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Livros & Outras Manias

Livros & Outras Manias

05
Jan17

Ano novo, livro novo: A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa

Marco

Para começar o ano, um novo livro. Desta vez, conto a história da nossa língua como se fosse um romance.

 

Acompanhe uma celta e um romano aos beijos, um amigo de Afonso Henriques à procura de mou­ras encantadas, Gil Vicente a perseguir um homem perigoso pelas ruas de Lisboa, uma coleccionadora de livros a fugir numa carroça para Amesterdão, Camões ao murro por causa duma dama da corte e muitas outras aventuras de que é feita esta história da língua portuguesa, recheada de deliciosas sur­presas e um toque de humor…

 

O livro estará nas livrarias no dia 18 de Janeiro, mas até dia 16 a editora Guerra e Paz tem uma campanha de pré-lançamento, com 30% de desconto.

 

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04
Jan17

Três razões para ler O Que Fazem Mulheres

Marco

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1. Em primeiro lugar, tem uma descrição dum homem feio de ler e chorar por mais. E não é chorar por o homem ser tão feio (é mesmo feio!), mas porque nas mãos de Camilo, até uma cara horrorosa se transforma em parágrafos deliciosos.

 

2. Palavras, tantas palavras: populares, eruditas, assim-assim... Camilo não se põe a seleccionar palavras: pega em tudo e tudo serve para nos fazer rir a bom rir. Às vezes sentimo-nos longe daquele português? Ora, amigos, nem por isso. É avançar sem medo, que estas palavras todas só fazem é bem.

 

3. É divertido. Até na forma como Camilo inventa um capítulo que podemos pôr em qualquer lugar — e afirma haver cinco páginas que não se podem ler. E elas lá estão, nesta edição, fechadas como que num envelope — e temos de as abrir se as queremos mesmo ler. Um mimo. Quanto ao parágrafo solto? Conta a história dum charuto dum mau escritor que veio a ter uma importância fenomenal no enredo desta história de choro, baba, ranho e bacamartes... Mas para saber mais, convém ler. 

 

O Que Fazem Mulheres, de Camilo Castelo Branco, Guerra e Paz, 2006. Publicado originalmente em 1858.

31
Dez16

A felicidade nos pés do Éder (e na cama numa manhã de domingo)

Marco

 

Esqueçam as previsões: tanto quanto sei, 2017 pode correr de tantas formas que nem vale a pena andar por aí a sofrer. Há-de morrer gente famosa, vão acontecer mais coisas do que imagina a mente humana e o mundo, quanto sei, até pode acabar. Bem, pelo menos que dure mais um dia para não estragar a festa de mais logo à noite.

 

E 2016? Há duas narrativas: correu mal ao mundo, mas correu bem a cada um de nós (é o que mais oico por aí). Não me vou pôr a fazer esse tipo de avaliações. Não sei se o ano me correu bem: houve coisas muito boas e coisas muito más e, no meio, o assim-assim em que passamos os dias.


Quanto ao mundo… Bem, se olharmos para os títulos das notícias o mundo já devia ter acabado. Mas só os ingénuos acham que o estado do mundo se vê nas notícias. Os títulos dos jornais dizem pouco sobre o estado do mundo e muito sobre o estado das nossas excitações. O mundo está mal? Com certeza que está. Pior do que em 2015? Tenho dúvidas.

Bem, deixemos isso. Pensemos antes nos momentos de felicidade, que é coisa mais concreta e definida. Há muita coisa que nos traz felicidade: as horas com um livro na mão, uma canção ouvida ao adormecer, um bom filme. E a felicidade complicada e difícil que as outras pessoas nos trazem. Lembro-me de ter lido numa tarde de Agosto, enquanto o meu filho brincava com os primos e eu estava deitado com a Zélia num relvado no Parque da Serafina e encontrei um parágrafo do livro Soldados de Salamina, de Javier Cercas, que não posso citar por não o ter comigo, mas em que Miralles recordava os amigos mortos na II Guerra dizendo que nunca saberão a felicidade que é ter o filho de três anos a chegar ao quarto de manhã e dormir mais um pouco ao pé dos pais. Naquela tarde de sol, enquanto o meu filho brincava ali, aquele livro triste deu-me uma felicidade imensa. E pronto, depois há a felicidade dos beijos e do calor do corpo e da alegria matreira daquilo que se faz e não se diz. Misturo muito as coisas? A nossa vida é uma grande salganhada.

(Lembrei-me agora: de certeza que a citação dos Soldados de Salamina está por aí. Fui ao Google e lá está este arremedo quase lamechas num livro muito pouco sentimental e muito bom:

«Desde que terminó la guerra no ha pasado un solo día sin que piense en ellos. Eran tan jóvenes… Murieron todos. Todos muertos. Muertos. Muertos. Todos. Ninguno probó las cosas buenas de la vida: ninguno tuvo una mujer para él solo, ninguno conoció la maravilla de tener un hijo y de que su hijo, con tres o cuatro años, se metiera en su cama, entre su mujer y él, un domingo por la mañana, en una habitación con mucho sol…»)

A felicidade nos livros, na música, nas pessoas… — e nos pés do Éder. Sim, tudo isto foi desculpa para chegar àquele momento de felicidade inesperada, aleatória, inútil e saborosa que 2016 nos deu: o golo do Éder e, mais ainda, o apito final do árbitro nessa final.

Sim, aquele golo e aquela história que ali encaixava, o país que esperou 12 anos para ganhar aquilo que uns gregos lhe roubaram, foram um momento de felicidade para milhões. Muitos reclamam que não é felicidade como deve ser, que futebol é só futebol, que… mas o que querem? Lembro-me desse momento em que o árbitro apitou para o fim do jogo e eu e a Zélia saltávamos como crianças, com o Simão a perguntar o que foi o que foi e não vou ser capaz de deixar 2016 sem um sorriso. Houve felicidades maiores neste ano de memória incerta?

Claro que sim. Mas daquelas que se partilham e que nos mandam para a rua gritar, esta foi a maior.

O Éder e a felicidade em bruto… Não é a maior felicidade do mundo, mas é uma felicidade despida, sem mas nem meio mas. Sim, não fizemos nada para a merecer, desaparece num instante, mas foi capaz de, ali durante dez minutos, pôr adversários aos saltos juntos, casais desavindos aos beijos, um pedreiro e um ministro a rir felizes e juntos, os portugueses quase todos aos saltos porque um homem feliz marcou um golo ao calhas — e tudo isso ainda nos deixa um sorriso nos lábios quando nos lembramos. Tem lógica? Não. Mas é tão bom!

Bem, desejo-vos muitos pontapés do Éder para 2017. (E se o mundo acabar, paciência.)

28
Dez16

Uma vírgula de Saramago na nossa cama

Marco

(A fonte da foto é este site.)

 

Já que estou em blogue alheio, convém dizer que me chamo Rita. E fui com o meu novo namorado passar um fim-de-semana de Natal para outras paragens que não a consoada e prendas e putos e outros cansaços.

 

Sim, sou assim, o que querem? Os meus pais não se importam e eu muito menos. Já o Daniel, coitado, teve de suar muito para justificar aos pais a ausência na mesa de Natal, mas também sei que não ia perder a oportunidade de passar três dias comigo numa casa perdida lá no meio da Serra da Estrela. Uma cama, uma banheira no quarto e muita neve a impedir-nos de sair de lá. Namoramos há menos de três meses: não há quem resista.

