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Sobre quando tanta gente se juntava para ver televisão que a casa quase vinha abaixo. Sobre o dia em que a minha avó foi ao primeiro concurso da RTP. Sobre quando fui ver o 1, 2, 3 ao vivo. Sobre o homem na Lua, o 25 de Abril, o dia em que nasceu a SIC, como deixei uma escola em polvorosa num dia de Setembro — e mais umas quantas coisas. Tudo à volta desse ecrã da nossa vida.

 

As histórias da televisão ouvimo-las quase sempre da boca de quem lá estava, dentro da pequena caixa. Mas também há o outro lado: as histórias daqueles que viam esses programas — sim, todos nós que vivemos estas últimas décadas com essa caixa na sala.

 

Já é difícil imaginar que houve uma altura em que ver imagens de pessoas em movimento numa pequena caixa era qualquer coisa de extraordinário. O meu avô conta-me que a sua mãe, a minha bisavó Manuela, pedia por vezes para desligarem a televisão para que as pessoas que lá estavam dentro descansassem um pouco. Rimo-nos hoje, mas haverá o dia em que os nossos bisnetos se rirão dos disparates que diremos sobre tecnologias que hoje ainda nem existem…

 

Pois essa caixa onde pessoas em ponto pequeno se esforçavam para nos oferecer teatro, música, notícias, humor e tanto mais — essa caixa tem muito que contar.

 

O primeiro televisor da terra: um dia a casa vem abaixo

Sempre ouvi as histórias do meu avô sobre tanta coisa e uma dessas histórias é sobre a primeira televisão da Atouguia. Foi comprada, para venda, por um daqueles comerciantes que iam mudando de ramo ao sabor do vento. O meu avô e uns amigos, de vez em quando, lá iam ver aquela grande novidade.

 

Perante aquele espanto e perante o grupo de gente que começava a juntar-se para ver televisão na loja, o meu avô virou-se para um amigo e disse-lhe: se comprássemos isto e vendêssemos bilhetes, se calhar tínhamos negócio. Entusiasmaram-se e depressa tinham uma sala onde todos podiam assistir ao que passava durante a noite, desde que pagasse 10 tostões. Imaginem o velho televisor a preto-e-branco e bancos para a assistência. Hoje, temos a televisão no bolso. Nessa altura, ver televisão era um espectáculo com a sua própria sala.

 

Ora, a certa altura, o meu avô começa a ter algum receio: talvez aparecesse por lá a Inspecção dos Espectáculos e tinham o caldo entornado. Decidiram passar o negócio para quem estava livre de chatices com inspecções: montaram a televisão num primeiro andar duma casa junto à igreja e todo o lucro ia para a paróquia. A terra continuou a ver televisão em conjunto e ninguém se chateava.

 

copiadertpmariahelenavarelaOra, um certo dia, Maria Helena, uma das locutoras da RTP, anuncia para o dia seguinte a transmissão do filme português Rosa do Adro. Pois depressa todos na terra já sabiam da novidade e todos lá estariam, dez tostões na mão, para ver o filme.

 

Seria uma enchente de deitar a casa abaixo! Literalmente: o meu avô temia pelo chão de madeira daquele primeiro andar. Ele e o amigo lá andaram o dia todo a pôr estacas — o meu avó lembra-se, aliás, do número exacto: 27 estacas. Não, não seria nessa noite que a televisão seria o motivo duma tragédia nacional.

 

À hora marcada, lá estava a terra em peso. Sentados, em pé, pendurados na janela, todos esperavam pela Rosa do Adro.

 

Esperam e esperaram — e nada.

 

Por fim, aparece Maria Helena a informar o país que, por motivos imprevistos, não seria possível transmitir o filme.

 

A sala em peso fez um «ohhh». Mas ninguém arredou pé: lá ficaram a ver o que deu nessa noite — o meu avô é que não se lembra o que foi. Imagino que estivesse atarefado a ver se o chão aguentava…

 

Parece que estas salas do televisor eram comuns a muitas terras. Poucos quilómetros ao lado, os meus avós Leonor e Faustino trabalhavam no Stella Maris de Peniche e garante-me o meu pais que por lá também havia a Sala da Televisão, onde se via televisão como hoje vemos cinema.

 

A minha avó no primeiro concurso da televisão

O ano de 1957 foi um ano especial para mim: não só me nasceu o pai, como tive uma avó na televisão. Conta o meu avô que a minha avó Gisela foi ao primeiro concurso da RTP. Estive à procura do nome e ou bem que é Quem Sabe, Sabe ou Veja se Adivinha. Ambos foram apresentados por Artur Agostinho. (Por curiosidade, encontro pelos labirintos da Internet a curiosa informação que do concurso Quem Sabe, Sabe saiu um concorrente que viria a ser famoso com outro programa: o Pe. Raúl Machado, das Charlas Linguísticas. A televisão estava a dar os primeiros passos e até ir a um concurso era maneira de entrar no meio…)

 

A minha avó chegou quase até ao fim, mas saiu de lá sem nada — porque não sabia donde era o famoso presunto. Não sabia ela e não sei eu: para mim, presunto é de toda a península! O meu avô lá me explicou que presunto que é presunto só pode ser de Chaves. A minha avó foi à televisão no primeiro ano de vida deste novo mundo e saiu de lá a saber donde vinha o bom presunto — mas sem o prémio.

 

botilde2Ah, os concursos televisivos… Uma das minhas primeiras recordações é ver o 1, 2, 3. Não só na televisão, mas também ao vivo: ali por volta de 1985, fui com os meus pais assistir à gravação do mais famoso concurso da televisão portuguesa.

 

Lembro-me pouco da gravação. Lembro-me muito mais de estar a assistir em casa à emissão e de ficarmos todos contentes quando a câmara nos mostra, a um canto, a bater palmas — o que andámos a fazer durante uns minutos antes de começar a gravação, para depois a pós-produção poder encher chouriços sempre que necessário.

 

(Mas também me lembro de andar no metro escuro de Lisboa, de olhar para uma cidade bem mais suja do que hoje, provavelmente por causa dos tubos de escape sem catalisador…)

 

A História em directo: o Homem na Lua, o Zip, Zip e a Revolução

Os meus pais lembram-se de ver o Homem a chegar à lua. A minha mãe tinha 9 anos quando Neil Armstrong chegou à Lua e deu o tal pequeno passo que no fundo era um passo de gigante para toda a Humanidade (disse ele). Conta-me ela que, lá na Atouguia da Baleia, viu vários velhotes a vir para a rua olhar para o céu, a ver se viam os americanos vestidos de astronautas a dar saltos na cara da Lua. Como não viam nada, muitos declararam imediatamente que aquilo era tudo uma grande tanga.

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Pois, se o Homem na Lua marcou a época para quem olha para os livros de história, sempre que falo com alguém sobre esses anos, quase todos referem o Zip, Zip. Diz-me o meu avô que nessa altura já havia mais televisões: nas tabernas e mesmo em muitas casas. A tal Sala da Televisão ao lado da igreja continuava a existir e a ter gente a aparecer, todos os dias, às transmissões, mas devagar esse hábito comunitário começou a desaparecer e a televisão invadiu a privacidade dos serões das casas portuguesas.

