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A beleza do Rio

16.08.16

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Será benéfico para uma cidade e para um país organizar os Jogos Olímpicos? Não sei. Talvez não.

 

Mas parece-me estranho que, quando falamos destes jogos, tanta gente insista na pobreza do Brasil como se isso fosse impedimento para olhar com algum interesse para os jogos. Muitos partilham fotos das favelas como se tivessem descoberto hoje mesmo que elas existem...

 

Claro que é preciso lembrar aquilo que está mal no Brasil, as tremendas desigualdades e problemas sociais. Mas o curioso é que o Brasil é daqueles países que não se preocupam em esconder seja o que for. Afinal, muito do bom cinema brasileiro é sobre isso. Há canções e literatura e novelas sobre a pobreza. Os brasileiros não escondem nada, mostram tudo — e ainda fazem arte da boa sobre o assunto.

 

Ora, o que me intriga é a razão por que esta insistência aparece agora, quando não apareceu em Londres, em Pequim e em todas as outras cidades olímpicas, nenhuma delas perfeita ou sem as suas desigualdades.

 

Por que razão é o Brasil especial nisto? Por que razão tantos detestam ver alegria e beleza no Brasil como se fosse o único país com contradições e problemas? Serão especialmente gritantes nesse país? Bem, não me parece que sejam mais graves que as existentes, por exemplo, em Pequim. Mas, lá está: há países mais empenhados em esconder o que não interessa...

 

O que se passa (digo eu) é que muitos de nós estamos habituados a ver os outros países com uma ou duas palavras na cabeça. Espanha? Touros. França? Torre Eiffel. Londres? Rainha. Brasil? Favelas. Ora, isto é uma visão um pouco redutora do mundo.

 

Aproveitem para ver as cerimónias sem os simplismos do costume. Afinal, a cerimónia de abertura até foi bastante inteligente: referiu a escravatura (que outro país teve coragem para isso?), mostrou o cimento das cidades, ensinou o mundo que a história da aviação tem muito que se lhe diga, etc., etc.

 

Mas não se esqueceu do fundamental: a beleza do mundo, que o Brasil tem de sobra. Desde a dança, o parkour, a Gisele, o próprio Rio visto de cima, Elza Soares e luz, muita luz, a terminar na estranha chama feita de espelhos.

 

(O Carnaval? Também lá estava, claro. Mas como prova da maneira como vemos os outros de forma muito simplificada, ouvi alguns amigos a queixarem-se de aquilo ser «só Carnaval», quando as escolas de Samba terão estado dentro do estádio uns bons 15 minutos em 4 horas de cerimónia...)

 

Foi uma cerimónia bonita. Não chegou aos calcanhares de Londres e de Pequim? Talvez não. Mas não faz mal. O realizador da cerimónia sabe que há coisas mais importantes do que isto.

 

Sim, o mundo é um caldo de contradições: os jogos são um excesso, um custo talvez desnecessário numa cidade que o mundo já conhece. Mas estão aí e podemos tirar deles a beleza que existe e que também passa pelas ruas do Rio.


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Hoje estive na festa de anos dum filho duma amiga e havia crianças por todo o lado. Dos recém-nascidos aos maiorzinhos, lá estava a colecção de pequenos seres humanos a brincar, a zangar-se, a rir, a resmungar, a comer, a nadar… E é giro — tal como também é giro conversar com os pais e ver que os problemas são mais ou menos os mesmos, apesar de todas as divertidas diferenças.

 

Ora, na festa, enquanto estava sentado no meio da criançada, pus-me a pensar nas frases irritantes que todos os pais ouvem, mais cedo ou mais tarde. Nem sempre confessamos, porque temos mais que fazer do que andar a aborrecer os que nos tentam ajudar. Não dizemos, mas mordemos os lábios — e às vezes até mordemos a língua, porque percebemos que nós próprios já dissemos algumas destas frases a outros pais, antes de sabermos o que era doce.

 

Pois, aqui ficam algumas frases que irritam muitos pais (digo eu) — e ainda o que gostaríamos de responder mas não podemos.

 

1. «Ah, no meu tempo era mais difícil!»

Eh, pá! Se calhar tens razão e tiveste uma vida mais difícil do que a minha, mas comparar épocas assim sem mais nem menos não será precipitado? Se ainda por cima as coisas mudam de família para família, de terra para terra, de filho para filho… Pedia-te assim para parares com isso — principalmente se atirares a frase como crítica velada aos desabafos de circunstância: «Isto agora não custa nada e estás a exagerar!»

 

A verdade, meu caro, é que a vida dos outros é sempre mais fácil do que a nossa — porque a nossa temo-la de viver nós próprios e a dos outros é lá com eles. Não sei se me estou a explicar… Cada pai e cada mãe tem tudo para aprender e é sempre difícil. Se não for da cabeça é das pernas, mas dói sempre. Curiosamente, todos costumam que é muito bom — e isso não muda com o tempo. É o que vale.

 

2. «Ah, no meu tempo não havia cá esses cuidados todos…» 

Para lá da ironia de ver esta frase a sair da boca de quem também diz a frase anterior, a verdade é que no teu tempo (importas-te que te trate por tu?) nem todos os riscos estavam identificados e, sim, as crianças viviam de forma mais descuidada, mas também havia mais mortalidade infantil. E não estou a falar de pequenas diferenças estatísticas. Havia mesmo muito mais mortes de crianças, por vários motivos.