 

Ora, chegámos, estacionámos, percorremos os poucos metros do carro à casa com as malas na mão, a neve a atrapalhar-nos os movimentos, o cansaço da viagem de cinco horas no corpo. Abrimos a porta, ficámos de boca aberta: era o que queríamos, só que melhor ainda. Nem despimos o casaco e já estávamos embrulhados na cama a rir e depois o que se sabe. Uma bela consoada antecipada — ainda eram seis da tarde.

 

Bem, pouco depois, a lareira acesa, a neve a cair lá fora, dois copos de champanhe na mão, os lençóis espalhados e nós nus a conversar, começou a dar-nos uma moleza natalícia e ele pôs-se a ler o Facebook. Decidi levantar-me para ir buscar qualquer coisa para ler.

 

— Raios, esqueci-me do livro…

 

— Qual livro?

 

— O livro que estou a ler: O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Como é Natal…

 

Ele não se riu e tive aí o primeiro pressentimento de que alguma coisa podia correr mal. O que ele fez foi puxar-me para ele e dizer, bem-disposto, que nunca lera o Saramago e também não era agora que ia começar — porquê? Porque se recusava a ler escritores que não usam bem a pontuação.

 

Eu travei de imediato, a meio caminho do colo dele.

 

— Explica lá isso melhor…

 

Não me digas, pensei eu para comigo, que este mânfio é daqueles que acha que o Saramago não usava pontuação.

 

— Então, é o que todos sabemos: o Saramago não usava vírgulas. E elas estão lá para ser usadas! Nunca gostei dessa ideia de os escritores mandarem às malvas as regras do português…

 

Fiquei em choque e comecei a vestir-me de imediato. Fui dizendo enquanto abotoava a camisa:

 

— Tu achas mesmo que o Saramago não usava vírgulas?

 

Ele riu-se:

 

— Claro! Toda a gente sabe! Ele é conhecido por isso mesmo! Mas estás a vestir-te porquê?

 

— Não, não é conhecido por isso mesmo. É conhecido por ter sido um dos melhores escritores do século passado. Vou repetir devagarinho… — disse eu enquanto vestia as calças. — O Saramago não usava vírgulas?

 

— Claro que não!

 

— Mas tu já abriste algum livro dele?

 

— Sim, na escola, o Memorial do Convento ou lá o que era… Não havia lá vírgulas, pelo menos na minha edição.

 

— Olha, posso dizer-te que já li os livros todos dele e sempre encontrei muitas vírgulas e muitos pontos…

 

— Não inventes! Queres agora convencer-me que o Saramago usava vírgulas? É que toda a gente sabe…

 

— Lá estás tu e o «toda a gente». Então tu abriste o Memorial durante dois minutos na Secundária e achas que eu, que estou neste momento a ler um livro do homem, não reparei que ele não usa vírgulas? É isso?

 

— Pois não sei, se calhar não viste bem. É que toda a gente sabe que ele não usa vírgulas!

 

— Toda a gente sabe o car****!

 

Ele ficou embatucado. Tentou aproximar-se, amaciar-me com palavras com muitas reticências, mas eu não estava para aí virada. Comecei à procura da chave do carro.

 

— Aonde vais, amor?

 

— Vou a casa buscar o livro para te mostrar as vírgulas do Saramago.

 

— A tua casa? Em Évora?

 

— Sim, claro, é onde está o livro.

 

— E eu?

 

— Podes ficar à espera, se quiseres. Diverte-te muito, tens aí a banheira, a cama, a lareira…

 

— Vais estragar o Natal por causa duma vírgula?

 

— Sim — e abri a porta onde se via muita neve e muito frio.

 

— Ouve, tudo bem, se tu dizes que há vírgulas nos livros de Saramago, eu acredito!

 

Olhei para ele e olhei para a neve. Apetecia-me muito dar-lhe uma lição. Mas também me apetecia muito estar à lareira. Suspirei, virei-me para ele, e disse:

 

— Muito bem, mas então faz o seguinte: compra aí um livro de Saramago para o iPhone para eu te espetar a vírgula na cara, pode ser?

 

— Ficas cá se eu fizer isso?

 

— Sim.

 

O rapaz correu para o telemóvel e desatou à procura. Encontrou e descarregou, enquanto murmurava «só me faltava passar o Natal a comprar livros de Saramago». Eu fiz-lhe olhos maus, peguei no telemóvel, abri na primeira página e enfiei-lhe o ecrã nos olhos:

 

 

— Estás a ver as vírgulas ou não?

 

— Sim, estou. Mas se calhar é desta edição. Puseram as vírgulas depois.

 

— Mau, queres que eu vá mesmo a Évora e ficas a chuchar no dedo?

 

— Não, não… Mas deixa lá ver outro.

 

Descarregou O Ano da Morte de Ricardo Reis, folheou o ecrã e a certa altura encontrou uma coisa que lhe deixou um sorriso na cara:

 

 

— Estás a ver: que história é esta de maiúscula a seguir a uma vírgula?

 

— Ora, meu caro, isso são questões de estilo. É só uma pequena adaptação das convenções ortográficas para sublinhar a oralidade do relato…

 

— Estilo? Estilo? É por estas e por outras que odeio o Saramago…

 

— Odeias o Saramago? Mas porquê? Por causa das maiúsculas a seguir às vírgulas?

 

— Não: por não respeitar as regras do português, por exemplo.

 

Eu abri muito os olhos:

 

— Ora, pedir para os escritores seguirem estas convenções do diálogo é o mesmo que obrigar o Picasso a ir à Câmara Municipal perguntar quais são os tipos de tinta autorizados para os seus quadros…

 

— Mau! Mas então achas que as regras da língua são como as regras camarárias?

 

— E tu achas mesmo que isso são as regras de português que realmente importam? Saramago sabia muito bem as regras da língua e podia dar-lhes a volta exactamente porque as conhecia de trás para a frente.

 

— Conversa da treta. Irrita-me essa mania dos escritores de fazerem o que querem com a língua!

 

— Pois, isso é verdade: os escritores fazem o que querem com a língua. Pelo menos os bons.

 

Calámo-nos então e fizemos, o resto da noite, o que quisemos.

27
Dez16

Sete animais escondidos na língua portuguesa

Marco

A língua tem destas coisas: muitas surpresas, algumas voltas menos claras — e tem também alguns animais escondidos, que de vez em quando lá arrebitam a cabeça e dão um ar de sua graça nas nossas conversas e nos nossos escritos. Lembrei-me destes sete exemplos, embora saiba que há muitos outros animais escondidos na nossa língua: são os autarcas armados em dinossauros, são os espertos que nem raposas, são os sujos que nem porcos — mas deixemos os insultos para outro dia. Hoje quero animais inocentes. A começar na pulga…