 

Mas reparem: se virem bem, a televisão uniu-nos. O país todo viveu uma revolução em directo. O 25 de Abril terá sido o primeiro acontecimento da nossa História que os Portugueses viveram ao mesmo tempo, sem esperar pela chegada de notícias pelo telégrafo. Sim, porque a televisão uniu a nação como nada até então tinha conseguido. No século XIX e durante muitas décadas do século XX, muita gente vivia sem ter grandes notícias do que se passava na capital. Pois a televisão trouxe-nos a política para dentro de casa — e os Portugueses, como poucos, assumiram o telejornal e as notícias como hábito e mesmo, diga-se, como vício. Ficámos cara a cara com os políticos, começámos a ralhar com eles, a indignar-nos com o que ouvíamos. Lembro-me de ver o meu avô Faustino a reclamar com o que alguma personagem da vida nacional estava a dizer. Imaginem isso um século antes… No festim de desaguisados partidários em que entrávamos com entusiasmo, a televisão pôs-nos a todos na mesma sala — e apesar de acabarmos a ralhar uns com os outros, estávamos todos juntos a olhar para o ecrã, pelo menos durante o telejornal. E, claro, víamos as mesmas séries, os mesmos concursos e, pela primeira vez, começámos a ouvir as mesmas palavras, com o mesmo sotaque, todos os dias.

 

Não me posso lembrar da revolução, claro está, mas já vi as gravações tantas vezes que é quase como se me lembrasse. Ali por volta de 1997, fiz um trabalho escolar de muitas páginas sobre o acontecimento e fui com uma amiga minha aceder à internet no Instituto Superior Técnico (onde estudavam umas primas dela), para conseguirmos descarregar vídeos, imagens e documentos — sim, mas isto já pertence à história da Internet, não da televisão. Fica para outros festivais de nostalgia, em que entra o barulho dos modems…

 

Do que me lembro bem, isso sim, foi de ver a reconstituição que a SIC fez pelos 25 anos da Revolução, em 1999, transmitindo os episódios à hora exacta em que aconteceram.

 

Foi um tempo de história, de paixão, de humor, de canções e paredes escritas. E eu acabei por ficar com memórias desse tempo que não vivi muito por culpa da televisão.

 

O Incêndio do Chiado e uma capital de todos nós

A mercearia da minha avó Leonor e do meu avô Faustino foi um dos sítios onde cresci: ia para lá enquanto os meus pais iam trabalhar e, quando já podia ir sozinho para a escola, passava por lá muitas vezes — e brincava no largo à frente da mercearia, com um chafariz que ainda hoje me deixa enternecido. A mercearia em si foi mudando ao sabor dos hábitos do país e das regras inscritas nas leis — quando eu era pequeno tinha um ar bem mais antigo, de mercearia a sério. Hoje em dia é um mini-mercado.

 

Arquivo da CML.

Todos almoçávamos lá muitas vezes, numa cozinha que a minha avó ainda tem. Pois cheguei lá um dia, e na televisão que estava em cima do frigorífico, uma coluna de fumo a subir pelos telhados de Lisboa — o Incêndio do Chiado. A minha família olhava para a televisão em silêncio. Lembro-me de ir visitar o Chiado algum tempo depois (não sei quanto) e ver aquilo através dum passadiço de ferro que foi instalado — aquela ferida na cidade está-me marcada na memória.

 

E, com isto, lembro outro facto curioso: por via da televisão (e também, claro, da rádio) todos os Portugueses conhecem Lisboa — ouvimos os nomes das ruas e avenidas, conhecemos os bairros, sentimos esta cidade como nossa — nem que seja por ouvirmos as notícias do trânsito de manhã. A alguns lisboetas mais ciosos da sua aldeia, isto faz confusão: mas é o que acontece com as capitais — fazem parte da paisagem mental de todos, não só de alguns.

 

Rosa Mota e outros que tais

Entre a medalha de ouro de Rosa Mota e a medalha de ouro seguinte passaram oito anos. Para mim, foram esses os anos em que comecei a reparar nas coisas. Quando, em 1992, vi os meus primeiros jogos olímpicos (que tiveram alguma responsabilidade na pancada catalã de que sofro), na minha cabeça a última medalha de ouro portuguesa era coisa muito antiga: tinha sido na década passada, em 1988!

 

Em 1996 já eu tinha 16 anos. Estava no secundário. Estava no quarto e lembro-me de ficar banzado com aquela ultrapassagem final, a Fernanda Ribeiro a ultrapassar a atleta chinesa (que momentos antes parecia ter aquilo ganho). Saltei da cama (sim, tinha televisão no quarto) e fui ter com os meus pais que estavam também felizes a olhar para o ecrã — são estranhas alegrias irracionais, mas alegrias, seja como for. Tal como também foi um pouco irracional a alegria com que em 1994 tínhamos saudado o falhanço de Baggio, que deu o Mundial de 1994 ao Brasil. Na altura, tinha as cadernetas e olhava para aquilo como um jogo de cromos. Portugal? Ah, eu sabia que Portugal nunca ia a esses campeonatos. Tinha de me contentar com o Brasil.

 

A Eurovisão, os Jogos Sem Fronteiras, a Chuva de Estrelas…

A voz do apresentador por telefone, as palmas, as canções em línguas estranhas… O grande Festival Eurovisão da Canção! Só o nome cheira a Anos 60, mas ele lá anda, a cambalear, mas ainda vivo.

 

luciaAquilo é tudo uma grande infantilidade, mas era muito nosso. Víamos aquilo em dois momentos: a canção portuguesa e a votação. Lembro-me muito bem do Quando Cai a Noite na Cidade e, depois, da Lúcia Moniz e seu cavaquinho. É um pouco ridículo e também comovente pensar no entusiasmo que este país sentiu por ficar em sexto lugar num concurso europeu de más canções e piores fatiotas. Mas, que querem?, a vida é assim.

 

Pelo menos os Jogos Sem Fronteiras assumiam a brincadeira muito a sério: aquilo eram jogos de gente adulta vestida de bonecos. Era mesmo assim — e era muito bom. Tinham coisas estranhas — como o facto de Portugal ganhar muitas vezes. E também havia isto: o País de Gales participava e a Amadora estava sempre lá. E Peniche, vejam bem.

 

jsfDiga-se que, apesar da bonecada, era um jogo com muita classe porque tinha o Eládio Clímaco a apresentar e andava a mostrar cidades do centro da Europa aos portugueses. Foi assim que soube que havia terra com nomes como Brno. Ora, eu sempre quis ir a Brno!

 

Parece que ficámos mais velhos, todos: hoje ninguém ficaria assim muito contente por passar uma noite a ver galeses vestidos de galinha a saltar para dentro de piscinas. Já nem aguentamos a Eurovisão, vejam lá bem! Parece que o país saiu da adolescência — ou se calhar fui eu.

 

O nervosismo do primeiro dia da SIC

Ora, ali por volta de 1992… Não, não foi por volta coisa nenhuma: foi mesmo no dia 6 de Outubro de 1992. Lembro-me do dia porque tinha trazido para casa um recado na caderneta e estava com medo de mostrar aos meus pais.

 

E, assim, às quatro da tarde estava eu sentado na cama dos meus pais, nervoso, e decidi distrair-me vendo a primeira emissão da SIC. A Alberta Marques Fernandes lá apareceu e o mundo mudou. A SIC trouxe muita coisa, incluindo portentos de qualidade como o Big Show SIC e ainda os primeiros seios da televisão portuguesa com o famoso Água na Boca. Ah, para os miúdos entre os 12 e os 16 anos, foi uma revelação. Mas não sejamos mauzinhos: também trouxe tanta coisa de bom…

 

Meses depois, foi a vez da TVI, mas dessa não me lembro. Não tinha recado na caderneta. Mas lembro-me que, anos depois, nos primeiros tempos da faculdade, vivi uns meses na casa da prima Raquel, uma senhora familiar do meu avô que tinha sido telefonista na RTP. Ela contava-me histórias imensas e para ela as televisões privadas eram clubes inimigos. Vestiu a camisola da RTP até morrer. Ela contava-me que adorava o Herman José — até ao dia em que ele se passou para a SIC e ela nunca mais mais o perdoou.

