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O meu irmão Diogo já me avisou que eu uso demasiado a palavra «delicioso». Quando ele me disse isso, não acreditei. Mas, depois, fiz uma procura no blogue e sairam-me três páginas de artigos onde uso a palavra. Raios.

 

Bem, hoje lembrei-me novamente da palavra «delicioso» ao ouvir uma alemã a falar português.

 

Deixem-me lá contar: hoje estive na conferência  «30 anos de Português na UE», no Museu do Oriente, organizada pelas instituições europeias.

 

Pois, a certa altura uma funcionária alemã (cujo nome não consegui registar a tempo) decidiu contar as suas aventuras na língua portuguesa, o que muito divertiu o público. Acabou por dizer várias expressões portuguesas que acha engraçadíssimas — e que nós quase nem notamos.

 

Aqui ficam cinco dessas expressões, que rabisquei furioso enquanto as ouvia (muitas passaram-me):

  1. «Pequenos nadas». Sim, à funcionária alemã esta expressão faz-lhe cócegas divertidas. Pensem bem como nem notamos que os «nadas» não podem ser nem pequenos nem grandes — são nadas. E a vida, claro, é feita desses pequenos nadas… Uma expressão ilógica? Ah, sim, mas deliciosa. No fundo, é um dos pequenos nadas de que se faz o irresistível charme da língua portuguesa.
  2.  «Barriga das pernas». Claro que a nós não parece, mas é de facto uma expressão curiosa. Imagino que um alemão, quando encontra esta expressão pela primeira vez, pense num umbigo no meio das pernas. Ou mesmo numa pequena criança a nascer na barriga da perna dum qualquer deus grego (que tinham tendência para essas maluqueiras).
  3. «Céu da boca». É tão normal, mas tão normal que não percebemos quão malandra pode ser esta expressão portuguesa: pois quem não encontrou já o céu num bom beijo? E andamos nós com esta poesia toda nos lábios sem lhe dar valor. Sim, quem fala português tem um céu dentro da boca. Uma alemã arregala os olhos, claro está. E aproveita os segredos desta língua, pois então.
  4. «Beijinhos grandes». A alemã arrancou gargalhadas de todos os que lá estavam ao perguntar se haverá coisa mais estrambólica do que beijinhos grandes… E, de facto, ou bem que os beijos são -inhos ou bem que são grandes. Mas que importa? São beijinhos, chiça. E grandes, ainda por cima. Quem não quiser que vire a cara.
  5. «Fuz». Disse-nos a alemã que se nós temos «faz», «fez», «fiz», «foz» — só temos de nos esforçar um pouco para ter um «fuz». E tem muita razão, sim senhora. Quem de entre nós se atreverá a dar um significado ao nosso «fuz»?

 

É no que dá pôr-me a ouvir a nossa língua pela mente duma alemã. Tudo se torna menos familiar, menos habitual e por fim — como acontece quando repetimos uma palavra comum muitas vezes — estranho e delicioso. Por momentos, ouvimos essa palavra como se fosse a primeira vez.

 

Será também aí que reside um dos grandes prazeres de aprender línguas: a estranheza da língua dos outros é sempre imensa — e há momentos em que até a nossa língua nos aparece como uma estranha invenção que não é de ninguém em particular, mas de todos nós — até duma alemã que a aprende em adulto — e que vamos desfiando pelos séculos, pela boca e pela escrita.

 

E, já agora, feliz Dia Europeu das Línguas!


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publicado às 22:38

Falámos dos Doze Segredos da Língua Portuguesa, de tradução, de teatro — e da Joana d’Arc reencarnada numa árvore. No fim, até a Gisele Bündchen apareceu. Foi o É a Vida Alvim.

 

Primeira parte

 

Segunda parte

 


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publicado às 14:31

Já estou de volta das férias há umas boas duas semanas — e que semanas, meu Deus! — e mesmo assim ainda tenho histórias para vos contar. É assim uma espécie de truque para parecer que ainda estou de pés na água e cabeça na areia…

 

Pois bem — esta história tem que se lhe diga.

 

Então é assim: a certa altura, lá nas férias, fomos almoçar em Santiago de la Ribera, uma pequena terreola que foi uma estância balnear que deve ter estado na moda ali por volta de Agosto de 1984. Enfim, não faz mal: foi uma espécie de viagem no tempo.