 

Por isso, sim, é importante não cair em exageros e aceitar que o risco faz mesmo parte da vida, mas certas protecções, certas ideias que muitos acham desnecessárias salvam vidas todos os dias. Basta pensar nas cadeirinhas dos carros ou nas protecções das escadas… O problema é que o efeito (muito) positivo dessas regras só se vêem quando olhamos para os números — é difícil saber quais as vidas que foram salvas.

 

Admito que no tal mítico «antigamente» as crianças brincavam e eram felizes, sim! Ora, hoje também brincam e muitas também são felizes — e no entretanto há menos mortalidade infantil.

 

Agora, aquilo que não muda é isto: a geração do meu filho, quando for velhinha, há-de virar-se para os netos e dizer «no meu tempo é que era bom!»

 

3. «Então e o segundo filho?»

O segundo vem depois do primeiro. Menos quando são gémeos: aí é tudo ao mesmo tempo e imagino que seja o caos. Há ainda quem só tenha um filho. Outros têm três — ou mais. O mundo é assim.

 

Agora, aquilo de que tenho a certeza praticamente absoluta — e olha que tenho muito poucas certezas — é isto: nunca até hoje um casal teve um segundo filho porque alguém lhes sugeriu isso mesmo numa conversa qualquer. Imagina como seria:

 

— Ah, então o Joaquim hoje perguntou-me se não estamos a pensar no segundo filho…

— Pois foi, a mim também me veio com essa conversa!

— Bem, sendo assim, se calhar mais vale fazer a vontade ao homem! Não quero que ele se aborreça.

— Vamos a isto, então?

— Vamos, pois!

 

E pronto. Lá vem o segundo filho por culpa do Sr. Joaquim. (Talvez fosse boa ideia o homem ajudar nas despesas.)

 

4. «Ah, eu lá em casa nunca lhe dou o telefone para as mãos…»

Sim, eu sei. Lá em tua casa é tudo às direitas e o teu filho vai sair um primor. O meu, enfim, é o que se arranja. (Bem, pelo menos vai saber mexer em telemóveis.)

 

Agora a sério: há pessoas que vêem os filhos dos outros com um telefone nas mãos e acham logo que estão sempre com um telefone nas mãos. Bolas, o meu filho joga no telemóvel, mas é só às vezes. A maior parte do tempo corre e pula e gosta de fingir que é pirata e conversa e grita e às vezes tem uma energia que nos cansa a nós. E, sim, não me importo de lhe emprestar o telemóvel, até porque às vezes é bom vê-lo sossegar. Serei criminoso?

 

Também confesso o crime de achar isto engraçado: ele já sabe mexer no YouTube, escolhe os vídeos, diverte-se e pede-me para ver com ele os vídeos preferidos. Também já percebeu que pode instalar uns quantos jogos gratuitos.

 

Já sei, não devia. A vida é para ser toda passada a tocar guitarra ao ar livre num belo kumbaya! Mas, bolas, deixa lá o puto ver um vídeo.

 

5. «Porque é que não fazes [assim] ou [assado]?»

Aqui, tenho de confessar: quase todos os culpados desta frase irritante dizem-na com a melhor das intenções. O problema é nosso, dos pais recentes. Quem teve um filho há pouco tempo está sempre extraordinariamente impaciente — impaciente com o mundo, porque o mundo lá fora importa um pouco menos. Durante esses meses iniciais, estamos concentrados no mundo mais pequeno que existe em nossa casa. O resto não importa.

 

As pessoas tentam ajudar e nós, pais ingratos, nem ouvimos nem queremos saber. E assim, como na história do Pedro e do Lobo, uma vez por outra, lá aparece uma ideia verdadeiramente útil e nós, afogados em tantos conselhos vindos de tantos lados e tão contraditórios, nem damos conta…

 

Por tudo isto, peço-te paciência para com os pais recentes: a paciência deles está toda concentrada no bebé. Mas não deixes de os ajudar, porque por mais voltas que o mundo dê, é mesmo preciso uma aldeia para que uma criança cresça bem e feliz. E a aldeia dos nossos filhos, aqui no meio das nossas cidades, são os amigos e a família — por mais frases irritantes que digam…


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Sim, as modas vêm e vão. Num dia, estamos todos a falar do Pokémon Go, amanhã ninguém se lembra. A semana passada estávamos todos de sorriso na cara e de bandeira na mão. Amanhã talvez não.

 

E, no entanto, as modas, as maluqueiras, as "crazes" do dia são o material de que se fazem as nossas boas memórias do futuro.

 

Sim, eu sei, temos todos medo do ridículo, medo de sermos mais uma Maria-vai-com-as-outras. Mas às vezes sabe bem. Não se esqueçam que quase tudo o que fazemos, visto a uma certa luz, é ridículo.

 

Daqui a muitos anos, vamos lembrar-nos daquilo que é muito nosso (o primeiro beijo, aquela noite sozinhos ao luar, uma conversa perfeita com alguém), mas também daquilo que fizemos com muita gente: dos concertos, das multidões, dos programas que todos víamos ou ouvíamos.

 

Hoje, já todos sentimos nostalgia daquilo que todos víamos ou fazíamos nos anos 80 e 90 (falo da minha geração, claro). Falo do Dartacão, dos hulahoops (ou lá como se chamava aquilo), do Fizz Limão, de tudo o que aparece na Caderneta de Cromos do Nuno Markl.

