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Livros & Outras Manias

Livros & Outras Manias

19
Jul16

As maluqueiras e as nossas memórias

Marco Neves

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Sim, as modas vêm e vão. Num dia, estamos todos a falar do Pokémon Go, amanhã ninguém se lembra. A semana passada estávamos todos de sorriso na cara e de bandeira na mão. Amanhã talvez não.

 

E, no entanto, as modas, as maluqueiras, as "crazes" do dia são o material de que se fazem as nossas boas memórias do futuro.

 

Sim, eu sei, temos todos medo do ridículo, medo de sermos mais uma Maria-vai-com-as-outras. Mas às vezes sabe bem. Não se esqueçam que quase tudo o que fazemos, visto a uma certa luz, é ridículo.

 

Daqui a muitos anos, vamos lembrar-nos daquilo que é muito nosso (o primeiro beijo, aquela noite sozinhos ao luar, uma conversa perfeita com alguém), mas também daquilo que fizemos com muita gente: dos concertos, das multidões, dos programas que todos víamos ou ouvíamos.

 

Hoje, já todos sentimos nostalgia daquilo que todos víamos ou fazíamos nos anos 80 e 90 (falo da minha geração, claro). Falo do Dartacão, dos hulahoops (ou lá como se chamava aquilo), do Fizz Limão, de tudo o que aparece na Caderneta de Cromos do Nuno Markl.

 

Não temos de todos gostar de tudo: muitas destas "crazes" passam-me ao lado. Mas fazem-me mal? Nem por isso. Vá: irritem-se menos, vivam mais.

 

E, sim, estas nossas manias de hoje são o material da nostalgia do futuro. Lembras-te do concerto que vimos no NOS Alive? Ou das piadas do Markl? Ou das filas para comprar o Harry Potter? Ou a festa do Euro 2016 na Alameda? Ou da noite em que fomos os cinco caçar Pokémons para Monsanto?

 

Sim, ainda assim prefiro os beijos e aquilo que é só nosso. Mas estas maluqueiras colectivas também fazem parte da felicidade.

17
Jul16

Livro do dia | Como surgiu a Al-Qaeda?

Marco Neves

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Livros, livros e mais livros! Vou tentar deixar neste meu canto virtual um livro interessante todos os dias.

 

Pronto: todos os dias é capaz de ser difícil. Mas tentarei sempre que possível.

 

Ora, hoje levanto-me, aproximo-me das estantes e encontro The Looming Tower: Al-Qaeda’s Road to 9/11, de Lawrence Wright (2006).

 

Em português, A Torre do Desassossego.

 

Confesso: ainda não acabei de ler esta obra gigantesca (desarrumo tantos os livros, que às vezes perco de vista obras que estou a ler…). Mas li o suficiente para saber que Wright nos explica a história dum certo tipo de fundamentalismo islâmico, aquele que nos deu a Al-Qaeda — e viria a dar origem ao Daesh, embora isso já seja história mais recente.

 

É interessante saber que a Al-Qaeda teve o seu início numa pacata cidade universitária norte-americana.

 

Não, não estou a defender uma das muitas e absurdas teorias da conspiração, que põem nas mãos do governo dos EUA a invenção dos seus inimigos.

 

O que se passa é que alguns dos intelectuais do wahhabismo (a corrente fundamentalista que deu origem ao terrorismo que nos anda a atacar) estudaram na América. No entanto, longe de estarem ao serviço dessa América, esses intelectuais aprenderam a desprezá-la por verem nela um ninho de decadência, perversão e mistura pouco saudável entre homens e mulheres.

 

Pelo que já li, o livro é um feito incomum de investigação profunda e narração inspirada. O autor explica o percurso intelectual e político da Al-Qaeda de forma detalhada, iluminando certos aspectos do nosso mundo muito para lá da história duma organização terrorista específica. Os bons livros são assim: vão além do tema principal; ou melhor, usam esse tema para mostrar o mundo doutra maneira.

 

Um pormenor: a certa altura, percebemos como muito do desprezo dos radicais islâmicos pelo Ocidente (e também pelos sectores menos radicais das suas próprias sociedades) se liga à sua aversão ao sexo fora das rigorosas margens religiosas. O Ocidente seria, na mente deles, obcecado pelo sexo, e por isso decadente e por isso desprezível. Curiosamente, também percebemos como há muito de tensão interior nesse desprezo pelos prazeres da carne. A obsessão também está no coração de muitos deles, mas reprimida até se transformar em pureza.