 

A praia é virada para o Mar Menor, uma lagoa de água um pouco turva por causa da areia que é de origem vulcânica (dizia um dos cartazes de aviso que por lá vi). Pois a verdade é que a água é tão quente, mas tão quente que ficamos com a sensação que o vulcão está prestes a entrar em erupção…

 

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Bem, a temperatura da água sentimo-la depois, quando fomos molhar os pés. Ao almoço, limitamo-nos a olhar para o mar, que ali estava, à nossa frente — e lá muito ao fundo, no horizonte, a chamada Manga del Mar Menor, uma pequena faixa de areia entre o Mar Menor e o Mediterrâneo que foi cilindrada sem piedade com prédios, prédios e mais prédios. No primeiro dia de férias tínhamos lá ido e fugido a sete pés… É daquelas paisagens que até são engraçadas vistas assim de muito longe. É como olhar para o mar e ver ao fundo um recorte citadino a surgir como uma miragem. Nada mal — mas à distância.

 

Pois bem, o certo é que descobrimos um barco ao pé do restaurante que fazia a ligação entre Santiago e uma zona da Manga que até tinha o seu quê: uma ponte levadiça, umas praias simpáticas — e acima de tudo uma festa com piratas no barco. Só que já estava mesmo em cima da hora, ainda não tínhamos almoçado e dissemos ao Simão que ficava para o dia seguinte.

 

Enquanto o barco se afastava, fiquei a olhar e a imaginar como seria essa singela viagem com crianças vestidas de piratas. Não demorei mais do que uns bons 10 segundos nesse sonho acordado: fiquei só a olhar, a ver o mar e, ao sol de Agosto, a imaginar-me no barco — porque não tinha mais nada em que pensar naquele momento e porque tinha acabado de dizer ao meu filho que no dia seguinte era isso mesmo que faríamos. O barco passa ao pé de ilhas, havia aviões a fazer acrobacias ali mesmo ao pé, o sol apetecia e sentia o sal na boca. Ah, as férias…

 

Pois, no dia seguinte não fomos. Ali perto havia praias menos turvas, areias mais douradas, sítios por descobrir. Ele não se importou, até porque acabámos por descobrir um barco bem maior, com piratas a sério e tudo (mas isso fica para outro dia).

 

Agora, o curioso é isto — e esta lengalenga toda serviu para chegar a esta conclusão: no fim das férias, comecei a pensar nos dias todos que ali passáramos e a memória misturou-se de forma perigosa: lembrava-me dos sítios onde realmente tinha ido — e da viagem de barco que nunca fiz! (Para não falar dos livros que li e dos filmes que vi — mas essas misturas já são bem menos estranhas e muito saborosas.)

 

Sim, é verdade. A memória é mesmo muito manhosa. Neste caso, não fez mal: eu sabia, conscientemente, que nunca tinha andado naquele barco e mesmo que de repente me convencesse que tinha mesmo viajado de barco naqueles dias não vinha mal ao mundo. Mas não deixa de ser perturbador: lembro-me de estar a afastar-me da costa com o meu filho vestido de pirata ao lado e a minha mulher a olhar para o horizonte. A sério que me lembro! Ora, mas não sou o único. Admitam lá: quantas vezes não confundimos tudo e inventamos memórias — e algumas delas bem mais consequentes que uma viagem numa tarde de Verão que nunca existiu? Se alguém me disser que nunca lhe aconteceu tal coisa é que por anda muito enganado por este mundo…

 

É outro dos temas que começa a ser recorrente neste blogue (mas nada posso fazer, estas ideias vêm até mim e eu tenho de lhes pegar pelos cornos): todas as maneiras como nos enganamos a nós próprios. Lembramo-nos do que nunca fizemos, esquecemo-nos do que nos aconteceu, imaginamos salpicos na cara que nunca sentimos. O antídoto é só um: perceber que somos muito falíveis, que nos enganamos todos os dias — e desconfiar um pouco da nossa cabeça.

 

Bem, se a memória é perigosa e a imaginação delirante, a verdade é que também é por isso que criamos livros, filmes, quadros e canções: a nossa cabeça não se limita ao que nos acontece. Vai sempre mais à frente. Aí temos a origem da arte e de tanto do que torna a vida bem mais interessante do que seria se vivêssemos apenas com o que temos à nossa frente. Mas aí temos também a origem de muitos dos enganos com que nos matamos uns aos outros…

 

Ui, que frase tão séria para um post de piratas e tardes de Verão, não é? Admito que sim. Fiquem com esta outra música, capaz de vos acordar as memórias lá bem escondidas nas catacumbas da nossa mente — e também estávamos num verão azul no Sul de Espanha:

 


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publicado às 22:23

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Este último dia de Agosto tem sempre um sabor um pouco amargo. É como as tardes de domingo: ainda não é segunda-feira, mas o peso da dita já se sente nos ombros. Pois é: ainda não é Setembro, mas as férias acabam, as praias esvaziam-se, a rotina volta. Pois hoje, para comemorar o fim do mês, deu-me para falar de felicidade. Coisa aborrecida, não?