 

Não temos de todos gostar de tudo: muitas destas "crazes" passam-me ao lado. Mas fazem-me mal? Nem por isso. Vá: irritem-se menos, vivam mais.

 

E, sim, estas nossas manias de hoje são o material da nostalgia do futuro. Lembras-te do concerto que vimos no NOS Alive? Ou das piadas do Markl? Ou das filas para comprar o Harry Potter? Ou a festa do Euro 2016 na Alameda? Ou da noite em que fomos os cinco caçar Pokémons para Monsanto?

 

Sim, ainda assim prefiro os beijos e aquilo que é só nosso. Mas estas maluqueiras colectivas também fazem parte da felicidade.


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publicado às 15:19

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Livros, livros e mais livros! Vou tentar deixar neste meu canto virtual um livro interessante todos os dias.

 

Pronto: todos os dias é capaz de ser difícil. Mas tentarei sempre que possível.

 

Ora, hoje levanto-me, aproximo-me das estantes e encontro The Looming Tower: Al-Qaeda’s Road to 9/11, de Lawrence Wright (2006).

 

Em português, A Torre do Desassossego.

 

Confesso: ainda não acabei de ler esta obra gigantesca (desarrumo tantos os livros, que às vezes perco de vista obras que estou a ler…). Mas li o suficiente para saber que Wright nos explica a história dum certo tipo de fundamentalismo islâmico, aquele que nos deu a Al-Qaeda — e viria a dar origem ao Daesh, embora isso já seja história mais recente.

 

É interessante saber que a Al-Qaeda teve o seu início numa pacata cidade universitária norte-americana.

 

Não, não estou a defender uma das muitas e absurdas teorias da conspiração, que põem nas mãos do governo dos EUA a invenção dos seus inimigos.

 

O que se passa é que alguns dos intelectuais do wahhabismo (a corrente fundamentalista que deu origem ao terrorismo que nos anda a atacar) estudaram na América. No entanto, longe de estarem ao serviço dessa América, esses intelectuais aprenderam a desprezá-la por verem nela um ninho de decadência, perversão e mistura pouco saudável entre homens e mulheres.

 

Pelo que já li, o livro é um feito incomum de investigação profunda e narração inspirada. O autor explica o percurso intelectual e político da Al-Qaeda de forma detalhada, iluminando certos aspectos do nosso mundo muito para lá da história duma organização terrorista específica. Os bons livros são assim: vão além do tema principal; ou melhor, usam esse tema para mostrar o mundo doutra maneira.

 

Um pormenor: a certa altura, percebemos como muito do desprezo dos radicais islâmicos pelo Ocidente (e também pelos sectores menos radicais das suas próprias sociedades) se liga à sua aversão ao sexo fora das rigorosas margens religiosas. O Ocidente seria, na mente deles, obcecado pelo sexo, e por isso decadente e por isso desprezível. Curiosamente, também percebemos como há muito de tensão interior nesse desprezo pelos prazeres da carne. A obsessão também está no coração de muitos deles, mas reprimida até se transformar em pureza.

 

Esta obsessão pela pureza (sexual e não só) é sintoma de muito totalitarismo e muito fanatismo. Diria mesmo que «pureza» é das palavras mais perigosas do mundo. Olhem para as fotos de Osama bin Laden: o seu ar é, muitas vezes, beatífico. A sua fama era de pureza e santidade. E aí reside, muitas vezes, o mal do mundo: na necessidade de limpeza (sexual, étnica, religiosa…), na necessidade de purificação da alma, nem que seja com sangue. Muito sangue.

 

Livro do dia: The Looming Tower. Lawrence Wright (2006) [Amazon].


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publicado às 11:20

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Chegou o Verão, tempo de deixar a roupa pesada e ir para a praia de calção e chinelo. Pois, este blogue faz algo parecido: vou deixar por aqui alguns artigos mais leves, de chinelo no dedo.

 

O primeiro é sobre o Facebook.

 

O Facebook é parte da nossa vida, para o bem e para o mal. Até na praia, até na piscina, até ao acordar com o sol na cara. Muitos de nós já passamos bastante tempo nessa praça virtual. Será mau? O excesso raramente é bom, mas já que andamos por lá, podemos imaginar formas de viver melhor com esta ferramenta (ou o que lhe quiserem chamar).

 

Pus-me a pensar e vieram-me à ideia sete dicas para viver melhor com o Facebook.

 

Haverá outras, possivelmente bem mais úteis. Mas estas parecem-me razoáveis. Há que começar por algum lado...

 

1. Partilhar as fotografias dos filhos e das férias só com os amigos mais próximos

Tal como quando andamos na rua, há regras a respeitar — e temos de aprender alguns truques. Sim, é preciso olhar para os dois lados antes de atravessar a estrada — e é essencial aprender a lidar com as configurações de privacidade do Facebook.

 

O Facebook equivale a mandar uma carta aos amigos mais próximos — ou publicar uma foto num jornal. Não devemos confundir estas duas maneiras de publicar no Facebook...

 

Assim, no que toca às fotografias dos filhos, proibi-las de todo parece-me excessivo. O que devemos fazer é criar uma lista dos amigos próximos, daqueles a quem não nos importaríamos de enviar fotos das férias ou dos filhos por WhatsApp — ou num envelope por correio.

 

Não é fácil? Não é difícil. O próprio Facebook ajuda nesta página.

