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Livros & Outras Manias

Livros & Outras Manias

01
Mai16

Camões falava como um brasileiro?

Marco

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Alguns livros são como barras de chocolate: apetece comê-los duma vez, mas com alguma força de vontade conseguimos ir deixando uns pedaços para depois. Há um livro que é uma tentação para os meus olhos: A Mouthful of Air, de Anthony Burgess.

 

Burgess é um dos meus autores favoritos. O livro é sobre línguas. Junta-se o agradável ao apetitoso, e fico maravilhado a ler sobre línguas, sobre literatura e tudo com aquela voz inconfundível de quem faz o que quer com a coitada da língua inglesa, que no fim nem sabe de que terra é.

 

Assim, com muita força de vontade, vou lendo o livro devagarinho, ao longo de muito tempo. Sim, às vezes consigo fazer isso mesmo. Ora, há pouco apeteceu-me ler mais um pouco. Foi assim que, enquanto ao meu lado o meu filho seguia uma história de lobos e tigres, li sobre aquilo que se sabe da pronúncia de Shakespeare.

 

Burgess lá explicava, divertido, que se os nossos ouvidos de hoje em dia aterrassem na Londres isabelina e ouvissem o próprio do Shakespeare a declamar os seus sonetos ou a representar alguma das suas peças, ficariam admiradíssimos com o sotaque que hoje diríamos bem provinciano. Só como exemplo, «lust» seria lido com um «u» à portuguesa, «shame» seria algo como «shéme», «so» seria «sô», tal como «to go» («to gô»), «to know» («to nô»), etc.

 

Ora, o mesmo aconteceria se nós, portugueses de agora, nos víssemos transportados para a Lisboa quinhentista e encontrássemos Camões na rua. A sua pronúncia estaria cheia de características que hoje diríamos ser nortenhas, ou talvez agalegadas ou — caia então o Carmo e a Trindade — brasileiras!

 

Não estou a dizer que Camões falava como um brasileiro de agora. Estou apenas a dizer que a pronúncia seria tão diferente da nossa que teríamos dificuldade em localizá-la — e algumas das suas características (as vogais bem mais abertas, por exemplo) são hoje típicas do português do Brasil e não do nosso português de Portugal.

 

Para quem tem da língua a visão de qualquer coisa de imutável que alguns safados andam a mutilar, isto fará muita confusão. Mas, não: a língua muda mesmo muito ao longo dos séculos: as vogais mudam, as consoantes também, as palavras perdem e ganham sentidos de forma imprevisível, a sintaxe também tem as suas danças. (A ortografia, se formos a ver bem, até acaba por ser dos aspectos da língua que menos muda…)

 

Algumas das características do português-padrão que damos por adquiridas e que fazem parte integrante do «falar bem» de hoje em dia começaram como modas ou como maneiras de falar que os bem-falantes da época desprezavam activamente. Tudo isto tem muito de aleatório — e pouco de consciente.

 

Podemos analisar as mudanças e até combater algumas delas. Agora, o que não é verdade é que a língua exista imutável e pura, fora da boca dos seus falantes. E, sim, temos mesmo de admitir: a língua portuguesa, como qualquer outra, é um bicho difícil de apanhar e de compreender — mas, como um tigre, é um bicho perigoso, mas muito belo.

 

Sim, Camões falava um português diferente do nosso: e eu, por mim, gostava de poder ouvi-lo — não sendo possível, podemos tentar reconstruir a sua pronúncia através dum estudo aprofundado da sua escrita: olhando, por exemplo, para certas características ortográficas, para os erros que denunciam determinada forma de falar ou para as rimas, que mostram como o final das palavras soava na época (são algumas das técnicas dos linguistas históricos).

 

Enfim, é assim que sabemos que, provavelmente, Camões soaria, aos nossos ouvidos, um pouco a nortenho com travos de brasileiro. Tudo isso faz parte da nossa língua — tal como a estranha pronúncia de Shakespeare também faz parte do inglês.

 

Ora, longe de me horrorizar, pensar nisto põe-me um sorriso na boca…

 

(Para quem gosta destes assuntos da língua, deixem-me lá fazer um pouco de publicidade descarada: já conhecem o livro Doze Segredos da Língua Portuguesa?)