 

Crescer entre o Roque Santeiro e a Ally McBeal

As telenovelas, claro. Vejo um clipe qualquer do Roque Santeiro e cai-me a infância toda em cima. Mas não posso ver durante muito tempo, porque vejo como as coisas eram bem diferentes na altura e não necessariamente para melhor. Pois experimentem procurar vídeos de telenovelas portuguesas dos anos 80. Preparem-se para uma grande surpresa.

 

Roque Santeiro… Tieta… A certa altura os meus pais fizeram o desmame das telenovelas brasileiras e mudaram-nos a todos lá em casa de armas e bagagens para a ficção nacional. Assim, lembro-me bem da telenovela Pedra Sobre Pedra, mas já não vi clássicos como o Rei do Gado ou aquela telenovela meio italiana em que uma actriz que fazia as delícias dos adolescentes nacionais andava sempre a chamar pelo seu Matteo.

 

transferirEnfim, essas memórias acabam por ser acima de tudo das músicas dos genéricos: como a música da telenovela Palavras Cruzadas. Ou então de séries como Duarte & Companhia. Esta última, diga-se, aguenta-se à bronca do tempo bem melhor que as telenovelas.

 

O YouTube e a RTP Memória são um perigo: não convém andar muito por lá. Podem muito bem destruir doces ilusões. Para quem acha que antigamente é que os programas eram bons, sugiro algumas experiências. Por exemplo, vejam a transmissão do primeiro programa a cores (um dos Festivais da Canção). Reparem no público a reclamar porque alguém se enganara nas contas, os apresentadores a hesitar, deslizes saborosos mas que hoje seriam aproveitados para milhentas repetições no YouTube e para queixas infindas no Facebook sobre como esta gente não sabe apresentar um programa de televisão…

 

Sobre este efeito psicológico que nos leva a crer que antigamente é que era bom, ainda há uns tempos li um artigo que não consigo recuperar em que um jornalista explicava de forma muito concreta que os musicais de hoje da Broadway são incomparavelmente melhores do que os musicais de há umas décadas. Mas a memória melhora tudo e não reparamos. O mesmo se aplica a tanta coisa do que víamos, que nos parece muito bom porque nos apareceu à frente dos olhos nos melhores anos (que, aliás, se bem me lembro, é o nome duma qualquer série juvenil de há umas décadas — uma espécie de Riscos antes dos Riscos, que por sua vez foram um Morangos com Açúcar antes dos Morangos com Açúcar, mas com mais «problemas da vida real»).

 

Sim, a nostalgia é perigosa. Mas também é bom cair nesse pecado de vez em quando. Quem trabalhava na televisão fazia o melhor que sabia com meios muito diferentes dos de hoje. Acho que temos todos de agradecer a actores, apresentadores, guionistas. Eu, por mim, declaro: nunca teria visto tanta coisa (tanto filme, tanta peça, tanto debate) sem a televisão. Desde telenovelas a programas como Acontece… (Sim, às vezes via coisas dessas para matar a fome de livros…) A televisão foi muito importante para um rapaz ensimesmado como eu. Sim, não foi só a televisão, nem foi principalmente a televisão. Foram os livros, os jornais, a escola, as conversas — disso falaremos noutro dia. Agora, o que quero sublinhar é que também foi a televisão que me mostrou a mim o mundo — a mim e a todos, arrisco dizer.

 

ally-mcbeal-537595Não posso deixar de falar das séries do fim da adolescência da minha geração: séries como Quantum Leap, o Bocas, a Ally McBeal, o HR, o Seinfeld e outras que tais… No primeiro dia da faculdade, um puto a olhar para os alunos mais velhos sem saber o que fazer, lembro-me de ouvir umas alunas do último ano a falar do último episódio da Ally McBeal. E eu a pensar: ah, então é disso que falam os estudantes universitários!

 

Note-se: muito do que vimos ao longo destas décadas foi legendado. Por isso, vá lá, façam-me um favor e agradeçam também aos tradutores e legendadores…

 

Herman e o 11 de Setembro

Na faculdade, por vias da Marta, uma prima que trabalhava na SIC, conseguia por vezes convites para ir com os meus amigos assistir às gravações do Herman SIC. E lá íamos, todos contentes, até Paço d’Arcos, onde nos maravilhávamos com todo o ambiente das gravações de televisão.

 

Em Agosto de 2001, telefonei à Marta para saber se podíamos ir assistir à gravação da semana seguinte. Ela diz-me que não podia falar, porque tinha a redacção toda de pantanas por causa dum acidente nas obras da construção da A8, em que morreram alguns trabalhadores. Eu que lhe telefonasse na semana seguinte.

 

Deixei passar umas semanas. Decidi telefonar-lhe de novo numa bela manhã de Setembro, mas cá para mim, meio a sério meio a brincar, pensei: é melhor ligar a televisão para saber se houve mais algum acidente ou algo do género.

 

Pois, ligo a televisão e vejo uma das Torres Gémeas a deitar fumo. E, pouco depois, um avião a lançar-se contra a outra torre.

 

Deixei o Herman para depois.

 

Estava em casa. Quando as torres caem, recebo uma chamada do meu pai: «Tu estás a ver isto?» — e desligou. Na loja de electrodomésticos dele, os aviões batiam repetidamente contra as torres, multiplicados pelas dezenas de televisões em cima umas das outras — enquanto toda a gente, parada, olhava pela montra ou dentro da loja.

 

Telefono para a escola da minha mãe e peço para falar com ela. «Mãe, a América está a ser atacada!» Sim, fui um pouco alarmista, mas naquele momento era o que me apetecia dizer. Os medos da Guerra Fria voltaram todos e ela vai pela escola a chamar toda a gente, deixando-me com o telefone pendurado a ouvir as conversas nos corredores, onde professores e alunos se juntavam, sem saber se vinha aí a III Guerra Mundial.

 

Humor de Perdição

O Herman… Sim, o humor sempre foi das razões para nos agarrarmos ao pequeno ecrã — e o Herman é o gigante incontornável. Lembro-me de ouvir a música do Casino Royal, de me rir com as piadas dos programas dele dos Anos 80, de assistir, bem mais velho, ao Herman Enciclopédia e gostar muito daquilo, uma bela amostra da explosão do humor nacional que veio depois. E recordo uma certa passagem de ano apenas e só por causa do Crime da Pensão Estrelinha. 

 

O Herman também dividiu as gerações: os meus avós nunca foram muito de gostar daquele humor, mas os meus pais tinham-no como ídolo nos Anos 80. Já nos Anos 90, com a tal Enciclopédia, foi a minha geração a assumi-lo como seu. Não tínhamos ainda séries como o Paraíso Filmes nem o Gato Fedorento — agora, a verdade é que estes já pertencem mais à história da Internet, se virmos bem. Mas começaram na televisão, pois então.

 

A vitória de Portugal

Hoje, claro, vemos todos canais diferentes. E temos a internet, o YouTube, o Netflix, os blogues, o Facebook, as mensagens de telemóvel. Mas, de vez em quando, lá nos juntamos todos, como ainda há poucos meses, para assistirmos à improvável vitória de Portugal no Euro 2016. Foi assim que ouvi todo o meu prédio a gritar e a Zélia, eu e o Simão nos pusemos aos saltos os três, ridículos e felizes, como todo esse país que por um dia se uniu de novo à volta da televisão para ver um feliz jogador desengonçado a atirar uma bola para dentro da baliza. E depois desligámos todos as televisões e viemos para a rua.