 

Li há uns tempos no El País que a felicidade são quatro coisas: conversas, música, actividade física — e sexo. Nada contra, mas faltava o óbvio quinto elemento: livros. Enfim, a felicidade é que uma pessoa quiser — mas lá que esses cinco elementos têm a sua importância, têm sim senhor (alguns deles até se podem misturar com muito proveito: a música, então, vai bem com tudo).

 

Bem, concorde ou não com o psicólogo citado pelo El País, a verdade é que as férias sabem tão bem porque podemos fazer tudo aquilo de que gostamos sem grandes interrupções (sim, eu sei bem, quem tem filhos deixa de poder fazertudo o que quer a todo o momento — mas os filhos trazem um outro tipo de felicidade que não é chamada para este post)

 

Durante as férias, podemos aproveitar os dias à procura dessa felicidade concreta — nadar, correr, conversar, ouvir, amar. E ler, ler mesmo muito, sem intervalos. Pronto: convém comer. E dormir. Mas o tempo é imenso e as páginas dos livros passam quase sem darmos por elas, enquanto o nosso filho descobre como é bom nadar e estar ao sol.

 

Custa quando chega ao fim? Claro que sim. Mas reparem numa coisa: tudo o que disse acima não precisa de acabar no dia 31 de Agosto. Sim, teremos menos tempo. Mas a felicidade do quotidiano também implica arranjar tempo para ouvir música, beijar, correr ao fim da tarde, conversar com aqueles de quem gostamos. E ler.

 

Nesta guerra, o tempo será sempre uma espécie de inimigo — e é desesperante quando temos dias em que quase não conseguimos respirar, quanto mais ler & amar & conversar & correr. Mas desistir não vale a pena: com alguma sorte e muita arte, lá encontramos pequenas ilhas nos nossos dias para estas felicidades bem concretas.

 

É isso que vos desejo no regresso ao dia-a-dia. E, confessem lá, Setembro também tem os seus encantos. Lembro-me bem, quando era mais novo, de sentir o cheiro dos livros novos da escola e sorrir (os meus pais, a olhar para a conta, é que sorriam menos). Em Setembro, era o tempo de me reencontrar com os amigos. E continua a ser bom voltar com força e recomeçar. Pois, assim seja: um bom regresso a casa, ao trabalho e, se for o caso, às aulas — com boas conversas, uma corrida à beira-rio, algum amor, muita música e muitos livros.

 

Amanhã vou-vos contar um segredo das minhas férias: confundi a Grécia com Portugal! Amanhã, quer dizer: se tiver tempo. Bom fim de Agosto!


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A beleza do Rio

16.08.16

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Será benéfico para uma cidade e para um país organizar os Jogos Olímpicos? Não sei. Talvez não.

 

Mas parece-me estranho que, quando falamos destes jogos, tanta gente insista na pobreza do Brasil como se isso fosse impedimento para olhar com algum interesse para os jogos. Muitos partilham fotos das favelas como se tivessem descoberto hoje mesmo que elas existem...

 

Claro que é preciso lembrar aquilo que está mal no Brasil, as tremendas desigualdades e problemas sociais. Mas o curioso é que o Brasil é daqueles países que não se preocupam em esconder seja o que for. Afinal, muito do bom cinema brasileiro é sobre isso. Há canções e literatura e novelas sobre a pobreza. Os brasileiros não escondem nada, mostram tudo — e ainda fazem arte da boa sobre o assunto.

 

Ora, o que me intriga é a razão por que esta insistência aparece agora, quando não apareceu em Londres, em Pequim e em todas as outras cidades olímpicas, nenhuma delas perfeita ou sem as suas desigualdades.

 

Por que razão é o Brasil especial nisto? Por que razão tantos detestam ver alegria e beleza no Brasil como se fosse o único país com contradições e problemas? Serão especialmente gritantes nesse país? Bem, não me parece que sejam mais graves que as existentes, por exemplo, em Pequim. Mas, lá está: há países mais empenhados em esconder o que não interessa...

 

O que se passa (digo eu) é que muitos de nós estamos habituados a ver os outros países com uma ou duas palavras na cabeça. Espanha? Touros. França? Torre Eiffel. Londres? Rainha. Brasil? Favelas. Ora, isto é uma visão um pouco redutora do mundo.

 

Aproveitem para ver as cerimónias sem os simplismos do costume. Afinal, a cerimónia de abertura até foi bastante inteligente: referiu a escravatura (que outro país teve coragem para isso?), mostrou o cimento das cidades, ensinou o mundo que a história da aviação tem muito que se lhe diga, etc., etc.