  1. A pulga atrás da orelha. Haverá pulga mais simpática do que aquela que se esconde por trás da nossa orelha? Sim, é simpática, mas também perigosa. Às vezes, uma frase dita assim de passagem, uma palavra com uma certa entoação, uma alusão muito vaga, muito disfarçada, uma conversa que deixamos passar por distracção — e ficamos com a tal pulga a picar-nos a pele por trás da orelha. E a partir daí, começamos a puxar o fio à meada e às vezes a coisa começa a transformar-se numa bola de neve. Bem, chega de lugares-comuns. Qual é o próximo animal?
  2. Cobras e lagartos. Dizemos dos outros cobras e lagartos — que, coitados, nem sabem o uso que têm na nossa língua. Eles que até são tão pachorrentos, apesar dos medos que temos na cabeça. Quer lá a cobra saber do que andamos a maldizer. O que elas querem é paz e sossego (e um ou outro animal para matar a fome).
  3. Lágrimas de crocodilo. Não deixando o mundo dos répteis, temos ainda os crocodilos que choram a fingir. Quer dizer, na verdade somos nós, animais matreiros como poucos, que andamos a inventar essas calúnias sobre os bichos.
  4. Cães e gatos a caçar. Por cá, não dizemos que os cães e os gatos chovem, como em inglês. Mas dizemos que quem não tem cão, caça com gato. E olhem que se calhar até ficamos bem servidos, se o objectivo for caçar moscas ou ratos (ou coelhos). Ou qualquer coisa pequena que se mexa muito.
  5. Nem que a vaca tussa. Não sei muito bem porque não há-de tossir a vaca, mas pronto, a língua é assim (ou se calhar a língua até acertou e a vaca não tosse mesmo). Mas diga-se que o pacato animal, nesta expressão, até tem sorte. Quando chegamos ao mundo dos insultos, a coitada da vaca está bem servida, está.
  6. Bicho-carpinteiro. Aquilo que se mete nos móveis — mas também nas crianças e aí é que (7) a porca torce o rabo. Só o sono ou às vezes os desenhos animados aliviam essa comichão que deixa os putos aos saltos, às vezes sem saber o que fazer. Há dias em que o único antídoto é uma boa história contada no sofá, de preferência com animais que falam.

São vacas a tossir, porcas a torcer o rabo, crocodilos a chorar… Já sabemos que isto, no fundo, são tudo bichos na nossa cabeça. Será que algum destes animais, ao falar com um amigo, encolhe os ombros e diz «não sejas complicado como um humano»?

22
Dez16

Porque é que os ingleses têm frio em Portugal?

Marco


Os ingleses que tenho em mente não são bem ingleses: falo do meu irmão e da minha cunhada, que foram lá para as terras britânicas há uns anos e agora dizem que, por cá, o que sentem é frio. Mas não são só os meus «ingleses»: ainda há anos andei às voltas a mostrar Lisboa a uma holandesa que garantia sentir um briol dos antigos quando vinha a Portugal. Mas como é possível? Bem, convém explicar que estamos a falar do interior das casas… As casas do Norte da Europa estão feitas para o frio e são, por isso, quentes. Por cá, temos a mania que vivemos num Verão eterno e temos paredes que deixam passar qualquer frieza. Estarei a delirar? Mas então por que razão há tanta gente lá de cima (da Europa) que treme de frio quando se mete entre quatro paredes lusitanas? E por que razão me sinto tão quentinho quando vou visitar o meu irmão? Enfim, são preocupações de Inverno: o que vale é que amanhã os dias lá começam a crescer e em breve já ninguém acredita que também faz frio em Portugal — aqui a sul o Inverno é coisa que bate forte e passa depressa. Espero eu.

12
Dez16

O que não quero dizer ao meu filho

Marco

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Que o Pai Natal não existe acho que ele já desconfia… Até porque uns vêm dizer-lhe que é o Menino Jesus, outros falam-lhe só do tal Pai Natal e ele fica baralhado. Lá na cabeça dele já deve ter pensado: «se calhar quem compra os presentes são os pais e os avós — mas mais vale ir na brincadeira, que eles parece que gostam».

 

Portanto: não é isso que não quero dizer ao meu filho. Também não tenho medo de falar de temas mais pesados, como a morte, que ele já percebeu que existe, até porque a Disney faz o favor de matar não sei quantas personagens nos seus filmes, deixando o miúdo num pranto e nós sem saber o que dizer. É preciso matar tanto pai e tanta mãe das simpáticas criaturas daqueles filmes? São sádicos, os senhores da Disney?

 

Ora, também não será novidade para ele que neste mundo há gente cruel. Ou melhor, que toda a gente, de vez em quando, sabe ser má. Ele anda na escola: já encontrou a crueldade. E se calhar até já encontrou a crueldade mais difícil de todas: a dele próprio.

 

Agora, para lá dessas ilusões de Pais Natais e outros que tais, ele está convencido disto: que nós, os pais dele, até sabemos mais ou menos o que andamos a fazer e percebemos muito bem o mundo. Que sabemos protegê-lo de tudo e ajudá-lo a ultrapassar as dificuldades. E, é verdade, nós tentamos fazer isso mesmo — mas a verdade crua é esta: temos muito menos certezas e sabemos muito menos sobre o mundo do que ele pensa. Quando pegamos na mão dele para atravessar a estrada ou quando apontamos e explicamos o mundo sentimo-nos quase tão desorientados como ele.

 

Mais tarde ou mais cedo, ele vai descobrir isso mesmo. Espero que seja daqui a muito tempo, quando ele já conseguir orientar-se tão bem ou tão mal como qualquer um de nós. E estou convencido que ele ainda há-de descobrir isto: também os pais chegam a uma altura em que precisam que os filhos lhes peguem na mão e os orientam. Mas depois também eles descobrem que os filhos, tão espertos nestas coisas novas do mundo, na verdade também estão desorientados e lá porque sabem mandar um e-mail não quer dizer que saibam o que dizer a um pai ou a uma mãe quando a vida muda como uma casa num furacão.

 

Pois é: todos descobrimos que nesta vida amalucada não há ninguém que saiba exactamente o que fazer — mas não quero dizer isso já ao meu filho, porque o que nos vale ainda são esses primeiros anos em que os pais fingem estar a mostrar, sábios e antigos, o mundo aos filhos e os filhos brincam no mundo cheio de felicidade, numa viagem qualquer, a rir e a cantar, para ir descobrir a neve pela primeira vez.

01
Nov16

Histórias de Portugueses com Televisão

Marco

Sobre quando tanta gente se juntava para ver televisão que a casa quase vinha abaixo. Sobre o dia em que a minha avó foi ao primeiro concurso da RTP. Sobre quando fui ver o 1, 2, 3 ao vivo. Sobre o homem na Lua, o 25 de Abril, o dia em que nasceu a SIC, como deixei uma escola em polvorosa num dia de Setembro — e mais umas quantas coisas. Tudo à volta desse ecrã da nossa vida.

 

As histórias da televisão ouvimo-las quase sempre da boca de quem lá estava, dentro da pequena caixa. Mas também há o outro lado: as histórias daqueles que viam esses programas — sim, todos nós que vivemos estas últimas décadas com essa caixa na sala.

 

Já é difícil imaginar que houve uma altura em que ver imagens de pessoas em movimento numa pequena caixa era qualquer coisa de extraordinário. O meu avô conta-me que a sua mãe, a minha bisavó Manuela, pedia por vezes para desligarem a televisão para que as pessoas que lá estavam dentro descansassem um pouco. Rimo-nos hoje, mas haverá o dia em que os nossos bisnetos se rirão dos disparates que diremos sobre tecnologias que hoje ainda nem existem…

 

Pois essa caixa onde pessoas em ponto pequeno se esforçavam para nos oferecer teatro, música, notícias, humor e tanto mais — essa caixa tem muito que contar.