27
Abr16

Às voltas com um livro e com a língua portuguesa

Marco

Por estes dias, tenho tido menos tempo para blogues. Ah, os dias são sempre curtos, mas costumo arranjar tempo para umas escapadelas.

 

Ora, o problema é que, para escrever, é preciso tempo, mas também cabeça, e a minha cabeça, nesta última semana, tem andado mais virada para o papel, muito por causa do livro que escrevi sobre a nossa língua, que me tem feito dar umas quantas voltas.

 

Mas não pensem que não ando com ideias: tenho deixado muitos rascunhos na caixa do blogue. Quando a cabeça assentar, lá voltarei à rotina de vos deixar por aqui uns textos sobre línguas, livros e outras manias.

 

Deixem-me só contar-vos algumas das voltas do livro. Hoje de manhã, passei por uma experiência nova: fui à TVI falar sobre os segredos da língua. Na semana passada, andei pela Bertrand do Picoas Plaza, onde a editora organizou o lançamento, que me deixou muito feliz. Quanto aos agradecimentos, fi-los ao vivo — e tenho a sorte de os poder mostrar aqui, neste vídeo, que inclui a generosa apresentação de Fernando Venâncio. Agradeço agora a todos os leitores do blogue, que foram muitíssimo importantes neste projecto.

 

Não querendo abusar da vossa paciência, deixem-me só dizer-vos mais umas palavras sobre o livro (convém fazer alguma divulgação…):

 

  • Na primeira parte («A língua e a tribo»), descrevo a forma como a língua também serve para marcar a tribo a que pertencemos. Falo de sotaques (de Lisboa e do Porto, por exemplo), do mito da palavra «saudade» e até damos uma volta pela Ucrânia. Não deixo de contar uns segredos sobre os tempos de faculdade…
  • Na segunda parte,  («A família da língua»), falamos do parente no sótão (o galego), do irmão emigrado (o português do Brasil) e dos vizinhos: as outras línguas de Portugal (e também de Espanha, aqui ao lado). Falamos ainda do inglês e do chinês (e até do persa). Desconfio que será o primeiro livro sobre o português com uma citação do Beowulf
  • Há, depois, um intervalo, onde converso um pouco sobre as crianças e a língua portuguesa. É a parte mais pessoal de todo o livro, pois por lá andam a brincar o meu filho, os meus sobrinhos e o filho duma amiga minha. É um intervalo, afinal de contas.
  • Na terceira parte («O vício do pânico), podem encontrar textos sobre os famosos falsos erros de português («famosos» para quem costuma vir aqui ao blogue).
  • Na quarta parte («O que fazer com esta língua?»), fica o leitor com algumas pistas sobre como escrever um pouco melhor, que o livro não são só histórias, também diz alguma coisa de útil…

 

Há ainda segredos sobre palavrões, sobre linguistas, sobre a Internet — e mais umas quantas coisas.

 

dozeDiga-se que muitos textos incluídos no livro começaram aqui, neste blogue, e no blogue Certas Palavras. Todos foram revistos e alterados e há umas quantas novidades: só como exemplo, incluí um texto em que falo de erros verdadeiros — sim, porque existem mesmo erros de português, claro está… (O texto está na página 163: «E agora, algo completamente diferente: erros verdadeiros!»)

 

A língua é uma paixão que partilho com muitas outras pessoas. Espero ter criado um livro que sirva para aprender, mas também para passar umas boas horas de leitura, com alguns sorrisos.

 

Com este livro, quis celebrar a nossa língua, as línguas de todo o mundo e ainda as nossas vidas, as vidas dos falantes da língua, que — como muito bem diz Fernando Venâncio no prefácio — merecem sempre o nosso respeito. O livro é uma homenagem a esses mesmos falantes.

 

Espero que gostem — e espero que se divirtam, que também para isso escrevi o livro.

 


Doze Segredos da Língua Portuguesa. Edição da Guerra & Paz. Já nas livrarias. Encomendas: Guerra & PazWook |Bertrand | Fnac

27
Abr16

O italiano não vem do latim, sabiam?