 

Mas não se esqueceu do fundamental: a beleza do mundo, que o Brasil tem de sobra. Desde a dança, o parkour, a Gisele, o próprio Rio visto de cima, Elza Soares e luz, muita luz, a terminar na estranha chama feita de espelhos.

 

(O Carnaval? Também lá estava, claro. Mas como prova da maneira como vemos os outros de forma muito simplificada, ouvi alguns amigos a queixarem-se de aquilo ser «só Carnaval», quando as escolas de Samba terão estado dentro do estádio uns bons 15 minutos em 4 horas de cerimónia...)

 

Foi uma cerimónia bonita. Não chegou aos calcanhares de Londres e de Pequim? Talvez não. Mas não faz mal. O realizador da cerimónia sabe que há coisas mais importantes do que isto.

 

Sim, o mundo é um caldo de contradições: os jogos são um excesso, um custo talvez desnecessário numa cidade que o mundo já conhece. Mas estão aí e podemos tirar deles a beleza que existe e que também passa pelas ruas do Rio.


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Hoje estive na festa de anos dum filho duma amiga e havia crianças por todo o lado. Dos recém-nascidos aos maiorzinhos, lá estava a colecção de pequenos seres humanos a brincar, a zangar-se, a rir, a resmungar, a comer, a nadar… E é giro — tal como também é giro conversar com os pais e ver que os problemas são mais ou menos os mesmos, apesar de todas as divertidas diferenças.

 

Ora, na festa, enquanto estava sentado no meio da criançada, pus-me a pensar nas frases irritantes que todos os pais ouvem, mais cedo ou mais tarde. Nem sempre confessamos, porque temos mais que fazer do que andar a aborrecer os que nos tentam ajudar. Não dizemos, mas mordemos os lábios — e às vezes até mordemos a língua, porque percebemos que nós próprios já dissemos algumas destas frases a outros pais, antes de sabermos o que era doce.

 

Pois, aqui ficam algumas frases que irritam muitos pais (digo eu) — e ainda o que gostaríamos de responder mas não podemos.

 

1. «Ah, no meu tempo era mais difícil!»

Eh, pá! Se calhar tens razão e tiveste uma vida mais difícil do que a minha, mas comparar épocas assim sem mais nem menos não será precipitado? Se ainda por cima as coisas mudam de família para família, de terra para terra, de filho para filho… Pedia-te assim para parares com isso — principalmente se atirares a frase como crítica velada aos desabafos de circunstância: «Isto agora não custa nada e estás a exagerar!»

 

A verdade, meu caro, é que a vida dos outros é sempre mais fácil do que a nossa — porque a nossa temo-la de viver nós próprios e a dos outros é lá com eles. Não sei se me estou a explicar… Cada pai e cada mãe tem tudo para aprender e é sempre difícil. Se não for da cabeça é das pernas, mas dói sempre. Curiosamente, todos costumam que é muito bom — e isso não muda com o tempo. É o que vale.

 

2. «Ah, no meu tempo não havia cá esses cuidados todos…» 

Para lá da ironia de ver esta frase a sair da boca de quem também diz a frase anterior, a verdade é que no teu tempo (importas-te que te trate por tu?) nem todos os riscos estavam identificados e, sim, as crianças viviam de forma mais descuidada, mas também havia mais mortalidade infantil. E não estou a falar de pequenas diferenças estatísticas. Havia mesmo muito mais mortes de crianças, por vários motivos.

 

Por isso, sim, é importante não cair em exageros e aceitar que o risco faz mesmo parte da vida, mas certas protecções, certas ideias que muitos acham desnecessárias salvam vidas todos os dias. Basta pensar nas cadeirinhas dos carros ou nas protecções das escadas… O problema é que o efeito (muito) positivo dessas regras só se vêem quando olhamos para os números — é difícil saber quais as vidas que foram salvas.

 

Admito que no tal mítico «antigamente» as crianças brincavam e eram felizes, sim! Ora, hoje também brincam e muitas também são felizes — e no entretanto há menos mortalidade infantil.

 

Agora, aquilo que não muda é isto: a geração do meu filho, quando for velhinha, há-de virar-se para os netos e dizer «no meu tempo é que era bom!»

 

3. «Então e o segundo filho?»

O segundo vem depois do primeiro. Menos quando são gémeos: aí é tudo ao mesmo tempo e imagino que seja o caos. Há ainda quem só tenha um filho. Outros têm três — ou mais. O mundo é assim.