 

O primeiro televisor da terra: um dia a casa vem abaixo

Sempre ouvi as histórias do meu avô sobre tanta coisa e uma dessas histórias é sobre a primeira televisão da Atouguia. Foi comprada, para venda, por um daqueles comerciantes que iam mudando de ramo ao sabor do vento. O meu avô e uns amigos, de vez em quando, lá iam ver aquela grande novidade.

 

Perante aquele espanto e perante o grupo de gente que começava a juntar-se para ver televisão na loja, o meu avô virou-se para um amigo e disse-lhe: se comprássemos isto e vendêssemos bilhetes, se calhar tínhamos negócio. Entusiasmaram-se e depressa tinham uma sala onde todos podiam assistir ao que passava durante a noite, desde que pagasse 10 tostões. Imaginem o velho televisor a preto-e-branco e bancos para a assistência. Hoje, temos a televisão no bolso. Nessa altura, ver televisão era um espectáculo com a sua própria sala.

 

Ora, a certa altura, o meu avô começa a ter algum receio: talvez aparecesse por lá a Inspecção dos Espectáculos e tinham o caldo entornado. Decidiram passar o negócio para quem estava livre de chatices com inspecções: montaram a televisão num primeiro andar duma casa junto à igreja e todo o lucro ia para a paróquia. A terra continuou a ver televisão em conjunto e ninguém se chateava.

 

copiadertpmariahelenavarelaOra, um certo dia, Maria Helena, uma das locutoras da RTP, anuncia para o dia seguinte a transmissão do filme português Rosa do Adro. Pois depressa todos na terra já sabiam da novidade e todos lá estariam, dez tostões na mão, para ver o filme.

 

Seria uma enchente de deitar a casa abaixo! Literalmente: o meu avô temia pelo chão de madeira daquele primeiro andar. Ele e o amigo lá andaram o dia todo a pôr estacas — o meu avó lembra-se, aliás, do número exacto: 27 estacas. Não, não seria nessa noite que a televisão seria o motivo duma tragédia nacional.

 

À hora marcada, lá estava a terra em peso. Sentados, em pé, pendurados na janela, todos esperavam pela Rosa do Adro.

 

Esperam e esperaram — e nada.

 

Por fim, aparece Maria Helena a informar o país que, por motivos imprevistos, não seria possível transmitir o filme.

 

A sala em peso fez um «ohhh». Mas ninguém arredou pé: lá ficaram a ver o que deu nessa noite — o meu avô é que não se lembra o que foi. Imagino que estivesse atarefado a ver se o chão aguentava…

 

Parece que estas salas do televisor eram comuns a muitas terras. Poucos quilómetros ao lado, os meus avós Leonor e Faustino trabalhavam no Stella Maris de Peniche e garante-me o meu pais que por lá também havia a Sala da Televisão, onde se via televisão como hoje vemos cinema.

 

A minha avó no primeiro concurso da televisão

O ano de 1957 foi um ano especial para mim: não só me nasceu o pai, como tive uma avó na televisão. Conta o meu avô que a minha avó Gisela foi ao primeiro concurso da RTP. Estive à procura do nome e ou bem que é Quem Sabe, Sabe ou Veja se Adivinha. Ambos foram apresentados por Artur Agostinho. (Por curiosidade, encontro pelos labirintos da Internet a curiosa informação que do concurso Quem Sabe, Sabe saiu um concorrente que viria a ser famoso com outro programa: o Pe. Raúl Machado, das Charlas Linguísticas. A televisão estava a dar os primeiros passos e até ir a um concurso era maneira de entrar no meio…)

 

A minha avó chegou quase até ao fim, mas saiu de lá sem nada — porque não sabia donde era o famoso presunto. Não sabia ela e não sei eu: para mim, presunto é de toda a península! O meu avô lá me explicou que presunto que é presunto só pode ser de Chaves. A minha avó foi à televisão no primeiro ano de vida deste novo mundo e saiu de lá a saber donde vinha o bom presunto — mas sem o prémio.

 

botilde2Ah, os concursos televisivos… Uma das minhas primeiras recordações é ver o 1, 2, 3. Não só na televisão, mas também ao vivo: ali por volta de 1985, fui com os meus pais assistir à gravação do mais famoso concurso da televisão portuguesa.

 

Lembro-me pouco da gravação. Lembro-me muito mais de estar a assistir em casa à emissão e de ficarmos todos contentes quando a câmara nos mostra, a um canto, a bater palmas — o que andámos a fazer durante uns minutos antes de começar a gravação, para depois a pós-produção poder encher chouriços sempre que necessário.

 

(Mas também me lembro de andar no metro escuro de Lisboa, de olhar para uma cidade bem mais suja do que hoje, provavelmente por causa dos tubos de escape sem catalisador…)

 

A História em directo: o Homem na Lua, o Zip, Zip e a Revolução

Os meus pais lembram-se de ver o Homem a chegar à lua. A minha mãe tinha 9 anos quando Neil Armstrong chegou à Lua e deu o tal pequeno passo que no fundo era um passo de gigante para toda a Humanidade (disse ele). Conta-me ela que, lá na Atouguia da Baleia, viu vários velhotes a vir para a rua olhar para o céu, a ver se viam os americanos vestidos de astronautas a dar saltos na cara da Lua. Como não viam nada, muitos declararam imediatamente que aquilo era tudo uma grande tanga.

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Pois, se o Homem na Lua marcou a época para quem olha para os livros de história, sempre que falo com alguém sobre esses anos, quase todos referem o Zip, Zip. Diz-me o meu avô que nessa altura já havia mais televisões: nas tabernas e mesmo em muitas casas. A tal Sala da Televisão ao lado da igreja continuava a existir e a ter gente a aparecer, todos os dias, às transmissões, mas devagar esse hábito comunitário começou a desaparecer e a televisão invadiu a privacidade dos serões das casas portuguesas.

 

Mas reparem: se virem bem, a televisão uniu-nos. O país todo viveu uma revolução em directo. O 25 de Abril terá sido o primeiro acontecimento da nossa História que os Portugueses viveram ao mesmo tempo, sem esperar pela chegada de notícias pelo telégrafo. Sim, porque a televisão uniu a nação como nada até então tinha conseguido. No século XIX e durante muitas décadas do século XX, muita gente vivia sem ter grandes notícias do que se passava na capital. Pois a televisão trouxe-nos a política para dentro de casa — e os Portugueses, como poucos, assumiram o telejornal e as notícias como hábito e mesmo, diga-se, como vício. Ficámos cara a cara com os políticos, começámos a ralhar com eles, a indignar-nos com o que ouvíamos. Lembro-me de ver o meu avô Faustino a reclamar com o que alguma personagem da vida nacional estava a dizer. Imaginem isso um século antes… No festim de desaguisados partidários em que entrávamos com entusiasmo, a televisão pôs-nos a todos na mesma sala — e apesar de acabarmos a ralhar uns com os outros, estávamos todos juntos a olhar para o ecrã, pelo menos durante o telejornal. E, claro, víamos as mesmas séries, os mesmos concursos e, pela primeira vez, começámos a ouvir as mesmas palavras, com o mesmo sotaque, todos os dias.