Marco

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Limitei-me a dizer isto: no Brasil, o nome correcto do planeta que vem logo a seguir a Urano é «Netuno». Sim, em Portugal é «Neptuno», mas no Brasil é «Netuno». A palavra «Netuno» é usada por professores universitários, por linguistas, por astrónomos, por todos os brasileiros; está nos dicionários, é ensinada pelos professores de português e de ciências. Não está errada. Não há qualquer argumento cientificamente válido que leve a considerar que, no Brasil, «Netuno» é um erro. Vou ser explícito: em Portugal, seria um grande erro escrever «Netuno». No Brasil, é a forma correcta.

 

Sim, o português de Portugal e o português do Brasil são diferentes. Mas alguém tinha dúvidas?

 

Desta minha afirmação, surgiu o mais surreal diálogo que alguma vez teve lugar no blogue. Por favor, leiam o diálogo todo, para perceberem os argumentos dos dois lados.

 

Nesse diálogo, alguém me tentou convencer do seguinte (preparem-se):

  • «Netuno» é um erro, fruto da ignorância dos brasileiros.
  • As palavras, em Portugal, ao longo dos séculos, mudam «cientificamente». No Brasil, mudam porque os brasileiros são ignorantes.
  • «Netuno» não quer dizer nada e é uma palavra desenraizada porque, como o português vem do latim, temos mesmo de usar o «p», sob pena de a palavra perder o sentido. Se os romanos usavam «p», a palavra tem de ter um «p» para toda a eternidade.
  • Sim, «luna» também perdeu uma letra ao longo da evolução da língua, ficando «lua», mas essa perda é científica, porque portuguesa. As perdas de letras brasileiras são só burrice.
  • Sim, os italianos dizem «Nettuno» sem «p», mas isso é porque o italiano não vem do latim. (Sim, depois deste argumento, caí no erro de continuar a conversa. Mas é essa a minha forma de respeitar o outro lado, mesmo quando está profundamente errado.)
  • «Fato» vem do gótico e por isso é erro. Que os brasileiros usem essa palavra em vez de «facto» só mostra que os brasileiros são burros.
  • Se os brasileiros usam «Netuno», se calhar estão a italianizar a sua língua. Grande erro, claro está.
  • Os brasileiros, depois de destruírem a língua, querem agora impô-la assim, estragada, aos portugueses, exigindo que passemos a usar «Netuno».
  • Se eu digo que «Netuno» está correcto no Brasil, não posso ser um verdadeiro português.

 

Perante estes argumentos, fico pasmado e chego à conclusão que não devia ter levado a conversa tão longe. É como estar a bater com a cabeça numa parede: não serve para nada a não ser aleijar a cabeça. A parede fica igual.

 

Mas, enfim, são daquelas experiências que ajudam a perceber que, nas discussões sobre a língua, há também muito de irracional e há quem, infelizmente, esteja refém duma nuvem de ideias erradas, mas muito elaboradas, um pouco à semelhança dos teóricos da conspiração noutros âmbitos. O mecanismo mental deve ser o mesmo.

 

Teria ficado tudo por ali, naquele diálogo, não fora dar-se o caso de receber um comentário em que alguém dava força aos argumentos absurdos. Ou seja, isto não é um caso isolado e talvez seja boa ideia abrir as janelas e deixar entrar um pouco de ar fresco na tal discussão absurda:

  • Em português do Brasil, a palavra «Netuno» está correcta. Sim, é uma das muitas diferenças entre o português de Portugal e o português do Brasil, que se foram acumulando nos últimos séculos, como acontece sempre que uma língua se divide em dois âmbitos sociais distintos. A razão deste afastamento é a mesma que levou ao afastamento das várias línguas latinas depois da fase comum a que chamamos «latim». (Já agora, que os brasileiros chamem à sua língua «português» e não «brasileiro» é irrelevante para determinar se uma palavra ou construção está certa ou errada no Brasil; o que conta para saber o que está correcto no Brasil é o funcionamento real da língua no Brasil, não uma qualquer elucubração sobre o que devia ser — mas não é — a língua dos brasileiros só porque tem o nome de «português».)
  • Sim, o italiano vem do latim, tendo sofrido algumas influências externas, como acontece em todas as línguas (o português, por exemplo). Teve fases intermédias (a que podemos chamar «toscano», por exemplo, já que foi a zona cujo falar serviu de base ao italiano literário), tal como acontece com o português (que teve séculos imensos entre o latim e a língua tal como falada no Portugal independente, séculos que podemos chamar os séculos galegos da língua). Não há uma única língua latina que tenha nascido inteira e pura do latim, sem qualquer fase intermédia. (Aliás, todas as línguas estão, ainda hoje, numa fase intermédia entre o que vinha antes e o que virá depois…)
  • As palavras, ao longo dos séculos, vão sofrendo alterações com o seu uso diário pela população. O mecanismo que levou à queda do «p» de «Neptuno» no Brasil é exactamente o mesmo que levou à queda de muitos outros sons em várias palavras, desde o latim popular (a origem remota da língua portuguesa) até à sua forma actual. Dizemos «cor» e não «color», «lua» e não «luna», «vitória» e não «victória», etc. O que leva à diferenciação entre línguas é o facto de estes mecanismos actuarem sobre palavras diferentes em locais diferentes. Sim, o «p» de «Neptuno» caiu no Brasil e não em Portugal. Houve outras palavras em que o «p» (falado) caiu em Portugal, mas não caiu no Brasil. A língua, nos dois países, está a afastar-se. Não há nada a fazer quanto a isso.
  • Por fim, nada justifica trazer para estas discussões argumentos como «quem não pensa como eu não é português» ou algo do género. É essa visão da língua misturada de tribalismo que leva a visões tão distorcidas do que é a linguagem humana e tão perniciosas para os falantes do português.

Sim, a visão que andei a combater naquele diálogo de surdos é esta: as línguas verdadeiras são imutáveis e o português tem uma versão perfeita, descoberta pelos portugueses a certa altura e que tem de ser preservada a todo o custo. Errado. As línguas mudam constantemente, ao longo dos séculos, e não há forma de dizer o que está certo e o que está errado sem olhar com atenção para a língua tal como ela existe, na realidade, em cada sociedade. É difícil, mas não há outra opção.

20
Abr16

Já nas livrarias: Doze Segredos da Língua Portuguesa

Marco

Um livro essencial para quem se preocupa com o português e, ao mesmo tempo, não quer ficar preso a mitos e ideias-feitas sobre a nossa língua.

 

Encomendas: Guerra & Paz | WookBertrand | Fnac

 

«Marco Neves explica-nos, em linguagem muito directa, muito confrontadora, e por isso muito estimulante, como o idioma funciona, como os mitos à volta dele se desenvolveram, como há, nestas matérias, sempre uma surpresa onde julgávamos já tudo dito.» — Fernando Venâncio, no Prefácio.

 

«E a escrita… a escrita é um encanto, fluida, ágil, com aquele tom certo entre o pessoal e o formativo, com humor q.b. e uma ponta de indignação quando é necessário.» — Ana C. B., Gene de Traça.

 

 

dozeTítulo: Doze Segredos da Língua Portuguesa
Autor: Marco Neves
N.º de Páginas: 240
PVP: €15,50
Género: Não Ficção/Língua Portuguesa
Nas livrarias a 20 de Abril
Guerra e Paz Editores

 

Sinopse:
Um livro essencial para quem se preocupa com o português e, ao mesmo tempo, não quer ficar preso a mitos e ideias-feitas sobre a nossa língua.

 

Sabia que andam a circular por aí erros que não são erros?


Sabia que as crianças precisam de muitas pa­lavras para crescer bem?


Sabia que há uma relação entre o acordo orto­gráfico e a guerra na Ucrânia?


Sabia que a palavra «saudade» não é impossí­vel de traduzir?


Sabia que todos os portugueses têm sotaque?


Sabia que o português e o galego estão tão próximos que, às vezes, se confundem?


Sabia que os palavrões fazem bem (mas não convém abusar)?

 

Num estilo claro e bem-disposto, o autor desmonta mitos e revela segredos da língua, com algumas his­tórias curiosas à mistura — e sem esquecer uma ou outra dica para escrever cada vez melhor.