 

Mas, é verdade: hoje, ligo pouco aos nossos velhos canais de televisão. Gosto mais de andar a escrever por aqui ou a navegar nos vídeos do YouTube — ou, claro, a ler um livro ou a trabalhar, que é um passatempo bastante intensivo — e há as séries e os filmes que podemos ver sem ligar a horários.

 

Às vezes, noto: havia quem reclamasse que a televisão era um meio de comunicação com pouca interacção, que nos iria deixar a todos estúpidos. Enfim, hoje têm à frente um mundo onde as pessoas comentam, interagem, ouvem e reclamam e os mesmíssimos reclamadores lá vêm dizer que isto com tanta interacção não vai lá, toda a gente comenta, toda a gente escreve no Facebook, toda a gente fala e diz o que lhe apetece — que horror! Enfim, há quem nunca esteja contente — e há quem ache que o mundo ou é perfeito ou não vale a pena.

 

Convém não menosprezar o poder da nostalgia, do que passa e não volta. Há quem confunda a emoção que sentimos ao olhar para trás com o valor absoluto das coisas, como se o passado fosse necessariamente mais genuíno e melhor. O meu filho dá-de ter memórias do que havia no tempo dele e também há-de chorar o fim de uma ou outra tradição. Como será no dia em que acabar o canal Panda? E talvez um dia ele escreva um texto num qualquer sistema que ainda não há, com saudade dos dias em que ouvia as músicas dos Caricas, que agora irritam os ouvidos dos pais…

 

A televisão lá continua, com muitos canais, em muitos ecrãs — e venha ou não a acabar, estilhace-se ou não em mil canais, faz parte das nossas memórias, faz parte das vidas de todas as gerações que por cá andam: o meu avô lembra-se do dia em que a minha avó foi à televisão, os meus pais recordam enternecidos o Zip, Zip e o Tal Canal e eu lembro-me do Vitinho a mandar-me dormir, da música do 1, 2, 3, do arranque da SIC com medo de mostrar o recado à minha mãe, do Dartacão — que por acaso o meu filho também vê e de tudo o resto que vivemos a olhar para um ecrã. E essa gente da televisão lá continua, nessa caixa que intrigava a minha bisavó, a fazer-nos um pouco mais felizes nem que seja por uns minutos e nem que seja à força dum golo marcado nos últimos minutos dum jogo contra a França.


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Ora, hoje vou escrever sobre aniversários dos miúdos. Porquê? Porque o Simão está mesmo quase a fazer anos e vai ter a sua primeira festa para amigos. Não que nos anos anteriores não tivesse tido festa, mas era uma festa para a família e para os nossos amigos.

 

Pois, agora, no quarto aniversário, a festa é outra e é mesmo dele: foram convidados os amigos dele, da escola. E assim entramos nesse quase calvário de festas que se espalham ao longo do ano. Sim, são vinte e tal miúdos: temos assim vinte e poucas festas. Nem vale a pena pensar em fugir a esta seringa: um dos miúdos tem uma festa para a turma toda e, claro, os outros não querem deixar de ter a sua. Há que dizer que não? Porquê?

 

E onde fazer a festa? Em casa? Houve pais de colegas do Simão que, sim, optaram por levar os colegas todos para casa. Mas a Zélia e eu imaginámos 20 e tal miúdos aos saltos no apartamento, os livros todos rasgados no chão, o nosso gato a ter um ataque de coração e (o horror! o horror!) o fim da festa, em que todos já foram e para limpar ficámos nós — e claro que optámos por procurar outro sítio qualquer.

 

Um armazém cheio de festas

Não sei se já repararam, mas os aniversários das crianças transformaram-se numa verdadeira indústria: há armazéns e armazéns por essas urbes fora preparados para aguentar com várias festas em simultâneo — isto para lá doutros locais que, a certas horas, se transformam em palcos para a criançada (o Oceanário e certos museus, por exemplo). Tudo depende das idades, claro — e da carteira dos pais.

 

Pois bem, alguns torcem o nariz, mas a verdade é que a coisa funciona: as crianças divertem-se, há bolo e cantoria, no fim está tudo limpo e é bastante seguro… E foi assim que escolhemos uma dessas fábricas de festas, que o Simão exigiu ver para nos dizer se estava bem. Foi lá e já não queria sair. Podia ser ali. Aliás, podia ser ali todos os dias…

 

Cinco minutos sem timidez

O Simão já anda nisto das festas há uns meses. E há uma confissão a fazer: nem sempre ele gosta assim tanto da festa. Ou melhor, gosta, mas à distância.

 

Talvez ele tenha alguma coisa de tímido (como eu), mas ainda há poucas semanas lá ficou a brincar um pouco sozinho, sem se importar muito com as brincadeiras dos outros. Mesmo nas brincadeiras de conjunto, pediu-me para ir com ele. E assim vi-me a fazer um jogo de crianças em que devia andar ao pé-coxinho aos saltos por vários arcos coloridos sem pisar nenhum dos bonecos que lá tinham sido postos pela animadora. Isto, claro, com o Simão ao colo.

 

Os coitados dos bonecos nem sabiam o que os esperava. Só vos digo que as crianças sabem brincar melhor do que eu. A animadora da festa estava de boca aberta e lá ralhou comigo como se fosse uma criança que não sabe acertar com os pés no sítio certo… Bem, diga-se em minha defesa que os meus pés são um pouco maiores que os dos petizes.

 

Porquê aquela timidez? Não sei: todos temos os nossos dias. Enfim, nos últimos cinco minutos a timidez passa e agora o rapaz já não quer ir embora. Fala, gesticula, corre, brinca o suficiente para compensar as duas horas de timidez. E parece que, para ele, está bem assim: vai todo feliz para casa, depois de cinco minutos de verdadeira festa.

 

Prendas e rituais

As festas têm os seus rituais, claro está. O bolo, a cantoria, as prendas… Sim, as prendas são uma obsessão: eles gostam mesmo de as receber (e quem não gosta?). Mas o mais engraçado é que nas festas já notei como os miúdos também gostam muito de dar a prenda ao rei desse dia. Pois, se as crianças são habitualmente um pouco invejosas e um pouco egoístas, nesse dia aprendem esse outro prazer.

 

Mas voltando aos rituais: há hábitos estranhos que aparecem vá-se lá saber de onde. Ainda há umas semanas, fomos à festa do meu sobrinho Martim, num dos tais armazéns, ali mesmo ao pé do aeroporto, o que tinha o encanto de, por entre os miúdos a gritar, nos deixar ouvir, de tantos em tantos minutos, um avião a passar. Pois, percebi que entre a geração dos oito anos (pelo menos naquela escola), depois de cantarem os parabéns, o miúdo que faz anos tem de ir para baixo da mesa e gritar.

 

Os miúdos riem-se e batem na mesa. Os pais franzem as sobrancelhas e olham uns para os outros, para tentar perceber se aquilo será normal. E parece que é! Será porque dá sorte? Não: é mesmo porque tem de ser.

 

E ainda dizem que os miúdos não brincam!…

Sim, eu sei que muitos acham que as crianças andam metidas nos computadores e iPads e outros que tais e já não brincam. Enfim, isso são pessoas que vêem uma criança a brincar com um iPad durante uns minutos e acham que as crianças passam a vida toda assim.