 

Sim, quando escrevo um artigo no blogue gosto de partilhar pelas centenas de «conhecidos do Facebook» e pelos amigos próximos e distantes. Quando publico uma foto do Simão, gosto que os amigos íntimos a vejam. Só eles.

 

2. Deixar as discussões acaloradas para quando nos encontramos ao vivo

No Facebook, é muito fácil começar uma discussão — o difícil é terminá-la. Ao vivo, falamos à vontade, às vezes levantamos a voz, no calor da discussão, mas depois é fácil dizer que já chega, que isso agora não interessa: basta um sorriso, um encolher de ombros, um toque no braço.

 

No Facebook, não temos nada disso. Temos as palavras escritas, interpretadas de forma fria. O calor da voz, o sorriso irónico... Tudo desaparece. Fica o ataque mais ou menos real, a ferida que nem suspeitamos que o outro sentiu.

 

Por isso, um conselho: se estamos entre amigos próximos, deixemos as discussões para conversas ao vivo. É bem melhor. Até podemos começar, mas não custa nada dizer: depois falamos melhor ao vivo.

 

E, não nos podemos esquecer, o Facebook é privado, mas também é público. As discussões com amigos ao vivo são assunto privado, mas no Facebook é como se estivéssemos a discutir num palco. E isso muda tudo.

 

3. Usar as mensagens privadas para discutir com conhecidos

A dica anterior serve para os amigos com quem convivemos. E os outros? Aqueles com quem falamos só no Facebook?

 

Em vez de começarmos duelos virtuais por tudo e por nada, que tal usarmos de forma mais frequente as mensagens privadas?

 

Assim, o efeito «duelo no palco» perde-se, e ainda bem!

 

Isto serve para discutir subtilezas, para apontar gralhas, para continuar conversas que, em público, fazem pouco sentido.

 

É uma ideia...

 

4. Ocultar publicações que não nos interessam

Podia agora dizer: devemos publicar apenas coisas interessantes. Mas o que é interessante para mim pode ser aborrecido para alguns dos meus amigos. Ou todos (espero que não).

 

Assim, o melhor é ver a coisa ao contrário: se me aparecem no mural artigos de que não gosto (ou imagens supostamente inspiradoras que não me servem para nada) posso sempre ocultá-los, ensinando o algoritmo do Facebook a apresentar-me, gradualmente, apenas aquilo de que gosto.

 

Agora, também é verdade que isto é perigoso. Uma das vantagens do Facebook é podermos encontrar coisas novas, pontos de vista desconhecidos, ideias que não conhecemos, sítios onde nunca fomos.

 

Se ocultarmos tudo o que não nos interessa, ficaremos cada vez mais fechados em nós próprios.

 

Mas, enfim, as tais imagens inspiradoras com frases cheias de gralhas... É ocultar, é ocultar!

 

5. Usar o Facebook para o que é bom

Estamos sempre a falar das desvantagens e das armadilhas do Facebook. E, no entanto, tantos de nós estamos por lá que aquilo deve ter alguma coisa de bom — ou não?

 

A verdade é que já encontrei ideias muito interessantes, canções que não conhecia, livros interessantíssimos — e discuti artigos com gente cheia de boas ideias, participei em sessões de comentários que foram autênticas tertúlias... Ah, sem esquecer isto: já conheci pessoas que considero amigas, com quem nunca teria falado se não fosse o Facebook...

 

O Facebook enerva, eu sei. Às vezes, apetece sair. Mas até ao dia em que batemos com a porta a esse espaço, podemos aproveitá-lo. Temos é de ter paciência e ir aprendendo as regras de etiqueta, como em tudo.

 

6. Não aceitar insultos na nossa casa

Convidamos um amigo para ir a nossa casa. Ele chega lá e desata a insultar-nos. Temos de aceitar?

 

Se alguém vem ao nosso perfil incomodar-nos, podemos bloqueá-los.

 

É simples.

 

E as opiniões que não nos insultam pessoalmente, mas deixam-nos com os nervos em franja?

 

Ora, contemos até dez.

 

Há coisas que não parecem assim tão boas à primeira vista, mas são importantes: no Facebook, encontramos opiniões que, ao vivo, poucos se atrevem a dizer, percebemos certas atitudes, vemos muitas pessoas de forma mais próxima e às vezes mais desagradável do que o habitual.

 

Isto pode parecer mau. Mas, de certa maneira, é bom.

 

E não nos podemos esquecer: ninguém pode ter a certeza de que está certo neste ou naquele assunto. Até a opinião mais ofensiva pode conter em si alguma coisa que valha a pena escutar. Custa, mas é verdade.

 

7. Perceber que o Facebook não é noutro universo

Há quem diga que o Facebook nos está a tornar mais estúpidos. Ou mais agressivos. Ou outra coisa qualquer.

 

Mas se calhar o problema é outro.

 

O Facebook é a nossa vida social, mas em velocidade estonteante. É a mente humana à mostra, mas a tentar continuamente esconder-se. Sem conseguir. Como se estivesse nua a correr com uma pequena toalha para tapar as vergonhas. Não dá: as vergonhas aparecem. A nossa mesquinhez, a nossa inveja, as nossas manias, tudo fica à mostra. Escrevemos a correr, comentamos a correr, vivemos a correr no Facebook. E a vida parece como um jogo de futebol relatado pela rádio: os jogadores podem estar a jogar como a selecção nos belos empates com que nos tem deliciado e quem ouve na rádio parece que está a ver o jogo mais excitante do mundo. A nossa vida no Facebook é assim: parece tudo excitante e belo ou tremendo e triste, sem meio termo.