 

Não me posso lembrar da revolução, claro está, mas já vi as gravações tantas vezes que é quase como se me lembrasse. Ali por volta de 1997, fiz um trabalho escolar de muitas páginas sobre o acontecimento e fui com uma amiga minha aceder à internet no Instituto Superior Técnico (onde estudavam umas primas dela), para conseguirmos descarregar vídeos, imagens e documentos — sim, mas isto já pertence à história da Internet, não da televisão. Fica para outros festivais de nostalgia, em que entra o barulho dos modems…

 

Do que me lembro bem, isso sim, foi de ver a reconstituição que a SIC fez pelos 25 anos da Revolução, em 1999, transmitindo os episódios à hora exacta em que aconteceram.

 

Foi um tempo de história, de paixão, de humor, de canções e paredes escritas. E eu acabei por ficar com memórias desse tempo que não vivi muito por culpa da televisão.

 

O Incêndio do Chiado e uma capital de todos nós

A mercearia da minha avó Leonor e do meu avô Faustino foi um dos sítios onde cresci: ia para lá enquanto os meus pais iam trabalhar e, quando já podia ir sozinho para a escola, passava por lá muitas vezes — e brincava no largo à frente da mercearia, com um chafariz que ainda hoje me deixa enternecido. A mercearia em si foi mudando ao sabor dos hábitos do país e das regras inscritas nas leis — quando eu era pequeno tinha um ar bem mais antigo, de mercearia a sério. Hoje em dia é um mini-mercado.

 

Arquivo da CML.

Todos almoçávamos lá muitas vezes, numa cozinha que a minha avó ainda tem. Pois cheguei lá um dia, e na televisão que estava em cima do frigorífico, uma coluna de fumo a subir pelos telhados de Lisboa — o Incêndio do Chiado. A minha família olhava para a televisão em silêncio. Lembro-me de ir visitar o Chiado algum tempo depois (não sei quanto) e ver aquilo através dum passadiço de ferro que foi instalado — aquela ferida na cidade está-me marcada na memória.

 

E, com isto, lembro outro facto curioso: por via da televisão (e também, claro, da rádio) todos os Portugueses conhecem Lisboa — ouvimos os nomes das ruas e avenidas, conhecemos os bairros, sentimos esta cidade como nossa — nem que seja por ouvirmos as notícias do trânsito de manhã. A alguns lisboetas mais ciosos da sua aldeia, isto faz confusão: mas é o que acontece com as capitais — fazem parte da paisagem mental de todos, não só de alguns.

 

Rosa Mota e outros que tais

Entre a medalha de ouro de Rosa Mota e a medalha de ouro seguinte passaram oito anos. Para mim, foram esses os anos em que comecei a reparar nas coisas. Quando, em 1992, vi os meus primeiros jogos olímpicos (que tiveram alguma responsabilidade na pancada catalã de que sofro), na minha cabeça a última medalha de ouro portuguesa era coisa muito antiga: tinha sido na década passada, em 1988!

 

Em 1996 já eu tinha 16 anos. Estava no secundário. Estava no quarto e lembro-me de ficar banzado com aquela ultrapassagem final, a Fernanda Ribeiro a ultrapassar a atleta chinesa (que momentos antes parecia ter aquilo ganho). Saltei da cama (sim, tinha televisão no quarto) e fui ter com os meus pais que estavam também felizes a olhar para o ecrã — são estranhas alegrias irracionais, mas alegrias, seja como for. Tal como também foi um pouco irracional a alegria com que em 1994 tínhamos saudado o falhanço de Baggio, que deu o Mundial de 1994 ao Brasil. Na altura, tinha as cadernetas e olhava para aquilo como um jogo de cromos. Portugal? Ah, eu sabia que Portugal nunca ia a esses campeonatos. Tinha de me contentar com o Brasil.

 

A Eurovisão, os Jogos Sem Fronteiras, a Chuva de Estrelas…

A voz do apresentador por telefone, as palmas, as canções em línguas estranhas… O grande Festival Eurovisão da Canção! Só o nome cheira a Anos 60, mas ele lá anda, a cambalear, mas ainda vivo.

 

luciaAquilo é tudo uma grande infantilidade, mas era muito nosso. Víamos aquilo em dois momentos: a canção portuguesa e a votação. Lembro-me muito bem do Quando Cai a Noite na Cidade e, depois, da Lúcia Moniz e seu cavaquinho. É um pouco ridículo e também comovente pensar no entusiasmo que este país sentiu por ficar em sexto lugar num concurso europeu de más canções e piores fatiotas. Mas, que querem?, a vida é assim.

 

Pelo menos os Jogos Sem Fronteiras assumiam a brincadeira muito a sério: aquilo eram jogos de gente adulta vestida de bonecos. Era mesmo assim — e era muito bom. Tinham coisas estranhas — como o facto de Portugal ganhar muitas vezes. E também havia isto: o País de Gales participava e a Amadora estava sempre lá. E Peniche, vejam bem.

 

jsfDiga-se que, apesar da bonecada, era um jogo com muita classe porque tinha o Eládio Clímaco a apresentar e andava a mostrar cidades do centro da Europa aos portugueses. Foi assim que soube que havia terra com nomes como Brno. Ora, eu sempre quis ir a Brno!

 

Parece que ficámos mais velhos, todos: hoje ninguém ficaria assim muito contente por passar uma noite a ver galeses vestidos de galinha a saltar para dentro de piscinas. Já nem aguentamos a Eurovisão, vejam lá bem! Parece que o país saiu da adolescência — ou se calhar fui eu.

 

O nervosismo do primeiro dia da SIC

Ora, ali por volta de 1992… Não, não foi por volta coisa nenhuma: foi mesmo no dia 6 de Outubro de 1992. Lembro-me do dia porque tinha trazido para casa um recado na caderneta e estava com medo de mostrar aos meus pais.

 

E, assim, às quatro da tarde estava eu sentado na cama dos meus pais, nervoso, e decidi distrair-me vendo a primeira emissão da SIC. A Alberta Marques Fernandes lá apareceu e o mundo mudou. A SIC trouxe muita coisa, incluindo portentos de qualidade como o Big Show SIC e ainda os primeiros seios da televisão portuguesa com o famoso Água na Boca. Ah, para os miúdos entre os 12 e os 16 anos, foi uma revelação. Mas não sejamos mauzinhos: também trouxe tanta coisa de bom…

 

Meses depois, foi a vez da TVI, mas dessa não me lembro. Não tinha recado na caderneta. Mas lembro-me que, anos depois, nos primeiros tempos da faculdade, vivi uns meses na casa da prima Raquel, uma senhora familiar do meu avô que tinha sido telefonista na RTP. Ela contava-me histórias imensas e para ela as televisões privadas eram clubes inimigos. Vestiu a camisola da RTP até morrer. Ela contava-me que adorava o Herman José — até ao dia em que ele se passou para a SIC e ela nunca mais mais o perdoou.

 

Crescer entre o Roque Santeiro e a Ally McBeal

As telenovelas, claro. Vejo um clipe qualquer do Roque Santeiro e cai-me a infância toda em cima. Mas não posso ver durante muito tempo, porque vejo como as coisas eram bem diferentes na altura e não necessariamente para melhor. Pois experimentem procurar vídeos de telenovelas portuguesas dos anos 80. Preparem-se para uma grande surpresa.

 

Roque Santeiro… Tieta… A certa altura os meus pais fizeram o desmame das telenovelas brasileiras e mudaram-nos a todos lá em casa de armas e bagagens para a ficção nacional. Assim, lembro-me bem da telenovela Pedra Sobre Pedra, mas já não vi clássicos como o Rei do Gado ou aquela telenovela meio italiana em que uma actriz que fazia as delícias dos adolescentes nacionais andava sempre a chamar pelo seu Matteo.