 

Ora, tretas! Pelo que vejo, as crianças brincam e não é pouco. E têm tantas actividades na escola e fora da escola que às vezes até acho que mais valia estarem mais tempo sossegadas a olhar para alguma coisa — mas isto já sou eu a provocar.

 

Sim, os putos brincam e saltam e, às vezes, lá passam o dedo pelo telemóvel — e desarrumam as aplicações dos pais ou mandam mensagens absurdas ou, como há dias me aconteceu, atendem o telefone sem dar cavaco a ninguém.

 

Não acreditam que as crianças de hoje em dia também brincam? Então, basta irem a um desses armazéns de festa e vê-los aos gritos e aos saltos, a correr (menos quando têm um ou outro ataque de timidez e querem que o pai vá andar ao pé-coxinho). Ou, aliás, podem sempre ir às escolas e ver como as crianças nunca deixaram de brincar.

 

Fotos aos magotes…

E durante as festas, os pais fazem o quê?

 

Os pais põem a conversa em dia, olham (esses sim) para o telemóvel, vêm os aviões a passar, tomam café e, claro, tiram fotos sem parar. Todos tiramos tantas e tantas fotografias e, agora que não há os limites dos rolos, parece que nos perdemos num mar de gigabytes de imagens atrás de imagens. A maioria delas são terríveis: desfocadas, desenquadradas, sem lógica. Mas lá aparecem umas quantas que vale a pena imprimir e guardar.

 

Depois, claro, esquecemo-nos de as imprimir e temo-las apenas no telemóvel ou no computador — mas elas lá estão. Sim, sem qualidade de artista, mas a fazer-nos recordar essas festas. O Google, aliás, no programa Photos, lembra-se de vez em quando de nos mostrar as recordações das festas dos anos anteriores. E ficamos logo babados.

 

Digamos que as festas de aniversário, esse dia em que cada criança é o rei do mundo, são também uma espécie de marco da estrada, onde vemos como os nossos filhos mudam de ano para ano. No dia-a-dia, crescem tão devagar que nem notamos. Mas de ano a ano percebemos como tudo muda em tão pouco tempo. Eles e nós.

 

As festas são todas iguais?

Para alguns dos que já tiveram filhos há muito ou nunca os tiveram, estas festas são todas iguais. E, sim, parecem iguais: são crianças. Aos gritos. A brincar.

 

Esta aparente banalidade engana bem: acontece o mesmo com os casamentos, com os baptizados, com os funerais, com os casais aos beijos no parque, com as casas por que passamos na cidade. Acontece isto com tudo, aliás: a vida dos outros parece-nos sempre igual a todas as outras e muito banal. Pensem no casamento: haverá festa mais igual, mais banal, mais formatada? E, agora, pensem no casamento do vosso melhor amigo: terá mesmo sido assim tão banal? As festas dos nossos nunca são banais, não é verdade?

 

Todos nós somos banais para quem nos vê de certa maneira — tal como, para dizer a verdade, quase ninguém é verdadeiramente banal a todo o momento. E, assim, digo-vos: cada uma destas festas repetidas em doses industriais são tudo menos banais para a criança que faz anos nesse dia. Esta é a festa dele, desta pessoa irrepetível, que ainda há pouco era um bebé a chorar como todos os outros e agora já tem as suas impaciências, os seus desejos, o seu olhar único, a sua maneira de rir, de adormecer, de nos pedir alguma coisa. É já uma pessoa inteira, com defeitos e qualidades e um olhar bem vivo a aprender como é isto de viver cada dia, de perceber o mundo — e de estar com os amigos, que é coisa para nos deixar felizes durante um bom bocado.


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publicado às 17:44

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Já vos disse aqui que as outras línguas ibéricas são, para mim, um estranho prazer — uma espécie de línguas secretas que nem todos vêem. Ora, os prazeres são para partilhar e, depois de alguns dias em terras catalãs, lembrei-me de vos trazer cinco palavras que me fazem cócegas nessa língua do outro lado da península.

Nit

Dizer «bona nit!» é simpático, mas para um português o estranho é ouvir um «bon dia» assim de chofre, sem nada que desmanche a ilusão que estamos a ouvir a nossa língua. Não estamos. Mas, durante aqueles segundos, parece.

Bem, avancemos então no dia. «Boa tarde» é «bona tarda». E, depois, a noite… A palavra «nit» é intrigante. Sim, estamos a caminhar até à «nuit» francesa, mas não temos nenhum «u» e estamos longe da «noite» portuguesa ou da «noche» castelhana, sempre com o «O» a lembrar-nos uma certa escuridão.

Sim, isto sou eu a delirar. A escuridão da noite não está nas palavras e sim no céu, mas o que querem? Quando oiço «nit» lembro-me de duas coisas: dum qualquer grito de alegria nocturna e ainda duns certos cavaleiros ingleses que gritavam «NIIII!».

Tardor

Não sei se me soa a Terra Média («e os cavaleiros puseram-se a caminho em direção às negras terras de Tardor») ou a qualquer coisa de tardio, ainda um pouco quente —  ou talvez me soe ao aspecto ardido das folhas castanhas no chão. Não faço ideia, mas sei que soa bem. É «outono» em catalão, mas lembra-me também o entardecer e uma certa mansidão. As outras línguas são assim: às vezes põem-nos a ver as coisas pela primeira vez.

Cap

Esta é uma estranha palavra que tanto quer dizer «cabeça», como «chefe» e ainda «cabo», «nenhum» — ou «em direcção a». E olhem que não fica por aqui.

Ou seja, «cap al cap» será «em direcção ao cabo». «No tinc cap pressa» é «não tenho nenhuma pressa». «El cap del meu cap» — «a cabeça do meu chefe».  Uma palavra bem cheia… (E espero não ter metido os pés pelas mãos com o atrevimento de escrever umas frases em catalão.)

Seny

Como nós, que temos sempre a saudade na boca quando nos falam do que é ser português, também os catalães tentam definir o seu carácter com uma ou duas palavras. Neste caso, duas: «seny» (bom senso) e «rauxa» (loucura) — uma estranha mistura que há uns anos li descrita (não sei bem onde) como alguém a tratar de negócios à varanda do hotel, mas todo nu. E se calhar com um bigode à Dali. Como sempre, estas caracterizações nacionais são perigosas, redutoras, ilusórias — o que quiserem. Mas aqui fica a tal «seny» nem que seja para vos dizer que o «ny» se lê «nh». Sim, em catalão, Catalunha escreve-se «Catalunya».

Una mica més: dona, germà, manjar, parlar, diner, sopar, esmorzar, novel·la…

Não me consegui ficar pelas cinco… Não sei porquê, mas acho a expressão «una mica» muito engraçada (quer dizer «um pouco»). Também acho curiosa a palavra «dona» (mulher) ou «germà» (irmão) ou «manjar» (comer) ou «parlar» (falar). E estranho, estranho é dizer «diner» para o «almoço». Já o jantar é «sopar». E o pequeno-almoço? «Esmorzar». Depois, temos ainda isto: «dona» no plural dá «dones» (mas o «e» lê-se quase como o nosso «a»). «Irmã» é «germana» e, assim, irmãs são «germanes». Ah, e «primo» é «cosí».

Para terminar, fiquem com a palavra «novel·la» (romance). Tem aquele símbolo estranho, exclusivamente catalão: assinala que os dois LL não se devem ler como o nosso «lh», mas antes como dois LL separados, um em cada sílaba. «Una novel·la excel·lent» é, por exemplo, La plaça del diamant, de Mercè Rodoreda (notem o «ç», que também existem em catalão).

