresia no espaço sagrado das Letras e muitos intelectuais acham-na tão perigosa como essa coisa da ciência no tempo da Inquisição. Mas vemos isso depois.

Pinker mostra como a linguística é uma ciência muito interessante. Ele próprio explica o seu estilo de escrita:

 

 

O que o livro faz é mostrar como muitas das ideias que as pessoas com educação avançada têm sobre a linguagem humana estão, simplesmente, erradas:

 

 

(...)

 

Já agora, se quiserem, tenham uma "pequena" aula sobre todos estes assuntos. Se não tiverem tempo, ficam pelo menos a saber qual o aspecto de Steven Pinker:

 

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