 

transferirEnfim, essas memórias acabam por ser acima de tudo das músicas dos genéricos: como a música da telenovela Palavras Cruzadas. Ou então de séries como Duarte & Companhia. Esta última, diga-se, aguenta-se à bronca do tempo bem melhor que as telenovelas.

 

O YouTube e a RTP Memória são um perigo: não convém andar muito por lá. Podem muito bem destruir doces ilusões. Para quem acha que antigamente é que os programas eram bons, sugiro algumas experiências. Por exemplo, vejam a transmissão do primeiro programa a cores (um dos Festivais da Canção). Reparem no público a reclamar porque alguém se enganara nas contas, os apresentadores a hesitar, deslizes saborosos mas que hoje seriam aproveitados para milhentas repetições no YouTube e para queixas infindas no Facebook sobre como esta gente não sabe apresentar um programa de televisão…

 

Sobre este efeito psicológico que nos leva a crer que antigamente é que era bom, ainda há uns tempos li um artigo que não consigo recuperar em que um jornalista explicava de forma muito concreta que os musicais de hoje da Broadway são incomparavelmente melhores do que os musicais de há umas décadas. Mas a memória melhora tudo e não reparamos. O mesmo se aplica a tanta coisa do que víamos, que nos parece muito bom porque nos apareceu à frente dos olhos nos melhores anos (que, aliás, se bem me lembro, é o nome duma qualquer série juvenil de há umas décadas — uma espécie de Riscos antes dos Riscos, que por sua vez foram um Morangos com Açúcar antes dos Morangos com Açúcar, mas com mais «problemas da vida real»).

 

Sim, a nostalgia é perigosa. Mas também é bom cair nesse pecado de vez em quando. Quem trabalhava na televisão fazia o melhor que sabia com meios muito diferentes dos de hoje. Acho que temos todos de agradecer a actores, apresentadores, guionistas. Eu, por mim, declaro: nunca teria visto tanta coisa (tanto filme, tanta peça, tanto debate) sem a televisão. Desde telenovelas a programas como Acontece… (Sim, às vezes via coisas dessas para matar a fome de livros…) A televisão foi muito importante para um rapaz ensimesmado como eu. Sim, não foi só a televisão, nem foi principalmente a televisão. Foram os livros, os jornais, a escola, as conversas — disso falaremos noutro dia. Agora, o que quero sublinhar é que também foi a televisão que me mostrou a mim o mundo — a mim e a todos, arrisco dizer.

 

ally-mcbeal-537595Não posso deixar de falar das séries do fim da adolescência da minha geração: séries como Quantum Leap, o Bocas, a Ally McBeal, o HR, o Seinfeld e outras que tais… No primeiro dia da faculdade, um puto a olhar para os alunos mais velhos sem saber o que fazer, lembro-me de ouvir umas alunas do último ano a falar do último episódio da Ally McBeal. E eu a pensar: ah, então é disso que falam os estudantes universitários!

 

Note-se: muito do que vimos ao longo destas décadas foi legendado. Por isso, vá lá, façam-me um favor e agradeçam também aos tradutores e legendadores…

 

Herman e o 11 de Setembro

Na faculdade, por vias da Marta, uma prima que trabalhava na SIC, conseguia por vezes convites para ir com os meus amigos assistir às gravações do Herman SIC. E lá íamos, todos contentes, até Paço d’Arcos, onde nos maravilhávamos com todo o ambiente das gravações de televisão.

 

Em Agosto de 2001, telefonei à Marta para saber se podíamos ir assistir à gravação da semana seguinte. Ela diz-me que não podia falar, porque tinha a redacção toda de pantanas por causa dum acidente nas obras da construção da A8, em que morreram alguns trabalhadores. Eu que lhe telefonasse na semana seguinte.

 

Deixei passar umas semanas. Decidi telefonar-lhe de novo numa bela manhã de Setembro, mas cá para mim, meio a sério meio a brincar, pensei: é melhor ligar a televisão para saber se houve mais algum acidente ou algo do género.

 

Pois, ligo a televisão e vejo uma das Torres Gémeas a deitar fumo. E, pouco depois, um avião a lançar-se contra a outra torre.

 

Deixei o Herman para depois.

 

Estava em casa. Quando as torres caem, recebo uma chamada do meu pai: «Tu estás a ver isto?» — e desligou. Na loja de electrodomésticos dele, os aviões batiam repetidamente contra as torres, multiplicados pelas dezenas de televisões em cima umas das outras — enquanto toda a gente, parada, olhava pela montra ou dentro da loja.

 

Telefono para a escola da minha mãe e peço para falar com ela. «Mãe, a América está a ser atacada!» Sim, fui um pouco alarmista, mas naquele momento era o que me apetecia dizer. Os medos da Guerra Fria voltaram todos e ela vai pela escola a chamar toda a gente, deixando-me com o telefone pendurado a ouvir as conversas nos corredores, onde professores e alunos se juntavam, sem saber se vinha aí a III Guerra Mundial.

 

Humor de Perdição

O Herman… Sim, o humor sempre foi das razões para nos agarrarmos ao pequeno ecrã — e o Herman é o gigante incontornável. Lembro-me de ouvir a música do Casino Royal, de me rir com as piadas dos programas dele dos Anos 80, de assistir, bem mais velho, ao Herman Enciclopédia e gostar muito daquilo, uma bela amostra da explosão do humor nacional que veio depois. E recordo uma certa passagem de ano apenas e só por causa do Crime da Pensão Estrelinha. 

 

O Herman também dividiu as gerações: os meus avós nunca foram muito de gostar daquele humor, mas os meus pais tinham-no como ídolo nos Anos 80. Já nos Anos 90, com a tal Enciclopédia, foi a minha geração a assumi-lo como seu. Não tínhamos ainda séries como o Paraíso Filmes nem o Gato Fedorento — agora, a verdade é que estes já pertencem mais à história da Internet, se virmos bem. Mas começaram na televisão, pois então.

 

A vitória de Portugal

Hoje, claro, vemos todos canais diferentes. E temos a internet, o YouTube, o Netflix, os blogues, o Facebook, as mensagens de telemóvel. Mas, de vez em quando, lá nos juntamos todos, como ainda há poucos meses, para assistirmos à improvável vitória de Portugal no Euro 2016. Foi assim que ouvi todo o meu prédio a gritar e a Zélia, eu e o Simão nos pusemos aos saltos os três, ridículos e felizes, como todo esse país que por um dia se uniu de novo à volta da televisão para ver um feliz jogador desengonçado a atirar uma bola para dentro da baliza. E depois desligámos todos as televisões e viemos para a rua.

 

Mas, é verdade: hoje, ligo pouco aos nossos velhos canais de televisão. Gosto mais de andar a escrever por aqui ou a navegar nos vídeos do YouTube — ou, claro, a ler um livro ou a trabalhar, que é um passatempo bastante intensivo — e há as séries e os filmes que podemos ver sem ligar a horários.