Experimentem lê-la. Devagar, com a língua entre os dentes e o dedo a acompanhar as palavras, podemos ir aprendendo esta outra língua que nos faz cócegas, ao mesmo tempo tão próxima e tão distante.

Fins demà!


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As notícias sobre a recomendação de Guterres como novo secretário-geral das Nações Unidas foram muitas e em várias línguas. Encontrei um curioso texto no El País («Otro triunfo de la diplomacia portuguesa») em que a competência dos diplomatas portugueses é elogiada de tal maneira que, na pena dum português, seria um texto constrangedor.

 

Um dos parágrafos pareceu-me muito curioso (o negrito é meu):

Pero hay otra cualidad, no menor, que permite a este pequeño país distinguirse en el mundo: su educación lingüística. No hay dirigente portugués que no hable inglés y español, por lo menos. El citado Barroso, como Guterres o como los actuales dirigente del país, el presidente Rebelo de Sousa y el primer ministro Costa, se mueven con total comodidad en los escenarios internacionales gracias a su don de lenguas. No necesitan intérpretes para hablar con Merkel, Hollande o Teresa May. En seis meses, Rebelo de Sousa ha departido cara a cara con más dirigentes internacionales que Rajoy y Zapatero juntos en sus años de Gobierno. Esa cercanía, esa afabilidad con todos, sin prepotencias y sin menosprecios, al final acaba dando sus frutos.

 

Parece-me haver aqui uma generalização que, lá por nos ser muito simpática, não devemos encarar sem algum cepticismo. Mas vamos assumir que sim, que os portugueses têm um à-vontade com as línguas em grau muito superior aos espanhóis. Tenho uma ideia, não mais do que uma teoria malpensada, que me leva a sugerir isto: os espanhóis exageram na importância diplomática que dão à sua língua. Sim, o espanhol é falado em muitos países, é uma língua muito importante nos E.U.A., é a segunda (ou talvez a primeira) língua europeia mais falada no mundo. Tudo isso é verdade, mas não se traduz em importância diplomática. E para mudar isso há que saber falar outras línguas…

 

Nós por cá também gostamos de ir atrás de declarações sobranceiras sobre a importância da língua, como sabemos. Mas também é verdade que a nenhum líder português lhe passa pela cabeça exigir aos outros líderes mundiais que saibam português. Ficamos contentes se souberem alguma coisa, mas não achamos que é sua obrigação. Ora, talvez se dê o caso de muitos líderes espanhóis, embebedados pelo discurso superlativo com que falam sempre da sua língua, estejam mesmo convencidos que os outros líderes mundiais têm de saber espanhol.

 

Bem, e será que deviam saber? Como sempre digo, isto de aprender línguas, ainda por cima uma língua como o espanhol, só faz é bem. Mas a realidade, para já, é esta: o inglês e o francês são as línguas da diplomacia. A força do número de falantes de cada língua conta muito menos do que se pensa. Assim, o político ou diplomata espanhol que não saiba falar bem outras línguas nos corredores da política internacional acaba por ter mais dificuldades em defender o seu país. É caso para dizer: será que defende mais o seu país quem inventa um mundo inexistente em que a sua língua é muito mais importante do que é na realidade — ou aquele que sabe mover-se no mundo de hoje, talvez semeando alguma coisa do mundo que gostava de ter?

 

Enfim, é uma reflexão perigosa, porque começa numa generalização, passa por uma teoria muito minha e talvez acabe muito longe da realidade. Mas se houver algum fundo de verdade nisto tudo que acabei de escrever, também pode explicar a confusão que muitos espanhóis sentem perante a defesa por parte de alguns dos seus concidadãos das línguas minoritárias de Espanha. Então mas por que razão não querem falar uma das línguas mais importantes do mundo? A verdade é que querem sim senhor: falam espanhol e também a sua língua. E por vezes ainda o inglês, o francês, etc. Surpresa, surpresa: saber uma só língua não é uma vantagem em sítio nenhum do mundo. Um galego que saiba espanhol e galego já vai um passo à frente…

 

Bem, dito tudo isto, tenho de afirmar o óbvio: o espanhol é uma língua importantíssima e, para vos dizer a verdade, uma das minhas paixões neste mundo das línguas e das culturas. E também admito: se acima me queixo da forma como muitos espanhóis imaginam uma importância diplomática que a sua língua não tem, também me custa ver como tantos fora de Espanha desvalorizam essa mesmo língua. Basta pensar nos E.U.A., onde a segunda língua do país é vista por muitos como uma língua estrangeira, alimentando discursos xenófobos sob a capa do patriotismo americano. E basta pensar na recusa de muitos portugueses em saber mais sobre a língua e a literatura dos vizinhos, para lá do portunhol de praia. Temos tanta e tão boa literatura aqui ao lado e não queremos saber…

 

Mas este texto vai neste sentido: a convicção legítima da importância da sua língua não deve servir para encerrar os falantes de espanhol num triste mundo monolingue. Na diplomacia, por exemplo, isso dá mau resultado, como reconhece o El País. E não é só na diplomacia: na vida do dia-a-dia, na literatura, na cultura, no comércio…

 

E fica aqui uma pista para outro dia: os ingleses e os americanos são outros dos povos que sofrem deste triste monolinguismo, uma espécie de preço a pagar pela importância internacional da sua língua…

 

Este problema nós por cá não temos — isto, claro, segundo o El País. Agora também não quer dizer que não tenhamos muito a aprender no que toca às línguas. Oh, se temos!


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Ando a ler o livro Lingo, de Gaston Dorren. É um livro ideal para quem gosta de línguas — e também para quem gosta de viajar e quer ver a Europa com outros olhos.

 

No final de cada capítulo, o autor escolhe uma ou duas palavras que faltam na língua inglesa. Vai buscá-las à língua descrita nesse capítulo.

 

Não são palavras intraduzíveis — porque palavras impossível de traduzir, quanto a mim, não existem. (Não me venham com o exemplo batido da «saudade»!) Todas estas palavras podem ser traduzidas — só que temos de usar mais palavras.

 

Mas, sim, há línguas que conseguem explicar um determinado conceito só com uma palavra e outras que gastam linhas e linhas para dizer a mesma coisa. Porquê? Boa pergunta.

 

Pois, hoje, quero mostrar-vos algumas dessas palavras, recolhidas por Gaston Dorren no livro de que vos falei.

 

Escolhi cinco palavras que nos podem ajudar a ter um 2016 melhor do que 2015.

 

Aqui ficam cinco palavras que fazem falta ao português:

 

  1. Gönnen. Uma palavra alemã que é o antónimo de «inveja». A sensação agradável que sentimos quando acontece alguma coisa de bom a outra pessoa. (Em português, talvez a melhor tradução seja «ficar feliz por».)
  2. Tafalle. Uma palavra em frísio (uma língua falada no norte da Holanda) que significa «acabar melhor do que o esperado».
  3. Talaka. Uma palavra bielorrussa que significa «trabalho voluntário em prol do bairro».
  4. Merak. Uma palavra sérvia e croata que significa «o prazer que sentimos quando realizamos actividades simples, como, por exemplo, estar com os amigos».
  5. Sitooterie. Uma palavra em scots, uma língua escocesa, que significa um sítio construído para um casal se sentar sozinho, em saborosa intimidade — por exemplo, num jardim ou ao pé da praia. Pode ainda ser uma sala com um sofá e uma boa paisagem ou um canto um pouco escondido, numa festa. Não é delicioso?

 

Ora, aqui está. Desejo-vos um 2016 cheio desse prazer das coisas simples, que acabe melhor do que o esperado e que tenha um ou outro momento em que possam estar, com a vossa cara-metade, numa bonita sitooterie.