 

Agora, aquilo de que tenho a certeza praticamente absoluta — e olha que tenho muito poucas certezas — é isto: nunca até hoje um casal teve um segundo filho porque alguém lhes sugeriu isso mesmo numa conversa qualquer. Imagina como seria:

 

— Ah, então o Joaquim hoje perguntou-me se não estamos a pensar no segundo filho…

— Pois foi, a mim também me veio com essa conversa!

— Bem, sendo assim, se calhar mais vale fazer a vontade ao homem! Não quero que ele se aborreça.

— Vamos a isto, então?

— Vamos, pois!

 

E pronto. Lá vem o segundo filho por culpa do Sr. Joaquim. (Talvez fosse boa ideia o homem ajudar nas despesas.)

 

4. «Ah, eu lá em casa nunca lhe dou o telefone para as mãos…»

Sim, eu sei. Lá em tua casa é tudo às direitas e o teu filho vai sair um primor. O meu, enfim, é o que se arranja. (Bem, pelo menos vai saber mexer em telemóveis.)

 

Agora a sério: há pessoas que vêem os filhos dos outros com um telefone nas mãos e acham logo que estão sempre com um telefone nas mãos. Bolas, o meu filho joga no telemóvel, mas é só às vezes. A maior parte do tempo corre e pula e gosta de fingir que é pirata e conversa e grita e às vezes tem uma energia que nos cansa a nós. E, sim, não me importo de lhe emprestar o telemóvel, até porque às vezes é bom vê-lo sossegar. Serei criminoso?

 

Também confesso o crime de achar isto engraçado: ele já sabe mexer no YouTube, escolhe os vídeos, diverte-se e pede-me para ver com ele os vídeos preferidos. Também já percebeu que pode instalar uns quantos jogos gratuitos.

 

Já sei, não devia. A vida é para ser toda passada a tocar guitarra ao ar livre num belo kumbaya! Mas, bolas, deixa lá o puto ver um vídeo.

 

5. «Porque é que não fazes [assim] ou [assado]?»

Aqui, tenho de confessar: quase todos os culpados desta frase irritante dizem-na com a melhor das intenções. O problema é nosso, dos pais recentes. Quem teve um filho há pouco tempo está sempre extraordinariamente impaciente — impaciente com o mundo, porque o mundo lá fora importa um pouco menos. Durante esses meses iniciais, estamos concentrados no mundo mais pequeno que existe em nossa casa. O resto não importa.

 

As pessoas tentam ajudar e nós, pais ingratos, nem ouvimos nem queremos saber. E assim, como na história do Pedro e do Lobo, uma vez por outra, lá aparece uma ideia verdadeiramente útil e nós, afogados em tantos conselhos vindos de tantos lados e tão contraditórios, nem damos conta…

 

Por tudo isto, peço-te paciência para com os pais recentes: a paciência deles está toda concentrada no bebé. Mas não deixes de os ajudar, porque por mais voltas que o mundo dê, é mesmo preciso uma aldeia para que uma criança cresça bem e feliz. E a aldeia dos nossos filhos, aqui no meio das nossas cidades, são os amigos e a família — por mais frases irritantes que digam…


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Sim, as modas vêm e vão. Num dia, estamos todos a falar do Pokémon Go, amanhã ninguém se lembra. A semana passada estávamos todos de sorriso na cara e de bandeira na mão. Amanhã talvez não.

 

E, no entanto, as modas, as maluqueiras, as "crazes" do dia são o material de que se fazem as nossas boas memórias do futuro.

 

Sim, eu sei, temos todos medo do ridículo, medo de sermos mais uma Maria-vai-com-as-outras. Mas às vezes sabe bem. Não se esqueçam que quase tudo o que fazemos, visto a uma certa luz, é ridículo.

 

Daqui a muitos anos, vamos lembrar-nos daquilo que é muito nosso (o primeiro beijo, aquela noite sozinhos ao luar, uma conversa perfeita com alguém), mas também daquilo que fizemos com muita gente: dos concertos, das multidões, dos programas que todos víamos ou ouvíamos.

 

Hoje, já todos sentimos nostalgia daquilo que todos víamos ou fazíamos nos anos 80 e 90 (falo da minha geração, claro). Falo do Dartacão, dos hulahoops (ou lá como se chamava aquilo), do Fizz Limão, de tudo o que aparece na Caderneta de Cromos do Nuno Markl.

 

Não temos de todos gostar de tudo: muitas destas "crazes" passam-me ao lado. Mas fazem-me mal? Nem por isso. Vá: irritem-se menos, vivam mais.

 

E, sim, estas nossas manias de hoje são o material da nostalgia do futuro. Lembras-te do concerto que vimos no NOS Alive? Ou das piadas do Markl? Ou das filas para comprar o Harry Potter? Ou a festa do Euro 2016 na Alameda? Ou da noite em que fomos os cinco caçar Pokémons para Monsanto?