 

Esta obsessão pela pureza (sexual e não só) é sintoma de muito totalitarismo e muito fanatismo. Diria mesmo que «pureza» é das palavras mais perigosas do mundo. Olhem para as fotos de Osama bin Laden: o seu ar é, muitas vezes, beatífico. A sua fama era de pureza e santidade. E aí reside, muitas vezes, o mal do mundo: na necessidade de limpeza (sexual, étnica, religiosa…), na necessidade de purificação da alma, nem que seja com sangue. Muito sangue.

 

Livro do dia: The Looming Tower. Lawrence Wright (2006) [Amazon].

06
Jul16

7 maneiras de viver melhor com o Facebook

Marco Neves

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Chegou o Verão, tempo de deixar a roupa pesada e ir para a praia de calção e chinelo. Pois, este blogue faz algo parecido: vou deixar por aqui alguns artigos mais leves, de chinelo no dedo.

 

O primeiro é sobre o Facebook.

 

O Facebook é parte da nossa vida, para o bem e para o mal. Até na praia, até na piscina, até ao acordar com o sol na cara. Muitos de nós já passamos bastante tempo nessa praça virtual. Será mau? O excesso raramente é bom, mas já que andamos por lá, podemos imaginar formas de viver melhor com esta ferramenta (ou o que lhe quiserem chamar).

 

Pus-me a pensar e vieram-me à ideia sete dicas para viver melhor com o Facebook.

 

Haverá outras, possivelmente bem mais úteis. Mas estas parecem-me razoáveis. Há que começar por algum lado...

 

1. Partilhar as fotografias dos filhos e das férias só com os amigos mais próximos

Tal como quando andamos na rua, há regras a respeitar — e temos de aprender alguns truques. Sim, é preciso olhar para os dois lados antes de atravessar a estrada — e é essencial aprender a lidar com as configurações de privacidade do Facebook.

 

O Facebook equivale a mandar uma carta aos amigos mais próximos — ou publicar uma foto num jornal. Não devemos confundir estas duas maneiras de publicar no Facebook...

 

Assim, no que toca às fotografias dos filhos, proibi-las de todo parece-me excessivo. O que devemos fazer é criar uma lista dos amigos próximos, daqueles a quem não nos importaríamos de enviar fotos das férias ou dos filhos por WhatsApp — ou num envelope por correio.

 

Não é fácil? Não é difícil. O próprio Facebook ajuda nesta página.

 

Sim, quando escrevo um artigo no blogue gosto de partilhar pelas centenas de «conhecidos do Facebook» e pelos amigos próximos e distantes. Quando publico uma foto do Simão, gosto que os amigos íntimos a vejam. Só eles.

 

2. Deixar as discussões acaloradas para quando nos encontramos ao vivo

No Facebook, é muito fácil começar uma discussão — o difícil é terminá-la. Ao vivo, falamos à vontade, às vezes levantamos a voz, no calor da discussão, mas depois é fácil dizer que já chega, que isso agora não interessa: basta um sorriso, um encolher de ombros, um toque no braço.

 

No Facebook, não temos nada disso. Temos as palavras escritas, interpretadas de forma fria. O calor da voz, o sorriso irónico... Tudo desaparece. Fica o ataque mais ou menos real, a ferida que nem suspeitamos que o outro sentiu.

 

Por isso, um conselho: se estamos entre amigos próximos, deixemos as discussões para conversas ao vivo. É bem melhor. Até podemos começar, mas não custa nada dizer: depois falamos melhor ao vivo.

 

E, não nos podemos esquecer, o Facebook é privado, mas também é público. As discussões com amigos ao vivo são assunto privado, mas no Facebook é como se estivéssemos a discutir num palco. E isso muda tudo.

 

3. Usar as mensagens privadas para discutir com conhecidos

A dica anterior serve para os amigos com quem convivemos. E os outros? Aqueles com quem falamos só no Facebook?

 

Em vez de começarmos duelos virtuais por tudo e por nada, que tal usarmos de forma mais frequente as mensagens privadas?

 

Assim, o efeito «duelo no palco» perde-se, e ainda bem!

 

Isto serve para discutir subtilezas, para apontar gralhas, para continuar conversas que, em público, fazem pouco sentido.

 

É uma ideia...

 

4. Ocultar publicações que não nos interessam

Podia agora dizer: devemos publicar apenas coisas interessantes. Mas o que é interessante para mim pode ser aborrecido para alguns dos meus amigos. Ou todos (espero que não).