 

 

UMA VERSÃO REVISTA DESTE ARTIGO FOI PUBLICADA NO LIVRO
DOZE SEGREDOS DA LÍNGUA PORTUGUESA.

LIVRO


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O meu irmão Diogo já me avisou que eu uso demasiado a palavra «delicioso». Quando ele me disse isso, não acreditei. Mas, depois, fiz uma procura no blogue e sairam-me três páginas de artigos onde uso a palavra. Raios.

 

Bem, hoje lembrei-me novamente da palavra «delicioso» ao ouvir uma alemã a falar português.

 

Deixem-me lá contar: hoje estive na conferência  «30 anos de Português na UE», no Museu do Oriente, organizada pelas instituições europeias.

 

Pois, a certa altura uma funcionária alemã (cujo nome não consegui registar a tempo) decidiu contar as suas aventuras na língua portuguesa, o que muito divertiu o público. Acabou por dizer várias expressões portuguesas que acha engraçadíssimas — e que nós quase nem notamos.

 

Aqui ficam cinco dessas expressões, que rabisquei furioso enquanto as ouvia (muitas passaram-me):

  1. «Pequenos nadas». Sim, à funcionária alemã esta expressão faz-lhe cócegas divertidas. Pensem bem como nem notamos que os «nadas» não podem ser nem pequenos nem grandes — são nadas. E a vida, claro, é feita desses pequenos nadas… Uma expressão ilógica? Ah, sim, mas deliciosa. No fundo, é um dos pequenos nadas de que se faz o irresistível charme da língua portuguesa.
  2.  «Barriga das pernas». Claro que a nós não parece, mas é de facto uma expressão curiosa. Imagino que um alemão, quando encontra esta expressão pela primeira vez, pense num umbigo no meio das pernas. Ou mesmo numa pequena criança a nascer na barriga da perna dum qualquer deus grego (que tinham tendência para essas maluqueiras).
  3. «Céu da boca». É tão normal, mas tão normal que não percebemos quão malandra pode ser esta expressão portuguesa: pois quem não encontrou já o céu num bom beijo? E andamos nós com esta poesia toda nos lábios sem lhe dar valor. Sim, quem fala português tem um céu dentro da boca. Uma alemã arregala os olhos, claro está. E aproveita os segredos desta língua, pois então.
  4. «Beijinhos grandes». A alemã arrancou gargalhadas de todos os que lá estavam ao perguntar se haverá coisa mais estrambólica do que beijinhos grandes… E, de facto, ou bem que os beijos são -inhos ou bem que são grandes. Mas que importa? São beijinhos, chiça. E grandes, ainda por cima. Quem não quiser que vire a cara.
  5. «Fuz». Disse-nos a alemã que se nós temos «faz», «fez», «fiz», «foz» — só temos de nos esforçar um pouco para ter um «fuz». E tem muita razão, sim senhora. Quem de entre nós se atreverá a dar um significado ao nosso «fuz»?

 

É no que dá pôr-me a ouvir a nossa língua pela mente duma alemã. Tudo se torna menos familiar, menos habitual e por fim — como acontece quando repetimos uma palavra comum muitas vezes — estranho e delicioso. Por momentos, ouvimos essa palavra como se fosse a primeira vez.

 

Será também aí que reside um dos grandes prazeres de aprender línguas: a estranheza da língua dos outros é sempre imensa — e há momentos em que até a nossa língua nos aparece como uma estranha invenção que não é de ninguém em particular, mas de todos nós — até duma alemã que a aprende em adulto — e que vamos desfiando pelos séculos, pela boca e pela escrita.

 

E, já agora, feliz Dia Europeu das Línguas!


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publicado às 22:38

Falámos dos Doze Segredos da Língua Portuguesa, de tradução, de teatro — e da Joana d’Arc reencarnada numa árvore. No fim, até a Gisele Bündchen apareceu. Foi o É a Vida Alvim.

 

Primeira parte

 

Segunda parte

 


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publicado às 14:31

Já estou de volta das férias há umas boas duas semanas — e que semanas, meu Deus! — e mesmo assim ainda tenho histórias para vos contar. É assim uma espécie de truque para parecer que ainda estou de pés na água e cabeça na areia…

 

Pois bem — esta história tem que se lhe diga.

 

Então é assim: a certa altura, lá nas férias, fomos almoçar em Santiago de la Ribera, uma pequena terreola que foi uma estância balnear que deve ter estado na moda ali por volta de Agosto de 1984. Enfim, não faz mal: foi uma espécie de viagem no tempo.

 

A praia é virada para o Mar Menor, uma lagoa de água um pouco turva por causa da areia que é de origem vulcânica (dizia um dos cartazes de aviso que por lá vi). Pois a verdade é que a água é tão quente, mas tão quente que ficamos com a sensação que o vulcão está prestes a entrar em erupção…

 

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Bem, a temperatura da água sentimo-la depois, quando fomos molhar os pés. Ao almoço, limitamo-nos a olhar para o mar, que ali estava, à nossa frente — e lá muito ao fundo, no horizonte, a chamada Manga del Mar Menor, uma pequena faixa de areia entre o Mar Menor e o Mediterrâneo que foi cilindrada sem piedade com prédios, prédios e mais prédios. No primeiro dia de férias tínhamos lá ido e fugido a sete pés… É daquelas paisagens que até são engraçadas vistas assim de muito longe. É como olhar para o mar e ver ao fundo um recorte citadino a surgir como uma miragem. Nada mal — mas à distância.

 

Pois bem, o certo é que descobrimos um barco ao pé do restaurante que fazia a ligação entre Santiago e uma zona da Manga que até tinha o seu quê: uma ponte levadiça, umas praias simpáticas — e acima de tudo uma festa com piratas no barco. Só que já estava mesmo em cima da hora, ainda não tínhamos almoçado e dissemos ao Simão que ficava para o dia seguinte.

 

Enquanto o barco se afastava, fiquei a olhar e a imaginar como seria essa singela viagem com crianças vestidas de piratas. Não demorei mais do que uns bons 10 segundos nesse sonho acordado: fiquei só a olhar, a ver o mar e, ao sol de Agosto, a imaginar-me no barco — porque não tinha mais nada em que pensar naquele momento e porque tinha acabado de dizer ao meu filho que no dia seguinte era isso mesmo que faríamos. O barco passa ao pé de ilhas, havia aviões a fazer acrobacias ali mesmo ao pé, o sol apetecia e sentia o sal na boca. Ah, as férias…

 

Pois, no dia seguinte não fomos. Ali perto havia praias menos turvas, areias mais douradas, sítios por descobrir. Ele não se importou, até porque acabámos por descobrir um barco bem maior, com piratas a sério e tudo (mas isso fica para outro dia).

 

Agora, o curioso é isto — e esta lengalenga toda serviu para chegar a esta conclusão: no fim das férias, comecei a pensar nos dias todos que ali passáramos e a memória misturou-se de forma perigosa: lembrava-me dos sítios onde realmente tinha ido — e da viagem de barco que nunca fiz! (Para não falar dos livros que li e dos filmes que vi — mas essas misturas já são bem menos estranhas e muito saborosas.)