 

Sim, ainda assim prefiro os beijos e aquilo que é só nosso. Mas estas maluqueiras colectivas também fazem parte da felicidade.


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publicado às 15:19

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Livros, livros e mais livros! Vou tentar deixar neste meu canto virtual um livro interessante todos os dias.

 

Pronto: todos os dias é capaz de ser difícil. Mas tentarei sempre que possível.

 

Ora, hoje levanto-me, aproximo-me das estantes e encontro The Looming Tower: Al-Qaeda’s Road to 9/11, de Lawrence Wright (2006).

 

Em português, A Torre do Desassossego.

 

Confesso: ainda não acabei de ler esta obra gigantesca (desarrumo tantos os livros, que às vezes perco de vista obras que estou a ler…). Mas li o suficiente para saber que Wright nos explica a história dum certo tipo de fundamentalismo islâmico, aquele que nos deu a Al-Qaeda — e viria a dar origem ao Daesh, embora isso já seja história mais recente.

 

É interessante saber que a Al-Qaeda teve o seu início numa pacata cidade universitária norte-americana.

 

Não, não estou a defender uma das muitas e absurdas teorias da conspiração, que põem nas mãos do governo dos EUA a invenção dos seus inimigos.

 

O que se passa é que alguns dos intelectuais do wahhabismo (a corrente fundamentalista que deu origem ao terrorismo que nos anda a atacar) estudaram na América. No entanto, longe de estarem ao serviço dessa América, esses intelectuais aprenderam a desprezá-la por verem nela um ninho de decadência, perversão e mistura pouco saudável entre homens e mulheres.

 

Pelo que já li, o livro é um feito incomum de investigação profunda e narração inspirada. O autor explica o percurso intelectual e político da Al-Qaeda de forma detalhada, iluminando certos aspectos do nosso mundo muito para lá da história duma organização terrorista específica. Os bons livros são assim: vão além do tema principal; ou melhor, usam esse tema para mostrar o mundo doutra maneira.

 

Um pormenor: a certa altura, percebemos como muito do desprezo dos radicais islâmicos pelo Ocidente (e também pelos sectores menos radicais das suas próprias sociedades) se liga à sua aversão ao sexo fora das rigorosas margens religiosas. O Ocidente seria, na mente deles, obcecado pelo sexo, e por isso decadente e por isso desprezível. Curiosamente, também percebemos como há muito de tensão interior nesse desprezo pelos prazeres da carne. A obsessão também está no coração de muitos deles, mas reprimida até se transformar em pureza.

 

Esta obsessão pela pureza (sexual e não só) é sintoma de muito totalitarismo e muito fanatismo. Diria mesmo que «pureza» é das palavras mais perigosas do mundo. Olhem para as fotos de Osama bin Laden: o seu ar é, muitas vezes, beatífico. A sua fama era de pureza e santidade. E aí reside, muitas vezes, o mal do mundo: na necessidade de limpeza (sexual, étnica, religiosa…), na necessidade de purificação da alma, nem que seja com sangue. Muito sangue.

 

Livro do dia: The Looming Tower. Lawrence Wright (2006) [Amazon].


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publicado às 11:20

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Chegou o Verão, tempo de deixar a roupa pesada e ir para a praia de calção e chinelo. Pois, este blogue faz algo parecido: vou deixar por aqui alguns artigos mais leves, de chinelo no dedo.

 

O primeiro é sobre o Facebook.

 

O Facebook é parte da nossa vida, para o bem e para o mal. Até na praia, até na piscina, até ao acordar com o sol na cara. Muitos de nós já passamos bastante tempo nessa praça virtual. Será mau? O excesso raramente é bom, mas já que andamos por lá, podemos imaginar formas de viver melhor com esta ferramenta (ou o que lhe quiserem chamar).

 

Pus-me a pensar e vieram-me à ideia sete dicas para viver melhor com o Facebook.

 

Haverá outras, possivelmente bem mais úteis. Mas estas parecem-me razoáveis. Há que começar por algum lado...

 

1. Partilhar as fotografias dos filhos e das férias só com os amigos mais próximos

Tal como quando andamos na rua, há regras a respeitar — e temos de aprender alguns truques. Sim, é preciso olhar para os dois lados antes de atravessar a estrada — e é essencial aprender a lidar com as configurações de privacidade do Facebook.

 

O Facebook equivale a mandar uma carta aos amigos mais próximos — ou publicar uma foto num jornal. Não devemos confundir estas duas maneiras de publicar no Facebook...