 

Sobre o autor:
Marco Neves. Tem sete ofícios, todos virados para as línguas: tradutor, revisor, professor, lei­tor, conversador e, agora, autor. Não são sete? Falta este: há três anos que é tam­bém pai, com o ofício de contar histó­rias. Para lá das profissões, os amigos sempre lhe reconheceram a pancada das línguas.

 

Nasceu em Peniche e vive em Lisboa. Tem licenciatura em línguas (quem di­ria?) e mestrado na área da literatura. É director do escritório de Lisboa da em­presa de tradução Eurologos e docente de várias disciplinas de prática da tradu­ção na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.

 

Escreve no blogue Certas Palavras sobre línguas, livros e outras manias.

 

Encomendas: Guerra & Paz | Wook | Almedina | Bertrand | Fnac

 

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09
Jul14

A Língua Portuguesa faz 800 anos. Mas mais vale estar calado!

Marco

Leio este Manifesto sobre os 800 anos da nossa língua (aliás, os 800 anos do primeiro documento oficial) e acho que não deixa de ser uma forma inteligente de falar da língua sem cair no já cansativo tema do "acordo ou não acordo”. Sim, é bom falar da nossa língua sem polémicas e sem medos.

Será? Ora, já devia saber que as pessoas interessadas nestes assuntos estão especialmente susceptíveis ao vírus do purismo inflamado. Por baixo do artigo, lá encontro um link para um blog brasileiro que refere o manifesto publicado pelo Público.
Vou ler o post desse blog. O blogger faz link ao Manifesto, mas parece ficar ligeiramente enojado com o português do Manifesto: 
Eu até ia postar o texto inteiro — apócrifo — sobre os 800 anos da língua portuguesa, mas comemorar uma data tão importante com um “a nível de”, eu me recuso!
A ideia geral é esta: ah, e tal, eles até celebram a língua, mas estão a maltratá-la. Porquê? Porque no Manifesto, a certa altura, encontramos a expressão “a nível de”.

Pois, exacto. O que interessa estarmos a falar da nossa língua, quando o texto que a celebra usa tão pérfida expressão?

Bolas, tenho de perguntar: o que está errado com esse uso de “a nível de”? Será uma expressão pouco clara? Será uma expressão demasiado “popular”? Será pouco formal? É evitada por pessoas de elevado nível académico? Ou tudo isto é apenas uma irritação pessoal do autor, umas das manias linguísticas que algumas pessoas não conseguem distinguir dos erros verdadeiros?

Neste caso, para além do purismo inflamado, presumo que haja alguma confusão do blogger, que não estará habituado à variante lusitana do português, na qual "a nível de" é perfeitamente aceitável (talvez um pouco afectada). Pelos vistos, no Brasil, é considerada um "erro comum” (vejam o número seis desta lista). É, provavelmente, daquelas expressões que muitos usam e alguns acham que ninguém deve usar, porque é feio e hoje não me apetece.

Mesmo que seja um erro no Brasil (não me parece, mas não vou comentar), não é um erro na variante em que o texto está escrito. Temos aqui um exemplo claro da crítica "disparar primeiro e perguntar depois". A expressão parece errada? Vamos acusar os autores do texto de maltratarem a língua! Nem vale a pena dar o benefício da dúvida. O crítico fica sempre protegido no seu escudo de Protector da Língua. Os outros que se cuidem...

Mesmo que a expressão não fosse a mais feliz; mesmo que pudéssemos rescrever o texto para a evitar; mesmo que fosse um erro... Será o suficiente para mandar para as urtigas todo o texto? A nossa tolerância linguística só pode ser zero? Não podemos celebrar a língua e falar da língua sem medo de irritar os polícias da língua?
E o que importa aqui é o que o texto diz (até porque está muito bem escrito...). A língua que se celebra não é só a língua ideal que está na cabeça de cada um. É a língua toda, do Acre a Timor... Temos um texto que chama a atenção para essa data que ninguém conhecia: o aniversário do primeiro documento oficial em português (e, em Portugal, o Manifesto teve impacto mediático, raro nestas questões da língua). Mas que vale isso perante uma expressão que nos irrita?

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