 

Depois, tentamos criar as máscaras com que vivemos no mundo, mas a velocidade é tanta que damos um passo e, pumba, as vergonhas à mostra. Estou a exagerar? Estou, claro. É de andar demasiado no Facebook...

 

Digo-vos isto: os seres humanos adaptam-se a quase tudo. Depressa estaremos habituados a este mundo social acelerado. Depressa começará a fazer parte da nossa vida. Não é fácil, mas até o telefone foi um choque na altura em que apareceu. E, agora, parece coisa de antigamente. Há-de chegar o dia em que olharemos para trás, com saudades desses tempos em que discutíamos amavelmente no Facebook.

 

Bem, acabo com isto: o Facebook é menos virtual do que parece. A nossa vida é sempre real e em todo o lado podemos tropeçar. Assim, também no Facebook é preciso aprender a viver melhor. É uma questão de olhar para os dois lados antes de atravessar a estrada.


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Esta é uma foto da primeira-ministra escocesa a falar aos jornalistas, há pouco, anunciando planos para um segundo referendo escocês.

Repare-se nas bandeiras que a rodeiam. A Escócia não é um Estado-membro da UE (é, tecnicamente, uma região dum Estado-membro). E, no entanto, a bandeira está lá. De propósito. Tal como a bandeira escocesa. Apenas essas. Mais nenhuma.

Agora, proponho que procurem uma foto com uma bandeira europeia numa declaração do primeiro-ministro britânico em Londres de há muitos anos para cá: será praticamente impossível. Ao contrário de quase todos os Estados-membros, o Reino Unido raramente usa os símbolos europeus.

As bandeiras são pedaços de pano, dirão alguns. Pois são. Mas são pedaços de pano muito significativos.

A verdade é que Reino Unido sempre foi um membro hesitante da União. Mas a grande ironia é que este referendo aparece numa altura em que as gerações mais novas se sentiam cada vez mais europeias e em que as décadas de convivência nos fazem sentir a todos um pouco europeus. Assim, sentimos a saída britânica como uma perda muito nossa. Mas, enfim, está feito. O Reino Unido sai. Teremos de ser amigos como dantes.

Já a Escócia... Um sinal: uma das grandes defensoras da manutenção da Escócia no Reino Unido, há dois anos, foi J. K. Rowling, que lutou com todas as suas forças contra a independência.

Pois bem. Dois tweets da autora, há poucas horas:

- "Goodbye, UK."
- "Scotland will seek independence now. Cameron's legacy will be breaking up two unions. Neither needed to happen."

Não desejo que o Reino Unido se parta em dois. Mas compreendo que os escoceses queiram ficar na Europa: a opção pela Europa foi, por larga margem, a mais votada em TODAS as regiões escocesas. Sem excepção.

E, mais: há dois anos, uns dos argumentos de quem lutou contra a independência foi este: uma Escócia independente poderia vir a ficar fora da UE. Ora, hoje, estamos ao contrário: só uma Escócia independente pode ficar na União.

Tudo isto é difícil. Raramente vemos a política nacional doutro país entrar-nos pela casa dentro e fazer-nos tanta impressão. É a democracia a funcionar, dizem. Claro que sim. Os ingleses têm todo o direito de sair. Tal como nós temos o direito de ficar tristes, como europeus que também somos. E a maior tristeza de todas é a de alguns ingleses, que percebem o que aconteceu: perderam alguns direitos e liberdades dum dia para o outro.


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publicado às 22:29

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A violência é horrível: ouvir as histórias de quem recebeu chamadas do filho de dentro da discoteca de Orlando — antes mesmo de morrer… Ouvir as histórias de quem entrou na discoteca cheia de mortos e ouviu os telemóveis a tocar, em desespero, à espera que aquela pessoa particular atendesse — enquanto esse seu filho ou amigo estava ali morto, no meio da pista…

 

Tudo por causa do ódio a pessoas que beijam quem não devem.

 

Reparem no tipo de vítimas destes energúmenos:

  • Meninas que vão à escola para aprender (Nigéria).
  • Humoristas a fazer piadas que irritam gente séria (Paris).
  • Gente a trabalhar para o bronze na praia (Tunísia).
  • Pessoal a ouvir um concerto ou a rir numa esplanada do café (Paris).
  • Famílias na fila do check-in para ir de férias (Bruxelas).
  • Gays a divertirem-se numa discoteca (Orlando).

 

Estão a ver o padrão? Gente que aprende, que ri, que ouve música, que vai de férias, que ama — e tenta ser um pouco feliz no dia-a-dia. Nós todos, no fundo.

 

Esses tarados miseráveis invejam a felicidade alheia, odeiam a liberdade e não podem com o prazer dos outros. E acham-nos a todos uns depravados, que pomos meninas na escola, dançamos na discoteca, aceitamos que cada um ame quem quiser, despimo-nos na praia, ouvimos música em Paris…

 

Isto é um ataque a todos nós. Todos nós, que amamos a liberdade simples de fazer o que entendemos sem prejudicar os outros, todos nós somos inimigos, infiéis, depravados.