 

Assim, no que toca às fotografias dos filhos, proibi-las de todo parece-me excessivo. O que devemos fazer é criar uma lista dos amigos próximos, daqueles a quem não nos importaríamos de enviar fotos das férias ou dos filhos por WhatsApp — ou num envelope por correio.

 

Não é fácil? Não é difícil. O próprio Facebook ajuda nesta página.

 

Sim, quando escrevo um artigo no blogue gosto de partilhar pelas centenas de «conhecidos do Facebook» e pelos amigos próximos e distantes. Quando publico uma foto do Simão, gosto que os amigos íntimos a vejam. Só eles.

 

2. Deixar as discussões acaloradas para quando nos encontramos ao vivo

No Facebook, é muito fácil começar uma discussão — o difícil é terminá-la. Ao vivo, falamos à vontade, às vezes levantamos a voz, no calor da discussão, mas depois é fácil dizer que já chega, que isso agora não interessa: basta um sorriso, um encolher de ombros, um toque no braço.

 

No Facebook, não temos nada disso. Temos as palavras escritas, interpretadas de forma fria. O calor da voz, o sorriso irónico... Tudo desaparece. Fica o ataque mais ou menos real, a ferida que nem suspeitamos que o outro sentiu.

 

Por isso, um conselho: se estamos entre amigos próximos, deixemos as discussões para conversas ao vivo. É bem melhor. Até podemos começar, mas não custa nada dizer: depois falamos melhor ao vivo.

 

E, não nos podemos esquecer, o Facebook é privado, mas também é público. As discussões com amigos ao vivo são assunto privado, mas no Facebook é como se estivéssemos a discutir num palco. E isso muda tudo.

 

3. Usar as mensagens privadas para discutir com conhecidos

A dica anterior serve para os amigos com quem convivemos. E os outros? Aqueles com quem falamos só no Facebook?

 

Em vez de começarmos duelos virtuais por tudo e por nada, que tal usarmos de forma mais frequente as mensagens privadas?

 

Assim, o efeito «duelo no palco» perde-se, e ainda bem!

 

Isto serve para discutir subtilezas, para apontar gralhas, para continuar conversas que, em público, fazem pouco sentido.

 

É uma ideia...

 

4. Ocultar publicações que não nos interessam

Podia agora dizer: devemos publicar apenas coisas interessantes. Mas o que é interessante para mim pode ser aborrecido para alguns dos meus amigos. Ou todos (espero que não).

 

Assim, o melhor é ver a coisa ao contrário: se me aparecem no mural artigos de que não gosto (ou imagens supostamente inspiradoras que não me servem para nada) posso sempre ocultá-los, ensinando o algoritmo do Facebook a apresentar-me, gradualmente, apenas aquilo de que gosto.

 

Agora, também é verdade que isto é perigoso. Uma das vantagens do Facebook é podermos encontrar coisas novas, pontos de vista desconhecidos, ideias que não conhecemos, sítios onde nunca fomos.

 

Se ocultarmos tudo o que não nos interessa, ficaremos cada vez mais fechados em nós próprios.

 

Mas, enfim, as tais imagens inspiradoras com frases cheias de gralhas... É ocultar, é ocultar!

 

5. Usar o Facebook para o que é bom

Estamos sempre a falar das desvantagens e das armadilhas do Facebook. E, no entanto, tantos de nós estamos por lá que aquilo deve ter alguma coisa de bom — ou não?

 

A verdade é que já encontrei ideias muito interessantes, canções que não conhecia, livros interessantíssimos — e discuti artigos com gente cheia de boas ideias, participei em sessões de comentários que foram autênticas tertúlias... Ah, sem esquecer isto: já conheci pessoas que considero amigas, com quem nunca teria falado se não fosse o Facebook...

 

O Facebook enerva, eu sei. Às vezes, apetece sair. Mas até ao dia em que batemos com a porta a esse espaço, podemos aproveitá-lo. Temos é de ter paciência e ir aprendendo as regras de etiqueta, como em tudo.

 

6. Não aceitar insultos na nossa casa

Convidamos um amigo para ir a nossa casa. Ele chega lá e desata a insultar-nos. Temos de aceitar?

 

Se alguém vem ao nosso perfil incomodar-nos, podemos bloqueá-los.

 

É simples.

 

E as opiniões que não nos insultam pessoalmente, mas deixam-nos com os nervos em franja?

 

Ora, contemos até dez.

 

Há coisas que não parecem assim tão boas à primeira vista, mas são importantes: no Facebook, encontramos opiniões que, ao vivo, poucos se atrevem a dizer, percebemos certas atitudes, vemos muitas pessoas de forma mais próxima e às vezes mais desagradável do que o habitual.

 

Isto pode parecer mau. Mas, de certa maneira, é bom.

