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Livros & Outras Manias

Livros & Outras Manias

27
Abr16

Às voltas com um livro e com a língua portuguesa

A Baleia Que Engoliu Um Espanhol

Por estes dias, tenho tido menos tempo para blogues. Ah, os dias são sempre curtos, mas costumo arranjar tempo para umas escapadelas.

 

Ora, o problema é que, para escrever, é preciso tempo, mas também cabeça, e a minha cabeça, nesta última semana, tem andado mais virada para o papel, muito por causa do livro que escrevi sobre a nossa língua, que me tem feito dar umas quantas voltas.

 

Mas não pensem que não ando com ideias: tenho deixado muitos rascunhos na caixa do blogue. Quando a cabeça assentar, lá voltarei à rotina de vos deixar por aqui uns textos sobre línguas, livros e outras manias.

 

Deixem-me só contar-vos algumas das voltas do livro. Hoje de manhã, passei por uma experiência nova: fui à TVI falar sobre os segredos da língua. Na semana passada, andei pela Bertrand do Picoas Plaza, onde a editora organizou o lançamento, que me deixou muito feliz. Quanto aos agradecimentos, fi-los ao vivo — e tenho a sorte de os poder mostrar aqui, neste vídeo, que inclui a generosa apresentação de Fernando Venâncio. Agradeço agora a todos os leitores do blogue, que foram muitíssimo importantes neste projecto.

 

Não querendo abusar da vossa paciência, deixem-me só dizer-vos mais umas palavras sobre o livro (convém fazer alguma divulgação…):

 

  • Na primeira parte («A língua e a tribo»), descrevo a forma como a língua também serve para marcar a tribo a que pertencemos. Falo de sotaques (de Lisboa e do Porto, por exemplo), do mito da palavra «saudade» e até damos uma volta pela Ucrânia. Não deixo de contar uns segredos sobre os tempos de faculdade…
  • Na segunda parte,  («A família da língua»), falamos do parente no sótão (o galego), do irmão emigrado (o português do Brasil) e dos vizinhos: as outras línguas de Portugal (e também de Espanha, aqui ao lado). Falamos ainda do inglês e do chinês (e até do persa). Desconfio que será o primeiro livro sobre o português com uma citação do Beowulf
  • Há, depois, um intervalo, onde converso um pouco sobre as crianças e a língua portuguesa. É a parte mais pessoal de todo o livro, pois por lá andam a brincar o meu filho, os meus sobrinhos e o filho duma amiga minha. É um intervalo, afinal de contas.
  • Na terceira parte («O vício do pânico), podem encontrar textos sobre os famosos falsos erros de português («famosos» para quem costuma vir aqui ao blogue).
  • Na quarta parte («O que fazer com esta língua?»), fica o leitor com algumas pistas sobre como escrever um pouco melhor, que o livro não são só histórias, também diz alguma coisa de útil…

 

Há ainda segredos sobre palavrões, sobre linguistas, sobre a Internet — e mais umas quantas coisas.

 

dozeDiga-se que muitos textos incluídos no livro começaram aqui, neste blogue, e no blogue Certas Palavras. Todos foram revistos e alterados e há umas quantas novidades: só como exemplo, incluí um texto em que falo de erros verdadeiros — sim, porque existem mesmo erros de português, claro está… (O texto está na página 163: «E agora, algo completamente diferente: erros verdadeiros!»)

 

A língua é uma paixão que partilho com muitas outras pessoas. Espero ter criado um livro que sirva para aprender, mas também para passar umas boas horas de leitura, com alguns sorrisos.

 

Com este livro, quis celebrar a nossa língua, as línguas de todo o mundo e ainda as nossas vidas, as vidas dos falantes da língua, que — como muito bem diz Fernando Venâncio no prefácio — merecem sempre o nosso respeito. O livro é uma homenagem a esses mesmos falantes.

 

Espero que gostem — e espero que se divirtam, que também para isso escrevi o livro.

 


Doze Segredos da Língua Portuguesa. Edição da Guerra & Paz. Já nas livrarias. Encomendas: Guerra & PazWook |Bertrand | Fnac

27
Abr16

O italiano não vem do latim, sabiam?

A Baleia Que Engoliu Um Espanhol

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Limitei-me a dizer isto: no Brasil, o nome correcto do planeta que vem logo a seguir a Urano é «Netuno». Sim, em Portugal é «Neptuno», mas no Brasil é «Netuno». A palavra «Netuno» é usada por professores universitários, por linguistas, por astrónomos, por todos os brasileiros; está nos dicionários, é ensinada pelos professores de português e de ciências. Não está errada. Não há qualquer argumento cientificamente válido que leve a considerar que, no Brasil, «Netuno» é um erro. Vou ser explícito: em Portugal, seria um grande erro escrever «Netuno». No Brasil, é a forma correcta.

 

Sim, o português de Portugal e o português do Brasil são diferentes. Mas alguém tinha dúvidas?

 

Desta minha afirmação, surgiu o mais surreal diálogo que alguma vez teve lugar no blogue. Por favor, leiam o diálogo todo, para perceberem os argumentos dos dois lados.