 

Por isso, sim, também precisamos de mostrar que gostamos de viver numa sociedade onde todos vivem como bem entendem e com quem entendem. Não é tão fácil como parece, mas lá vamos conseguindo. Temos de mostrar que é possível viver assim, em sociedades abertas — e isto é possível no mundo inteiro, não é exclusivo nosso. Isso é o que irrita mais os fanáticos: perceber que é possível viver assim, sem medo das suas ideias tremendas. Custa-lhes perceber que em todo o mundo há esta vontade de ser simplesmente livre e não andar a toque dos tarados.

 

E temos de ficar um pouco felizes e comovidos que, mesmo assim, ainda haja tanta gente que se une quando alguém é atacado só porque está a viver a sua vida — hoje somos todos como eles. Sim, somos todos Charlie, estamos todos no Bataclan, somos todos gays de Orlando e somos todos meninas da Nigéria — todos vítimas desses cabrões de brilhantes ideias.

 

O que vale é que somos muitos e ninguém vai parar de dançar, de rir, de ir ao café, de se despir na praia, de ouvir música alta e amar sempre que quisermos, com quem quisermos, como quisermos — só porque isso irrita um qualquer beato incapaz de lidar com o facto de ter visto dois homens aos beijos.

 

Habituem-se, que o mundo nunca será como vocês querem.

 


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DICIONÁRIO DE PALAVRAS PERIGOSAS: RESPEITO, OPINIÃO.

woodtype-846089_640Bem, não. Acho que tenho de respeitar o direito que todos temos de ter opinião. E ainda respeitar as pessoas, o que implica demonstrar a nossa discordância sem ataques pessoais. Mais ainda: podemos respeitar-nos a nós próprios pondo em cima da mesa a hipótese de estarmos errados. Ah, o franco debate de ideias, sem picanços nem insultos. Será possível? Não sei. É difícil. Custa muito. Mas não me parece impossível. Reparem agora nisto (é um exemplo extremo): seja lá qual for a opinião que leva um tarado a matar 50 pessoas por serem gays, será bem pior do que a ideia simples de que devemos respeitar a vida dos outros. As pessoas, meus amigos, as pessoas concretas valem muito mais do que uma qualquer opinião. E as opiniões contrárias a esse valor de cada um não me merecem respeito algum.


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O meu avô Manel janta em casa dos meus pais quase todos os dias desde o final do século XX. A razão não é das mais felizes, mas a vida é assim e às vezes daquilo que nos dói nascem as histórias que gostamos de ouvir.

 

Assim, desde os meus 15 anos que todos os dias oiço as histórias da vida dele — e acabo por ter recordações de todas essas décadas que não vivi.

 

Pois esta semana, talvez por algum arrepio de calor nesta Lisboa de Junho, enquanto seguia, obediente, numa lenta linha de carros, veio-me à ideia viajar no tempo, com o DeLorean que são as histórias dos meus avós.

 

Lembro-me de muitas das coisas que o meu avô Manuel me contou: soldados ingleses a pedir leite num café de Peniche, a PIDE atrás de emigrantes ilegais, hinos soviéticos na banda da terra, histórias de bêbados e telefones, a minha avó no primeiro concurso de televisão — enfim, fica aqui decidido: vou tentar contar o melhor que souber essas histórias que os meus avós me foram contando ao longo dos anos. Foram contando e ainda hão-de contar, que agora vou perguntar-lhes se não têm mais histórias. Porque a meada de que comecei agora a puxar o fio parece não ter fim. E ainda bem.

 

Não sei quanto tempo isto vai demorar. Mas o truque é começar.

 


 

Já agora, esta é a loja onde o meu avô trabalhou entre os anos 40 e os anos 80 do século XX:

 

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Mas as histórias que vos hei-de contar não são só desta loja na Atouguia. Também a mercearia da minha Avó Leonor, em Peniche, tem umas histórias engraçadas.

 

As lojas das pequenas terras têm muito que se lhes diga…

 

 

Um avião no pinhal e o homem que não sabia inglês

 

Não começo pelo início do século XX — pois os meus avós nem sequer tinham nascido nessa altura — mas antes ali no meio, nos anos 40, durante a Segunda Guerra Mundial. Havemos de voltar atrás, até às primeiras décadas, mas para já caímos de pára-quedas nos anos da guerra.

 

A verdade é que uma das histórias mais deliciosas que o meu avô me contou é esta (espero não estar a acrescentar muitos pontos a este conto).

 

Durante a Segunda Guerra Mundial, de vez em quando lá caíam aviões dos combatentes na costa portuguesa.

 

Ora, lembra-se o meu avô disto: numa madrugada fria do início dos anos 40, um avião inglês cai numa praia perto de Peniche.

 

Os tripulantes ingleses foram resgatados pela população da freguesia, que os levou, assustados (e provavelmente molhados) ao café mais próximo, para que pudessem comer.

 

O café ainda hoje existe (é o Avis, em Peniche).

 

Parece-me muito português, isto: o que se faz a soldados ingleses que aparecem numa praia? Pega-se neles e toca de ir para o café.

 

Enfim, foram para o café e fizeram muito bem. A gente que estava no café, admirada com aquelas aparições, perguntou-lhes se havia alguma coisa que quisessem.

 

Imagino a cara dos ingleses com um círculo de portugueses dos anos 40 a perguntarem-lhes:

 

— Mas o que é que os senhores querem?

 

— Que tal um cafezinho?

 

— Vai um bagacinho?

 

— Isso os homens querem é um bife!