 

Às vezes, noto: havia quem reclamasse que a televisão era um meio de comunicação com pouca interacção, que nos iria deixar a todos estúpidos. Enfim, hoje têm à frente um mundo onde as pessoas comentam, interagem, ouvem e reclamam e os mesmíssimos reclamadores lá vêm dizer que isto com tanta interacção não vai lá, toda a gente comenta, toda a gente escreve no Facebook, toda a gente fala e diz o que lhe apetece — que horror! Enfim, há quem nunca esteja contente — e há quem ache que o mundo ou é perfeito ou não vale a pena.

 

Convém não menosprezar o poder da nostalgia, do que passa e não volta. Há quem confunda a emoção que sentimos ao olhar para trás com o valor absoluto das coisas, como se o passado fosse necessariamente mais genuíno e melhor. O meu filho dá-de ter memórias do que havia no tempo dele e também há-de chorar o fim de uma ou outra tradição. Como será no dia em que acabar o canal Panda? E talvez um dia ele escreva um texto num qualquer sistema que ainda não há, com saudade dos dias em que ouvia as músicas dos Caricas, que agora irritam os ouvidos dos pais…

 

A televisão lá continua, com muitos canais, em muitos ecrãs — e venha ou não a acabar, estilhace-se ou não em mil canais, faz parte das nossas memórias, faz parte das vidas de todas as gerações que por cá andam: o meu avô lembra-se do dia em que a minha avó foi à televisão, os meus pais recordam enternecidos o Zip, Zip e o Tal Canal e eu lembro-me do Vitinho a mandar-me dormir, da música do 1, 2, 3, do arranque da SIC com medo de mostrar o recado à minha mãe, do Dartacão — que por acaso o meu filho também vê e de tudo o resto que vivemos a olhar para um ecrã. E essa gente da televisão lá continua, nessa caixa que intrigava a minha bisavó, a fazer-nos um pouco mais felizes nem que seja por uns minutos e nem que seja à força dum golo marcado nos últimos minutos dum jogo contra a França.

24
Out16

ABC do Meu Filho: A de Aniversário

Marco

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Ora, hoje vou escrever sobre aniversários dos miúdos. Porquê? Porque o Simão está mesmo quase a fazer anos e vai ter a sua primeira festa para amigos. Não que nos anos anteriores não tivesse tido festa, mas era uma festa para a família e para os nossos amigos.

 

Pois, agora, no quarto aniversário, a festa é outra e é mesmo dele: foram convidados os amigos dele, da escola. E assim entramos nesse quase calvário de festas que se espalham ao longo do ano. Sim, são vinte e tal miúdos: temos assim vinte e poucas festas. Nem vale a pena pensar em fugir a esta seringa: um dos miúdos tem uma festa para a turma toda e, claro, os outros não querem deixar de ter a sua. Há que dizer que não? Porquê?

 

E onde fazer a festa? Em casa? Houve pais de colegas do Simão que, sim, optaram por levar os colegas todos para casa. Mas a Zélia e eu imaginámos 20 e tal miúdos aos saltos no apartamento, os livros todos rasgados no chão, o nosso gato a ter um ataque de coração e (o horror! o horror!) o fim da festa, em que todos já foram e para limpar ficámos nós — e claro que optámos por procurar outro sítio qualquer.

 

Um armazém cheio de festas

Não sei se já repararam, mas os aniversários das crianças transformaram-se numa verdadeira indústria: há armazéns e armazéns por essas urbes fora preparados para aguentar com várias festas em simultâneo — isto para lá doutros locais que, a certas horas, se transformam em palcos para a criançada (o Oceanário e certos museus, por exemplo). Tudo depende das idades, claro — e da carteira dos pais.

 

Pois bem, alguns torcem o nariz, mas a verdade é que a coisa funciona: as crianças divertem-se, há bolo e cantoria, no fim está tudo limpo e é bastante seguro… E foi assim que escolhemos uma dessas fábricas de festas, que o Simão exigiu ver para nos dizer se estava bem. Foi lá e já não queria sair. Podia ser ali. Aliás, podia ser ali todos os dias…

 

Cinco minutos sem timidez

O Simão já anda nisto das festas há uns meses. E há uma confissão a fazer: nem sempre ele gosta assim tanto da festa. Ou melhor, gosta, mas à distância.

 

Talvez ele tenha alguma coisa de tímido (como eu), mas ainda há poucas semanas lá ficou a brincar um pouco sozinho, sem se importar muito com as brincadeiras dos outros. Mesmo nas brincadeiras de conjunto, pediu-me para ir com ele. E assim vi-me a fazer um jogo de crianças em que devia andar ao pé-coxinho aos saltos por vários arcos coloridos sem pisar nenhum dos bonecos que lá tinham sido postos pela animadora. Isto, claro, com o Simão ao colo.

 

Os coitados dos bonecos nem sabiam o que os esperava. Só vos digo que as crianças sabem brincar melhor do que eu. A animadora da festa estava de boca aberta e lá ralhou comigo como se fosse uma criança que não sabe acertar com os pés no sítio certo… Bem, diga-se em minha defesa que os meus pés são um pouco maiores que os dos petizes.

 

Porquê aquela timidez? Não sei: todos temos os nossos dias. Enfim, nos últimos cinco minutos a timidez passa e agora o rapaz já não quer ir embora. Fala, gesticula, corre, brinca o suficiente para compensar as duas horas de timidez. E parece que, para ele, está bem assim: vai todo feliz para casa, depois de cinco minutos de verdadeira festa.

 

Prendas e rituais

As festas têm os seus rituais, claro está. O bolo, a cantoria, as prendas… Sim, as prendas são uma obsessão: eles gostam mesmo de as receber (e quem não gosta?). Mas o mais engraçado é que nas festas já notei como os miúdos também gostam muito de dar a prenda ao rei desse dia. Pois, se as crianças são habitualmente um pouco invejosas e um pouco egoístas, nesse dia aprendem esse outro prazer.

 

Mas voltando aos rituais: há hábitos estranhos que aparecem vá-se lá saber de onde. Ainda há umas semanas, fomos à festa do meu sobrinho Martim, num dos tais armazéns, ali mesmo ao pé do aeroporto, o que tinha o encanto de, por entre os miúdos a gritar, nos deixar ouvir, de tantos em tantos minutos, um avião a passar. Pois, percebi que entre a geração dos oito anos (pelo menos naquela escola), depois de cantarem os parabéns, o miúdo que faz anos tem de ir para baixo da mesa e gritar.

 

Os miúdos riem-se e batem na mesa. Os pais franzem as sobrancelhas e olham uns para os outros, para tentar perceber se aquilo será normal. E parece que é! Será porque dá sorte? Não: é mesmo porque tem de ser.

 

E ainda dizem que os miúdos não brincam!…

Sim, eu sei que muitos acham que as crianças andam metidas nos computadores e iPads e outros que tais e já não brincam. Enfim, isso são pessoas que vêem uma criança a brincar com um iPad durante uns minutos e acham que as crianças passam a vida toda assim.

 

Ora, tretas! Pelo que vejo, as crianças brincam e não é pouco. E têm tantas actividades na escola e fora da escola que às vezes até acho que mais valia estarem mais tempo sossegadas a olhar para alguma coisa — mas isto já sou eu a provocar.

 

Sim, os putos brincam e saltam e, às vezes, lá passam o dedo pelo telemóvel — e desarrumam as aplicações dos pais ou mandam mensagens absurdas ou, como há dias me aconteceu, atendem o telefone sem dar cavaco a ninguém.