 

Nesse diálogo, alguém me tentou convencer do seguinte (preparem-se):

  • «Netuno» é um erro, fruto da ignorância dos brasileiros.
  • As palavras, em Portugal, ao longo dos séculos, mudam «cientificamente». No Brasil, mudam porque os brasileiros são ignorantes.
  • «Netuno» não quer dizer nada e é uma palavra desenraizada porque, como o português vem do latim, temos mesmo de usar o «p», sob pena de a palavra perder o sentido. Se os romanos usavam «p», a palavra tem de ter um «p» para toda a eternidade.
  • Sim, «luna» também perdeu uma letra ao longo da evolução da língua, ficando «lua», mas essa perda é científica, porque portuguesa. As perdas de letras brasileiras são só burrice.
  • Sim, os italianos dizem «Nettuno» sem «p», mas isso é porque o italiano não vem do latim. (Sim, depois deste argumento, caí no erro de continuar a conversa. Mas é essa a minha forma de respeitar o outro lado, mesmo quando está profundamente errado.)
  • «Fato» vem do gótico e por isso é erro. Que os brasileiros usem essa palavra em vez de «facto» só mostra que os brasileiros são burros.
  • Se os brasileiros usam «Netuno», se calhar estão a italianizar a sua língua. Grande erro, claro está.
  • Os brasileiros, depois de destruírem a língua, querem agora impô-la assim, estragada, aos portugueses, exigindo que passemos a usar «Netuno».
  • Se eu digo que «Netuno» está correcto no Brasil, não posso ser um verdadeiro português.

 

Perante estes argumentos, fico pasmado e chego à conclusão que não devia ter levado a conversa tão longe. É como estar a bater com a cabeça numa parede: não serve para nada a não ser aleijar a cabeça. A parede fica igual.

 

Mas, enfim, são daquelas experiências que ajudam a perceber que, nas discussões sobre a língua, há também muito de irracional e há quem, infelizmente, esteja refém duma nuvem de ideias erradas, mas muito elaboradas, um pouco à semelhança dos teóricos da conspiração noutros âmbitos. O mecanismo mental deve ser o mesmo.

 

Teria ficado tudo por ali, naquele diálogo, não fora dar-se o caso de receber um comentário em que alguém dava força aos argumentos absurdos. Ou seja, isto não é um caso isolado e talvez seja boa ideia abrir as janelas e deixar entrar um pouco de ar fresco na tal discussão absurda:

  • Em português do Brasil, a palavra «Netuno» está correcta. Sim, é uma das muitas diferenças entre o português de Portugal e o português do Brasil, que se foram acumulando nos últimos séculos, como acontece sempre que uma língua se divide em dois âmbitos sociais distintos. A razão deste afastamento é a mesma que levou ao afastamento das várias línguas latinas depois da fase comum a que chamamos «latim». (Já agora, que os brasileiros chamem à sua língua «português» e não «brasileiro» é irrelevante para determinar se uma palavra ou construção está certa ou errada no Brasil; o que conta para saber o que está correcto no Brasil é o funcionamento real da língua no Brasil, não uma qualquer elucubração sobre o que devia ser — mas não é — a língua dos brasileiros só porque tem o nome de «português».)
  • Sim, o italiano vem do latim, tendo sofrido algumas influências externas, como acontece em todas as línguas (o português, por exemplo). Teve fases intermédias (a que podemos chamar «toscano», por exemplo, já que foi a zona cujo falar serviu de base ao italiano literário), tal como acontece com o português (que teve séculos imensos entre o latim e a língua tal como falada no Portugal independente, séculos que podemos chamar os séculos galegos da língua). Não há uma única língua latina que tenha nascido inteira e pura do latim, sem qualquer fase intermédia. (Aliás, todas as línguas estão, ainda hoje, numa fase intermédia entre o que vinha antes e o que virá depois…)
  • As palavras, ao longo dos séculos, vão sofrendo alterações com o seu uso diário pela população. O mecanismo que levou à queda do «p» de «Neptuno» no Brasil é exactamente o mesmo que levou à queda de muitos outros sons em várias palavras, desde o latim popular (a origem remota da língua portuguesa) até à sua forma actual. Dizemos «cor» e não «color», «lua» e não «luna», «vitória» e não «victória», etc. O que leva à diferenciação entre línguas é o facto de estes mecanismos actuarem sobre palavras diferentes em locais diferentes. Sim, o «p» de «Neptuno» caiu no Brasil e não em Portugal. Houve outras palavras em que o «p» (falado) caiu em Portugal, mas não caiu no Brasil. A língua, nos dois países, está a afastar-se. Não há nada a fazer quanto a isso.
  • Por fim, nada justifica trazer para estas discussões argumentos como «quem não pensa como eu não é português» ou algo do género. É essa visão da língua misturada de tribalismo que leva a visões tão distorcidas do que é a linguagem humana e tão perniciosas para os falantes do português.

Sim, a visão que andei a combater naquele diálogo de surdos é esta: as línguas verdadeiras são imutáveis e o português tem uma versão perfeita, descoberta pelos portugueses a certa altura e que tem de ser preservada a todo o custo. Errado. As línguas mudam constantemente, ao longo dos séculos, e não há forma de dizer o que está certo e o que está errado sem olhar com atenção para a língua tal como ela existe, na realidade, em cada sociedade. É difícil, mas não há outra opção.

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