 

Foram-lhes oferecendo coisas, mas eles, por uma razão ou outra, iam recusando. Não queriam nada. Nem vinho, nem bife, nem água.

 

Diz o meu avô que, por esta altura chega ali perto um analfabeto, trabalhador da Quinta da Granja, que todos os dias ia entregar vinho ao café de carroça.

 

O nome dele? O meu avô não se lembra. Mas lembra-se que o analfabeto percebe que se passa alguma coisa, olha para os ingleses assustados e a suplicar alguma coisa que ninguém percebia — e declara, confiante:

 

— Os homens querem é leite com café!

 

Todos se calam, o dono do café, já por tudo, arranja o leite com café e os ingleses olham-no com olhos de agradecimento profundo.

 

Bebem o leite bem quente como se fosse a bebida mais saborosa que alguma vez tivessem provado.

 

Como perceberam que o seu salvador fora o tal trabalhador analfabeto, rodearam-no felizes da vida, atirando-lhe com perguntas em inglês em catadupa. Finalmente ali estava quem sabia a sua língua!

 

Como diz o meu avô, o homem mal sabia português, quanto mais inglês. Logo que viu uma abertura por entre os soldados, saltou para a carroça do vinho e pisgou-se dali para fora, antes que ficasse nomeado intérprete oficial da terra.

 

 

Chovem aviões nas praias portuguesas

 

aterrem em portugal

 

Ah, o gosto que é pegar neste fio e ir puxando. Por causa disto, fui investigar e descobri que as quedas de aviões eram tantas que até há um site para as contabilizar a todas. Há um site e um livro:Aterrem em Portugal!, de Carlos Guerreiro. (Já está na lista para comprar.)

 

Procurei nesse site por quedas de aviões na zona de Peniche. Apareceram-me três. Será que alguma delas é aquela de que o meu avô se lembra?

 
Halifax-mk3

Handley Page Halifax

 

Há pouco, perguntei ao meu avô que avião era.

 

Disse-me ele que se lembra dum avião caído num pinhal e dum planador amarado ao largo da praia, mas não sabe se caíram no mesmo dia ou em qual deles vinham os tais ingleses do leite com café.

 

Ora, um dos incidentes registados é a queda do Handley Page Halifax EB178 da Royal Air Force, na zona de Peniche. A descrição do incidente, no site que referi acima, diz o seguinte:

Rebocava um planador para o Norte de África quando um dos motores se incendiou. Dirigiu-se para Portugal e largou o planador que aterrou numa praia próxima. O avião despenhou-se num pinhal e incendiou-se. Os tripulantes escaparam mas alguns sofreram ferimentos. Reed, Treleaven e Saunders foram assistidos por médicos e enviados para Hospital Inglês em Lisboa. Nenhum tinha ferimentos graves. Participavam na missão “Beggar/Turkey Buzzard”, com objectivo de transportar planadores para bases africanas. Estes aparelhos iriam participar na Invasão da Sicília.

 

Serão estes os ingleses do meu avô? Será que eles se lembram do que aconteceu?

 

Pergunto-me ainda isto: o que terão pensado eles? Será que contaram à família da queda em Portugal? O que terão dito aos filhos? Talvez sejam as histórias duma família inglesa, que se entretém a ouvir o avô a contar a história do dia em que caiu numa praia do sul da Europa e foi levado para um café, onde bebeu um belo leitinho quente?

 


 

Andei à procura de imagens de aviões caídos na Internet para ilustrar estepost. Pelos vistos, todos vinham cá parar, não só os ingleses ou americanos:

 
AVIÃO
HTTP://DIASQUEVOAM.BLOGSPOT.PT/2006/01/PRAIAS-E-GUERRA.HTML

 

 

Quem ganharia a guerra?

 

Uns ganham, outros perdem. Todos suspiramos de alívio por ter ganho quem ganhou (até os alemães dão esse suspiro — imagino).

 

Nós olhamos para trás e vemos claramente o que se passou: a Guerra, com o princípio, meio e fim, os vencedores, o mundo que veio depois.

 

Mas como seria viver naquele momento exacto? As notícias confundiam-se, haveria simpatizantes dos alemães e outros dos ingleses — e o dia-a-dia, no fundo, estava longe dessa história de aviões e guerreiros, que existiam nas páginas dos jornais ou passavam lá em cima — isto quando não caíam na praia.

 

A guerra, essa, podia não ter fim… Ninguém sabia o que viria a ser o futuro. Sei que é óbvio — ou mesmo muito banal —, mas quando olhamos para o passado esquecemo-nos de que, para quem lá vivia, aquele era o presente, com todas as cores, todas as dores e todas as rotinas do dia-a-dia: e o futuro ainda não tinha acontecido. (Às vezes, acho que até nos é difícil a nós, habitantes doutros tempos, perceber que os dias não eram a preto e branco…)

 

Será que as pessoas liam o jornal? Do que se falaria no café ou na loja? Isto sou eu a apontar para perguntar ao meu avô…

 

mundográfico1

 

A vida do dia-a-dia a cores e com som bem nítido — e a história ao fundo, imprecisa. Para nós, que estudámos a época na escola, é ao contrário: a história aparece-nos em letras garrafais e a vida do dia-a-dia desaparece, esbatida, escondida nas memórias de cada pessoa.