 

Assim, o melhor é ver a coisa ao contrário: se me aparecem no mural artigos de que não gosto (ou imagens supostamente inspiradoras que não me servem para nada) posso sempre ocultá-los, ensinando o algoritmo do Facebook a apresentar-me, gradualmente, apenas aquilo de que gosto.

 

Agora, também é verdade que isto é perigoso. Uma das vantagens do Facebook é podermos encontrar coisas novas, pontos de vista desconhecidos, ideias que não conhecemos, sítios onde nunca fomos.

 

Se ocultarmos tudo o que não nos interessa, ficaremos cada vez mais fechados em nós próprios.

 

Mas, enfim, as tais imagens inspiradoras com frases cheias de gralhas... É ocultar, é ocultar!

 

5. Usar o Facebook para o que é bom

Estamos sempre a falar das desvantagens e das armadilhas do Facebook. E, no entanto, tantos de nós estamos por lá que aquilo deve ter alguma coisa de bom — ou não?

 

A verdade é que já encontrei ideias muito interessantes, canções que não conhecia, livros interessantíssimos — e discuti artigos com gente cheia de boas ideias, participei em sessões de comentários que foram autênticas tertúlias... Ah, sem esquecer isto: já conheci pessoas que considero amigas, com quem nunca teria falado se não fosse o Facebook...

 

O Facebook enerva, eu sei. Às vezes, apetece sair. Mas até ao dia em que batemos com a porta a esse espaço, podemos aproveitá-lo. Temos é de ter paciência e ir aprendendo as regras de etiqueta, como em tudo.

 

6. Não aceitar insultos na nossa casa

Convidamos um amigo para ir a nossa casa. Ele chega lá e desata a insultar-nos. Temos de aceitar?

 

Se alguém vem ao nosso perfil incomodar-nos, podemos bloqueá-los.

 

É simples.

 

E as opiniões que não nos insultam pessoalmente, mas deixam-nos com os nervos em franja?

 

Ora, contemos até dez.

 

Há coisas que não parecem assim tão boas à primeira vista, mas são importantes: no Facebook, encontramos opiniões que, ao vivo, poucos se atrevem a dizer, percebemos certas atitudes, vemos muitas pessoas de forma mais próxima e às vezes mais desagradável do que o habitual.

 

Isto pode parecer mau. Mas, de certa maneira, é bom.

 

E não nos podemos esquecer: ninguém pode ter a certeza de que está certo neste ou naquele assunto. Até a opinião mais ofensiva pode conter em si alguma coisa que valha a pena escutar. Custa, mas é verdade.

 

7. Perceber que o Facebook não é noutro universo

Há quem diga que o Facebook nos está a tornar mais estúpidos. Ou mais agressivos. Ou outra coisa qualquer.

 

Mas se calhar o problema é outro.

 

O Facebook é a nossa vida social, mas em velocidade estonteante. É a mente humana à mostra, mas a tentar continuamente esconder-se. Sem conseguir. Como se estivesse nua a correr com uma pequena toalha para tapar as vergonhas. Não dá: as vergonhas aparecem. A nossa mesquinhez, a nossa inveja, as nossas manias, tudo fica à mostra. Escrevemos a correr, comentamos a correr, vivemos a correr no Facebook. E a vida parece como um jogo de futebol relatado pela rádio: os jogadores podem estar a jogar como a selecção nos belos empates com que nos tem deliciado e quem ouve na rádio parece que está a ver o jogo mais excitante do mundo. A nossa vida no Facebook é assim: parece tudo excitante e belo ou tremendo e triste, sem meio termo.

 

Depois, tentamos criar as máscaras com que vivemos no mundo, mas a velocidade é tanta que damos um passo e, pumba, as vergonhas à mostra. Estou a exagerar? Estou, claro. É de andar demasiado no Facebook...

 

Digo-vos isto: os seres humanos adaptam-se a quase tudo. Depressa estaremos habituados a este mundo social acelerado. Depressa começará a fazer parte da nossa vida. Não é fácil, mas até o telefone foi um choque na altura em que apareceu. E, agora, parece coisa de antigamente. Há-de chegar o dia em que olharemos para trás, com saudades desses tempos em que discutíamos amavelmente no Facebook.

 

Bem, acabo com isto: o Facebook é menos virtual do que parece. A nossa vida é sempre real e em todo o lado podemos tropeçar. Assim, também no Facebook é preciso aprender a viver melhor. É uma questão de olhar para os dois lados antes de atravessar a estrada.

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