 

E não nos podemos esquecer: ninguém pode ter a certeza de que está certo neste ou naquele assunto. Até a opinião mais ofensiva pode conter em si alguma coisa que valha a pena escutar. Custa, mas é verdade.

 

7. Perceber que o Facebook não é noutro universo

Há quem diga que o Facebook nos está a tornar mais estúpidos. Ou mais agressivos. Ou outra coisa qualquer.

 

Mas se calhar o problema é outro.

 

O Facebook é a nossa vida social, mas em velocidade estonteante. É a mente humana à mostra, mas a tentar continuamente esconder-se. Sem conseguir. Como se estivesse nua a correr com uma pequena toalha para tapar as vergonhas. Não dá: as vergonhas aparecem. A nossa mesquinhez, a nossa inveja, as nossas manias, tudo fica à mostra. Escrevemos a correr, comentamos a correr, vivemos a correr no Facebook. E a vida parece como um jogo de futebol relatado pela rádio: os jogadores podem estar a jogar como a selecção nos belos empates com que nos tem deliciado e quem ouve na rádio parece que está a ver o jogo mais excitante do mundo. A nossa vida no Facebook é assim: parece tudo excitante e belo ou tremendo e triste, sem meio termo.

 

Depois, tentamos criar as máscaras com que vivemos no mundo, mas a velocidade é tanta que damos um passo e, pumba, as vergonhas à mostra. Estou a exagerar? Estou, claro. É de andar demasiado no Facebook...

 

Digo-vos isto: os seres humanos adaptam-se a quase tudo. Depressa estaremos habituados a este mundo social acelerado. Depressa começará a fazer parte da nossa vida. Não é fácil, mas até o telefone foi um choque na altura em que apareceu. E, agora, parece coisa de antigamente. Há-de chegar o dia em que olharemos para trás, com saudades desses tempos em que discutíamos amavelmente no Facebook.

 

Bem, acabo com isto: o Facebook é menos virtual do que parece. A nossa vida é sempre real e em todo o lado podemos tropeçar. Assim, também no Facebook é preciso aprender a viver melhor. É uma questão de olhar para os dois lados antes de atravessar a estrada.


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Esta é uma foto da primeira-ministra escocesa a falar aos jornalistas, há pouco, anunciando planos para um segundo referendo escocês.

Repare-se nas bandeiras que a rodeiam. A Escócia não é um Estado-membro da UE (é, tecnicamente, uma região dum Estado-membro). E, no entanto, a bandeira está lá. De propósito. Tal como a bandeira escocesa. Apenas essas. Mais nenhuma.

Agora, proponho que procurem uma foto com uma bandeira europeia numa declaração do primeiro-ministro britânico em Londres de há muitos anos para cá: será praticamente impossível. Ao contrário de quase todos os Estados-membros, o Reino Unido raramente usa os símbolos europeus.

As bandeiras são pedaços de pano, dirão alguns. Pois são. Mas são pedaços de pano muito significativos.

A verdade é que Reino Unido sempre foi um membro hesitante da União. Mas a grande ironia é que este referendo aparece numa altura em que as gerações mais novas se sentiam cada vez mais europeias e em que as décadas de convivência nos fazem sentir a todos um pouco europeus. Assim, sentimos a saída britânica como uma perda muito nossa. Mas, enfim, está feito. O Reino Unido sai. Teremos de ser amigos como dantes.

Já a Escócia... Um sinal: uma das grandes defensoras da manutenção da Escócia no Reino Unido, há dois anos, foi J. K. Rowling, que lutou com todas as suas forças contra a independência.

Pois bem. Dois tweets da autora, há poucas horas:

- "Goodbye, UK."
- "Scotland will seek independence now. Cameron's legacy will be breaking up two unions. Neither needed to happen."

Não desejo que o Reino Unido se parta em dois. Mas compreendo que os escoceses queiram ficar na Europa: a opção pela Europa foi, por larga margem, a mais votada em TODAS as regiões escocesas. Sem excepção.

E, mais: há dois anos, uns dos argumentos de quem lutou contra a independência foi este: uma Escócia independente poderia vir a ficar fora da UE. Ora, hoje, estamos ao contrário: só uma Escócia independente pode ficar na União.

Tudo isto é difícil. Raramente vemos a política nacional doutro país entrar-nos pela casa dentro e fazer-nos tanta impressão. É a democracia a funcionar, dizem. Claro que sim. Os ingleses têm todo o direito de sair. Tal como nós temos o direito de ficar tristes, como europeus que também somos. E a maior tristeza de todas é a de alguns ingleses, que percebem o que aconteceu: perderam alguns direitos e liberdades dum dia para o outro.


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publicado às 22:29


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