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Livros & Outras Manias

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24
Fev14

Freguesia da Picha

Marco Neves

Peço desculpa, mas vai mais um post que não tem, directamente, a ver com livros. Mas, no fundo, no fundo, até tem.

 

Lembram-se das Eleições Autárquicas?

 

Já foi há uma catrefada de meses, mas acho que todos nos lembramos bem dos Tesourinhos das Autárquicas. 

 

Confesso que fiquei ligeiramente incomodado. Senti tudo aquilo a balançar entre a brincadeira inocente e um certo complexo de superioridade de alguma nata em relação ao leite.

 

Afinal, amigos, as autárquicas são as eleições mais democráticas de todas: é o povo que ali está a ser eleito, ou seja, as pessoas reais, que fazem o nosso país, e que se metem nestas coisas por vários motivos, nem todos tão baixos como o comentariat nacional acredita logo à partida, com o seu pensamento simplista e supostamente muito lúcido. 

 

Enfim, adiante. Não vale a pensa pensar muito no caso. Alguns cartazes eram, de facto, muitíssimo engraçados, e gosto de imaginar que os próprios retratados se conseguem rir daquilo. Por mim, apesar da ligeira incomodidade, não deixei de rir. É preciso é descontrair, ó gentes do meu país.

 

Agora, o caso da Picha. Este cartaz andou a circular pela net, partilhado por toda a gente:

 

 

O que tem de mal este cartaz? Aparentemente, nada. É magnífico enquanto "tesourinho das autárquicas".

 

Só que...

 

O cartaz é falso. Alguém achou que não bastavam os verdadeiros cartazes risíveis por esse país fora: teve de inventar uma freguesia que não existe.

 

Sim, porque a Picha não é freguesia.

 

Quando disse isto a alguns amigos, ficaram a coçar a cabeça: "desculpa, mas esta localidade existe, até está no Google Maps".

 

Pois claro que existe e até fica perto da Venda da Gaita. O mapa de Portugal é um caldeirão de humor.

 

A questão é a seguinte: nas eleições, andámos a eleger assembleias de freguesia, assembleias municipais e câmaras municipais. Ora, se a Picha não é freguesia (e muito menos concelho), não houve qualquer movimento candidato a uma freguesia da Picha, que não existe. 

 

Não é difícil compreender. Tal como não é difícil compreender que dificilmente alguém no seu perfeito juízo iria inventar este slogan para umas eleições. 

 

Dizem-me: "mas há gente tão parva"... Pois há, mas neste caso, os patos somos todos os que comemos este cartaz à primeira. A lógica é: "Essa gentinha que anda pelo país fora a candidatar-se a freguesias (que nojo...) só pode ser estúpida. Por isso, claro que fariam um cartaz assim estúpido. E eu, inteligente, farto-me de rir com eles."

 

É esta ideia de que toda a gente é estúpida tirando uns quantos iluminados que me faz um pouco de espécie. Mas pronto, isso sou eu, que sou um bocado ingénio. Não acho que toda a gente seja parva e, perante uma coisa destas, desconfio um pouco. Com tanta ingenuidade, engano-me várias vezes, mas desta não me enganei: confirmaram-se as fortes probabilidades de ninguém no seu perfeito juízo criar o slogan "Picha para a Frente".

 

(Já no caso do candidato ninja de Gaia, pelos vistos, era pouco provável, mas é mesmo verdade.)

 

Dizem-me também: mas o cartaz da Picha é engraçado na mesma!

 

Não, não é. Seria engraçado se fosse verdadeiro. Assim, é só uma brincadeira sem muita graça. 

 

(Um cartaz falso que teria muita graça seria o cartaz do Movimento de Elevação da Picha (a freguesia). Isso, sim.)

24
Fev14

Ai, os jovens e a língua! [Aviso: post ligeiramente polémico.]

Marco Neves

As pessoas passam a vida preocupadas com a língua portuguesa, mas em vez de arrancarem cabelos, mas vale ler e falar e ouvir e escrever — e a língua, esse bicho safado, lá se há-de safar.

 

Nisso, estou como o Stephen Fry (vejam o vídeo, por favor).

 

Agora, ando a ler o livro Txtng — The gr8 db8, do divertidísismo David Crystal. Este autor explica bem como a linguagem SMS não é nenhum drama, usa mecanismos que já existiam na língua (neste caso, inglesa) e não está a ter impacto negativo no conhecimento linguístico dos jovens. 

 

Antes de começarem aos gritos, experimentem ler o senhor Crystal. É que ele, se calhar, até tem razão.

 

"Ah, então quer dizer que agora podem escrever assim nos testes?" 

 

Não, claro que não podem. E só o fazem por distracção. Desde sempre a língua teve vários registos e não saber usá-los nas situações apropriadas é que é falta de conhecimento linguístico. Tanto erra o aluno que escreve num teste "Ñ sei q resposta dar" como o jovem que escreve uma SMS a uma amiga: "Ex.ma Sr.ª, gostaria de se encontrar comigo depois de amanhã à porta do botequim? Poderá haver possibilidade de contacto físico, se V. Ex.ª assim o entender."

 

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