 

O mesmo acontecerá com o nosso presente: o que se passa com a vida de cada um em cada dia aparece-nos nítido e tremendo — em contraste, a História que aparecerá nos livros de amanhã ainda é difícil de adivinhar no rodopio de notícias. Daqui a umas boas dezenas de anos, as nossas vidas já terão passado e andará por aí uma narrativa mais clara sobre a História deste início do século XXI — narrativa que nós não conhecemos (ou mal intuímos).

 

Só por curiosidade, fui procurar um ou outro jornal da época para me ambientar. Fui à Hemeroteca virtual da Câmara Municipal de Lisboa e encontrei um número de Janeiro de 1943 da revista Mundo Gráfico (quem chamaria isto a uma revista hoje em dia?).

 

A capa não mostra, mas havia muito da guerra lá por dentro:

 

mundografico2

 

Será que se lia esta revista na Atouguia da Baleia?

 

Perguntei ao meu avô e, por lá, só o Diário de Notícias.

 

Pois hoje não tenho tempo de ir à procura destas notícias no velhinho DN. Fica para depois, para passeios na Hemeroteca menos virtual, passeios esses que já não faço há uns anos e que sabem sempre bem.

 

Hoje fico-me por aqui, com esta história de ingleses caídos entre a praia e o pinhal da Atouguia da Baleia. Mas não se preocupem, que há mais: só por ter perguntado sobre alguns pormenores desta história ao meu avô, já ouvi muito mais histórias, entre galegos que vinham fugidos da guerra e não podiam falar em público, o dia em que a minha avó participou no primeiro concurso da televisão portuguesa, como era ver as pessoas a habituarem-se a falar ao telefone (havia horas marcadas para atender chamadas) — e muito, muito mais.

 

Serão estas as viagens pelo século dos meus avós.

Marco Neves


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Sim, é verdade, gostemos ou não da resposta, os ingleses têm direito a escolher: e temos alguma coisa a aprender, aqui pelas ibérias, no que toca à democracia dos seus referendos. Por exemplo, não será melhor, quando há um conflito de nacionalismos, deixar a população decidir, como aconteceu na Escócia?

 

Agora, há um aspecto interessante: também temos algo a aprender sobre a maneira como o uso da língua está intimamente ligado à democracia.

 

Começo pelos referendos.

 

Reparem: a maneira como fazemos uma pergunta pode ter um impacto profundo na resposta.

 

O Reino Unido tem uma comissão eleitoral independente que analisa as perguntas e recomenda novas formulações, que permitam uma escolha menos enviesada.

 

Por exemplo, a pergunta do referendo para ficar ou sair da União que foi proposta pelo governo inglês era: «Should the United Kingdom remain a member of the European Union?»

 

A resposta seria «sim» ou «não».

 

Pois a comissão, depois de testá-la junto dos eleitores, de consultar especialistas em linguagem acessível e pedir a opinião aos partidos e aos movimentos interessados,  aconselhou o governo a alterar a pergunta. Porquê? Para que as duas hipóteses fossem apresentadas em pé de igualdade, sem enviesamentos.

 

A pergunta e respostas finais são:

 

«Should the United Kingdom remain a member of the European Union or leave the European Union?

  • Remain a member of the European Union
  • Leave the European Union»

 

Está tudo descrito nesta página.

 

É por isso que fico muito baralhado quando os jornais portugueses dizem que o «sim» (ou o «não») está à frente. Não há, neste caso, «sim» ou «não». Há isto: ficar ou sair. Se um jornal diz que o «sim» está à frente, quer isso dizer que os ingleses querem sair da União? Não faço ideia.

 

A resposta é clara e inequívoca.

 

O mesmo aconteceu no caso da pergunta escocesa. Neste caso, a pergunta que tinha sido proposta pelo governo escocês era «Do you agree that Scotland should be an independent country?» A comissão eleitoral testou-a, em conjunto com alternativas, tendo percebido que o «do you agree» podia ser entendido como uma forma de pressão subtil no sentido do «sim».

 

Será verdade? Reparem que foi tudo testado de forma independente e está tudo bem explicado nas páginas da comissão eleitoral.

 

A pergunta final foi: «Should Scotland be an independent country?»

 

Simples, imediato, fácil de entender.

 

As várias partes em confronto aceitaram sem hesitações estas determinações da comissão independente.

 

(Podia agora ir buscar as perguntas dos nossos referendos para comparar, mas seria penoso. Mais penoso ainda é olhar para este referendo grego.)

 

Isto é mais importante do que pensamos: é importante dar atenção à forma como os textos são entendidos por quem os vai usar: para lá das nossas noções pessoais de correcção, há que testar, há que respeitar as pessoas (não apenas aquelas que falam exactamente como nós), há que olhar para a língua como ela existe e é usada e entendida pelos cérebros dos falantes.

 

Não estou a falar de literatura ou de ensaios nem das fronteiras do pensamento, mas antes de textos oficiais, de formulários, de impressos e, neste caso, de referendos, que devem ser entendidos por todos.

 

Até mesmo as páginas de Internet oficiais devem ser testadas e pensadas para uma utilização fácil e intuitiva, porque no que toca à comunicação entre o Estado e a população, há que pensar de duas maneiras: é preciso investir na educação dos cidadãos (poucos dirão o contrário), mas também melhorar os textos para que sejam entendidos por todos (e não apenas por quem está habituado ao estilo e ao vocabulário da administração pública).

 

Também isto é democracia.

(Publicado também no blogue Certas Palavras.)


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publicado às 16:04


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