 

Sim, é verdade. A memória é mesmo muito manhosa. Neste caso, não fez mal: eu sabia, conscientemente, que nunca tinha andado naquele barco e mesmo que de repente me convencesse que tinha mesmo viajado de barco naqueles dias não vinha mal ao mundo. Mas não deixa de ser perturbador: lembro-me de estar a afastar-me da costa com o meu filho vestido de pirata ao lado e a minha mulher a olhar para o horizonte. A sério que me lembro! Ora, mas não sou o único. Admitam lá: quantas vezes não confundimos tudo e inventamos memórias — e algumas delas bem mais consequentes que uma viagem numa tarde de Verão que nunca existiu? Se alguém me disser que nunca lhe aconteceu tal coisa é que por anda muito enganado por este mundo…

 

É outro dos temas que começa a ser recorrente neste blogue (mas nada posso fazer, estas ideias vêm até mim e eu tenho de lhes pegar pelos cornos): todas as maneiras como nos enganamos a nós próprios. Lembramo-nos do que nunca fizemos, esquecemo-nos do que nos aconteceu, imaginamos salpicos na cara que nunca sentimos. O antídoto é só um: perceber que somos muito falíveis, que nos enganamos todos os dias — e desconfiar um pouco da nossa cabeça.

 

Bem, se a memória é perigosa e a imaginação delirante, a verdade é que também é por isso que criamos livros, filmes, quadros e canções: a nossa cabeça não se limita ao que nos acontece. Vai sempre mais à frente. Aí temos a origem da arte e de tanto do que torna a vida bem mais interessante do que seria se vivêssemos apenas com o que temos à nossa frente. Mas aí temos também a origem de muitos dos enganos com que nos matamos uns aos outros…

 

Ui, que frase tão séria para um post de piratas e tardes de Verão, não é? Admito que sim. Fiquem com esta outra música, capaz de vos acordar as memórias lá bem escondidas nas catacumbas da nossa mente — e também estávamos num verão azul no Sul de Espanha:

 


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publicado às 22:23

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Este último dia de Agosto tem sempre um sabor um pouco amargo. É como as tardes de domingo: ainda não é segunda-feira, mas o peso da dita já se sente nos ombros. Pois é: ainda não é Setembro, mas as férias acabam, as praias esvaziam-se, a rotina volta. Pois hoje, para comemorar o fim do mês, deu-me para falar de felicidade. Coisa aborrecida, não?

 

Li há uns tempos no El País que a felicidade são quatro coisas: conversas, música, actividade física — e sexo. Nada contra, mas faltava o óbvio quinto elemento: livros. Enfim, a felicidade é que uma pessoa quiser — mas lá que esses cinco elementos têm a sua importância, têm sim senhor (alguns deles até se podem misturar com muito proveito: a música, então, vai bem com tudo).

 

Bem, concorde ou não com o psicólogo citado pelo El País, a verdade é que as férias sabem tão bem porque podemos fazer tudo aquilo de que gostamos sem grandes interrupções (sim, eu sei bem, quem tem filhos deixa de poder fazertudo o que quer a todo o momento — mas os filhos trazem um outro tipo de felicidade que não é chamada para este post)

 

Durante as férias, podemos aproveitar os dias à procura dessa felicidade concreta — nadar, correr, conversar, ouvir, amar. E ler, ler mesmo muito, sem intervalos. Pronto: convém comer. E dormir. Mas o tempo é imenso e as páginas dos livros passam quase sem darmos por elas, enquanto o nosso filho descobre como é bom nadar e estar ao sol.

 

Custa quando chega ao fim? Claro que sim. Mas reparem numa coisa: tudo o que disse acima não precisa de acabar no dia 31 de Agosto. Sim, teremos menos tempo. Mas a felicidade do quotidiano também implica arranjar tempo para ouvir música, beijar, correr ao fim da tarde, conversar com aqueles de quem gostamos. E ler.

 

Nesta guerra, o tempo será sempre uma espécie de inimigo — e é desesperante quando temos dias em que quase não conseguimos respirar, quanto mais ler & amar & conversar & correr. Mas desistir não vale a pena: com alguma sorte e muita arte, lá encontramos pequenas ilhas nos nossos dias para estas felicidades bem concretas.

 

É isso que vos desejo no regresso ao dia-a-dia. E, confessem lá, Setembro também tem os seus encantos. Lembro-me bem, quando era mais novo, de sentir o cheiro dos livros novos da escola e sorrir (os meus pais, a olhar para a conta, é que sorriam menos). Em Setembro, era o tempo de me reencontrar com os amigos. E continua a ser bom voltar com força e recomeçar. Pois, assim seja: um bom regresso a casa, ao trabalho e, se for o caso, às aulas — com boas conversas, uma corrida à beira-rio, algum amor, muita música e muitos livros.

 

Amanhã vou-vos contar um segredo das minhas férias: confundi a Grécia com Portugal! Amanhã, quer dizer: se tiver tempo. Bom fim de Agosto!


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A beleza do Rio

16.08.16

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Será benéfico para uma cidade e para um país organizar os Jogos Olímpicos? Não sei. Talvez não.

 

Mas parece-me estranho que, quando falamos destes jogos, tanta gente insista na pobreza do Brasil como se isso fosse impedimento para olhar com algum interesse para os jogos. Muitos partilham fotos das favelas como se tivessem descoberto hoje mesmo que elas existem...

 

Claro que é preciso lembrar aquilo que está mal no Brasil, as tremendas desigualdades e problemas sociais. Mas o curioso é que o Brasil é daqueles países que não se preocupam em esconder seja o que for. Afinal, muito do bom cinema brasileiro é sobre isso. Há canções e literatura e novelas sobre a pobreza. Os brasileiros não escondem nada, mostram tudo — e ainda fazem arte da boa sobre o assunto.

 

Ora, o que me intriga é a razão por que esta insistência aparece agora, quando não apareceu em Londres, em Pequim e em todas as outras cidades olímpicas, nenhuma delas perfeita ou sem as suas desigualdades.

 

Por que razão é o Brasil especial nisto? Por que razão tantos detestam ver alegria e beleza no Brasil como se fosse o único país com contradições e problemas? Serão especialmente gritantes nesse país? Bem, não me parece que sejam mais graves que as existentes, por exemplo, em Pequim. Mas, lá está: há países mais empenhados em esconder o que não interessa...

 

O que se passa (digo eu) é que muitos de nós estamos habituados a ver os outros países com uma ou duas palavras na cabeça. Espanha? Touros. França? Torre Eiffel. Londres? Rainha. Brasil? Favelas. Ora, isto é uma visão um pouco redutora do mundo.

 

Aproveitem para ver as cerimónias sem os simplismos do costume. Afinal, a cerimónia de abertura até foi bastante inteligente: referiu a escravatura (que outro país teve coragem para isso?), mostrou o cimento das cidades, ensinou o mundo que a história da aviação tem muito que se lhe diga, etc., etc.

 

Mas não se esqueceu do fundamental: a beleza do mundo, que o Brasil tem de sobra. Desde a dança, o parkour, a Gisele, o próprio Rio visto de cima, Elza Soares e luz, muita luz, a terminar na estranha chama feita de espelhos.

 

(O Carnaval? Também lá estava, claro. Mas como prova da maneira como vemos os outros de forma muito simplificada, ouvi alguns amigos a queixarem-se de aquilo ser «só Carnaval», quando as escolas de Samba terão estado dentro do estádio uns bons 15 minutos em 4 horas de cerimónia...)

 

Foi uma cerimónia bonita. Não chegou aos calcanhares de Londres e de Pequim? Talvez não. Mas não faz mal. O realizador da cerimónia sabe que há coisas mais importantes do que isto.

 

Sim, o mundo é um caldo de contradições: os jogos são um excesso, um custo talvez desnecessário numa cidade que o mundo já conhece. Mas estão aí e podemos tirar deles a beleza que existe e que também passa pelas ruas do Rio.


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