 

Não acreditam que as crianças de hoje em dia também brincam? Então, basta irem a um desses armazéns de festa e vê-los aos gritos e aos saltos, a correr (menos quando têm um ou outro ataque de timidez e querem que o pai vá andar ao pé-coxinho). Ou, aliás, podem sempre ir às escolas e ver como as crianças nunca deixaram de brincar.

 

Fotos aos magotes…

E durante as festas, os pais fazem o quê?

 

Os pais põem a conversa em dia, olham (esses sim) para o telemóvel, vêm os aviões a passar, tomam café e, claro, tiram fotos sem parar. Todos tiramos tantas e tantas fotografias e, agora que não há os limites dos rolos, parece que nos perdemos num mar de gigabytes de imagens atrás de imagens. A maioria delas são terríveis: desfocadas, desenquadradas, sem lógica. Mas lá aparecem umas quantas que vale a pena imprimir e guardar.

 

Depois, claro, esquecemo-nos de as imprimir e temo-las apenas no telemóvel ou no computador — mas elas lá estão. Sim, sem qualidade de artista, mas a fazer-nos recordar essas festas. O Google, aliás, no programa Photos, lembra-se de vez em quando de nos mostrar as recordações das festas dos anos anteriores. E ficamos logo babados.

 

Digamos que as festas de aniversário, esse dia em que cada criança é o rei do mundo, são também uma espécie de marco da estrada, onde vemos como os nossos filhos mudam de ano para ano. No dia-a-dia, crescem tão devagar que nem notamos. Mas de ano a ano percebemos como tudo muda em tão pouco tempo. Eles e nós.

 

As festas são todas iguais?

Para alguns dos que já tiveram filhos há muito ou nunca os tiveram, estas festas são todas iguais. E, sim, parecem iguais: são crianças. Aos gritos. A brincar.

 

Esta aparente banalidade engana bem: acontece o mesmo com os casamentos, com os baptizados, com os funerais, com os casais aos beijos no parque, com as casas por que passamos na cidade. Acontece isto com tudo, aliás: a vida dos outros parece-nos sempre igual a todas as outras e muito banal. Pensem no casamento: haverá festa mais igual, mais banal, mais formatada? E, agora, pensem no casamento do vosso melhor amigo: terá mesmo sido assim tão banal? As festas dos nossos nunca são banais, não é verdade?

 

Todos nós somos banais para quem nos vê de certa maneira — tal como, para dizer a verdade, quase ninguém é verdadeiramente banal a todo o momento. E, assim, digo-vos: cada uma destas festas repetidas em doses industriais são tudo menos banais para a criança que faz anos nesse dia. Esta é a festa dele, desta pessoa irrepetível, que ainda há pouco era um bebé a chorar como todos os outros e agora já tem as suas impaciências, os seus desejos, o seu olhar único, a sua maneira de rir, de adormecer, de nos pedir alguma coisa. É já uma pessoa inteira, com defeitos e qualidades e um olhar bem vivo a aprender como é isto de viver cada dia, de perceber o mundo — e de estar com os amigos, que é coisa para nos deixar felizes durante um bom bocado.

19
Out16

Cinco palavras catalãs que me fazem cócegas

Marco

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Já vos disse aqui que as outras línguas ibéricas são, para mim, um estranho prazer — uma espécie de línguas secretas que nem todos vêem. Ora, os prazeres são para partilhar e, depois de alguns dias em terras catalãs, lembrei-me de vos trazer cinco palavras que me fazem cócegas nessa língua do outro lado da península.

Nit

Dizer «bona nit!» é simpático, mas para um português o estranho é ouvir um «bon dia» assim de chofre, sem nada que desmanche a ilusão que estamos a ouvir a nossa língua. Não estamos. Mas, durante aqueles segundos, parece.

Bem, avancemos então no dia. «Boa tarde» é «bona tarda». E, depois, a noite… A palavra «nit» é intrigante. Sim, estamos a caminhar até à «nuit» francesa, mas não temos nenhum «u» e estamos longe da «noite» portuguesa ou da «noche» castelhana, sempre com o «O» a lembrar-nos uma certa escuridão.

Sim, isto sou eu a delirar. A escuridão da noite não está nas palavras e sim no céu, mas o que querem? Quando oiço «nit» lembro-me de duas coisas: dum qualquer grito de alegria nocturna e ainda duns certos cavaleiros ingleses que gritavam «NIIII!».

Tardor

Não sei se me soa a Terra Média («e os cavaleiros puseram-se a caminho em direção às negras terras de Tardor») ou a qualquer coisa de tardio, ainda um pouco quente —  ou talvez me soe ao aspecto ardido das folhas castanhas no chão. Não faço ideia, mas sei que soa bem. É «outono» em catalão, mas lembra-me também o entardecer e uma certa mansidão. As outras línguas são assim: às vezes põem-nos a ver as coisas pela primeira vez.

Cap

Esta é uma estranha palavra que tanto quer dizer «cabeça», como «chefe» e ainda «cabo», «nenhum» — ou «em direcção a». E olhem que não fica por aqui.

Ou seja, «cap al cap» será «em direcção ao cabo». «No tinc cap pressa» é «não tenho nenhuma pressa». «El cap del meu cap» — «a cabeça do meu chefe».  Uma palavra bem cheia… (E espero não ter metido os pés pelas mãos com o atrevimento de escrever umas frases em catalão.)

Seny

Como nós, que temos sempre a saudade na boca quando nos falam do que é ser português, também os catalães tentam definir o seu carácter com uma ou duas palavras. Neste caso, duas: «seny» (bom senso) e «rauxa» (loucura) — uma estranha mistura que há uns anos li descrita (não sei bem onde) como alguém a tratar de negócios à varanda do hotel, mas todo nu. E se calhar com um bigode à Dali. Como sempre, estas caracterizações nacionais são perigosas, redutoras, ilusórias — o que quiserem. Mas aqui fica a tal «seny» nem que seja para vos dizer que o «ny» se lê «nh». Sim, em catalão, Catalunha escreve-se «Catalunya».

Una mica més: dona, germà, manjar, parlar, diner, sopar, esmorzar, novel·la…

Não me consegui ficar pelas cinco… Não sei porquê, mas acho a expressão «una mica» muito engraçada (quer dizer «um pouco»). Também acho curiosa a palavra «dona» (mulher) ou «germà» (irmão) ou «manjar» (comer) ou «parlar» (falar). E estranho, estranho é dizer «diner» para o «almoço». Já o jantar é «sopar». E o pequeno-almoço? «Esmorzar». Depois, temos ainda isto: «dona» no plural dá «dones» (mas o «e» lê-se quase como o nosso «a»). «Irmã» é «germana» e, assim, irmãs são «germanes». Ah, e «primo» é «cosí».

Para terminar, fiquem com a palavra «novel·la» (romance). Tem aquele símbolo estranho, exclusivamente catalão: assinala que os dois LL não se devem ler como o nosso «lh», mas antes como dois LL separados, um em cada sílaba. «Una novel·la excel·lent» é, por exemplo, La plaça del diamant, de Mercè Rodoreda (notem o «ç», que também existem em catalão).

Experimentem lê-la. Devagar, com a língua entre os dentes e o dedo a acompanhar as palavras, podemos ir aprendendo esta outra língua que nos faz cócegas, ao mesmo tempo tão próxima e tão distante.

Fins demà!

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